Vitus, na vida como ela é

setembro 9, 2009 · Posted in Cinema, Humor · Comment 

por Beto Lyra

Bem, como “spoiler” de plantão, não consigo deixar passar qualquer oportunidade de oferecer uma percepção diferente aos filmes aqui comentados. Dessa vez trata-se de Vitus, a história de um garoto prodígio, que muitos insistem em classificar como comédia dramática ou filme família perfeita. Para muitos, o entendimento é de que Vitus quer ser tratado como uma criança comum e daí se rebela constantemente como uma criancinha comum.

Ledo engano. Vitus é um garoto mimado, egoísta, que só quer fazer coisas que tem vontade, quando tem vontade. Gosta e tem talento raro para a música, mas como seus pais querem obrigá-lo a virar músico, resolve ser do contra e, para tanto, ultrapassa, como veremos, qualquer limite razoável.

Vitus é de fato um superdotado, tanto de inteligência como de saco, pois aguenta a aporrinhação de seus pais que estão loucos para que ele se torne um novo Mozart, fadado ao sucesso, e que naturalmente os pais exibiriam mundo afora (deve ser só Hemisfério Norte, na visão alemã). Sucesso também significaria uma vida massacrante para o pequeno gênio, mas dinheiro e mais dinheiro para os gananciosos pais do garoto. Tanto é verdade, que o pai diante da potencial mina de ouro, abandona seus negócios na promissora empresa em que é sócio e  transforma a vida familiar em um monte de contas a pagar. Não fosse pelo nível cultural que esses pais têm, poderiam perfeitamente ser comparados aos inúmeros pais de craques de futebol que largam tudo o que fazem, quando fazem algo, apenas para grudarem nos seus pintinhos e não precisarem fazer mais nada na vida.

Vitus é inteligente o suficiente para perceber essa armação e luta para escapar dela. Tem no avô, este sim um desinteressado por dinheiro, apesar de suas grandes dívidas, um verdadeiro pai. E é com ele que divide suas preocupações, anseios e dúvidas. O avô é louco, com escassos momentos de lucidez, mas respeita o neto, o escuta e fala frases quase sem sentido, como Peter Sellers em Being There (Muito Além do Jardim). Vitus, inteligente que é, entende as palavras do avô do jeito que quer e assim toca a vida.

Tenta aproximação de uma garota, por quem se apaixona, não sexualmente, mas por uma razão muito simples: suprir a presença e afeto feminino que lhe foram negados desde criança. Sua mãe ou estava ausente ou perseguindo-o para estudar e estudar música.

Nas ausências da mãe, Vitus tinha a companhia de uma garotinha cerca de 7 anos mais velha que ele. Brincavam como se ambos tivessem 12 anos. E é essa garota que Vitus, aos 13, reencontra e tenta fazer dela sua amiga, confidente e parceira. Mas ela não está preparada e confunde tudo, pois embora com 20 aninhos continua com uma cabecinha de 12 e é incapaz de sacar o espaço que Vitus lhe abre em sua vida.

Azar no amor, sorte no jogo. Vitus passa a especular na bolsa de valores. Consegue amealhar uma pequena fortuna para si e o avô, que quita as dívidas e enlouquece de vez, comprando um simulador de voo e logo em seguida um avião de verdade. É claro que o louco do avô vai acabar se dando mal. Um dia sai voando em direção ao sol e antes de derreter o avião sofre um acidente cujas sequelas vão levá-lo à morte.

Com o dinheiro ganho na bolsa, Vitus também socorre o pai (que está sendo escorraçado da empresa em que é sócio) e arquiteta a compra do controle acionário.

Como não tem mais nada pra fazer, Vitus volta a se dedicar à música. Ainda é um gênio e passa a dar concertos, quando quer e onde quer. Enfim, um garoto mimado, mas um gênio.

C.Q.D. (Clássica abreviatura de Conforme Queríamos Demonstrar).