Ditadura baiana

setembro 16, 2009 · Posted in Artes, Cinema, Música · Comment 

por Beto Lyra

O sono corria bem até que fui assolado por imagens de um amigo passando em casa e dizendo “vamos logo, estamos atrasados para o show da Ivete (Sangalo). A reação foi imediata, calafrios seguidos de calores e um leve enjôo. Acordei com a boca seca e agradecendo por não ser realidade o convite. Ou teria eu comprado um ingresso para assistir Ivete Sangalo? Na dúvida, abri um livro para não adormecer novamente e evitar uma eventual continuação da tortura. Consegui. Logo clareou e eu pude enfim contar meu pesadelo para que não se repetisse.

Mas é prudente exorcizar esses demônios. E aqui vai. Tenho verdadeiro medo, paúra mesmo, quando escuto ou vejo qualquer programa moderno em que artistas baianos são impostos aos ouvintes/expectadores. A Bahia já deu, como bem disse Gilberto Gil, régua e compasso a muitos de seus filhos. Talentosos sem dúvida, eles ganharam o mundo, ao menos o Brasil. No campo da música, foram levas de cantores e compositores maravilhosos. Entre eles, eu respeito os inícios de carreiras do próprio Gil, Caetano Veloso, Maria Bethânia, Gal Gosta, Tom Zé, Dorival Caymmi, Novos Baianos e paro por aqui. Digo início de carreira porque ao longo de tantos anos os talentos se esgotaram, infelizmente, e sobrou apenas muita fama — na última década e meia, uma catástrofe consubstanciada na repetição idiota de que eles são maravilhosos, seus discos excelentes e ai de quem disser que não gosta deles e de sua baianidade. Somos (é, eu me incluo nesse grupo) ridicularizados, afinal eles são deuses. Poucos anos atrás, a mulher de um amigo fez cara de inteligente e declarou o seguinte durante uma festa: “Sábado fui ver o show do Caetano. Ah, é tão bom ouvir Caetano.”

Me afastei desse grupo de risco. Pode ter sido bom ouvir Caetano e outros baianos.  Hoje são pura enganação imposta pela indústria fonográfica e pelos turistas bocós que vão pra Bahia e voltam com fitinha no braço e sotaque local depois de uma semana por lá. Trata-se mesmo de uma ditadura, que como tal é imposta por uma minoria, barulhenta é verdade, mas minoria. Muitos desses artistas endeusam sua Bahia e baianidade, mas moram no Rio e trabalham em São Paulo.

O pior é que temos que engolir tudo o que vem da Bahia, estilos(?) como axé e pagode baiano, e gente como Daniela Mercury, os filhos do Caymmi, Babado Novo, É o Tchan, Raul Seixas (convenhamos, Rock das aranhas só é engraçado quando se tem 17 anos), com as letras do mago da auto-ajuda Paulo Coelho, e Carlinhos Brown. Porém, pior mesmo, é o que nem é de lá mas diz que é, como Claudia Leitte e Preta Gil.

Deixei de lado, de propósito, João Gilberto, considerado gênio da música brasileira. Concordo que ele seja gênio, mas aí pergunto: que tipo de gênio? Ora, esse compositor/cantor(?) tratou a todos como imbecis e fez dinheiro interpretando “o pato, vinha cantando alegremente, quém, quém”, com vozinha de criança, e dando esporro ao vivo nos produtores de seus shows por causa do som, do ar-condicionado, do serviço de garçon etc.

Os poucos que se arriscaram a falar contra essa ditadura baiana, como Lobão fez ao dizer que era ridícula a interpretação de Caetano quando tremia o queixo ao cantar “cucurucucúuuuuu, Palomaaaaa…, foram criticados e/ou perseguidos.

Em outras áreas das artes, como o cinema, a ditadura baiana impôs Glauber Rocha, que fez uma dezena de filmes, que todos na época fingiam compreender, para poder dizer: Ah, é tão bom ver Glauber.

Na literatura, o expoente sem dúvida foi Jorge Amado, com obra riquíssima e instigadora, reveladora dos costumes e problemas da Bahia. Genial! Ganhou merecido lugar entre os imortais da Academia Brasileira de Letras. Quando morreu, porém, a ditadura baiana impôs para sucedê-lo a viúva Zélia Gattai, uma mulher sensível, companheira e que escreveu uns três livros de memórias. E ai de quem criticasse ou ousasse querer disputar com ela a cadeira de Jorge.

Por último, deixei para falar um pouco mais dos outrora grandes artistas que, mesmo ricos, não se cansam de mamar nas fontes de recursos do Estado. Cansados mesmo eles ficaram de ouvir críticas, cantar por amor ao ofício, de ganhar menos daqueles que só podem pagar menos para vê-los. Nos últimos meses, Caetano e Gil, separadamente, foram buscar recursos limitados da Lei Rouanet, que se não fossem canalizados para shows de ambos poderiam irrigar muitos projetos de gente iniciante, que não tem como concorrer com esses monstros sagrados na busca de patrocínios junto a empresas. Ora, se querem ser populares, que reduzam de vez em quando os preços dos ingressos de seus shows.

Finalmente, para consolo, há quem defenda a tese de que os artistas baianos são em menor número do que se pode precipitadamente acreditar. Explico: segundo essa tese, Caetano e Bethânia são a mesma pessoa. Pois é, depois que tomei conhecimento disso, esperançoso passei a notar a exagerada semelhança entre eles e jamais, acreditem, vi os dois juntos em um mesmo local.

Em tempo: em defesa da classe musical baiana, devo esclarecer que Jorge Mautner, que se mete a tocar violino e é um horror, embora pareça filhote da ditadura baiana, não é baiano, mas carioca.