Crise mundial e o barco da história

maio 11, 2010 · Posted in Economia · Comment 

por Geraldo Vidigal

O mundo flutua, sem bóias guarda-vidas, em um mar de crises sistêmicas. A crise foi prenunciada em 1992, quando do lançamento do Euro como moeda circulante. Daí em diante não haveria apenas uma única moeda de conta e comércio mundial, mas duas.

A moeda nova, que nascia com importante mercado cativo do então Mercado Comum Europeu, futura União Européia, retiraria crescentemente poder aquisitivo da moeda tradicional.

Iniciava-se o refluxo de papel moeda norte-americano para o interior dos EUA – que inundou o mundo após a Guerra – crescentemente apropriando ao Euro poder aquisitivo, caindo o Dólar.

Em maio de 1995, os EUA lançaram o Novo Dólar, com as faces dos Fouding Fathers maiores. Caso único no planeta, ambas as moedas – a velha e a nova – tinham e têm curso legal: os EUA precisavam, e ainda precisam, ‘mapear” quanto papel moeda há no mundo. Pois impactaria diretamente em seu M1, com potencial inflacionário incomensurável.

Até os anos 90 podia-se ingressar nos EUA com quanto Dólar se desejasse. Hoje é crime deixar de declarar a própria moeda deles, ao interná-la.

O Euro foi lançado como papel moeda a 1 para 1 Dólar. Em curto prazo perdeu aproximadamente 10%, e, a partir daí, agregou a si valor nos mercados mundiais.

As contas do comércio mundial eram efetuadas em Dólar, a única moeda de reserva. Com o Euro passando a competir nesses dois aspectos, crises eram inevitáveis. Daí o mundo vem em sucessão de crises, com maior ou menor impacto sobre o Brasil. Crises cambiais sucessivas, apelidadas pela mídia: crise do México (1995), crise asiática (1997/98), crise russa (1998-99), crise argentina (2001), e a brasileira de 2002.

Durante o período FHC o Brasil passou por diversos momentos de forte crescimento econômico, abortados pelas crises e pelos limites de infra-estrutura frágil, com destaque para o apagão de 2001. Em 2002, governo FHC, o FMI acordou emprestar ao Brasil 30 bilhões de Dólares, pondo fim à crise cambial. Acordo sucessivamente renovado no governo Lula, até 2005.

Na verdade, trata-se de UMA ÚNICA E LONGA CRISE CAMBIAL.

A partir de 2002 houve um período de bonança cambial. Nesse período o Brasil:

  • teve magnos superávits comerciais, decorrentes de forte valorização de preços das commodities, e buscou diversificar a pauta de exportações;
  • compôs expressiva carteira de reservas em dólar, hoje na casa do 245 bilhões;
  • quitou a dívida com o FMI, e de seu devedor tornou-se credor em 10 bilhões de dólares.

A sucessão de tempestades cambiais se exacerba, retomada com extrema violência com a crise sistêmica deflagrada a partir dos EUA em 2008. A qual não acabou. A política interna afirma que “O Brasil saiu da crise”. Mas a crise está aí.

Sintoma, por exemplo, são os incríveis aumentos de preço dos ativos reais no mercado interno – o mercado está intuindo algo gravíssimo, subterrâneo, não explicitado – e reage convertendo ativos financeiros em ativos reais. O que está havendo, na verdade?

E a crise se aprofunda: a crise da Grécia e as de bombas-relógio armadas na Espanha, Irlanda, Itália e Portugal, não são crises locais: são européias. E planetárias.

De 1970 a 1980 o Brasil cresceu 4,8% acima do crescimento mundial.

De 1981 a 2005 o Brasil cresceu 1,5% abaixo do crescimento mundial.

Em 1974, pela primeira vez, a exportação de manufaturados superou a de produtos agrícolas na balança comercial brasileira.

Em 2009, pela primeira vez em 34 anos, a exportação de commodities agrícolas superou a de manufaturados.

Destaque-se que, na exportação de commodities, a decisão sobre quantidade e preço é sempre do importador. O que torna vulneráveis países cuja balança encontre-se ancorada nesses produtos.

