Velho Mundo X Novo Mundo

abril 11, 2010 · Posted in Lazer · Comment 

por Pedro Sampaio

Engraçado como nessa vida tudo acaba virando discussão, debate, controvérsia. Parece que o ser humano gosta mesmo de polêmica. Vejam aqui nosso exemplo. Qualquer opinião, pronto, já vira discussão. Nada contra, pelo contrário, acho ótima uma boa disputa verbal ou escrita. Obedecendo a regras mínimas de civilidade, como não enfiar o dedo no olho ou não acertar golpe baixo, as polêmicas é que fazem as coisas andar para frente.

Até no mundo do vinho a polêmica está instalada. É a discussão sobre os vinhos no estilo do Velho Mundo ou vinhos no estilo do Novo Mundo. Velho Mundo, no caso, são os países europeus que têm tradição na produção de vinhos, como França, Itália, Portugal e Espanha. Já no Novo Mundo se enquadram tanto países da América, como EUA, Chile e Argentina, como países que na realidade foram berço da humanidade como Nova Zelândia, Austrália e África do Sul.

Muito se tem falado sobre as tendências do vinho moderno, se o gosto dos homens e mulheres nesse novo milênio é o mesmo de tempos passados. Lógico que não é uma discussão inocente e desinteressada. O vinho é um produto comercial e a competição no mercado mundial está cada vez mais acirrada. Apesar dos dados estatísticos não serem muito exatos, pois apontam para direções diversas, não precisa ser um grande conhecedor da matéria para concluir que o consumo de vinhos aumentou assustadoramente em todo o mundo. E a oferta no mercado também. A quantidade de opções para o consumidor é impressionante e compreende países que até há pouco tempo não tinham nenhuma tradição como produtores de vinhos.

A polêmica começou aí pelos anos 80 e 90, sobretudo em razão da interferência dos EUA no mercado do vinho. Como um grande mercado consumidor, os EUA sempre influenciaram os negócios no vinho. Mas na segunda metade do século passado, os EUA também começaram a aparecer como grandes produtores. Sobretudo na região da Califórnia, próxima à cidade de São Francisco. O negócio do vinho ganhou importância para os EUA, grandes empresas investiram e como tudo em que entra dinheiro grosso, os interesses econômicos passaram a determinar o tipo de vinho a ser produzido. Ao mesmo tempo, houve um enorme desenvolvimento da tecnologia, permitindo um aumento na qualidade dos vinhos mais baratos.

Nessa polêmica, teve grande relevância a participação de um crítico americano de vinhos, o Robert Parker, que edita a revista  Wine Advocate. O Parker começou a pontuar os vinhos de 0 a 100, realizando degustações com produtos de todo o mundo. Utilizou sempre um critério de gosto muito pessoal, bastante adequado ao mercado americano. O Parker gosta de vinhos encorpados, com muita fruta, dosagem alcoólica alta e com passagem marcante pela madeira, sem grande envelhecimento. As notas do Parker influenciaram nas vendas e passaram a ser uma referência importante para os produtores de vinhos.

Isso causou o que muitos afirmam ser uma Parketização dos vinhos. Uma padronização de estilos, com vinhos muito semelhantes sendo produzidos em diferentes partes do mundo. De um lado ocorreu sensível melhora na qualidade dos vinhos de consumo mais popular, mas de outro se perdeu muito da personalidade própria de cada região produtora de vinhos.

Os vinhos Parketizados, representariam os vinhos no estilo do Novo Mundo, mesmo quando produzidos na Europa. Os vinhos que resistem e tentam manter o estilo tradicional, representariam o time do Velho Mundo. Esse embate envolve muitas variantes e está muito bem retratado no filme Mondovino, documentário sobre o mundo do vinho interessante de assistir, dirigido por Jonathan Nossiter, que inclusive morou um tempo no Brasil. Não sei se ainda mora, mas no documentário, apesar de mostrar os argumentos dos dois lados, há certa tendência em favor dos vinhos do Velho Mundo. De qualquer forma, quem quiser conhecer um pouco desse assunto, vale assistir o filme.

O certo é que para nós consumidores, o importante é o resultado dessa discussão. O quanto ela significa melhoria na qualidade de vinhos com preços acessíveis. E o que esperamos exatamente de um vinho quando o compramos. Por isso, é interessante conhecer as diferenças essenciais nos dois estilos de vinhos e ir experimentando para se saber qual é aquele do nosso gosto.

