Viva o leitor!

setembro 23, 2009 · Posted in Literatura · Comment 

por Beto Lyra

Tem gente dizendo ou escrevendo constantemente que está relendo determinado livro. Repare que é sempre um clássico ou obra de renomadíssimo autor. Alguns, já no dia seguinte ao que registraram em colunas de jornais ou revistas, dizem estar relendo um outro livro. E me pergunto: “Puxa, são humanos ou máquinas de leitura?”

Há tanta literatura boa e importante a ser lida, contemporânea ou clássica, que não seria preciso reler nada o resto de nossas vidas. Tenho por isso a impressão de que quem relê com tanta frequência é do tipo envergonhado. Sente-se embaraçado por estar lendo pela primeira vez o que, acredita, já deveria ter lido em outra época. Então lança mão da “releitura”.

Bem, é claro que consultas devem ser feitas para ajudar na elaboração de algum trabalho, texto, tese. Mas muitos fazem tal consulta apenas para colocar uma frase “lapidar” na sua obra. O truque, aí, é deixar claro que tal pensamento não é seu, mas que você é inteligente e transita o suficiente entre autores de respeito.

Por tudo isso, quero deixar os leitores confortáveis. Lanço hoje, neste Fio. Do. Bigode, a seção “Livros que eu deveria ter lido há mais tempo, mas não tive oportunidade”. É um espaço para quem quiser comentar, sugerir, incluir, criticar livros. Esclareço, só vale livro que está sendo lido ou foi lido nos últimos anos. Relido, não!

Jamais consegui ser devorador de livros, quanto mais de clássicos, mas li importantes livros assim que fiz amizade com a literatura, a partir dos 16, 17 anos. Mas há incontáveis obras que ainda quero ler. E sempre que o tempo permite faço questão de intercalar um livro importante com um bom e atraente “descartável” – que pode ser mais rapidamente vencido.

Fica combinado que o espaço dos “Livros que eu deveria ter lido…” servirá apenas para tratar daqueles mais importantes, que acrescentam algo após a leitura. Podem ser livros de história ou contando histórias, e valem os utilizados como texto obrigatório desses cursos de reciclagem intelectual, que tantas casas oferecem por aí.

Para mostrar que não é complicado, começo com cinco obras que li só depois de velho, infelizmente. O primeiro é Projetos para o Brasil, de José Bonifácio de Andrada e Silva, uma belíssima prova de que no início do século XIX havia gente preparada para pensar e planejar um país moderno, capaz de liderar o continente e ser parceiro das principais nações do mundo na época. Oportunidade desperdiçada.  Andrada era um ser privilegiado, formado em Filosofia, Direito, Mineralogia e Química, em Paris, e Minas, em Freiburg,  exerceu vários cargos diretivos na Europa e depois no Brasil. Quem estudou história do Brasil sabe que os projetos do Andrada não saíram das gavetas.

Outro livro que li só depois dos cinquenta foi Viagem ao Brasil, de Hans Staden, cronista alemão do século XIV, que escreveu apenas esta obra, narrando suas duas viagens ao Brasil.

No ano passado resolvi enfrentar a Comédia, de Dante. Desse verdadeiro tratado sobre a condição humana, li o Inferno e Purgatório, dei um bom tempo, e então fui ao Paraíso. Curioso é que só depois de séculos a obra passou a ser chamada de “Divina Comédia”. Talvez por conta de algum “releitor”, que quem sabe a leu na diagonal na primeira vez e precisou reler para entender o que Dante quis dizer .

Mais um tempo e encontrei A Utopia, de Sir Thomas More, conselheiro do Rei Henrique VIII, da Inglaterra. Já citei esse livro em o Penico do Sarney, para enfatizar que na ilha ideal criada por More, leis e códigos eram feitos de forma simples e inteligível por todos, para que todos soubessem claramente o que era permitido ou não fazer, direitos e obrigações etc. Ora, se todos entendiam as leis e códigos, era simples cumpri-los e, em caso de infração, o próprio envolvido era capaz de se defender ou buscar seus direitos. Simples, não?

Atualmente leio Tratado sobre a Tolerância, de Voltaire, já que estou envolvido em um imenso projeto sobre tolerância, que deve ficar pronto em 2011. E vejo na fila de espera, altivo e imponente, Pantagruel, de Rabelais. Ouvi e usei muito a expressão apetite pantagruélico, mas sempre com um sentimento de uso indevido já que o conhecimento ainda não me pertencia.

Convido pois os leitores, com fios ou sem fios de bigode, a colaborar para o “Livros que eu deveria ter lido há mais tempo, mas não tive oportunidade”, com a intenção de ajudar aos demais a descobrir títulos perdidos no tempo e de provar que não se envergonham de ler só agora o que devia ter sido lido em priscas eras.

A foto dos livros, que transmite a sensação de sedimentação de conhecimento, é da competente Lin Pernille.