Por outro lado, em 2008/9 nossas exportações para os EUA, Argentina, Holanda e Alemanha caíram fortemente, enquanto as para a China tiveram importante aumento.

Em 1990 o valor de produtos exportado pela China era o dobro dos exportados pelo Brasil. Em 2005 a China já exportava, em valor dolarizado, perto de 7 vezes o que exportamos.

Em 1990 o valor exportado pela Índia era perto de 52% do exportado por nós. Em 2005 o valor exportado pela Índia já era 80% do nosso.

Em 1990 a China exportava 72% de manufaturados. Em 2005, 92%.

Em 1990 a Índia exportava 70% de manufaturados. Em 2005, também 70%.

Em 1990 o Brasil exportava 54% de manufaturados. Em 2005, 56%.

O crescimento dos valores exportados por China e Índia são valor agregado industrial. Seus superávits comerciais são de natureza industrial. Aqui, hoje são os produtos agrícolas os responsáveis por nossos superávits comerciais.


Se de um lado nossa agricultura aperfeiçoou-se e investiu em agro e bio tecnologias, de outro, isso parece apontar para que o Brasil estaria regredindo em competitividade industrial, e em caminho de redução de base industrial e baixo desenvolvimento tecnológico. Há ilhas de excelência tecnológica. Mas poucas.


Há evidente perda de competitividade industrial brasileira, a qual somada à sobrevalorização do Real frente a Dólar e Euro, nos lança para trás.

Ao mesmo tempo, as reservas financeiras em Dólar da Índia são 20% superiores às nossas, e as da China são mais de 9 vezes maiores.

Somado a isso, ambos os países mantêm sua moeda sob controle, impedindo sua sobrevalorização.

A China parece subvalorizar sua moeda, ampliando competitividade nos mercados mundiais.

Estudo de 2009 da FGV Projetos e Ernst & Young projeta que até 2030 o Brasil perderá participação nas exportações mundiais, especialmente no setor de manufaturados, as quais crescerão à média de 1,8% a.a. Já as importações mundiais crescerão 3,7% a.a.


Para alterar prospectivamente esse panorama, o Brasil poderia:

  • aproveitar a crise mundial (EUA, e  agora, UE) para incentivar importações equipamentos de última geração essenciais à modernização do parque industrial, uma vez que, como nossa moeda sobrevalorizada, tais equipamentos estão baratos.
  • dar temporariamente isenção de impostos para parques industriais de alta tecnologia.
  • permitir, internamente, deduzir do IR valores pagos por brasileiros em produtos de alta tecnologia produzidos com mais de certo percentual de produto nacional embutido.
  • permitir que as exportadoras mantenham seus recursos em moeda estrangeira no exterior, comunicando ao Bacen os volumes dia a dia, evitando valorização do Real na internação.

Ou perder o barco da história, se a revoada de capitais estrangeiros vier súbito.

Poupança global interna: fundamental ao desenvolvimento

março 28, 2010 · Posted in Economia · Comment 

por Geraldo Vidigal

Sem poupança social ampla não há desenvolvimento.

O desenvolvimento do Brasil depende da ampliação da capacidade social de poupar: é que a poupança é dinamicamente semelhante ao investimento.

Isto é, poupança e investimento são dinamicamente iguais, igualam-se com o tempo.

A capacidade estatal de investir está extremamente limitada, e lastreia-se em grande parte em recursos externos, potencialmente caros. E possivelmente escasseando no futuro próximo.

Mas o Brasil necessita desesperadamente de investimentos para meramente manter as necessidades de crescimento vegetativo futuro.

Falar-se em 5% de crescimento do PIB, quando a inflação projetada é de 4,5%, significa na prática crescimento quase ZERO.

É essencial investir fortemente para superar nosso déficit histórico em:

  • Energia (geração e transmissão)
  • Transportes (recuperação e/ou duplicação de estradas, além de ampliação da malha rodoviária; ferrovias; ampliação, modernização e diversificação dos portos)
  • Logística
  • Água e esgotos (e tratamento de águas)
  • Construção Civil (com foco na Habitação)

O próximo governo deverá garantir à Petrobrás recursos da ordem de quase 200 bilhões de dólares (um quinto do PIB anual) apenas para investimento Pré e Pós Sal. Parte desse potencial é em óleo leve – diferente dos de má qualidade, para que foram desenvolvidas nossas refinarias – e demandará investimentos em atualização e construção. É necessário construir linhas de transmissão de gás para pólos consumidores.

