Hipocrisia, a gente vê por aqui (parte 1)

janeiro 6, 2010 · Posted in Cidadania · Comment 

por Beto Lyra

“Me engana que eu gosto”. É o que se costuma dizer para as mentiras deslavadas, histórias inverossímeis ou afirmações “madeireiras” — isto é, ditas por caras-de-pau.

Quantas e quantas vezes tentam nos fazer crer em teses mirabolantes ou desculpas esfarrapadas? Em geral, trata-se de assunto ou tema que toma conta da mídia e ganha ares de inconteste verdade, que se torna um tsunami, tal o volume e força com que passa por cima de tudo e todos. Quem se atrever a questionar alguma vírgula não é levado a sério ou então é ridicularizado.

Essa técnica de convencimento, desonesta e safada, tem sido observada no meio político, grande parte das vezes com a triste omissão de membros da imprensa. O uso do cinto de segurança nos veículos é um exemplo do que quero dizer.

Lembro de viagens que fiz quando moleque no banco de trás da Rural Willis,  sem algo a me manter preso ou seguro. Muito tempo depois, já na faculdade, comprei meu primeiro carro, um Fuscão, que me deu muitas alegrias, e que só tinha um simples cinto de segurança, para a cintura, cujo uso não era obrigatório, nem sequer sugerido.

O tempo passou e a legislação brasileira começou a se ocupar com a segurança de todos os motoristas e passageiros. Aos poucos foram impondo medidas adicionais, como a trava nos bancos da frente, o cinto de 3 pontas e, mais tarde,  o seu uso obrigatório, inclusive no banco traseiro. Posteriormente, foi imposta a obrigatoriedade do uso de cinto em ônibus intermunicipais. Nada de explicar motivos e educar para o uso, mas simplesmente: não usou, leva multa!

Mais recentemente, conscienciosos legisladores começaram a discutir a obrigatoriedade de todos os veículos brasileiros saírem de fábrica com air bags. Viu? Ainda não deu nem tempo desse acessório ganhar um nome em português, mas já está para virar obrigação. E aí, não cumpriu, leva multa!

Que fique bem claro, sou a favor do uso de todas as medidas e equipamentos de segurança. É uma questão de lógica e bom senso diante dos evidentes benefícios aos passageiros, além dos dados estatísticos que comprovam a redução das mortes nos acidentes de trânsito desde que esses acessórios se tornaram obrigatórios.

Até aí, tudo bem. Mas não consigo compreender por que não é obrigatório o uso de cinto de segurança em ônibus urbano. Por que não é proibido viajar em pé nesses ônibus?

Vejamos: o Código Brasileiro de Trânsito (art. 65) exige o uso do cinto de segurança nos ônibus, para condutor e passageiro, exceto (vejam que hilário) nos ônibus em que é permitido viajar em pé (?). Juro que queria entender essa “lógica”. Exige-se cinto de segurança para todos os veículos em que se viaja sentado, inclusive em ônibus intermunicipais, que trafegam por estradas em geral mais seguras do que as ruas dos centros urbanos. Então, por que raios, nessas mesmas ruas, piores vias de tráfego, admite-se não usá-lo, e o que é pior, permite-se passageiros em pé, sem nada em termos de segurança, a não ser seus próprios braços a agarrar apoios nos bancos e teto?

Já se tentou mudar essa incoerência quando, em 2005, um deputado federal apresentou Projeto de Lei tornando obrigatório o uso de cinto de segurança em todos os ônibus, inclusive nos urbanos. Mas o relator dessa proposta, um nobre colega do primeiro deputado, sabe-se lá o que passava em sua cabeça, rejeitou o mérito de tal Projeto de Lei. Justificou que os ônibus urbanos em todo o mundo não usam cinto de segurança, e completou com “em razão de suas especificidades, pois há grande volume e rotatividade de passageiros”. Brilhante, não?

No mínimo, não há coragem em impor regras de importância para os cidadãos à poderosa indústria do transporte coletivo urbano. O fato de no exterior não ser imposta a obrigatoriedade do uso de cintos, não muda a questão no Brasil, onde há índices mais elevados de acidentes urbanos com vítimas graves. Lá fora, além de veículos coletivos mais bem conservados e seguros, também as vias são mais bem conservadas e sinalizadas, sem esquecer que seus condutores são mais bem treinados e responsáveis do que nossos motoristas, pois as penalidades são conhecidamente mais duras do que as daqui. Ou alguém não conhece as loucuras praticadas pelos motoristas de ônibus no Aterro do Flamengo, no Rio, por exemplo?

Alguém pode questionar quanto aos vagões do metrô, que têm similaridade com os ônibus urbanos. Bem, nesse caso creio que pode ser aceitável não ser obrigatório o uso de equipamentos de segurança e admitir-se passageiros em pé, por vários motivos, entre eles aceleração e desaceleração gradual, velocidade constante, trajeto uniforme sem grandes curvas e inexistência de ultrapassagens ou mudanças de faixa. Enfim, a possibilidade de algo inesperado acontecer nos trens de metrô é extremamente mais reduzida se comparada aos riscos das ruas e avenidas dos grandes centros.

Então, por que não corrigir imediatamente o erro de 2005, quando a Câmara rejeitou o Projeto de Lei? Por que postergar a imposição de regra que preserve o cidadão e passageiro nos ônibus urbanos?

Não me engana, que eu não gosto!