Para traçar um paralelo entre os dois estilos, vou tentar apontar as diferenças básicas, evidentemente de uma forma um pouco esquemática. Começando pelas uvas. Os vinhos do Velho Mundo, apesar de considerarem importante a uva, dão mais destaque ao local de produção. Sequer há o hábito de indicar a uva no rótulo do vinho, ressalvadas algumas exceções. Na sua maior parte são misturas de mais de um tipo de uva, o que aqui no Brasil chamamos de corte. O que é relevante é o terreno, a região, a cultura local na produção do vinho, conjunto que normalmente se chama de terroir. Por isso que conhecemos esses vinhos pela sua região, como Bordeaux, Borgonha, Douro, Chianti, Barbaresco e outros.


Já os vinhos do Novo Mundo, talvez por não representarem regiões com tanta história e tradição na produção dos vinhos, dão bem mais importância à uva. Foi nesses vinhos que surgiu o hábito hoje comum de indicar a variedade da uva no rótulo. Por isso nos acostumados a comprar um Cabernet Sauvignon, um Syrah, um Chardonnay. A escolha dos melhores solos busca revelar não tanto um caráter local, uma cultura regional, mas sim a expressão possível numa determinada variedade de uva.

A segunda distinção entre os dois estilos está na graduação alcoólica. Os vinhos do Velho Mundo mantém o álcool na casa dos 12 a 13%. Há cerca de 20 ou 30 anos atrás, era raro o vinho de mesa com graduação alcoólica superior. Nos vinhos do Novo Mundo, em razão da colheita mais tardia da uva para produzir maior quantidade de açúcar, a graduação alcoólica subiu para 14 ou 15%. Hoje, nos vinhos argentinos ou chilenos que costumamos comprar por aqui, essa é uma graduação normal.

Outra característica dos vinhos do Novo Mundo, em parte também decorrente da colheita tardia das uvas, é o aroma e o sabor mais arredondados, de fruta bem madura, que os especialistas costumam chamar de compota ou sopa de frutas. Nos tintos, os taninos chegam a apresentar certa impressão de doçura. São aromas e sabores fáceis de chamar atenção, de apreciar e que alguns dizem ser uma tendência do mercado, enquanto outros afirmam ser uma imposição do gosto americano.

Nos vinhos do Velho Mundo, a aroma é mais discreto, de fruta fresca, nos tintos e brancos. Aparecem os aromas complexos e sutis, como os de animais, de ervas, balsâmicos e outros. E o sabor costuma ser mais austero, menos suave. Não significa que os vinhos sejam duros, ásperos, e sim que o sabor é menos exuberante, mas mais profundo.

No filme Mondovino, um produtor tradicional da Borgonha consegue mostrar bem a diferença. Ele diz que os vinhos mais modernos têm uma degustação mais larga, um sabor abrangente que impressiona num primeiro momento. Mas é uma degustação mais curta. Já os vinhos que seguem a linha tradicional, têm uma degustação mais estreita, mas profunda e complexa, que permanece por mais tempo, evoca lembranças e estimula os sentidos.

Essa diversidade está de certa forma relacionada a outra diferença importante nos dois estilos. Os vinhos do Novo Mundo são produzidos para serem consumidos mais jovens, sem grande envelhecimento. A justificativa é a de que o mercado não quer comprar vinhos para ficar guardando por 5, 10 ou 20 anos para serem consumidos. Por isso, mesmo com uvas como a Cabernet Sauvignon, que apresentam taninos fortes, os produtores, aproveitando as novas tecnologias, procuram desenvolver vinhos prontos para o consumo rápido, no máximo em 2 ou 3 anos.

Nos vinhos do Velho Mundo, 2 ou 3 anos é o período mínimo de envelhecimento, para aqueles vinhos que eram considerados apropriados para o consumo rápido. Guardar por 5 anos uma garrafa é absolutamente normal. E os grandes vinhos exigem um período muito maior de envelhecimento. Essa característica interfere diretamente no resultado do vinho, pois o vinho mais envelhecido perde um pouco sua fruta e ganha nos aromas e sabores mais complexos, como os aromas animais.

Essas diferenças se relacionam com outra importante distinção. O uso da madeira. Sempre foi tradição, especialmente nos vinhos de maior guarda, o envelhecimento em barril de carvalho antes de o vinho ser engarrafado. O uso do carvalho confere ao vinho complexidade, maior potencial de envelhecimento, ajuda na formação de taninos elegantes. É usado em Bordeaux, alguns vinhos da Borgonha, no Rhone, no Piemonte, na Itália e em outras regiões tradicionais da Europa. Mas usado de forma moderada, sem permitir que a madeira interfira muito no aroma e sabor do vinho. Normalmente uma parte do vinho é guardada em barril e depois misturada com vinhos sem madeira.

