Carnaval, mais um sacrificiozinho ou dois

fevereiro 19, 2010 · Posted in Música, Turismo 

por Geraldo Vidigal

De carona no tema carnavalesco, tratado de forma magnífica pelo Caio, e depois que desci a ripa nos muitos sambas-enredo repetitivos, longuíssimos e quase monocórdios, lembrei-me de poucos mas grandes – IMENSOS – sambas-enredo. Por isso mesmo imortais.

Para não me enredar em críticas injustas registro alguns desses grandes sambas de grandes carnavais, que me marcaram ao longo da vida, e de alguns outros sambas-enredo, que embora não tenham concorrido em desfiles carnavalescos, marcaram fundo a música popular brasileira.

Certamente há outros, de que não me lembrei, mas creio que muitos  concordarão quando destaco a magnitude desses abaixo, cujas letras são reproduzidas apenas em seus pontos mais famosos (até porque alguns, mesmo melodicamente fantásticos, parecem  in-ter-mi-ná-veis), destacando ora a Escola de Samba, ora o autor.

Hino de Exaltação À Mangueira, de Enéas Brittes da Silva e Aloisio Augusto da Costa, Mangueira, 1956

Mangueira teu cenário é uma beleza
Que a natureza criou, ô…ô…
O morro com teus barracões de zinco,
Quando amanhece, que esplendor,
Todo o mundo te conhece ao longe,
Pelo som teus tamborins
E o rufar do teu tambor, Chegou, ô… ô…
A mangueira chegou, ô… ô…

Bahia de Todos os Deuses, de Zuzuca do Salgueiro, Acadêmicos do Salgueiro, 1969
Bahia!

Os meu olhos estão brilhando
Meu coração palpitando
De tanta felicidade!
És a rainha da beleza universal,
Minha querida Bahia.

Samba para um Rei Negro, de Zuzuca do Salgueiro, Acadêmicos do Salgueiro, 1971

Nos anais da nossa história,
Vamos relembrar
Personagens de outrora
Que iremos recordar.
Sua vida, sua glória,
Seu passado imortal,
Que beleza
A nobreza do tempo colonial.
O-lê-lê, ô-lá-lá,
Pega no ganzê
Pega no ganzá!

Mangueira, Minha Madrinha Querida, de Zuzuca do Salgueiro, Acadêmicos do Salgueiro, 1972

Ô-ô-ô, ó meu Senhor,
foi Mangueira
Estação Primeira
quem me batizou
Tengo-Tengo
Santo Antônio, Chalé,
minha gente, é muito samba no pé!

É Hoje, de Almir da Iha, União da Ilha, 1981

A minha alegria atravessou o mar
E ancorou na passarela
Fez um desembarque fascinante
No maior show da terra
Será que eu serei o dono desta festa
Um rei
No meio de uma gente tão modesta

Bum Bum paticumbum prugurundum, de Aluisio Machado, Império Serrano, 1982

Bum bum paticumbum prugurundum,
o nosso samba minha gente é isso aí, é isso aí
Bumbum paticumbum prugurundum,
contagiando a Marquês de Sapucaí

Há sambas-enredo que não foram objeto de desfile na avenida,  mas que se encontram entre os maiores, como:

Foi um Rio Que Passou Em Minha Vida, de Paulinho da Viola

Ah! Minha Portela!
Quando vi você passar
Senti meu coração apressado
Todo o meu corpo tomado
Minha alegria voltar
Não posso definir aquele azul
Não era do céu, nem era do mar
Foi um rio que passou em minha vida
E meu coração se deixou levar.

Brasil Pandeiro, de Assis Valente

Chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor
Eu fui à Penha, fui pedir à padroeira para me ajudar
Salve o Morro do Vintém, Pindurassaia, eu quero ver
Eu quero ver o Tio Sam tocar pandeiro para o mundo sambar
O Tio Sam está querendo conhecer a nossa batucada
Anda dizendo que o molho da baiana melhorou seu prato
Vai entrar no cuzcuz, acarajé e abará
Na Casa Branca já dançou a batucada de Ioiô, Iaiá
Brasil, esquentai vossos pandeiros, iluminai os terreiros
que nós queremos sambar.

