Um bom vinho branco

novembro 4, 2009 · Posted in Lazer · Comment 

por Pedro Sampaio

É muito comum a afirmação de que bom é o vinho tinto. Há quem diga que tem vinho branco em casa apenas para servir a alguma visita de mau gosto. Puro preconceito. Evidente que gosto não se discute, mas normalmente a preferência pelo vinho tinto decorre de hábitos, costumes e de falta de contato com bons vinhos brancos.

Como a vida não é muito longa e pelo menos, ao que eu saiba, ela é uma só,  sou a favor de experimentar aquilo a que não estamos muito habituados. Podemos ter surpresas e momentos de prazer e alegria. Por isso hoje minha sugestão é experimentar alguns bons vinhos brancos.

Existem ótimos vinhos brancos que combinam com o nosso clima, na maior parte do ano muito quente. E também combinam muito bem com comida. A regra de que carne vai bem com vinho tinto e peixes com vinho branco não é absoluta. As carnes mais leves e brancas combinam com muitos vinhos brancos. Já os peixes e frutos do mar normalmente não se acertam mesmo com vinhos tintos, pois alteram seu sabor. Pratos com peixe e frutos do mar pedem o acompanhamento de um bom branco.

O vinho branco não é necessariamente feito de uvas brancas. O que dá coloração ao vinho é a casca da uva. Uma uva tinta pode servir para a produção de vinho branco. Alguns champagnes brancos são feitos de Pinot Noir, uva tinta que também produz vinhos tintos.

No entanto, os vinhos brancos mais conhecidos são feitos de uvas brancas, como a Chardonnay e a Sauvignon Blanc. As duas têm origem francesa. A primeira produz os grandes vinhos brancos da Borgonha, considerados os melhores brancos do mundo, mas muito caros no Brasil. A segunda é muito utilizada em Bordeaux e no Vale do Loire. Existem excelentes opções com essas uvas no mercado de vinhos a preços acessíveis para os mortais, sobretudo provenientes da Argentina e do Chile. Vão ficar para uma próxima vez.

A sugestão do dia é uma uva não tão conhecida, mas que pode resultar em vinhos brancos de primeira. São os vinhos com a uva Riesling, base dos melhores brancos da Alemanha e da região francesa da Alsácia. Os vinhos com essa uva são saborosos, têm muito aroma, boa acidez e caem muito bem nos dias quentes. Servem como aperitivo e acompanham vários pratos, como peixes defumados, embutidos, salsichas e frios em geral. Os especialistas falam também na boa harmonização com a culinária asiática, pois os vinhos feitos com a Riesling, mesmo quando secos, têm sempre algum toque de doce, contrabalançado pela acidez. Pessoalmente, com comida oriental e asiática, prefiro cerveja.

Destacar a acidez do vinho pode assustar um pouco, mas o vinho branco precisa de acidez para não ficar enjoativo. Lógico que o excesso de acidez é ruim, mas isso somente ocorre em vinhos desequilibrados. A acidez no ponto certo dá vida ao vinho, sobretudo o branco.

A Alemanha tem vinhos brancos especiais feitos com a Riesling. Os vinhos da Alemanha ficaram um tempo com péssima fama por causa daqueles produtos docinhos, de garrafa azul, que andaram na moda, mas que eram horríveis. Não que o vinho doce não possa ser bom. Existem vinhos doces muito bons, inclusive com a Riesling. Aqueles vinhos da garrafa azul eram ruins não por serem doces, mas porque eram ruins mesmo. Servem para fazer ponche, como o internacionalmente famoso ponche do meu pai no Natal.

Outra dificuldade que os vinhos da Alemanha enfrentam é o nome. Exceção feita a alguns casos raros, a língua alemã é simplesmente impenetrável. Os nomes dos vinhos alemães são difíceis de decifrar. É preciso atenção. Mas vale a pena superar esse obstáculo e experimentar o vinho alemão.

Nosso mercado oferece boas opções em importadoras. Nunca as vi em prateleiras de supermercados. Os preços infelizmente sempre surpreendem de forma negativa. Não é muito fácil encontrar vinho bom feito com a Riesling por menos de R$50,00. De qualquer forma, não sei se o dólar desvalorizado é bom para economia, mas é ótimo para comprar vinhos. As sugestões que vou fazer são aquelas mais acessíveis.