No entanto, esse uso da madeira foi muito acentuado nos vinhos do Novo Mundo. A guarda dos vinhos em barril de carvalho novo passou a ser a regra, reforçada muitas vezes por chips que são colocados no vinho, como se faz com chá, para acentuar ainda mais a presença da madeira. É uma característica típica dos vinhos dos EUA e da Austrália, mesmo vinhos brancos. É também um gosto pessoal do Robert Parker.

O uso acentuado da madeira nos vinhos é uma marca dos vinhos do Novo Mundo. Isso acaba dando ao vinho aromas e sabores bem característicos de baunilha e anis, que são muito perceptíveis. Especialmente a baunilha. Basta prestar um pouco de atenção ao tomar um vinho do Novo Mundo com bastante madeira para perceber o aroma e sabor da baunilha, que decorre do carvalho. Alguns produtores até aproveitam os chips de carvalho para dar ao vinho o sabor da madeira e com isso encobrir eventuais falhas do vinho.

Pessoalmente, nunca gostei muito dos vinhos muito amadeirados. Não gosto de anis, nem mesmo nessas balas azuis. E baunilha em exagero também não me agrada muito, inclusive em doces. Por isso evito vinhos com passagem muito forte pelo carvalho. Gosto quando o vinho é envelhecido em barril de carvalho na medida certa, lhe dando complexidade, como num bom vinho de Bordeaux. Mas com o exagero na madeira, a baunilha encobre os demais aromas e sabores do vinho.

Mas tudo é uma questão de gosto. Tem muita gente que adora os vinhos amadeirados no estilo Novo Mundo. No entanto, houve tamanho exagero no uso da madeira, que mesmo produtores dessas regiões estão rediscutindo o tema.

Bom, mas muita conversa sem beber não dá certo. Dessa forma, é hora de indicar alguns vinhos nos dois estilos para quem quiser fazer a comparação, poder iniciar seus trabalhos. Vou tentar apontar apenas vinhos que considero bons, nenhum excessivamente rústico do Velho Mundo e sem exagero na madeira no Novo Mundo.

Começo aproveitando meu último artigo sobre os vinhos na Borgonha, indicando no time do Velho Mundo o Côte de Beaune, do produtor Joseph Drouhin, safra 2006, a venda na Mistral, por US$84,50 a garrafa. Vinho feito com a Pinot Noir, com aquela elegância e discrição que mencionei no artigo. No time do Novo Mundo, com a mesma Pinot Noir, a sugestão vai para o chileno Amayna, do produtor Viña Garcés, safra 2006, também a venda na Mistral, por US$53,50 a garrafa. Vinho típico do Novo Mundo, concentrado, com frutado exuberante, quase dando a impressão de doce, mas equilibrado, sem exagero na madeira. A uva é a mesma, mas vai dar para perceber a diferença nos dois vinhos.

Com o corte tradicional Cabernet Sauvignon/Merlot, sugiro dois vinhos de Bordeuax para representar o time do Velho Mundo, que oferecem preços acessíveis, pois são de pequenos produtores que não estão em regiões mais renomadas. O primeiro é o Château Tour de Mirambeau, “La Reserve”, safra 2005 a US$33,90 e safra 2006 a US$39,90, a venda na Mistral. O outro é Château Grand Moueys, safra 2005 a R$60,00 (reais, não dólar), a venda na Cellar. São vinhos realmente gostosos, que mostram um pouco do caráter de Bordeaux. Já estão prontos para tomar, mas agradecem mais um ou dois anos de garrafa, pois os vinhos de Bordeaux, quando envelhecem, apresentam melhor suas sutilezas.

Para confrontá-los, na esquadra do Novo Mundo escalei o chileno Montes Cabernet Sauvigon, safras 2006 e 2007, e Montes Merlot, safra 2007, todos também na Mistral, por US$20,90 a garrafa. Vinhos com ótima relação custo x benefício, uma das melhores no mercado. Também recomendo o Felino, da produtora argentina Viña Cobos, safra 2007, a venda na Grand Cru, por R$70,00 a garrafa, preço igualmente ótimo para a qualidade do vinho. Aqui vai ser fácil perceber a diferença entre os dois estilos, em vinhos que utilizam as mesmas uvas.

