Onda verde com o chapéu alheio

outubro 1, 2010 · Posted in Cidadania, Sustentabilidade · 16 Comments 

ou Hipocrisia, a gente vê por aqui (parte 3)

por Beto Lyra

Alguns de nós já escrevemos sobre sustentabilidade aqui neste Fio Do Bigode.

Acredito que as pessoas razoáveis se preocupam com o assunto e participam, cada uma do seu jeito, de ações que visam à preservação do Planeta. Mas, como gosto de correr o risco de parecer chato (para muitos, isso já é quase uma certeza), volta e meia me vejo na posição contrária a algumas dessas manifestações a favor do verde e do meio ambiente. São manifestações sem lógica ou às custas dos outros. São aquelas em que quem propõe fica com os louros e quem participa é o bocó.

Um exemplo do primeiro tipo, das manifestações sem lógica, é a febre de plantio de mudas e arvorezinhas em praças públicas. Ora, se cada cidadão que reside próximo a uma praça resolver plantar nela um arbusto que seja, as praças deixariam de ser agradáveis espaços livres gramados para se transformarem em bosques.

Eu moro ao lado de uma praça. Algum tempo atrás, fui à administração regional do bairro suplicar para que dessem uma poda em uma das seringueiras que um precursor dos verdes teve a brilhante ideia de plantar no local. Aliás, plantou duas e se mudou. Típicas de fazendas, dadas as dimensões que atingem, as seringueiras hoje estão crescidas, suas raízes tomaram boa parte da superfície da praça e impedem ali o caminhar, seus galhos enormes fazem sombra densa que mata a grama e os pequenos arbustos, além de bloquear a iluminação municipal, que fica dirigida apenas aos céus.

Bem, na administração regional, a encarregada do setor afirmava que não era permitido a qualquer um plantar árvores em praças públicas, a não ser com expressa autorização. E arrematou: “Se todo o mundo resolver plantar o que quer, teremos um canteiro e não uma praça”. Isso sem se falar no gosto pessoal de cada um, que pode não ser uma beleza.

Na semana passada, um senhor aposentado morador da rua próxima à minha resolveu dar sua contribuição à natureza e plantou uma arvorezinha nessa praça, distante da seringueira, mas junto a uma meia dúzia de arbustos plantados por verdes bocós (e folgados) como ele. Fico p da vida, e daí?

O segundo tipo de “militante” verde é o que promove sua boa prática às custas dos outros. Caso do Pão de Açúcar, por exemplo. Recentemente, ao passar pelo caixa do supermercado, fui incentivado a deixar as embalagens de pasta de dente, café, ovos, entre outras, para ajudar a reciclagem. Quase caí na armadilha, mas me lembrei de que as embalagens já estavam no preço que eu pagava pelos produtos. Assim, a indústria de embalagens ganhava, a indústria de pasta de dente ganhava, o Pão de Açúcar ganhava, o Fisco ganhava e … o trouxão aqui pagava pelo que não levava.

Em um momento de rabugice ou lucidez (escolham), falei pro caixa dizer ao Sr. Diniz que, se quisesse ajudar de verdade o Planeta, pressionasse as fábricas a não venderem mais nessas embalagens. Assim, as árvores não seriam cortadas, tintas não seriam gastas, energia idem e menos custos, menos impostos. Ele riu, até agora não sei se entendeu.

Meus caros, vocês se acham imunes a essa onda verde que vende papel reciclado mais caro do que o papel comum? Que faz projetos de sustentabilidade com o nosso bolso? Bem, a onda pode virar um tsunami daqui a pouco.

É outra hipocrisia que a gente vê por aqui.

Hipocrisia, a gente vê por aqui (parte 2)

março 21, 2010 · Posted in Sustentabilidade · Comment 

por Beto Lyra

Sempre achei estranho combater os efeitos e não as causas. Exemplo: campanha contra as armas. Se somos um povo pacífico e ordeiro (como dizem) e repudiamos a violência, por que não proibir o funcionamento das fábricas de armas? Na mais fina interpretação do “me engana que eu gosto”, o brasileiro entra na discussão de “armas” vs “não armas” como se, a partir de sua proibição, o país amanhecesse  mais pacífico do que nunca. Não tem jeito, o brasileiro entra na primeira onda que vem, não pensa ou questiona nada.

Do mesmo gênero, é a atual febre no Brasil de liberalismo sustentável, que tem em Marina Silva sua mais notável porta-bandeira. Leio que a Economia Verde defendida em sua pré-plataforma eleitoral, além da austeridade fiscal (quem poderia ser contra isso?), quer subsidiar iniciativas “limpas”, como energia solar e carros elétricos, e não atividades como pecuária extensiva.

Só os produtores e os distribuidores de combustíveis, são contrários a isso, não é? Mas, a economia verde vai além, quer inibir a pecuária. Não estava no texto que li, mas quer também inibir a expansão das fronteiras da soja e outras plantações que, de um lado invadem e destroem florestas, mas de outro, produzem alimentos a uma população que não para e nem parará tão cedo de crescer.

O que querem os verdes e, em particular, Marina Silva? A pré-candidata, naquele tom de voz de D. Paulo Arns, diz que estão querendo “satanizar” esse debate. Como assim? O risco com Marina Silva talvez seja o de tornar temas conflituosos em questões do “bem” contra o “mal”. Entendo, que mais uma vez mais se evita discutir e tratar a principal causa do problema, que nesse caso é o crescimento demográfico. O país, na verdade o mundo, precisa de alimentos, cada vez mais.

Quem mora em São Paulo deve se lembrar de como era viajar pelo interior do estado. Já ao sair da cidade haviam sítios e chácaras, o cinturão verde, com legumes e verduras, e granjas, produzindo ovos. Mais à frente, fazendas e mais fazendas com rebanhos, de corte e de leite, e muitas plantações de alimentos, como café, milho e feijão. Atualmente, tudo isso é cana de açúcar. O cinturão verde se quebrou e as plantações das antigas fazendas de alimentos acabaram expulsas e “empurradas” para o norte. Assim, se nas regiões sul e sudeste, não há mais espaço suficiente, e a Centro-oeste está se esticando cada vez mais para o norte, a invasão da Amazônia é uma decorrência. E isso ocorre sem limites, o que é aterrador.

Se, no caso das armas, ninguém fecha as fábricas, no caso de estouro populacional, ninguém (Governo, Igrejas, políticos, entre outros) faz nada para inibir a fabricação de filhos ou a migração rumo a São Paulo e outros grandes centros. Aumenta a população, crescem as cidades, e assim cresce a necessidade de expandir fronteiras para novas terras onde fabricar comida.

Recapitulemos, é proibido proibir armas, mas quem as possuir é punido com prisão. Nesse mesmo sentido, é proibido proibir ter filhos, mas inúmeras formas de se obter maior quantidade de alimentos são proibidas, e algumas vezes, punidas. Transgênicos, pecuária extensiva, comer carnes, tudo isso faz parte do discursinho naif dessas ONGs e comunidades que vivem de doações de empresas interessadas na defesa dessas teses. Essas entidades (ôpa, isso é coisa de terreiro) não têm qualquer independência econômica, pois são, direta ou indiretamente, financiadas por outros interesses econômicos, mas arrotam uma altivez de dar inveja.

Em resumo, por que não fazer campanhas pela educação de casais para que evitem filhos? Por que não criar políticas para “segurar” famílias no campo e em centros menores? Por que não fechar as fábricas de armas?