Então é Natal …

dezembro 21, 2009 · Posted in Lazer 

por Lourdes e Clovis Garcia


Dias atrás, fiquei pensando como deveria ser o post pré-Natal (com maiúscula pra diferenciar do tal exame) e conclui que deveria ser um que, sem pieguice, falasse das coisas boas desse período, que vão desde a oportunidade de pensar nos amigos que não vemos há tempos até confraternizar com pessoas que não temos tanta proximidade, mas são legais embora quase desconhecidas, e com elas beber e comer, como as minhas boas origens familiares não negam.

Aí, como Lourdes e Clóvis, meus pais e do Pedrão, comandam uma das mais tradicionais festas de Natal da cidade, ninguém melhor do que eles para escrever um post para a edição especial natalina do Fio Do Bigode. Eu tenho certeza que será o nosso melhor presente ao leitor e para nós também, já que eles têm a experiência, classe e, o principal, que é o prazer em fazer aquilo que escrevi acima. Clovis inicia o post com pequeno histórico da origem da comemoração do Natal e Lourdes escreve sobre as noites felizes.

Com vocês, os donos das famosas ceias de portas e braços abertos, que sempre foi o traço marcante e genuíno do casal.

And so this is Christmas
I hope you have fun
The near and the dear one
The old and the young

(John Lennon)


A data do Natal, dia 25 de dezembro, é uma ficção. Na verdade, ninguém sabe a data  do nascimento de Cristo. Há mesmo quem diga que, na transposição do calendário Juliano para o Gregoriano, houve um erro de quatro anos e, assim, Cristo nasceu quatro anos antes de Cristo. Como houvesse muita confusão, com cada povo comemorando o Natal numa data diferente, o monge Dionísio, no século IV d.C., propôs a data de 25 dezembro, dois dias depois do solstício de inverno (no hemisfério norte, para nós, é solstício de verão), o que foi aprovado e decretado pelo Papa Julio I. Toda a Cristandade comemora então o Natal dia 25 de dezembro.
Como ficção, a data é alegórica, simbolizando o amor ao próximo, a paz entre os  homens de boa vontade, a integração de toda a humanidade. Assim, fiéis e infiéis, crentes e ateus, cristãos e judeus, muçulmanos, hinduístas, ou de qualquer outra crença, negros, pardos, brancos, amarelos, ou de qualquer outra cor que o ser humano possa ter, podemos estar unidos, com um só pensamento de amor.

Noites felizes

A introdução do Clovis serve para me fazer entender porque gosto tanto de Natal. Para mim, a solidariedade é o sentimento mais forte do ser humano. É ele que mais me comove e me faz ter interesse pelas coisas. Foi por ele que, quando jovem, participei da JUC (Juventude Universitária Católica) e, mais tarde, me entusiasmei pelo marxismo. Foi ele também que nos fez (eu, o Clovis e até as crianças) militantes do PDC.

E foi por aí que, logo depois do nosso casamento, um amigo nosso, Paulo Cotrim, que mantinha uma pensão para jovens universitários, pediu que déssemos uma festa de Natal para aqueles que não tinham família em São Paulo. Gostamos da idéia, mas achamos que se íamos abrir a casa para um grupo de pessoas, por que não estender mais e fazer uma reunião para todos que quisessem encontrar os amigos. E assim, num apartamento pequenino, sem móveis, porque tínhamos casado fazia 20 dias, demos uma festa para mais de 60 pessoas. Foi um festão, que chegou ao amanhecer, com grupos reunidos até no banheiro!

Desde esse dia, há 57 anos, mantivemos a nossa festa de Natal. Só falhamos um ano, quando mudamos de casa e não deu tempo de montar a festa. E apesar disso recebemos um monte de reclamações.

Conhecemos muita gente e muitas pessoas se conheceram nessas festas. Também muitos desconhecidos passaram por elas. Lembro-me de uma vez que entrei na cozinha e alguém me disse: “Pegue logo essa perna de peru antes que os donos apareçam”.  Muita gente famosa passou por ela, muitas criaturas estranhas também. Tinha amigos que vinham na festa só para ver como viriam vestidos alguns participantes.

Essas noites de Natal acabavam quando o dia começava a clarear. Muitas vezes, quando eu acordava, havia pessoas dormindo pelas salas. Cada ano era diferente: algumas vezes apareciam corais que vinham cantar músicas sacras, outras vezes passavam bandinhas na rua e todos nós íamos nos confraternizar no portão. O grupo de jovens sempre trazia seus violões. Algumas vezes, alguém nos reunia para rezar.  Havia grupos que davam festas em casa e quando terminavam vinham se encontrar conosco.

Nunca sabíamos quem vinha nem quantos vinham, o que tornava a festa mais saborosa. Sempre gostamos que as festas tivessem bastante comida, bebida e muitos presentes, porque é assim que o ser humano pode se confraternizar. Não acho que isso possa modificar o espírito do Natal, nem o tornar menos cristão, pois a primeira coisa que Jesus recebeu foram os presentes dos Reis Magos. Também nunca me preocupei se faltava comida. Sempre tive a certeza de que as pessoas não vinham para comer.
Nesses anos todos, a festa foi se modificando: no começo só adultos, depois com crianças, mais tarde, com os amigos adolescentes, agora com noras, genro e netos. Muitos já se foram, mas estão presentes, porque acreditamos que enquanto perdurarem em nossas memórias eles estarão vivos, e sempre nos lembramos de todos eles.


De uns anos para cá, eu e o Clovis jogamos a toalha. Não agüentamos mais passar a noite em claro, nem tão pouco tenho fôlego para organizar uma ceia para tanta gente. Além disso, o pessoal da família tem que comparecer a outras reuniões. Por isso, passamos a festa para o almoço e agora é para a família e alguns amigos convidados. Clovis, com a ajuda dos netos, se veste de Papai Noel e distribui os presentes para todos. Para não perder o sentido de solidariedade, todo ano pego uma carta para o Papai Noel no correio e os netos pequenos vão levar na casa da criança os brinquedos que ela pediu.

Quando eu era menina, assisti um filme que me deixou muito comovida. Era um musical, Balalaika. Havia uma cena em que, na noite de Natal, os dois lados dos combatentes paravam a guerra e cantavam juntos a música Noite Feliz.  Pode ser piegas, mas eu gostaria que o mundo inteiro parasse no dia 24 para cantar junto.

FELIZ NATAL PARA TODOS!

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