Onda verde com o chapéu alheio

outubro 1, 2010 · Posted in Cidadania, Sustentabilidade 

ou Hipocrisia, a gente vê por aqui (parte 3)

por Beto Lyra

Alguns de nós já escrevemos sobre sustentabilidade aqui neste Fio Do Bigode.

Acredito que as pessoas razoáveis se preocupam com o assunto e participam, cada uma do seu jeito, de ações que visam à preservação do Planeta. Mas, como gosto de correr o risco de parecer chato (para muitos, isso já é quase uma certeza), volta e meia me vejo na posição contrária a algumas dessas manifestações a favor do verde e do meio ambiente. São manifestações sem lógica ou às custas dos outros. São aquelas em que quem propõe fica com os louros e quem participa é o bocó.

Um exemplo do primeiro tipo, das manifestações sem lógica, é a febre de plantio de mudas e arvorezinhas em praças públicas. Ora, se cada cidadão que reside próximo a uma praça resolver plantar nela um arbusto que seja, as praças deixariam de ser agradáveis espaços livres gramados para se transformarem em bosques.

Eu moro ao lado de uma praça. Algum tempo atrás, fui à administração regional do bairro suplicar para que dessem uma poda em uma das seringueiras que um precursor dos verdes teve a brilhante ideia de plantar no local. Aliás, plantou duas e se mudou. Típicas de fazendas, dadas as dimensões que atingem, as seringueiras hoje estão crescidas, suas raízes tomaram boa parte da superfície da praça e impedem ali o caminhar, seus galhos enormes fazem sombra densa que mata a grama e os pequenos arbustos, além de bloquear a iluminação municipal, que fica dirigida apenas aos céus.

Bem, na administração regional, a encarregada do setor afirmava que não era permitido a qualquer um plantar árvores em praças públicas, a não ser com expressa autorização. E arrematou: “Se todo o mundo resolver plantar o que quer, teremos um canteiro e não uma praça”. Isso sem se falar no gosto pessoal de cada um, que pode não ser uma beleza.

Na semana passada, um senhor aposentado morador da rua próxima à minha resolveu dar sua contribuição à natureza e plantou uma arvorezinha nessa praça, distante da seringueira, mas junto a uma meia dúzia de arbustos plantados por verdes bocós (e folgados) como ele. Fico p da vida, e daí?

O segundo tipo de “militante” verde é o que promove sua boa prática às custas dos outros. Caso do Pão de Açúcar, por exemplo. Recentemente, ao passar pelo caixa do supermercado, fui incentivado a deixar as embalagens de pasta de dente, café, ovos, entre outras, para ajudar a reciclagem. Quase caí na armadilha, mas me lembrei de que as embalagens já estavam no preço que eu pagava pelos produtos. Assim, a indústria de embalagens ganhava, a indústria de pasta de dente ganhava, o Pão de Açúcar ganhava, o Fisco ganhava e … o trouxão aqui pagava pelo que não levava.

Em um momento de rabugice ou lucidez (escolham), falei pro caixa dizer ao Sr. Diniz que, se quisesse ajudar de verdade o Planeta, pressionasse as fábricas a não venderem mais nessas embalagens. Assim, as árvores não seriam cortadas, tintas não seriam gastas, energia idem e menos custos, menos impostos. Ele riu, até agora não sei se entendeu.

Meus caros, vocês se acham imunes a essa onda verde que vende papel reciclado mais caro do que o papel comum? Que faz projetos de sustentabilidade com o nosso bolso? Bem, a onda pode virar um tsunami daqui a pouco.

É outra hipocrisia que a gente vê por aqui.

Comments

16 Responses to “Onda verde com o chapéu alheio”

  1. Pedro Falabella Tavares de Lima on outubro 2nd, 2010 13:15

    Jovem Beto,

    Vou pôr lenha na fogueira que você acendeu.

    Não suporto peças do Ministério Público e da Magistratura em papel reciclado, do tipo de saco de pão; porquê: na hora de tirar uma cópia, não há contraste suficiente para tanto.

    Depois, é preocupação “de fachada”. Na máquina do Estado, quantos veículos poluem o ambiente, mais do que o necessário? Quanto papel é desperdiçado? Alguém já se preocupou com isso. PORÉM, na hora de o cidadão receber a decisão judicial que espera há anos (décadas!), lá vem a mesma em papel que lembra o higiênico do butiquim da esquina.

    Meu pai dizia que, de tanto em tanto, uma onda moralizadora varria a Assembléia paulista; e, para economizar… cortavam o cafezinho dos funcionários. Acórdãos do Supremo em papel de embrulho lembra-me isso.

    Abraços.

    Pedro Falabella Tavares de Lima

    .

  2. Beto Lyra on outubro 2nd, 2010 15:56

    Pedro,
    Lenha benvinda! É isso mesmo. Seu pai estava certo, ondas vêm e vão. “Espertos”estão em toda a parte, prontos a faturar com “marketing de resultado”. A onda moralista está hibernando por aqui, mas outras me afligem e, pelo visto, afligem a muitos.