Uma escolha certa são os vinhos do produtor Dr. Bürklin-Wolf, da região vinícola de Pfalz. Os vinhos Riesling de sua linha mais básica, o Villa Bürklin Weiss QbA trocken e o Dr.Bürklin Rieslin QbA trocken, ambos da safra de 2006, estão a venda na importadora Mistral, por U$37,50 e U$43,75 cada garrafa. Esse produtor tem outros vinhos com preços mais elevados, acima de R$150,00, que devem ser muito bons. Eu não conheço, pois apesar de gostar muito de vinhos, não costumo gastar tanto numa garrafa.

Outro bom produtor é Selbach-Oster. Já experimentei seu vinho Zeltinger Schlossberg Selbach-Oster Riesling QBA Trocken 2007 e gostei muito. Preço U$46,00, na importadora Vinci.

Estes são vinhos brancos secos. Os vinhos alemães secos feitos com a Riesling costumam ter um aroma muito bom, meio floral. Apesar de secos, têm um sabor frutado gostoso, que lembra pêssegos e frutas cítricas, e sempre apresentam um pequeno toque doce, bem contrabalançado pela acidez. Têm teor alcoólico baixo para vinhos, por volta de 10%.

Li que a importadora Decanter está trazendo novos vinhos da Alemanha de produtores conceituados, mas não conheço os vinhos. A Decanter tem uma enoteca, onde fazem degustações.

A Riesling também dá excelentes vinhos na Alsácia, região francesa com forte influência alemã, pois já pertenceu à Alemanha. Os vinhos da Alsácia feitos com a Riesling costumam ser um pouco mais encorpados dos que os da Alemanha, têm maior teor alcoólico e sabor frutado mais acentuado. Mas são vinhos secos, aparece menos o toque doce que encontramos nos alemães. A Mistral tem o produtor Marcel Deiss, com um Riesling de U$59,90, muito bom.

Mas aqui a sugestão vai para o produtor Albert Mann. O seu Riesling básico, chamado de  “Tradition”, safra 2007, é bem gostoso, a venda na importadora Cellar por R$55,00 telefone (11) 5531-2419. Pelo que me lembro, a tampa é inclusive de rosca, prática que vem se disseminando em razão das dificuldades na produção de rolhas e que não significa que necessariamente o vinho seja inferior. Para quem quiser arriscar, num preço mais salgado, a R$125,00, o Riesling Grand Cru “Schlossberg”, do mesmo produtor, é excelente.

Uma boa idéia para tomar esses vinhos, que não dá muito trabalho e não agride terrivelmente o bolso, é comprar no setor de congelados em supermercados algumas dessas travessas com carpáccio de salmão ou truta defumada. Segundo a receita aqui da casa, é só tirar da embalagem, temperar com azeite, pimenta do reino moída na hora, e dill ou salsinha, e servir com creme azedo, umas cebolas e raiz forte em conserva, que também se encontra fácil no supermercado, acompanhado de pão, de preferência desses com farinha integral. O creme azedo pode ser feito em casa com creme de leite e coalhada seca.

Este é um bom lanche para uma noite quente, que vai combinar com os vinhos indicados. Num grupo maior de pessoas, vale até a pena tomar um vinho da Alemanha e outro da Alsácia, para comparar. Aí está uma brincadeira gostosa de fazer.

Como o Fio.Do.Bigode está cada vez ficando mais sério nas discussões filosóficas, políticas, musicais e esportivas, vale aqui um brinde com um bom vinho da uva Riesling. Viva o debate, a diversidade, a polêmica e a democracia.

Saúde para todos e até a próxima.

Mistral: vendas pelo telefone (11) 3372–3400 ou pelo site (www.mistral.com.br); preços em dólar pela cotação do dia; em São Paulo, entrega em casa sem cobrar frete para as compras acima de 6 garrafas.

Vinci: vendas pelo telefone (11) 2797-0000 ou pelo site (www.vincivinhos.com.br); preços com dólar na cotação R$1,49; entrega em casa, sem cobrar frete.

Decanter: enoteca, na rua Joaquim Floriano, no. 838, São Paulo, telefone (11) 3073-0500.