Antropofagia e fotografia

janeiro 15, 2010 · Posted in Artes 

por Paulo Gil

Dizem que o antropófago comia seus adversários para absorver sua essência, coragem, alma. A energia que lhe faria vir a ser melhor.

E ai, um dia, ocorreu-me a pergunta se não teria a mesma intenção, porém menos trágica, a quantidade de fotos que fazemos uns dos outros e que guardamos feito troféus nas estantes, paredes, álbuns etc.

Ter a foto do filho em suas etapas de crescimento, daqueles que já partiram, as nossas mesmas – aquele que carregamos mas sabemos ser outro.

Avós, filhos amigos, o cachorro, a viagem: as provas de termos sido, estado… almas que nos pertencem e que nos trazem o que foi ou o que supomos ter sido.

Não seria isso um ato de antropofagia? Precisamos nos alimentar de memórias, precisamos da “presença” do outro para nos nutrir. E é impressionante como se fotografa nos dias de hoje. Não basta estar ali, o que move é recordar que ali esteve. Viagens, bares, festas etc.

E como fica no caso das imagens das quais somos apenas espectadores?

Marcou-me o dia – fiquei com uma inveja gostosa – em que encontrei um grupo de poetas, entre os quais meu primo Ruy Proença, numa exposição de fotografias de São Paulo no Instituto Moreira Salles. Eram fotos de uma época em que talvez encontrássemos nossos pais nos seus primeiros anos de calça comprida.

Aqueles poetas buscavam naqueles anônimos histórias para suas escritas. Queriam alimentar suas almas. Com tacapes azuis ou pretos e caldeirões pautados.

Barthes chamava por punctum aquele dado, às vezes pequeno, da foto que nos fisga e nos deixa caminhar por ela. O interessante é o fato de que são infinitos os anzóis em uma foto, pois eles não estão nela mesma e sim naquele que a vê.

A maneira como caminhamos pela vida determina isso. E é este o motivo dos muitos anzóis: cada um come o que gostar mais… e haverá aquele que passará reto.

Comento isso porque adoro pegar fotos que encontro na rua. Histórias que são abandonadas porque seus suportes foram tomados por fungos, riscos, luz em excesso etc. Ou, simplesmente, porque alguém quis esvaziar suas gavetas.

Um dia encontrei um cromo na rua. Esse que aparece aqui. Uma família, suponho, mãe, filhas e filho? Alguma amiga junto? O que me fez perder, ou ganhar, muito tempo com esta imagem foi o momento e por quem  ela foi feita. Achei ser, provavelmente, em um fim de semana, clicada pelo pai que chegou da cidade e foi à praia, ainda vestindo seu traje de trabalho, a fim de ver a todos e pisar na areia. Em sua alegria, deixou que saísse na foto um de seus sapatos. Provavelmente calçaria ainda o outro. Para mim este é o centro da imagem. A foto é de quem não está nela. Devo reconhecer minha profunda curiosidade em saber qual rosto este provável pai teria. De qualquer maneira, senti-me saciado.

Lamento apenas não ser poeta.

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