Diplomacia malcheirosa

novembro 5, 2010 · Posted in Mundo, Política · 2 Comments 

por Pedro Scuro

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Pedro Scuro é uma dessas pessoas que você acaba de conhecer mas saca na hora que tem muitas coisas em comum. Uma delas é “horas de voo”. Tem estrada rodada e muita sensibilidade para fatos e oportunidades vividas.

Neste diplomacia malcheirosa, Pedro distila humor acerca da hipocrisia dominante na política.

Aproveitem o post.

Beto Lyra

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Na Roma antiga, como em muitas cidades brasileiras hoje em dia, os cidadãos urinavam em qualquer lugar, principalmente na rua. O problema ficou tão grave que as autoridades resolveram impor aos mijões multas pesadas, deixando absolutamente indignada a opinião pública. Afinal, dizia-se, urinar é uma função natural e, restringi-la, seria uma aberração, asneira, até pecado.

O debate esquentou e acabou tomando várias sessões do senado. Numa dessas, discursava o líder da oposição a favor do “direito de urinar” quando um senador da “base do governo” levantou-se e ostensivamente perguntou agitando bem diante do nariz do orador o punho cheio de moedas: “porventura isto cheira mal”?

Milhares de anos depois, na cidade de Praga, capital da então República Socialista da Tchecoslováquia, duas ditaduras, a do Brasil e a daquele país, resolveram assinar um acordo de cooperação econômica. Até aí, nada de mais, não fossem os dois países membros de blocos políticos antagônicos, um do Ocidente e o outro comunista. Mas, enfim, era só cooperação econômica, e, conforme foi sugerido ao senador romano, dinheiro não cheira mal.

Tudo ia às mil maravilhas quando um grupo de estudantes interrompeu a sessão solene de assinatura do acordo, protestando contra a ditadura militar brasileira, que na época violava direitos civis, políticos, econômicos, prendia, torturava e assassinava quem se atravesse a desafiar o regime.

A reação dos gorilas foi imediata. Os três brasileiros que participaram do protesto tiveram seus passaportes confiscados e suas vidas passaram a ser minuciosamente relatadas à embaixada em Praga por intermédio de informantes.

Os tchecos ficaram ainda mais indignados. Tentaram se livrar dos manifestantes, mas não conseguiram, porque, de modo corajoso dois líderes sindicais brasileiros, Roberto Morena e Lyndolpho Silva, e um dirigente do PCB, Davi Capistrano, impediram que os estudantes fossem deportados e entregues diretamente à ditadura militar.

Tudo isso testemunhado por um jornalista, correspondente em Praga, crítico do protesto contra o acordo entre as duas ditaduras. Intimo dos diplomatas, desde aquela época, quarenta anos depois escreve na imprensa sindical, pois “o mundo mudou, para melhor e para pior”, e muitos ainda têm “dificuldade de se adaptar aos novos tempos” (Mauro Santayana. “Diplomacia sem medo”, Revista do Brasil, São Paulo, nº. 48. Jun. 2010).

Não ele nem os diplomatas, que continuam tão pragmáticos como nos anos da ditadura, defendendo o direito dos regimes que sistematicamente violam direitos, não só para assinar acordos, mas também de terem “suas vozes ouvidas na discussão de questões graves referentes à guerra e à paz” (Celso Amorim, Brasil pede atenção à voz dos emergentes sobre paz e guerra. Disponível em http://www.uol.com.br, 15 jun. 2010).

A justificativa é um esdrúxulo princípio de “plena igualdade política entre as nações”, incluindo as que violam direitos. Caso do Brasil, que décadas depois do protesto de Praga, continua sendo um dos piores exemplos que existem. E do Irã, o país do mundo com a história mais extensa e contínua de tortura política, pelo menos desde os anos 50, sem interrupção.

O retrógrado regime iraniano abusa da população e massacra os opositores das formas mais bárbaras e humilhantes que se possa imaginar. Sobretudo se a pessoa é acusada de praticar moharebeh, “guerra contra Deus”, eufemismo do Código Penal iraniano para todo tipo de oposição ao governo.

Nada disso, porém, incomoda os pragmáticos, hoje em dia não somente “nossos” diplomatas, mas também “nossos” líderes estudantis e sindicais. Todos acanhalhados, vivendo de seus escritórios de representação do governo.

Mas, e daí, quem se importa, pois assim como o dinheiro, a falta de moral, de consciência acerca do que é certo ou errado, parece que não cheira mal.