Um olhar sobre alterações na vida social dos seres humanos

dezembro 7, 2009 · Posted in Mundo · Comment 

por Geraldo Vidigal

O bloguista convidado da vez é Geraldo Vidigal, parceiro de copo e de boas conversas, não necessariamente encostados no balcão. Geraldo é dessas pessoas que às vezes você pensa que está flutuando por aí durante uma conversa, mas que quase sempre vem com comentário abraçando um lado da questão que até então não estava na mesa de discussão.

Este post de hoje é um bom exemplo disso. Leiam (enquanto leem, imaginem alguém constantemente empurrando os óculos com o dedo indicador) e me digam se não tenho razão.

Vamos lá Geraldo!


Das violentas transformações havidas no século XX, e que alteraram a educação e a forma comportamental, a primeira profunda foi a da televisão: transformou o círculo familiar num semicírculo, no qual as comunicações internas do grupo foram bloqueadas e direcionadas no sentido daquilo que a mídia decide que deve ser o pensamento coletivo.

A segunda foi a da Net: tornou o semicírculo em individualidades conectadas on line.

Antes da TV — e pelos milênios anteriores — o bebê nascia, conhecia a mãe, pouco após o pai, seu quarto e a família, a casa, o quarteirão, e, assim sucessivamente, o bairro, a cidade, o país e o mundo.

A educação começava no bêabá, passava pela decoreba da tabuada, e ia seguindo um rigor multimilenar no qual o raciocínio seguia lógica cartesianamente empirista, na qual primeiramente se analisam os dados para, descartando o descartável (como diria Descartes), chegar à conclusão irrepreensível.

Após a TV, o bebê nascia e, enquanto estava conhecendo o pai, a família e a casa, já ia conhecendo o mundo, antes de conhecer o quarteirão. Apenas, as notícias chegam devagar, lentas – mas muitíssimo mais velozes do que antes.

Aí, o raciocínio se inverte, a partir da geração BabyBoomer, o raciocínio dos bebês sofre uma súbita inversão: de empírico e dedutivo, passa a emocional e indutivo. Surge a má-temática moderna, o ensino da leitura pela apreensão de vocábulo por inteiro, e novas formas de ensinar o antigo.

Daí à maior rebeldia entre pais e filhos da história. A ruptura inevitável entre raciocínios incompatíveis levou a movimentos jovens de ordem planetária, somente comparáveis às revoluções oriundas da disseminação das teorias sociais a partir do século XIX. Mas sem suas sangrentas e desnecessárias consequências: geração não-violência.

Em 1990, pela 1ª vez na história, o mundo pode acompanhar pela TV uma guerra em “tempo real”: Na “Tempestade no Deserto”, a 1ª grande guerra contra o Iraque, a bomba que se via cair na TV, ainda não tinha caído: ESTAVA caindo; as balas ESTAVAM tracejando naquele preciso momento; os corpos atingidos ESTAVAM de fato explodindo diante de seus olhos.

Isso ocorreu apenas meia dúzia de anos antes da popularização da Internet. A Internet conecta todo o mundo on line em tempo real.

Quebrado o semicírculo de opiniões facilmente moldáveis e direcionáveis, tornamo-nos todos individualidades conectadas na etérea nuvem eletrônica que nos bombardeia 24 horas ao dia.

Por toda parte somos filmados e fotografados, os movimentos acompanhados e potencialmente policiados todo o tempo. Os indivíduos abrem mão de suas individualidades, de suas privacidades, optando pela coletividade – ou a ela sendo dirigidos. O sigilo vai se esvanecendo. As redes de busca registram, pela eternidade, as preferências de cada indivíduo, formatando as opiniões de cada um a posteriori, a partir das premissas de suas preferências evidenciadas na Net.

A Net, por sua vez, banalizou o sexo; pasteurizou e endeusou a violência. Sexo é o prazer em ter o outro, só pelo prazer no mais elevado grau, inclusive por vezes elevando a grau de prazer comportamento possessivo e agressivo entre os pares. Ou é sonho, fantasia, compartilhados na rede nos sites específicos. Companheirismo, parceria, cumplicidade, prazer em “estar com”, não estão em questão.

Nos jogos eletrônicos, matar, destruir e trucidar, massivamente em massa, passa a ser o ideal, o sonho e o prêmio. Mas nesses jogos a vigilância – de resto, geral – não ocorre.

O século XXI apenas começou…, e eu não consegui encontrar nem uma pitadinha de humor nessa estória toda.

Quem sabe, ao longo dele, aprendo a achar graça em pedaços de corpos volantes, vigilância continuada, policialismo e dirigismo eletrônicos e raciocínios protoviolentos.