Natal regado a vinho

dezembro 17, 2009 · Posted in Lazer · Comment 

por Pedrão

Natal é uma época meio confusa. Ou melhor, meio ambígua. Tem um lado muito chato, que é o do consumo desenfreado. Decoração de Natal já no começo de novembro, algumas vezes final de outubro, não dá. Comprar presentes na época do Natal é uma aporrinhação. Sem nenhuma desconsideração aos presenteados. Ao contrário, agüentar as lojas lotadas, shopping abarrotados, é uma demonstração de enorme afeição.

Mas o Natal tem um lado legal. Para a maior parte das pessoas, o que pega no Natal é o espírito de confraternização. É a hora de desejar o bem, pensar nos outros, ter uma mensagem de otimismo nesse mundo maluco. Pode parecer piegas, mas no Natal há um sentimento geral de paz. E isso não faz mal a ninguém.

O mais legal é que esse sentimento geral de confraternização normalmente se dá ao redor da mesa. Natal é hora de comer para valer, profissionalmente. E nada de comida leve. É no Natal que nos debruçamos sem nenhuma culpa no pernil de porco, no tender e no peru recheado. Sem contar os que avançam numa bacalhoada. Ou em outras receitas especiais, como um medalhão de vitela, lombo de porco e pernil de cordeiro. Vamos esquecer as calorias a mais, o colesterol. Depois se corre atrás do prejuízo.

Também é hora do vinho. Tudo bem, cerveja é legal, ponche precisa ter, outras bebidas, sucos, refrigerantes, mas no Natal o vinho é insubstituível. Por isso hoje é dia de vinho para a mesa do Natal.

No Natal, para iniciar os trabalhos é de lei um espumante. Quem tem possibilidade e está imbuído do espírito natalino, com vontade de por a mão no bolso, o negócio é ir de Champagne. Qualquer um desses que encontramos nas prateleiras de supermercados é excelente, Louis Roederer, Veuve Clicquot, Moët Chandon, Gosset e Taittinger, todos valem muito a pena. Infelizmente, nada abaixo dos R$180,00 a garrafa.

Mas não há motivo para desespero. Existem muitas alternativas para o bolso de nós mortais. Sobretudo entre os espumantes nacionais. Esqueçam aquela coisa de antigamente, quando se tirava sarro do champagne nacional. Hoje o Brasil produz espumantes de primeira, que rivalizam com a maioria dos importados. Sem nenhum nacionalismo exacerbado, que não tem qualquer espaço no terreno do vinho.

Temos várias marcas nacionais com produtos muito bons, que são facilmente encontrados em supermercados. Miolo, Salton, Chandon, Marson, Casa Valduga, Pizzato e muitas outras casas oferecem espumantes Brut excelentes. Tem que ser o Brut, que designa o espumante seco. Indico, meio aleatoriamente, o espumante Evidence da Salton, na casa dos R$50,00 a garrafa. Espumante cremoso, com ótima perlage (borbulhas), realmente gostoso. Costuma ter a venda no Carrefour, um ou outro Pão de Açúcar, e nesta semana estava com um preço bom, abaixo dos R$50,00, no Empório Mercantil, ali na rua dos Pinheiros, quase na esquina com a Pedroso de Moraes. Ótimo lugar para comprar vinhos.

Também cabe a sugestão do Chandon Reserva Brut, que tem em qualquer supermercado, com preço entre R$35,00 a R$40,00 a garrafa. Seco, delicado e refrescante, perfeito para esse início dos trabalhos no Natal. Ou então o top da casa, o Excellence Chandon Brut, com preço por volta dos R$70,00 a R$80,00. Como o próprio nome revela, é excelente.

Ultrapassada essa fase inicial que normalmente envolve frutas secas, amêndoas e castanhas, começam a aparecer as saladas, algumas mousses e pratos de entrada. No tradicional Natal na casa dos meus pais, é famosa a mousse de camarão. Portanto, é hora de um vinho branco.

Como normalmente o clima é quente, a pedida é um vinho branco seco, leve, mas bem aromático, em razão dos diversos sabores e aromas das entradas na mesa do Natal. Nada de muito encorpado. É bom lembrar que ainda vem muita coisa pela frente. Os feitos com a Riesling, que já comentei em outro artigo (v. Um Bom Vinho Branco), caem muito bem nessa hora.

