Cérebros aprendendo a pensar

maio 24, 2010 · Posted in Educação · Comment 

por Lélia Lyra

Como a capacidade de inovar vem de gente, o ser humano tornou-se estratégico na economia contemporânea, assim como a educação. O bioquímico Leopoldo de Meis, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), já via com clareza esse cenário quando, ao olhar para as favelas cariocas, lamentou: “Quantos cérebros desperdiçados…”.  A observação deu origem ao programa Rede Nacional de Educação e Ciência: Novos Talentos da Rede Pública, idealizado pelo cientista em 1985 e hoje envolvendo 23 universidades públicas na tarefa de melhorar o ensino de ciências nos ciclos fundamental e médio da escola pública.

Com apoio financeiro da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) desde 2005, as universidades participantes do programa recebem professores e estudantes para cursos de curta duração no período de férias escolares. Os primeiros aprendem jeitos simples e criativos de abordar a ciência na sala de aula. Os alunos exercitam o pensamento científico em experimentos com temas do cotidiano. Alguns professores e alunos são selecionados para estágios em laboratórios, acompanhando de perto a produção científica.

Na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), por exemplo, ciência na cozinha é um dos temas trabalhados com os jovens estudantes. Um grupo chegou a construir uma pipoca artificial para investigar hipóteses sobre o estouro do milho. Ali, perguntar nunca ofende. O questionamento é poderoso, aprendem os alunos. A coordenadora do projeto, a bioquímica Leda Quercia Vieira, costuma receber bilhetinhos como este pelo e-mail: “… Queria te contar que passei na UFOP em Ciências Biológicas. Estou feliz e ansiosa para as aulas começarem. Agradeço muitíssimo por estagiar no seu laboratório. Foi a melhor oportunidade que já tive” (Anny Carolline Oliveira).

Na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), o projeto é desenvolvido na área de ciências farmacêuticas. Os alunos contam suas experiências com esse universo: “Minha avó diz que canela é bom para a saúde” ou “Minha mãe usa chá de boldo para dor de barriga”. E todos mergulham em explorações criativas. Num dos últimos cursos para professores, o tema era reprodução humana. Um ovo de galinha foi o recurso pedagógico, fácil de reproduzir em suas salas de aula.

Além dos cursos, e de acordo com a realidade de cada universidade, há produção de material didático diferenciado, peças de teatro, exposições, clube de ciências, competições e atividades itinerantes. Até 2007, 7830 alunos e 3073 professores participaram dos cursos e 346 alunos e 104 professores estagiaram em laboratórios. Em 2009, a previsão era atender mais de mil alunos e cerca de 500 professores, dados que serão atualizados na próxima reunião de avaliação do programa, no fim de maio em Recife (PE).

Para o coordenador da Rede, professor João Batista Calixto, da UFSC, “o programa está conseguindo divulgar uma maneira diferente de ensinar ciências, capaz de fazer um estudante da favela virar doutor”. Espera-se que consiga contribuir também para mudar a posição brasileira no PISA, avaliação internacional da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE). Na última com dados divulgados, de 2006, 34,1% dos competidores brasileiros ficaram na posição mínima na área de ciências e 27,8% nem a alcançaram.

(*) “Cérebros aprendendo a pensar” foi originalmente publicado no jornal Brasil Econômico de 08/05/2010.