Apátridas de chuteiras

junho 27, 2010 · Posted in Esporte 

por Beto Lyra

Não sei se ocorre o mesmo com vocês, mas se há algo que me deixa “p…… da vida” é assistir a demonstrações de fanatismo. Mesmo que sejam referentes a futebol, esporte que permite todas as paixões, irracionalidades, idiossincrasias e outras tontices possíveis. Todas nobres no caso do futebol.

O fato é que, quando começam a circular carros com bandeirolas do Brasil e faixas ou bandeiras são colocadas nas casas e empresas por todas as cidades do país, fico imaginando o que realmente passa pela cabeça das pessoas que fazem isso.

Às vezes, acho que não passa nada, pois só isso explicaria de uma hora para outra alguém demonstrar tanto apego às cores de sua bandeira sem que para isso haja alguma razão conhecida e plausível. Outras, acho que passa algo pela cabeça, mas não consigo identificar o cheiro do que seja.

Alguns dirão que é impossível  não perceber que tudo isso acontece por causa da Copa do Mundo de futebol. Claro que consigo perceber isso, mas continuo não entendendo o porquê.

Nelson Rodrigues cunhou a pérola “A pátria em chuteiras”, para designar o estado de espírito que toma conta dos brasileiros na época das Copas do Mundo de futebol. Segundo o rei da irracionalidade e da paixão, o brasileiro não pega em armas para defender suas fronteiras ou interesses, mas se arma de chuteiras para torcer pela seleção e, em tese, se vingar ao menos uma vez das várias humilhações porque passa em casa, no trabalho e no cenário internacional. Há aquele sentimento de solidariedade, mal direcionado neste caso, tão necessário ao ser humano. Olhar para o lado e identificar-se com o vizinho ou com o outro carro preso no trânsito é prazer para esses pobres de espírito. E, mais, o trânsito já caótico em São Paulo fica ainda pior, pois esses patriotas de ocasião diminuem a marcha só para serem observados pelos demais.

Ainda que fosse anos atrás, quando qualquer brasileiro sabia de cor a escalação de seus times e da seleção nacional, vá lá. Mas hoje nem isso acontece. Atualmente os jogadores das principais seleções do mundo não moram, e portanto não jogam (ou mesmo nunca jogaram) em times de seus respectivos países. Não têm mais vínculos com a terra e a gente de seus países. Muita gente viu o jogo do Brasil contra a Coréia do Norte se perguntando “quem é esse na lateral esquerda, nunca ouvi falar…”

Esse “apego” se estende aos próprios jogadores das seleções da Copa. Todos abraçam e beijam seus adversários, pela simples razão de que têm mais convivência e intimidade com eles do que com os próprios companheiros de time. Não sabem cantar os hinos de seus países. Muitos sequer falam direito seus idiomas nativos. Que entusiasmo patriótico é esse então?

Só os bobocas se comovem com os gestos pueris dos jogadores ao beijar a bandeira e camiseta de suas equipes. Só inocentes podem se emocionar com a Copa e desfilar seus patriotismos impensados.

Os jogadores não têm responsabilidade sobre isso. Agem como profissionais. Levam excelente vida no exterior, com possibilidades de crescimento pessoal, profissional e cultural e comovem, de tempos em tempos, o público com beijinhos na bandeira. Isso não os satisfaz, creio eu. Fica o vazio, pois esse teatro todo não encanta a eles nem ao mestre Nelson Rodrigues. Esses “heróis” de hoje são, na verdade, apátridas de chuteiras.

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