Ou então um Sauvignon Blanc leve, refrescante, sem passagem pela madeira. Os vinhos com a Sauvignon Blanc apresentam um aroma cítrico bem característico. Evocam laranja, lima, limão, maracujá, às vezes outras frutas tropicais, como abacaxi e manga. Não é invenção de enochato não. Quem prestar um pouco de atenção, gastar um tempo cheirando o vinho, vai perceber claramente esses aromas. Evidente que não precisa ficar fazendo pose de entendido com nariz empinado, dando fungadas escandalosas. Mas sentir o aroma é uma das coisas legais na degustação do vinho.

A uva Sauvignon Blanc é originária da França e produz excelentes vinhos brancos no Vale do Loire. São os conhecidos Pouilly Fumé e Sancerre, que são fáceis de encontrar nas importadoras. Mas o preço é um pouco salgado. A sorte é que existem diversas outras opções, inclusive aqui na América do Sul.

Uma ótima escolha é o Montes Sauvignon Blanc, do produtor Viña Montes, um dos melhores produtores do Chile, o que não é pouca coisa. É a linha intermediária da casa. Está a venda na Mistral, safra 2007, por U$20,90. Volta e meia aparece em prateleiras de supermercados.

O Montes Sauvignon Blanc é um vinho refrescante, com aqueles aromas cítricos bem marcantes. Sobretudo maracujá. Na boca, aparecem novamente os sabores cítricos. É perfeito para aperitivo e entradas. Também acompanha um peixe grelhado, se for o caso.

Outro Sauvignon Blanc de destaque é o Amayna, safra 2007, também a venda na Mistral por U$32,50. É um vinho mais complexo, estruturado, mas muito gostoso. Vai com as entradas, mas acompanha pratos de peixe que de vez em quando comparecem no Natal. O produtor Viña Garcez Silva tem outro Amayna Sauvignon Blanc, que passa pela madeira e é bem mais encorpado. Ótimo, mas com preço mais elevado. É vinho para outro tipo de ocasião. Peçam o simples, que não passou pela madeira.

Ainda como boas opções, temos o Sauvignon Blanc Ciclos, do Michel Torino, a R$45,00, o Las Perdices, a R$49,00, e o da Viña Mar, a R$35,00. Todos a venda no Empório Mercantil.

Nessa hora, há grande chance de começar a aparecer o Tender. O Tender tem um sabor diferente, normalmente um pouco adocicado. Pode-se ficar no vinho branco que vai muito bem. Mas vale arriscar um vinho rosado, outro que sofre preconceito. Vamos afastar esse preconceito, pois os rosés melhoraram demais nos últimos tempos, estão até meio na moda, porque bem adequados a esse nosso calor escaldante. São vinhos com aromas leves de frutas vermelhas, como morango e framboesa.

A sugestão de rosado é o Crios, safra 2007, da produtora argentina Suzana Balbo. Cor bonita, aroma de frutas vermelhas, sabor refrescante, com corpo suficiente para acompanhar o Tender. Também a venda no Empório Mercantil, na casa dos R$38,00. Servir gelado, mas não estupidamente como uma cerveja. Quem experimentar vai gostar.

E aí vai chegando a hora do vamos ver. O pernil de porco se apresenta. Também o peru recheado. Nunca fui grande fã do peru (ave, bem dito, do outro não sou nenhum pouco fã), achava meio sem graça, até conhecer o peru recheado da minha sogra. Coisa séria, merece seminários e grupos de estudo. Com o pernil de porco e o peru recheado, exige-se a presença de um vinho tinto. As opções são muitas, mas a carne de porco pede um vinho tinto português.

Os vinhos portugueses estão cada vez melhores e têm vocação para escoltar uma boa carne de porco. Na mesa de Natal, costumam fazer bonito. Por isso, para a hora do vamos ver, o negócio é um bom vinho tinto português.

Novamente, existem muitas alternativas no mercado, inclusive nos supermercados tradicionais. A primeira sugestão é um vinho fácil de encontrar, com preço surpreendente para sua qualidade. Em qualquer supermercado se encontra. É o Quinta do Perdigão, vinho da região do Dão em Portugal. Muito bem feito, de corpo médio, não é muito pesado, com aromas e sabores de frutas vermelhas, acompanha bem os pratos do Natal. É um vinho muito gostoso, que agrada a todos, inclusive aqueles não muito habituados ao consumo de vinho. O preço por volta de R$25,00 é realmente convidativo face à qualidade do vinho. Excelente relação custo-benefício. Está sempre a venda no Pão de Açúcar, no Carrefour, e está a R$23,00, safra 2007, no Empório Mercantil. Para quem precisa segurar uma festa grande, com muitos convidados, esta é uma das melhores escolhas.