A Syrah é a uva do Vale do Rhone, na França, utilizada na produção dos grandes Hermitage e Cotie Rôtie. Vinhos espetaculares, de guarda, complexos, mas muito caros. De qualquer forma, indico como um craque no time do Velho Mundo, o Cote Rôtie “Lês Jumelles”, do produtor Paul Jaboulet Aîné, safra 2005, a venda por US$139,00, na Mistral. Este precisa envelhecer ainda uns 4 ou 5 anos para mostrar suas qualidades. Aberto agora vai parecer um vinho duro, rústico.

Por isso, para permitir a degustação já, vale a pena experimentar o Croze Hermitage, “Lês Meysonniers”, safra 2005, a US$49,90, e o Saint Joseph Deschants, 2005, a US$63,25, ambos a venda na Mistral, que mostram como a Syrah, no Vale do Rhone, também produz vinhos frescos, alegres e gostosos, bons para tomar com amigos num bate-papo. São dos vinhos preferidos nos cafés de Lyon e Paris. Também são ótimos na mesa ou acompanhando queijos.

No Novo Mundo, a Syrah produz vinhos totalmente diversos. São bem representativos do estilo concentrado, com dosagem alcoólica alta e com muita fruta madura. Sobretudo na Austrália, onde a uva ganhou até o nome um pouco diferente de Shiraz. Os vinhos australianos não são o meu forte, pelo uso excessivo da madeira, mas têm uma legião de fãs. Aponto dois Shiraz australianos bem recomendados, o Killerman’s Run Shiraz, 2005, por R$91,80 a garrafa na importadora Decanter, e o Heartland 2007, a R$73,00 na Grand Cru. Também na Grand Cru, o chileno Tabali Special Reserve Syrah 2007, a R$76,00 a garrafa, é muito bom, enquanto na Argentina, o Luca Syrah 2007, da excelente produtora Laura Catena, a US$45,50 na importadora Vinci, é um típico exemplar de Syrah do Novo Mundo.

Os vinhos italianos e portugueses integram o time do Velho Mundo com galhardia. Mas não podem ser confrontados com vinhos do Novo Mundo que utilizam as mesmas uvas, pois são muito raros. No Novo Mundo, prevalecem as uvas francesas. Por isso, vou com um italiano que eu gosto muito, o Rosso de Montalcino, irmão mais simples do famoso Brunello de Montalcino. O do produtor Pieri, safra 2006, está a venda na Cellar por R$80,00. Vinho ótimo para a mesa acompanhando receitas italianas. E de Portugal, o Duas Quintas 2006, da região do Douro, por R$55,00 no Empório Mercantil.

Para enfrentá-los, por falta de uvas italianas e portuguesas, vamos com uma uva típica da Argentina, a Malbec. Sua origem é francesa, mas na França não tem grande importância. Na Argentina, virou quase uma representante de seus vinhos e do estilo do Novo Mundo, bem frutado, redondo, alcoólico, com taninos doces. O ícone dos vinhos Malbecs é sem dúvida o do produtor Nicolás Catena, o grande responsável pelo desenvolvimento dos vinhos argentinos e considerado um dos maiores produtores do mundo. Ele tem várias categorias de vinhos, mas sua linha intermediária, o Catena Malbec, é ótimo, sem muita madeira. O preço de US$25,50 é excepcional para a qualidade do vinho. A venda na Mistral, safra 2006.

Acho que já temos material suficiente para o embate. Polêmica é muito importante, ajuda no desenvolvimento das idéias. Mas também é uma ótima desculpa para beber bastante vinho. Portanto, armas em punho. Ou melhor, taças em punho e saúde para todos.

Importadora Mistral: rua Rocha, 288, telefone (11) 3372-3400 ou site (www.mistral.com.br)

Importadora Cellar: rua Juquis, 283, telefone (11) 5531-2419 ou site (www.cellar-af.com.br)

Importadora Grand Cru: site (www.grandcru.com.br)

  • rua Bela Cintra, 1.799, Jardins, telefone: (11) 3062-6388
  • al. Nhambiquara, 614, Moema, telefone (11) 3624-5819
  • av. Independência, 1.640, Jd. Sumaré, telefone (11) 3913-4396

Importadora Vinci: rua Dr. Siqueira Cardoso, 227, telefone (11) 2797-0000 ou site (www.vincivinhos.com.br)

Empório Mercantil: rua dos Pinheiros, 1.156, telefones (11) 3813-2929 e 3815-5393 ou site (www.emporiomercantil.com.br)