Abapuru, homem que come gente

julho 17, 2010 · Posted in Artes · Comment 

por Geraldo Vidigal

Tarsila do Amaral (1886-1973), paulista de Capivari, freguesia formada em fins do século XVIII como base para as monções que subiam rumos às minas de ouro de Cuiabá, nasceu em berço de ouro na aristocracia rural paulista, recebendo refinada educação ao estilo francês.

Iniciando seus estudos no Colégio Sion, em São Paulo, completou-os na Espanha, em Barcelona, com destaque, desde logo interessando-se pelas artes.

Seu primeiro casamento foi arranjado pelo pai, como era usual então. Esse casamento foi anulado, por alegada incompatibilidade cultural com o irrelevante marido.

Estuda pintura com Pedro Alexandrino a partir de 1917. Em 1920 vai à França, frequentando a Academia Julian, estudando ainda na Academia Rénard.

De volta ao Brasil é apresentada por Annita Malfatti a Oswald de Andrade, Mario de Andrade e Menotti Del Picchia. Desses relacionamentos iria surgir o Modernismo (v.g. Manifesto da Poesia Pau-Brasil; livros como Macunaíma e Casa Grande & Senzala; Revistas como Estética, Klaxon e Antropofagia; pintores como Tarsila do Amaral e Anita Malfatti).

Em janeiro de 1923, une-se a Oswald, viajando a seguir a Portugal, Espanha e França, onde se aproxima do cubismo, em especial com Fernand Léger.

Em 1924, inicia sua fase “Pau Brasil”, retratando nossas fauna e flora, trilhos e máquinas.

Em 1926, casa-se com Oswald. No mesmo ano apresenta em Paris sua primeira exposição individual.

Em 1929, pinta o “Abaporu”. Ainda em 1929 expõe pela primeira vez no Brasil. A crise de 1929 empobrece a família de Tarsila.

Em 1930, a agora pobre moça rica torna-se Conservadora da Pinacoteca do Estado de São Paulo, função que perde com o advento de Getulio Vargas.

Em 1930, separa-se de Oswald, vende quadros particulares e viaja à União Soviética, onde vende quadro “O Pescador” para o Museu de Arte Ocidental de Moscou.

Volta à França, onde trabalha na construção civil e como pintora de paredes e portas, conseguindo dinheiro para voltar ao Brasil. Pouco após sua volta, é presa e acusada de subversão.

Em 1933, pinta o quadro “Operários”, iniciando fase social em sua pintura.

A partir de 1940, retorna a temáticas anteriores.

Seus quadros Abaporu (1928)  http://www.tarsiladoamaral.com.br/images/JPG/ABAPORU50.jpg e Antropofagia (1929) http://www.tarsiladoamaral.com.br/images/JPG/ANTROPOFAGIA50.jpg são os mais marcantes do período, nos quais corpos humanos são figuras centrais, representados com enormes coxas e seios, e minúsculas cabeças, tendo por cenário de fundo um sol com seus raios voltados para um centro aberto e com cactos erguendo-se ao céu.

Abaporu é o quadro mais importante já produzido no Brasil. Quando viu a tela, Oswald assustou-se e chamou o amigo Raul Bopp. Ficaram olhando a figura e acharam que representava algo excepcional. Tarsila lembrou-se de um dicionário tupi guarani: batizaram o quadro como Abaporu (homem que come gente).

Oswald escreve o Manifesto Antropófago, lançando o Movimento Antropofágico, cuja intenção é a de “deglutir” a cultura européia e lançar algo bem brasileiro. Este Movimento radical é o grito de independência da arte brasileira em relação à européia, da qual até então éramos caudatários e tributários. Foi a síntese do Movimento Modernista brasileiro.

O “Abaporu” foi vendido em 1995 no exterior por US$ 1.500.000,00 e adquirido pelo colecionador argentino Eduardo Costantini.

A respeito de Abaporu, conta-nos a própria Tarsila:

«Bopp foi lá no meu ateliê, na rua Barão de Piracicaba, assustou-se também. Oswald disse: “Isso é como se fosse um selvagem, uma coisa do mato” e Bopp concordou. Eu quis dar um nome selvagem também ao quadro e dei Abaporu, palavras que encontrei no dicionário de Montóia, da língua dos índios. Quer dizer antropófago.»

E, se dermos uma olhada no quadro, a despeito de sua inusitada estrutura, não deixa de ser muito sensual. Um(a) ser nu(a), de corpo superdimensionado, cabeça pequena, um sol um tanto… estranho, com seus raios voltados para dentro, fugurativamente próximo ao vaginal, e um cacto que não deixa de ser poli-fálico (com hífen e tudo, viram, “gênios” medíocres, destruidores, pouco a pouco, da lingua portuguesa! Aliás, porque é que só a língua portuguesa necessita se abastardar, aculturar, emburrecer em relação a suas origens ibero-romanísticas? Ítalo parlantes, hispano hablantes e francófonos são menos burros que os lusófonos? E… por quê novas regras gramaticais não são seguidas em Portugal?  As linguas evoluem – e o devem – ao sabor das alterações movidas pelas sociedades.  Mas o que temos não é isso: é involução determinada pelas “Academias”, não pela força viva dos povos. Tema talvez para outros posts).

Deixando as zebras, fardadas ou listradas e outros animais de rabo, pra lá, registro certas coincidências, apenas para se pensar:

A B A P O R U (presenteado por Tarsila ao marido Oswald) significa “Homem que come gente”, em Tupi-Guarani. Mas também é um anagrama:

A

R A U

B O P