Outro vinho português excelente na mesa do Natal é o Crasto, produzido no Douro. A região do Douro pede uma visita. É uma das mais bonitas de Portugal, com produção excepcional de vinhos. É daí que vem o conhecido Vinho do Porto. Mas o Douro está cada vez melhor nos vinhos de mesa, para acompanhar a refeição. A Quinta do Crasto se destaca e o vinho Crasto, sua linha básica, é muito bom. Aromas de frutas vermelhas e pretas, sabor cativante, vai escoltar um pernil com galhardia. Na festa, servir na temperatura de 18º., o que exige um tempo na geladeira.

Eu não sei quem importa o Crasto, porém não há problema, pois ele é encontrado em todos os supermercados na faixa de R$50,00 a R$60,00. Normalmente nas safras de 2006 e 2007. É um vinho que pode envelhecer, por isso prefiro a safra mais antiga. Mas a de 2007 já está boa. Quem quiser arriscar um pouco mais na faixa dos R$100,00, o Quinta do Crasto Reserva é ótimo.

Ainda de Portugal, na mesma região do Douro, um vinho realmente delicioso é o Altano. Fácil de gostar, vinho redondo, frutado, mas com bom corpo. O da safra 2006 está a venda na Mistral por U$19,90. O Altano Reserva é ainda melhor, um dos vinhos mais gostosos que já tomei na sua faixa de preço, que é de U$49,90. Cerca de R$80,00, quem tomar, tenho certeza, vai gostar. Podem cobrar depois.

Quinta do Perdigão, Crasto ou Altano, ou até os três se a festa for para mais gente. Pronto, a questão do vinho tinto está resolvida.

Nessa altura, muitos já vão estar meio baleados e ainda falta a sobremesa. Como a sobremesa no Natal varia muito, normalmente com a presença de algumas muito doces, caso da tradicional rabanada, não cabe entrar com um vinho de sobremesa tipo Sauternes ou Tokaji. São deliciosos, mas a regra é a de que o vinho de sobremesa tem que ser mais doce do que a própria sobremesa, senão ele perde a graça, realça apenas sua acidez. Também pelo estado das pessoas, nessa altura o vinho de sobremesa, que normalmente é caro, não vai ser muito aproveitado.

Por isso, para esse momento, pode se voltar para o espumante ou então partir para um Vinho do Porto, que serve para acompanhar a sobremesa e também como um digestivo. Existem diversas opções de Vinho do Porto, desde os Vintages, os melhores, mas muito caros, até o simples Ruby, que é mais barato e pode ser bem gostoso. Aqui a recomendação vai para um Ruby de padrão mais elevado, o Granham’s Six Grapes, a venda na Mistral por U$54,90. A produtora Graham’s é uma das melhores no Porto. Não estranhar o nome inglês, pois muitos dos produtores do Porto são ingleses.

Vale lembrar que uma garrafa de Vinho do Porto serve muita gente, pois ele não é para ser bebido na mesma quantidade que um vinho de mesa. E mesmo depois de aberta, a garrafa de Vinho do Porto pode ser guardada por vários dias, sendo consumida aos poucos.

Com o Porto, vamos chegando ao final dos trabalhos. Quem achou essa comedida sugestão de vinhos no Natal um pouco exagerada, pode pegar o espumante ou o rosado e com ele atravessar toda a jornada. Mas para os verdadeiros fortes de espírito, o negócio é passar por cada fase e aproveitá-la. No final é possível que a perna bambeie um pouco, a dicção não vai estar mais perfeita. Não tem problema. É Natal. Deus perdoa.

Portanto, saúde para todos e um Feliz Natal!

Sugestão de supermercados com boas opções para a compra de Vinhos:

Empório Mercantil: rua dos Pinheiros, 1.156, telefones (11) 3813-2929 e 3815-5393 ou site (WWW.emporiomercantil.com.br). Ótimo lugar para compra – trabalha com muitas importadoras. Bom preço, ótimo atendimento. Está com promoções no Natal.

Supermercado Pão de Açúcar: unidade do Shopping Iguatemi. Tem seleção diferenciada com muito mais variedade do que nas outras unidades da rede. Promoção de Natal.

Empório Santa Maria: av. Cidade Jardim, 790, telefone (11) 3816–4344. Possui uma adega da importadora Expand, mas vale a pena a prateleira do próprio Supermercado . Trabalha com diversas importadoras. Boa variedade e preços melhores do que se imagina.

Casa Santa Luzia: al. Lorena, 1.471, telefone (11) 3897-5000. O mercado dos endinheirados. Tem vinhos caríssimos, mas também tem muitas opões com bom preço. Boa variedade, com bom atendimento.

Endereços e telefones das importadoras – ver o post Almoço no Domingo.