  3. Marcos Assumpção on outubro 2nd, 2010 19:07

    Aí pessoal!
    Beto,
    Tenho uma sugestão para educar os “novos” ecologistas, ponha uma placa na praça vizinha a sua casa com a seguinte inscrição:

    Sr(a) Ecologista
    NÃO PLANTE MAIS UMA ÁRVORE NESTA PRAÇA, ELA PROVOCA SOMBRA E MATA A GRAMA.
    VÁ PLANTAR BATATAS NO SEU QUINTAL, POIS QUANDO CRESCEREM PODERÁ COMÊ-LAS!

  4. Beto Lyra on outubro 3rd, 2010 10:47

    Boa Marcos.

    Prático como sempre.

  5. Bruna Mendes Pessoa on outubro 3rd, 2010 15:04

    Beto,

    Sabe que eu estava incomodada com essa campanha do Pão de Açúcar?

    Estou cheia de ser enganada. Valeu a dica.

  6. Dick on outubro 4th, 2010 09:43

    Pois é Beto,
    E não só as seringueiras que causam estragos. Outra encrenca é a tal ficus ou ficcus. Belíssima árvore, atinge mais de 30 metros de altura e tem raízes fortes e profundas que arrasam tudo que está por perto, até alicerces de construções. A copa se alastra e invade qualquer coisa ao seu redor. Perfeita para um descampado; bem longe de tudo…
    Essas espécies deveriam ser banidas assim como os pit bulls e rotweillers.
    Recentemente mandamos podar algumas plantadas ao lado aqui da empresa e tome multa. Recorremos sem sucesso; depois, só para provocar, ainda solicitamos que a prefeitura viesse então consertar calçadas e muros destruidos, o que obviamente não ocorreu.
    Mas, por falar em onda verde, a de ontem achei bem legal…
    Abraços.

  7. Beto Lyra on outubro 4th, 2010 17:08

    Bruna,

    Um Pão de Açúcar incomoda muita gente…, dois Pão de Açúcar incomodam muito mais…

    Chega de Me engana que eu gosto, não é?

  8. Beto Lyra on outubro 4th, 2010 17:11

    Dick,

    De fato essa Ficus é arrasadora. Lá na praça também tem e já levantou o piso da minha varanda. Fazer o quê?

    A Onda Verde de ontem foi muito boa mesmo. Agora… Dilma x Serra, ninguém deve merecer isso.

    Haja paciência.

  9. Geraldo on outubro 5th, 2010 00:47

    Você sabia?

    ==> Que 100% (CEM POR CENTO) do papel para impressão, no Brasil, vem de madeira de reflorestamento?

    ==> Que, no Brasil, ao mandar alguém ‘não imprimir’, você está desincentivando reflorestamentos?

    ==> Que, deixando de imprimir, você está deixando de gerar e/ou reduzindo empregos ecologicamente corretos?

    ==> Que as floretas jovens – como as de reflorestamento – consomem mais CO2 e geram mais Oxigênio?

    ==> Que florestas velhas consomem mais Oxigênio do que produzem?

    ==> Que, no Brasil, ao imprimir, você está ajudando a gerar riquezas ecologicamente corretas?

    *************** NESTE NOSSO PAÍS****************

    - IMPRIMAM SEM DOR NA CONSCIÊNCIA !

    - IMPRIMAM COM ORGULHO DE ESTAR CONTRIBUINDO PARA A MAIOR CAPTURA DE CO2 NA NATUREZA!

  10. Beto Lyra on outubro 6th, 2010 00:29

    Ahahahah!!!

    Geraldo, agora vc me fez lembrar das velhas tampinhas de Coca-Cola que vinham com informações úteis como “vc sabia que a distância da Terra à Lua é xxxx”? Ou vc sabia que o concreto gasto na construção de Brasília daria para construir N Maracanãs?

    Pay attention! Não sou contra imprimir, apenas sou contra o desperdício, ainda mais quando sai do meu bolso. Querem imprimir caixinhas de café? Ótimo, mas não venham me pedir para não levar para casa.

    Querem fazer campanhas? Então façam direito. É só isso.

  11. Beto Lyra on outubro 6th, 2010 00:30

    Geraldo, vc está a serviço do Abigraf, hahahaha!

  12. Geraldo Facó Vidigal on novembro 18th, 2010 23:21

    Pois é…
    Está virando “moda ” copiar o que os desmatadores e poluidores do “primeiro” (muchocho de desdém…) mundo escrevem embaixo dos seus e-mailzinhos, pra fingir que a culpa não é deles, mas nossa! :

    “Antes de imprimir, pense na sua responsabilidade com o Meio Ambiente.”