Feitiço da Vila, de Noel Rosa

Quem nasce lá na Vila
Nem sequer vacila
Ao abraçar o samba
Que faz dançar os galhos,
Do arvoredo e faz a lua,
Nascer mais cedo.

Mas, talvez, o “Rei” de todos os sambas-enredo seja o “Samba do Crioulo Doido”, de Sérgio Porto, aliás, Stanislaw Ponte Preta, gravado pouco antes de sua morte pelo Quarteto em Cy.  Nesse disco (antes de Cybele, Cylene, Cynara e Cyva, ou Cyntia, Cyregina, Cymíramis e Cyva, ou ainda Sandra Machado no lugar de Cymíramis cantarem), ouve-se a voz de Stanislaw, declamando:

“Este é o samba do crioulo doido. A história de um compositor queca da Silva, durante muitos anos obedeceu o regulamento e só fez samba sobre a história do Brasil. E tome de Inconfidência, Abolição, Proclamação, Chica da Silva. E o coitado do crioulo tendo que aprender tudo para o enredo da escola. Até que no ano passado escolheram o enredo complicado: “a atual conjuntura”. Aí o crioulo endoidou de vez. E aí saiu este samba”.

Segundo os registros que me pareceram mais confiáveis, estaria em vigor desde a década de 30 certo (ou incerto, visto que não encontrei o danado) decreto getulista que determinava que os Sambas-Enredo das Escolas de Samba tivessem por tema a História do Brasil. Daí surgiu a expressão “Samba do Crioulo Doido”, quando nos temas – por vezes – algumas Escolas teriam enfiado os pés pelas mãos em termos historiográficos.

Sérgio Porto morreu no mesmo ano do lançamento dessa sua música, mas antes do AI5, que instaurou o regime de exceção e tornou óbvio o regime ditatorial. Não obstante, já em 1966 o dublê de jornalista e satirista criou o FEBEAPÁ – Festival de Besteiras que Assola o País, que, com jeitão de noticiário sério, ironizava e criticava o regime militar. Em um dos FEBEAPÁ’s noticiou a decisão militar de mandar prender Sófocles, pois certa peça de sua autoria, encenada à época, seria “subversiva”.

Há quem afirme post mortem que Ponte Preta fizera o samba (seu único) em protesto contra a ditadura militar, o que estaria óbvio não nas entrelinhas do samba, mas por conta da frase de abertura do pândego de plantão.

Como explicita o Gil, Cosi è (se vi pare); ou A chacun sa verité; ou a Chacon – porque consta, ou ao menos parece, que Lélia é quem tem sempre razão.

Assim, sem outros prolegômenos, vai a letra do Samba-Enredo Maior

Samba do Crioulo Doído, de Stanislaw Ponte Preta (Sérgio Marcus Rangel Porto)

Foi em Diamantina / Onde nasceu JK
Que a princesa Leopoldina / Arresolveu se
Mas Chica da Silva / Tinha outros pretendentes
E obrigou a princesa / A se casar com Tiradentes
Lá iá lá iá lá ia / O bode que deu vou te contar (bis)
Joaquim José / Que também é
Da Silva Xavier / Queria ser dono do mundo
E se elegeu Pedro II
Das estradas de Minas / Seguiu pra São Paulo
E falou com Anchieta / O vigário dos índios
Aliou-se a Dom Pedro / E acabou com a falseta
Da união deles dois / Ficou resolvida a questão
E foi proclamada a escravidão/E foi proclamada a escravidão
Assim se conta essa história/Que é dos dois a maior glória.
Leopoldina virou trem / E D. Pedro é uma estação também
O, ô , ô, ô, ô, ô / O trem tá atrasado ou já passou (bis)

…. E, doido ou não, carnaval só ano que vem. O resto é micareta.

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