Candidatos: com rugas e passado, por favor!

maio 17, 2010 · Posted in Artes, Política · Comment 

por Paulo Gil

Se você é, como eu, absolutamente cético em relação à veracidade de uma foto, ganhou mais um argumento de peso. A nova versão do photoshop. Algo impressionante!

Tudo  ficou mais divertido. Podemos estar sem ter estado. Quando se quer tirar alguém ou algo de uma imagem, basta selecionar o elemento indesejável e o programa aciona seus algoritmos a olhar para um lado e para o outro a fim de ver o que existe por ali. Pronto! Ele calcula como este entorno ocuparia o lugar selecionado e  a realidade muda com uma velocidade fantástica.

Gostava mais do tempo em que dava trabalho. Mesmo o laboratório sendo digital. As alterações impunham respeito. Agora, mudamos o que ficará para a história tão rapidamente como um texto do twitter.

Pessoalmente adoro tudo isso. O que se vê “através” da fotografia não existe. Existe o que vemos, ou supomos ver naquele pedaço de papel ou monitor. Algumas imagens são resultado da ação direta da luz. Única e exclusivamente. Outras, parecem que sim mas não o são. São resultado de trucagens. Quando tudo fica claro, sem problemas.

A questão torna-se discutível quando este tipo de manipulação (entendendo aqui manipular como a atitude de se adulterar a imagem original com supressão ou acréscimo de elementos) é feita e não se diz. Principalmente  em imagens ditas jornalísticas.

Imagens jornalísticas manipuladas passam para o campo genericamente conhecido como arte. Há um trabalho belíssimo de um fotografo que registrou lugares maravilhosos em rincões do planeta de difícil acesso e, portanto, comprovação. São paisagens deslumbrantes que…. não existem.

Quando pensamos em publicidade creio ser um recurso absolutamente aceitável. Publicidade lida com o imaginário… É fantasia. Isso não quer dizer que se pode mentir. Enganar no que diz respeito aos benefícios e qualidades de um determinado produto.

Mas dá para fazer um carro virar um robô, ou  transformar os faróis de outro em olhos que se apaixonam por um determinado combustível. Alem disso, a trucagem ou o uso da imagem digital agiliza, e muito, o trabalho dos publicitários. Não ache que isto não era feito nos tempos do negativo. Era, e dava um trabalho louco!

Sinto ser redundante nesta questão da imagem criada e nem sempre apresentada como tal.  Mas, como ainda se crê – ou queremos crer – que a fotografia só pode mostrar aquilo que de fato ela viu, patinamos no limo da percepção de que muitas vezes não é bem assim. Uma sensação, em alguns casos,  de desapontamento, decepção, sei lá!

Com o início da propaganda eleitoral mecanismos de manipulação serão utilizados sem nenhum constrangimento. Todos serão bonitos. Que garantia teremos que pessoas nas fotos não serão suprimidas ou então acrescentadas ? Ruas limpas,  funcionários com seus uniformes passados e limpos digitalmente etc. e tal. Candidatos fazendo seus discursos em lugares onde não estiveram.

Se sempre se fez isso com cortes nas imagens, por que não com tanta sofisticação ao alcance da mão?

Fotografias prontas dos candidatos majoritários com fundo liso prontas a receber o aliado. Ou recém aliado. A história vai para o passado, ou para o lixo.  Tem sido assim desde sempre. Quantos escreveram e registraram em cartório que ficariam em seus cargos até o último dia e que não o fizeram? Por que não mentir na foto também?

Dos candidatos minoritários, tomara que tentativas como o “ficha limpa” melhorem um pouco tudo isso nos aliviando do show de bizarrices fotográficas que,sem dúvida, mais uma vez enfrentaremos neste ano .

E que os candidatos tenham rugas e passado.