    … Mas …

    Você sabia:

    1. que no Brasil 100% do papel tem origem em reflorestamentos?

    2. que, em nosso país, a madeira para papel é 100% certificada?

    3. que florestas jovens produzem muito mais oxigênio do que consomem?

    4. que florestas velhas consomem mais oxigênio do que produzem?

    5. que o setor florestal, já em 2002, empregava dois milhões de pessoas e gerava US$ 28 bilhões anuais?

    6. que, já no ano 2000, nosso setor florestal gerava:
    a) mais de 4 milhões de empregos diretos?
    b) 18 bilhões de dólares ao ano?

    7. que, em 2002, empregava 6,5 milhões de pessoas (9% da população economicamente ativa)?

    8. e que, em 2002, só de exportações, o setor florestal exportou mais de US$6,5 bilhões?

    cf.:
    http://www.rural.ccr.ufsm.br/floresta/congresso/Palestras/palestra08.doc
    http://www.madeiralegal.com.br/Home/0100frame.html

    IMPRIMA SEM DOR NA CONSCIÊNCIA!

    SEJA CONSCIENTE E PENSE ANTES DE MANDAR PARAR DE IMPRIMIR!

  13. Geraldo Facó Vidigal on novembro 18th, 2010 23:22

    A serviço do Brasil, com orgulho, Beto!

  14. Geraldo on dezembro 9th, 2010 02:01

    Encontrei um estudo – que me pareceu, do baixo da minha qualidade de não-cientista na área – muito sério.
    E esse estudo parece dar razão ao proverbial mau-humor betôniano.
    Vejam:

    “Estudos geológicos e arqueológicos apontam níveis marinhos mais altos nos últimos 5000 anos e suas relações com as comunidades de sambaquis que habitavam parte desse trecho de litoral. Ficou evidente que os caçadores coletores se adaptavam muito rapidamente a subidas do nível do mar. Indicadores biológicos, entre estes, diatomáceas, vermetídeos, foraminíferos e nanofósseis e registros
    geológicos – geomorfológicos constituídos por terraços marinhos, paleocristas de praia, cordões litorâneos, etc., apontam mudanças bruscas na paisagem costeira no litoral aqui estudado. Foram encontrados registros de subida do nível do mar até 10 km da linha de costa atual entre os municípios de Búzios e Cabo Frio. Datações ao C14 apontam um registro de 3,0 m acima do nível do mar atual à 5000 anos A.P (antes do presente) mostrando um clima bem mais quente em relação ao atual.”
    http://research.fit.edu/sealevelriselibrary/documents/doc_mgr/479/Brazil_RdJ_CC_Indicators_(Portug)_-_Dias_et_al_2009.pdf

  15. Beto Lyra on dezembro 9th, 2010 10:09

    Geraldo, agradeço a isenção e a contribuição enorme que vc, como sempre, dá a esse controverso assunto.
    Faço apenas, se me permite, pequeno reparo à sua afirmação de mau humor betônico, pois certamente vc há de convir que não se pode reduzir anos de sabedoria e autoconhecimento a uma simples conceituação de mau humor, eheheh.
    Na verdade, agora escrevendo sério, fico muito ligado nas febres de “verdades” que periodicamente varrem o planeta, como até escrevi nesse post. Já vi, ou melhor já vimos, muita coisa nesses quase 60 anos não é?
    Verdades irrefutáveis serem varridas, correntes de alertas contra um monte de coisa inexistente, estudos científicos “revolucionários” posteriormente classificados de desonestos e, é claro, pesquisas “patrocinadas” por fontes interessadas em determinados resultados.
    Com isso tudo, dá para sempre ter um pé atrás não é?
    Ah, esqueci de comentar que teve gente que ficou contrariada porque falei que eram bobos os que entravam nas ondas verdes como a do Pão de Açúcar.

  16. Geraldo Facó Vidigal on dezembro 15th, 2010 03:36

    Pois é, Beto.
    De meu lado prefiro o tonificante e já proverbial ‘mau humor betônico’, ao engajamento de plantão, risonhamente prestes a surfar em qualquer onda pseudo-moderna; e bisonhamente indignado se alguém – ingenuamente – demonstra por A+B que aquela onda quebrará nas pedras, eo surfista, com ela.

    Creio que a verdade só o é até que não se evidencie o contrário.
    Exceto se se tratar de futebol.
    Aí [ fazer o quê.. ] temos de admitir – aceitar é outra conversa – os clamores e agressões dos infelizes torcedores de times menos bem aquinhoados que o São Paulo.

    Mas, evidenciadas falhas, apontados erros, demonstrados fatos, não vou ficar acusando a quem tirou o conveniente tapa-olho da frente de me ter cegado, né?

    Mão à palmatória só dá o teimoso.
    Quem analisa, pensa e conclui, simplesmente revê sua posição a partir dos dados novos, e prossegue nas análises a partir do novo panorama que antes não enxergava.

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