Assim é se lhe parece

novembro 24, 2009 · Posted in Artes 

por Paulo Gil

Fio Do Bigode está em festa. Inaugura hoje um espaço para gente amiga e competente colocar suas idéias, apresentar propostas, provocar mais polêmicas ou mesmo não fazer nada disso. Serão eles os nossos bloguistas convidados, que aparecerão de quando em vez, para alegria nossa e, espero, de todos que pacientemente nos leem.

O primeiro bloguista convidado é o fotógrafo Paulo Gil, que saca tudo que acontece à sua volta, principalmente fotos.

Vamos lá Gil, a cena é sua!


Anos atrás descobriram que a famosa fotografia do francês Robert Doisneau, “O Beijo” (acima), era montada. Para fazê-la, ele contratou dois modelos para registrar a vida feliz da Paris dos anos 1950.

Recentemente, foi a vez de outro ícone do fotojornalismo cair por terra, ou melhor, perder sua aura de instante decisivo. Falo da foto do húngaro Robert Capa que registra o exato momento em que um soldado republicano era abatido pelas forças franquistas na Guerra Civil Espanhola.

Morte do soldado republicano, de Robert Capa.

Pessoalmente, passado o espanto, cheguei à conclusão de que não há nenhum problema nisso. Ambos radicalizaram o fato de que toda foto é manipulada, não importando as condições em que foram feitas. O fotógrafo, ao fazer suas opções (escolhas de câmera, lente, filme, posição em relação ao assunto, fundamentação política etc.), é que define tais condições. Portanto, ao alterar apenas uma dessas opções, a história poderia ser contada de outra maneira.

Poderia, porque isso também é relativo. Dizem que a fotografia atesta que “algo” existiu. No entanto, este “algo” foi transferido de uma determinada relação tempo e espaço para vir a ser outra realidade — a foto –, que passará a ser a partir do ponto de vista daquele que a vê e que vive em outro tempo/espaço. A viagem pode ser, e é, grande e bem gostosa de se trilhar. Fica para outro momento.

E se essa relação fotografia/verdade passa a ser o objeto do artista?

Aqui quero jogar âncora. Especificamente no trabalho de um artista catalão chamado Joan Fontcuberta. Nascido em 1955, é um dos grandes nomes da fotografia mundial, como fotógrafo e pensador.

Diz ele que desconfia de tudo. A fotografia é uma evidência, alguma coisa esteve de fato na frente da objetiva de uma câmera. Mas, e se isso não for bem assim, ou seja, e se aquilo que vemos, juramos que vemos, não for o resultado do que estava diante da câmera e sim da maneira como foi captado por ela? Este é o mote do trabalho de Fontcuberta.

Para mim, a imagem fotográfica, em que pese ser indicial, não passa de uma imagem… e, como tal, nada mais, nada menos que uma idéia. Não é um objeto específico que existe e sim aquilo que dele o fotógrafo acha que deva existir. Fotografar é como escrever um texto, estamos sempre escolhendo sujeitos, predicados, adjuntos e tudo mais. Fotografamos idéias.

Apresento algumas imagens de duas séries de Fontcuberta: “Herbarium” e “Cosmonauta Desconhecido”.


Olhando as imagens da série “Herbarium”, vemos um trabalho científico como os botânicos faziam no final do século XIX, começo do XX. Uma série que lembra, também, a atuação dos fotógrafos viajantes que vinham ao Brasil para registrar nossas fauna e flora de forma objetiva.

Olhando mais atentamente, percebemos, um pouco aqui, outro tanto acolá, situações estranhas. Lendo e ouvindo o artista, ficamos sabendo que todas estas imagens foram feitas a partir de lixo colhido nas ruas de Barcelona. Em seu estúdio, montou pacientemente seus cenários. Fotos perfeitas, nomes em latim e pronto.  Autor, qualidade das imagens, local em que eram apresentadas (museus, por exemplo), tudo atesta a veracidade das “plantas”.

Fontcuberta não tem a intenção de enganar as pessoas, pois sempre se “desmascara” no final de uma exposição, por exemplo. Quer que as pessoas duvidem do que veem, que não acreditem em “algo” apenas porque foi fotografado e essa foto seja indicial. Aquilo estava de fato ali, mas não é o que se vê na foto. Nunca é.

“Cosmonauta desconhecido” tem uma história bem diferente.

Quando terminou a União Soviética, uma parte significativa do material fotográfico espacial ganhou o mundo e foi leiloado em vários lugares. Nessa época, Fontcuberta teve acesso a uma fotografia de 5 cosmonautas e … acrescentou mais um, com seu próprio rosto. Este sexto cosmonauta ganhou de Fontcuberta uma história documentada fotograficamente desde a sua infância. Ganhou um nome também: Fontcuberta em russo, e ganhou vida.

Fontcuberta é o 3º da esquerda para direita.


Um dia, um fotógrafo especializado viu a foto montada e divulgada por Fontcuberta e percebeu que não era a foto com 5 pessoas que ele conhecia.

Foi a deixa para que Fontcuberta liberasse a história fictícia. O sexto astronauta tinha tripulado uma missão antes daquela de Gagarin. Ele e um cachorro. Mas, como tal missão não havia tido êxito, as autoridades soviéticas simplesmente retocaram a foto, como era praxe na URSS, retirando o “sexto” e desconhecido cosmonauta. Por isso ninguém o conhecia.

É genial! Ele apresentava a exposição não como autor das fotos, mas como um profundo conhecedor da fotografia, o que por si só era um atestado de idoneidade. Além disso, aonde levava sua exposição, convidava algum professor de russo local para que assumisse o cargo de presidente da fundação que “financiava tal descoberta”. Em algumas cidades, conseguiu que a exposição fosse feita no Museu de Ciência. Era a cereja no bolo da verdade, pois nada melhor do que o suporte de um espaço dedicado à ciência para dar credibilidade a tudo. No encerramento da exposição, Fontcuberta esclarecia todo o projeto e sua história.

Chegou a conseguir, em alguns momentos, o apoio de jornalistas que escreviam sobre o tema, como se este fosse verdadeiro ao longo de umas tantas páginas. Na  última, aquela de mais informações, falavam do trabalho de Fontcuberta.

Em outubro último, o fotógrafo fez uma apresentação no Itaú Cultural, durante a exposição “A invenção de um mundo” (aberta até 13 de dezembro). Exibiu um vídeo com trechos de um programa “sério” de uma TV espanhola sobre temas misteriosos. Nele, um repórter apresentava como verdadeira “a descoberta do sexto cosmonauta”. Era de embolar de dar risada. Não é necessário dizer que, no dia seguinte à transmissão de TV, todos os jornalistas científicos e os artistas desancaram o programa, via telefone, e-mail etc.

Sugiro ao leitor que faça uma pesquisa no santo Google – castelhano e inglês – sobre o trabalho de Fontcuberta. Não temos muita coisa por aqui. Não se espantem se aparecerem blogs como o de Juan Cabana… Fontcuberta é uma caixinha de excelentes surpresas.

Sobre o mesmo tema, outra boa surpresa está na exposição “Gigi, the black flower”, do pintor, produtor, fotógrafo e ilustrador Josh Goslfield, na Steven Kasher Gallery, em Nova York. Confira o site da exposição e o comentário de Lucas Mendes, na BBC Brasil pelos links abaixo:

http://www.bbc.co.uk/portuguese/cultura/2009/11/091119_lucasmendes_tp.shtml

http://joshgosfield.com/gigi/

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