Noronha: paraíso nada perdido

dezembro 13, 2009 · Posted in Lazer, Turismo · Comment 

por Beto Lyra

Fernando de Noronha! Lugar dos meus sonhos. Sempre quis ir para lá.

Enfim, surge uma oportunidade na agenda da família, e pronto, lá vamos nós. Viagem matinal com a Gol de São Paulo até Recife, tempo em que pudemos desfrutar de um novo conceito de marketing da companhia, anunciado orgulhosamente pelo Comandante. Qual é o conceito novo? Simples, não há refeição ou lanche, apenas amendoim e dois tipos de refrigerantes, que nunca ouvi (e provavelmente não mais ouvirei) na vida.

Uma breve parada em Recife e embarque no início da tarde para Noronha. Na aproximação da ilha, o avião dá um giro completo o que permite excelente noção do arquipélago todo. Após a descida, um pouco de burocracia local: como o acesso à ilha é extremamente controlado, todos têm de passar por uma espécie de Imigração, onde é paga a taxa de permanência em Noronha.

No solo as primeiras impressões são de que há organização perfeita: ônibus para levar às pousadas, briefing e venda de passeios pelos agentes turísticos e informações claras e precisas sobre o que fazer à noite.

Por sorte pegamos uma pousada bem localizada, quase no meio da ilha, próxima de restaurantes e do centro histórico, a Vila dos Remédios, onde há mais bares, restaurantes e até balada. Na primeira noite, restou jantar como programa. Recebemos a dica do Tom Marrom. Não bastasse o restaurante estar na ilha, parte de um paraíso, deu um jeito de demonstrar toda a sua integração com a natureza, envolvendo a construção em muitos galhos, raízes etc. O resultado ficou meio postiço, engraçado, mas no que interessava a casa foi bem: comemos peixe na folha de bananeira e um belo atum feito na grelha bem pilotada pelo próprio dono, acompanhados de boa música brasileira.

Dia seguinte bem cedo passaram na pousada (pontualmente) para nos pegar para um passeio, criativamente chamado de … Ilhatur. Nunca soube, mas há uma estrada federal por lá, a tal de BR 363. Seus extensos 7 km foram percorridos à exaustão em idas e vindas pelo nosso tour, que insistia em visitar um ponto turístico na parte sul e percorrer novamente a BR para nos levar a uma trilha na parte norte. Sem brincadeira, isso foi o que aconteceu.

Mas novamente, no que interessava, estivemos em lugares estupendos. Alguns demandaram bom esforço físico, como a descida para a praia da Baia do Sancho, que começou com uma escadinha com 15 degraus, que exigia entortar o corpo para a esquerda de modo a conseguir passar com pé de pato, snorquel, máscara e câmera fotográfica. Vencida essa primeira etapa, anda-se por um estreito patamar entre rochedos para então ter de virar o corpo no ar para encaixar na 2ª escadinha, esta do tipo marinheiro. Ainda não chegamos a lugar nenhum, pois falta vencer vários degraus de pedra, semidestruídos e com bons trechos sem apoio. “Ufa!, ainda bem que valeu a pena”, é a primeira impressão depois que nos equipamos para ver corais, peixes, tartarugas etc. Bate perna pra cá, bate pra lá, tudo maravilhoso. Peixes de todos os tamanhos e êpa … acho que é um tubarão, pequeno, mas tubarão. Olho para os demais, todos calmos, e assim trato de ter certeza de que há um bom par de nadadores entre mim e o tubarão. Volto a contemplar a natureza.

De volta à praia, me desvencilhando dos penduricalhos náuticos, encontro-me naquela situação de causar inveja: areia e sal no corpo e mais um retoque de protetor solar… argh!  É preciso encarar. Protetor solar é item de primeira necessidade na ilha se você não quiser ficar parecido com um turista nórdico após tomar um sol das cinco.

Mais idas e vindas pela BR, praias e vistas imbatíveis e, para finalizar, o por do sol no Forte do Boldró. Todos os que estão na ilha se reúnem ali para terminar o dia – o sol se pondo no mar, emoldurado por duas ilhas menores (Dois Irmãos). No local, um barzinho serve cerveja, pastéis e outros petiscos, tudo embalado por um sonzinho maneiro de um músico local. O sol se põe, ninguém quer ir embora.

