Projetos futuros

março 16, 2010 · Posted in Artes · Comment 

por Paulo Gil

Outro dia vi a foto de uma amiga do tempo da escola. Tinha os cabelos brancos. Fiquei assustado. Lembrei-me de mim com cabelos; e dos dela: eram castanhos.

É difícil, às vezes, ver o amigo de infância com cabelos brancos.

Foi destes momentos em que “a ficha cai” em que a noção do tempo bate à porta.

Quando vemos alguém que nos conheceu quando éramos outro, por um momento respiramos novamente aqueles ares. Depois, graças ao que seja, voltamos para onde estamos. Prontos para a foto de agora.

A fotografia realmente pode ser um espelho com memória. A gente se reconhece não apenas na foto em que estamos “presentes” mas naquelas em que não estamos porém de alguma maneira por ali estávamos. Conhecíamos as personagens, respiramos os ares daqueles momentos.

Ler uma foto depende do lugar da história em que estamos. Adoro isso. Olho para mim na foto e tenho aquela impressão de ter sido outro. Ainda bem!

Por vezes envelhecer me deixa meio acabrunhado no entanto descubro, pouco a pouco, que este saber – tornar-se maior, como dizem os espanhóis – é a grande arte.  O que nos dá a perspectiva de futuro.

Ao contrário de um álbum de fotografias:  história acumulada. Adoro fotografar, mas, no que diz respeito às fotos pessoais,  não tenho um álbum, tenho caixas cheias de imagens a serem re-descobertas.

Isso tudo me trouxe um pequeno caso: meu tio foi almoçar outro dia em casa de minha mãe. À saída do prédio, encontrou um velho amigo que lhe disse: “Olá! Como vai?  Precisamos nos encontrar para lembrar o passado!” Ao que meu tio respondeu: “Lembrar o passado não! Pensar nos projetos que temos para o futuro!”

É isso. Quais as fotos a serem feitas?

Qual futuro pretendo seja um dia parte de minha memória?

Bom ter mestres da vida, como meu tio, assim, ao alcance da mão. Mantém viva aquela deliciosa “angustia” das infinitas possibilidades que existem quando estamos diante de  um papel em branco ou  olhando através do visor de uma câmera.

Antropofagia e fotografia

janeiro 15, 2010 · Posted in Artes · Comment 

por Paulo Gil

Dizem que o antropófago comia seus adversários para absorver sua essência, coragem, alma. A energia que lhe faria vir a ser melhor.

E ai, um dia, ocorreu-me a pergunta se não teria a mesma intenção, porém menos trágica, a quantidade de fotos que fazemos uns dos outros e que guardamos feito troféus nas estantes, paredes, álbuns etc.

Ter a foto do filho em suas etapas de crescimento, daqueles que já partiram, as nossas mesmas – aquele que carregamos mas sabemos ser outro.

Avós, filhos amigos, o cachorro, a viagem: as provas de termos sido, estado… almas que nos pertencem e que nos trazem o que foi ou o que supomos ter sido.

Não seria isso um ato de antropofagia? Precisamos nos alimentar de memórias, precisamos da “presença” do outro para nos nutrir. E é impressionante como se fotografa nos dias de hoje. Não basta estar ali, o que move é recordar que ali esteve. Viagens, bares, festas etc.

E como fica no caso das imagens das quais somos apenas espectadores?

Marcou-me o dia – fiquei com uma inveja gostosa – em que encontrei um grupo de poetas, entre os quais meu primo Ruy Proença, numa exposição de fotografias de São Paulo no Instituto Moreira Salles. Eram fotos de uma época em que talvez encontrássemos nossos pais nos seus primeiros anos de calça comprida.

Aqueles poetas buscavam naqueles anônimos histórias para suas escritas. Queriam alimentar suas almas. Com tacapes azuis ou pretos e caldeirões pautados.

Barthes chamava por punctum aquele dado, às vezes pequeno, da foto que nos fisga e nos deixa caminhar por ela. O interessante é o fato de que são infinitos os anzóis em uma foto, pois eles não estão nela mesma e sim naquele que a vê.

A maneira como caminhamos pela vida determina isso. E é este o motivo dos muitos anzóis: cada um come o que gostar mais… e haverá aquele que passará reto.

Comento isso porque adoro pegar fotos que encontro na rua. Histórias que são abandonadas porque seus suportes foram tomados por fungos, riscos, luz em excesso etc. Ou, simplesmente, porque alguém quis esvaziar suas gavetas.

Um dia encontrei um cromo na rua. Esse que aparece aqui. Uma família, suponho, mãe, filhas e filho? Alguma amiga junto? O que me fez perder, ou ganhar, muito tempo com esta imagem foi o momento e por quem  ela foi feita. Achei ser, provavelmente, em um fim de semana, clicada pelo pai que chegou da cidade e foi à praia, ainda vestindo seu traje de trabalho, a fim de ver a todos e pisar na areia. Em sua alegria, deixou que saísse na foto um de seus sapatos. Provavelmente calçaria ainda o outro. Para mim este é o centro da imagem. A foto é de quem não está nela. Devo reconhecer minha profunda curiosidade em saber qual rosto este provável pai teria. De qualquer maneira, senti-me saciado.

Lamento apenas não ser poeta.