Haiti: um novo mico-leão dourado?

janeiro 20, 2010 · Posted in Mundo · Comment 

por Beto Lyra

Há tempos não via uma cobertura jornalística tão horrorosa quanto a que agora é feita no Haiti. É um festival de mesmices, obviedades e erros nas reportagens e coberturas feitas por correspondentes da imprensa brasileira.

Quem está acompanhando (e tem jeito de não acompanhar?) pode ver informações velhas, repetidas à exaustão, seguidas de comentários que fariam um universitário do Sílvio Santos corar de vergonha pelo vomitório de coisas óbvias agregadas às imagens das desgraças por que passa a população do Haiti após o terremoto. Como não há qualquer evento importante no cenário internacional por esta época do ano, nossa imprensa se debruçou sobre este festival de desgraças, e haja Ibope pra medir isso tudo.

Abro os jornais da manhã e leio “Haitianos procuram sobreviventes”, “O desespero toma conta das ruas de Porto Príncipe”, “Povo luta por comida” e outras manchetes bitoladas. Ah, por favor, chega! Vejo televisão e as conversas ao vivo com pessoas que estão no Haiti apresentam também suas pérolas de babaquice: “Fulano, como é que está a situação aí depois desse terremoto?”, “Beltrano, e como está a questão da segurança?”, “Cicrano, o que você está sentindo ao andar nas ruas de Porto Príncipe, com tanta destruição, mortos não enterrados, falta de alimentos, saques?” Meu Deus do céu! O próprio entrevistador já respondeu a pergunta, o que falta dizer?

Recorro a Gabriel Garcia Marques para dizer que se trata de uma crônica de uma morte anunciada, ou alguém tem dúvida de que o Haiti, tal como outros países da região e também da África, com a estrutura, pobreza e o abandono que tem, poderia ter outro destino?

Pois é, povo miserável, com violência exacerbada, luta de gangues, sem comida, sem produção, sem educação, sem nada, o que pode querer ou esperar? NADA! E o que foi dado ao Haiti pelos países que podem ajudar e não fazem? Uma força de paz da ONU, da qual orgulhosamente o Brasil é coordenador. Essa força da ONU está lá há 6 anos e conseguiu fazer muito na questão de violência, é verdade, mas pouco para ajudar a população e o país. Reduziu as lutas internas, mas não mexeu uma palha no sentido de acabar com as razões da violência, que são a fome, miséria, corrupção, desalento, entre outras. O brasileiro fica contente em ser benquisto pelo mundo todo, pelo haitiano neste caso em particular, e o máximo que consegue fazer é tornar-se amigo das comunidades locais, realizar jogo de futebol e outras levezas adicionais.

O embaixador brasileiro no Haiti, Igor Kipman defende que o “Brasil mande menos combatentes e mais uma companhia de saúde, mais pessoal de educação” (Agência Brasil). Posteriormente acrescentou que “não precisamos de combatentes para ensinar criança a escovar os dentes. Temos 900 combatentes fazendo ações cívico-sociais, como distribuição de alimentos e construção de latrinas.” (O Estado de S. Paulo).

Relatório elaborado pelo chefe da Minustah (Missão de estabilização da ONU para o Haiti), Hedi Annabi, cita que a produção nacional de alimentos e a ajuda humanitária que recebe não cobrem a metade das necessidades da população. E acrescenta que “o Haiti importa 52% do restante de seus alimentos (o que inclui mais de 80% do seu arroz) e todo o seu combustível”. Portanto, sem atacar a questão da estrutura econômica do país qualquer ação humanitária terá o efeito “enxuga-gelo”. Ou tão a gosto dos brasileiros: “me engana que eu gosto”.

Vamos falar sério. Se os Estados Unidos, a ONU e mesmo o Brasil querem ajudar realmente, deveriam organizar uma verdadeira task force internacional para “levantar” de vez o país, ou isso não é prioridade para ninguém? Uma task force que tenha coordenadores experientes com um plano de recuperação econômica real e adequado para o Haiti, quem sabe um Plano Marshall caribenho, levando recursos, máquinas, know how produtivo, e ensinamentos de espírito empresarial e empreendedorismo.

Em conversa com amigos defendi essa idéia e ouvi que não adiantaria nada disso no Haiti, pois diferentemente do Japão pós 1945, aonde houve intenso aporte de capital, e da Europa, aonde o Plano Marshall foi aplicado em sua reconstrução depois da II Guerra Mundial, o haitiano não tem a formação educacional nem a personalidade desses povos, nem o país tem histórico econômico forte como tinham tais nações.

Não concordo com essa argumentação! Acredito mesmo que se o mundo quiser consertar de verdade o Haiti, (e futuramente, seus equivalentes africanos e caribenhos), vai ter que pisar na lama e “construir” um país que os haitianos não conseguiram fazer sózinhos até agora.

Jogar alimentos do avião, montar hospitais de campanha, despachar projetos como os de Zilda Arns não vão resolver mais. Irá apenas aliviar as consciências de quem no restante do ano vai apoiar movimentos do tipo “Salvem o mico-leão dourado”.

Resumo da ópera: que venha um Plano de Recuperação Realista para o Haiti.

O Haiti é aqui (ou não é?)

E pobres são como podres e todos sabem como se tratam os pretos
E quando você for dar uma volta no Caribe
E quando for trepar sem camisinha
E apresentar sua participação inteligente no bloqueio a Cuba
Pense no Haiti, reze pelo Haiti
O Haiti é aqui
O Haiti não é aqui

(Gilberto Gil e Caetano Veloso)