É essencial obtermos ampliações de posições nos mercados internacionais.

O Mercosul, no ponto em que se encontra, não tem dimensão para competir com os demais blocos econômicos. O Mercosul é mercado a ser mais eficientemente organizado, otimizando possibilidades de ganho de cada país membro.

Para alavancar as exportações brasileiras, no mercado mundial em geral, e no do Mercosul em particular, faz-se necessária levar a cabo Reforma Tributária.

Problemas: moeda nacional supervalorizada em perto de 28%; estrutura jurídico-trabalhista nacional desproporcional à dos competidores; políticas protecionistas dos países competidores; o superávit primário frente à Dívida pública federal (+/- 42% do PIB) e o aumento constante da arrecadação tributária; Desequilíbrio entre contribuições e pagamentos previdenciários e necessária reforma previdenciária; déficit educacional; infraestrutura insuficiente e desatualizada; logística inferior à necessária, exíguo número de empreendedores capacitados; elevadas despesas fixas governamentais em todos os níveis federativos.

Há quem aposte não estar longe o momento em que o Brasil terá de começar a utilizar suas reservas em Dólar.

Para fortalecer o mercado interno, além das Reformas (Trabalhista, Previdenciária e Tributária) já mencionadas, é essencial ampliar emprego e nível de renda dos trabalhadores.

A combinação dessas coisas importaria em aumento de consumo quantitativo e qualitativo, redundando em aprimoramento geral [indústria, comércio, serviços e agropecuária].

O povo no Brasil não tem cultura de poupar. O povo brasileiro tem cultura do consumo imediato.

A origem disso está no próprio Estado brasileiro, que desincentiva, e ainda penaliza poupanças privadas por várias formas.

Nosso histórico é o de que a poupança ou desaparece com inflação, ou é tomada pelo Estado, ou ainda por qualquer um.

Incentivo à poupança, bem sucedido, poderá reduzir a necessidade de que o Bacen amplie os percentuais de depósitos compulsórios, necessários à redução de liquidez nos mercados e conseqüente controle inflacionário. Aumento do compulsório reflete-se na Selic, redunda em aumento da taxa básica de juros no futuro e impacta nas taxas de juro em geral. É possível que no segundo semestre Henrique Meirelles candidate-se. Nesse caso, tratando-se de ano eleitoral, poderia parecer conveniente ampliar poder aquisitivo. Qual a linha do futuro presidente do Bacen? De questões como tais e do aumento do compulsório determinado em fevereiro, decorre os mercados futuros de juros apostarem em aumento da Selic para o segundo semestre.

A construção de habitações para locação residencial é desestimulada pelo Estado:

Com locação há retorno mensal da ordem de 0,6% do valor imobiliário. Isso se o locatário pagar: aluguel, verba locatícia, IPTU, taxas, condomínio etc. Caso contrário, há custos para receber e/ou despejar: advocatícios; dificuldades de citação; Poder Judiciário sobrecarregado. Isto é: mesmo com alterações legais, possível demora na satisfação dos direitos do locador.

A tributação é de 25% sobre a renda locatícia.

Investidores de porte criam empresa administradora, com tributação direta de 11,5%. Mais custos: organizacional, contábil, burocrático, previdenciário, contributivo.

A aplicação em Fundos de Investimento Imobiliária, até 10% das quotas, é isenta. Mas os FIIs, embora alguns bem rentáveis, não têm liquidez, pois mal há cultura de poupança bursátil, quanto mais nesses. Difíceis de entrar e duros de sair.

Comparada à renda que pode ser obtida no mercado financeiro e a tributação ali incidente, a construção de imóveis para locação residencial por pequenos poupadores é proibitiva.

Alteração na cultura popular de consumir JÁ, e poupar NUNCA, depende de ação estatal voltada a convencimento social e criação de estímulos, em especial a novas alternativas, não necessariamente bancárias. E garantir seguranças jurídica e fiscal.