Projetos futuros

março 16, 2010 · Posted in Artes · Comment 

por Paulo Gil

Outro dia vi a foto de uma amiga do tempo da escola. Tinha os cabelos brancos. Fiquei assustado. Lembrei-me de mim com cabelos; e dos dela: eram castanhos.

É difícil, às vezes, ver o amigo de infância com cabelos brancos.

Foi destes momentos em que “a ficha cai” em que a noção do tempo bate à porta.

Quando vemos alguém que nos conheceu quando éramos outro, por um momento respiramos novamente aqueles ares. Depois, graças ao que seja, voltamos para onde estamos. Prontos para a foto de agora.

A fotografia realmente pode ser um espelho com memória. A gente se reconhece não apenas na foto em que estamos “presentes” mas naquelas em que não estamos porém de alguma maneira por ali estávamos. Conhecíamos as personagens, respiramos os ares daqueles momentos.

Ler uma foto depende do lugar da história em que estamos. Adoro isso. Olho para mim na foto e tenho aquela impressão de ter sido outro. Ainda bem!

Por vezes envelhecer me deixa meio acabrunhado no entanto descubro, pouco a pouco, que este saber – tornar-se maior, como dizem os espanhóis – é a grande arte.  O que nos dá a perspectiva de futuro.

Ao contrário de um álbum de fotografias:  história acumulada. Adoro fotografar, mas, no que diz respeito às fotos pessoais,  não tenho um álbum, tenho caixas cheias de imagens a serem re-descobertas.

Isso tudo me trouxe um pequeno caso: meu tio foi almoçar outro dia em casa de minha mãe. À saída do prédio, encontrou um velho amigo que lhe disse: “Olá! Como vai?  Precisamos nos encontrar para lembrar o passado!” Ao que meu tio respondeu: “Lembrar o passado não! Pensar nos projetos que temos para o futuro!”

É isso. Quais as fotos a serem feitas?

Qual futuro pretendo seja um dia parte de minha memória?

Bom ter mestres da vida, como meu tio, assim, ao alcance da mão. Mantém viva aquela deliciosa “angustia” das infinitas possibilidades que existem quando estamos diante de  um papel em branco ou  olhando através do visor de uma câmera.

Tirou do baú?

setembro 19, 2009 · Posted in Humor · Comment 

por Caio Ferreira

Com vocês, Caio, o novo blogueiro deste espaço, dono de fino humor e de sacadas rápidas e inteligentes como eram as do Guga no tênis. Desafiador e agradável na arte de esgrimir com palavras, com ele o Bigode ganha mais Fio.

Dá-lhe Caio


Há pessoas que são realmente especiais. Algumas por seus atos de bravura, outras por sua inteligência, por alguma extrema habilidade, ou pelo espírito indomável e desbravador. Poderia enumerar vários atributos que tornam uma pessoa especial e que nos levam a admirá-la, mas há um traço que chama minha atenção em particular: o da forte convicção.

Admiro as pessoas que têm convicções inabaláveis, são fiéis a seus princípios e não temem defendê-los, mesmo sob o risco de serem estigmatizadas pela sociedade ou ridicularizadas pelos fracos. Normalmente, são pessoas dogmáticas, coerentes e, principalmente, honestas.

Esse convicto ser, porém, pode cair em desuso ou se tornar obsoleto, pois valoriza princípios que se perderam no tempo. Ele se mantém fiel a valores que mercad…, digo mercador, nenhum reconhece mais. Creio tratar-se de um tipo em extinção.

Pois tenho um amigo assim. Suas opiniões (e olha que são muitas) ora têm o dom de cair como uma luva paralisante em briga de torcida, ora como tijolo em caminhão de ovos. São de rara contundência.
Quem o conhece, respeita! E, dos que não o conhecem direito, tenho pena. Para os íntimos, há o prazer de colecionar suas pérolas de sarcasmo.

Pois imaginem que ele, neste momento de efervescência política, quando se fala tão mal do poder legislativo brasileiro (é bom esclarecer, pois poderiam pensar que falo de outro país) e de seus detentores, sejam eles répteis ou batráquios representados por aquela figura  impoluta de fartos “…” (tenho medo até de sussurrar essa palavra), neste momento de falta de valores generalizada, o meu amigo não só resolve criar um blog  como resolve também cutucar a onça com vara curta e, usando a mais obsoleta das nossas expressões, lhe dá o nome de “Fio do Bigode”.

É ou não um admirável e especial espécime em extinção?

E eu próprio sou exemplo de que o amigo é de fato corajoso. Ele me convidou para escrever regularmente aqui no blog. Os leitores têm duas chances: uma de que eu não consiga produzir na quantidade necessária; a outra é que seus insistentes protestos provoquem o cancelamento do convite.

Enquanto isso, “a gente vai levando esta vida” assim, baianamente…

CAIO FERREIRA, ex-várias coisas, atualmente é auto ex-ilado em SFX. Como não foi exilado político, nem terrorista, dá duro trabalhando o mercado imobiliário da região.