Durma-se com um barulho desses

setembro 8, 2009 · Posted in Cidadania, Humor · 1 Comment 

por Beto Lyra

Nos cinquenta, a gente fica mais seletivo. Mas a falta de paciência para algumas coisas faz você apreciar mais outras. Por exemplo, quem mora em cidade tem vizinho, para o bem e para o mal.

Quem não gosta de um bom vizinho, que socorre nas horas difíceis em que se precisa de um limão, um ovo ou mesmo um pouco de açúcar? Aquele que ajuda nas questões de administração do condomínio ou de uma rua, colaborando na segurança, fazendo rodízio para a escola dos filhos e assim por diante.

Só que para achar esse bom vizinho, você experimentou conviver antes com seu oposto, o mau vizinho. Quem é ele? Ah, em geral é aquele que ouve música alta, sempre de gosto diferente do seu, tem horários diversos e polêmicos em relação aos seus, estaciona o carro rente à risca da sua vaga e, via de regra, não topa participar das despesas e tarefas que a vizinhança precisa fazer junto. E sem falar das festas que, com motivo ou sem, incomodam pra cacete, não deixando ninguém em um raio de quilômetro dormir, a não ser usando a velha técnica de ligar um ventilador barulhento para encobrir o som maneiro que aumenta seu volume conforme a festa avança.

Mas, de uns tempos pra cá, parece que os maus vizinhos viraram mais tecnológicos. Usam equipamentos eletroeletrônicos sem jamais compreender que os outros pobres vizinhos não são capazes de agüentar seus ruídos além de 2 ou 3 horas de paciência. Você certamente se lembra de algum desses aparelhos. Não quero dizer que não sejam bons ou úteis na vida cotidiana, pelo contrário. São ótimos, se bem empregados com critério. E é aqui que a coisa pega: critério.

Você sabe o que é um compressor, não é? Também sabe como é ensurdecedor o funcionamento de um compressor que, entre outros, atende pelo nome de Wap e é usado para lavar pisos, paredes, carros etc. Foi provavelmente desenvolvido pelos nazistas para torturar membros das tropas aliadas durante a 2ª Grande Guerra. Hoje, torturam durante horas a fio pobres vizinhos, que ficam à mercê de impiedosos proprietários que simplesmente os jogam nas mãos de empregados, sem qualquer habilidade e orientação. Eles gastam horas e horas de água, energia e ouvidos, tentando deixar brancas as pedras que originalmente são cinzas.

E os cortadores elétricos de grama? Reparou que todo dia tem algum jardineiro fazendo serviço na vizinhança? Pois é, todos os dias podemos ouvir o mavioso zuuuum zuuuuum desses cortadores.

Celulares. Como não ouvir as conversas ao celular e acompanhar as discussões e negociações feitas por nosso vizinho com quem sabe-se lá que está no outro lado da linha. Chega a ser agoniante acompanhar só um lado da conversa, embora pelo volume da voz seja fácil de acreditar que nem seu vizinho nem o interlocutor precisem desse pequeno aparelho para ouvir o que o outro diz. Ah, mas isso foi aperfeiçoado pelos malditos rádios-telefones generalizados nas mãos dos motoboys que fazem entrega na vizinhança. Com eles, pode-se tomar conhecimento que a secretária de sei-lá-quem não quer que eles voltem sem fazer a entrega pessoalmente, ou que passem no banco para ver o saldo de suas contas.

Mas nem tudo que está na lista negra é eletrônico. Eu, por exemplo, tenho vizinhos que falam alto, mas alto mesmo, sem qualquer eletrônico. É um tal de: Fulaaaano, traz um pano pra miiim. Ou Sicraaaana, vem me ajudaaaaá. Para compensar, no dia em que meu time ganha, toco uma corneta de ar comprimido ou provoco meu cachorro pra “comemorar”.

Os itens principais da lista são, na verdade, falta de critério e bom senso. Por outro lado, sou obrigado a confessar que às vezes quando volto para casa e ouço um dos vizinhos, músico profissional, ensaiando seu cello, penso que seria maravilhoso poder ouvir isso na hora de dormir. Quem não gostaria, nesse momento, de dizer: “Durma-se com um barulho desses”.