Na sequência, jantar no Flamboyants, mais peixe na folha de bananeira e cama. Menos para o Fabio, meu filho, que vai para a balada na vila e chega quase com os guias do passeio da manhã seguinte.

Rumamos para o Porto, pegamos um barcão para rodear a ilha e, de cara, a sorte de encontrar uma farra de golfinhos. As praias foram se sucedendo: Biboca, Cachorro, do Meio, Conceição, Boldró … e Baia do Sancho, novamente. Parada do barco e mergulho, agora sem o sufoco das descidas e escaladas. Vamos até o fim de Noronha, na Ponta da Sapata, onde se busca em seu portal um ponto perfeito para a visualização do mapa da América do Sul e da África. Damos meia-volta e na hora do almoço estamos no Porto.

Caminhamos uns 500 metros até o Museu dos Tubarões, na praia Buraco da Raquel, uma enorme fenda na pedra em frente à praia, sobre a qual todos os guias acham en-gras-sa-dís-si-mo contar histórias. Não se pode entrar no mar, muito agitado, mas a beleza do lugar e o serviço do restaurante do Museu garantem o programa.

Próxima parada na praia de Sto. Antonio, antes de repetir o por do sol no Forte do Boldró. Pegamos taxi, a melhor maneira de se locomover por Noronha de forma independente, pois é razoavelmente barato e…ufa…tem ar condicionado. À noite, passeamos a pé por Vila Velha e quando bateu a fome atracamos na Pizzaria Feitiço da Vila. Traço comum na ilha e muito agradável é a música ao vivo nos bares e restaurantes, embora o repertório mescle ótimas canções de Gil, Tim Maia, Jorge Ben e Lulu Santos, com as grudentas de Djavan e Seu Jorge.

Na manhã seguinte, a jóia da coroa em Noronha: mergulho autônomo (com cilindro de ar comprimido). Roupa e equipamento são fornecidos pela operadora, tudo em ótimo estado, 1º mundo. Instruções assimiladas, mergulhamos. É indescritível a sensação. A proximidade com peixes, tartarugas que parecem querer mostrar o caminho a você, além dos corais, dá uma visão completamente diferente do mundo. Dá vontade de ir a Copenhague pressionar esses governantes a tratarem seriamente a questão ambiental.

E aqui faço um parênteses. Em Noronha, todo o discurso de preservação ambiental não resiste a poucos dias de permanência por lá. A energia na ilha é resultado da queima de óleo em estação explorada por companhia energética estatal. Há um único aparelho de geração de energia eólica, que não funciona há 2 anos, quando um raio cortou uma das aletas de sua captação do vento (será que desconhecem para-raios?). Esse único equipamento supria cerca de 40% da demanda de energia da ilha. Ou seja, com três simples aparelhos desses, Noronha seria autossuficiente em energia elétrica, não poluidora. Dá para acreditar que não seja assim? Bem, e a frota de veículos? Como há muitos locais de difícil acesso, jipes e utilitários 4×4 são muito empregados por lá. Todos movidos a diesel, esse diesel brasileiro que polui mais do que qualquer outro do mundo.

Mas voltemos ao paraíso, após o mergulho, em uma praia muito conhecida, mas que ninguém indica a turistas: Conceição. Como na música de Cauby, “ninguém sabe, ninguém viu”. Alguém ainda lembra do nosso litoral norte paulista nos anos 60/70? Então, Conceição é assim. Linda, quase deserta, embora tenha um bar-restaurante com cerveja geladíssima e peixes bem preparados. Depois, o tradicional por do sol nos espera.

O jantar dessa noite foi para comemorar meu aniversário e o convite para um restaurante especializado em lagostas veio de meu filho Otavio. Chegamos cedo ao Ecologiku’s, longe de qualquer burburinho, escondido em ruas esburacadas atrás do aeroporto. Pedimos o último exemplar de lagosta e uma muqueca também de lagosta e nos divertimos com os criativos aperitivos que a dona, uma baiana convertida à ilha há décadas, nos apresenta contando seus segredos. Pouco depois de nós, chega um casal que dá boa noite e diz “viemos comer lagosta”. Viram? Chegar cedo ajuda.



Na manhã seguinte, um rápido passeio para tirar fotos que julgamos faltar em nossa câmera e nos aprontamos para o traslado ao aeroporto.

Maravilhosa Noronha.