A pesca submarina e a fauna marinha

julho 12, 2010 · Posted in Cidadania, Sustentabilidade 

por Dick Treacher

Sou do tempo em que passava na TV o seriado Aventuras Submarinas, com Lloyd Bridges no papel do mergulhador/herói que defendia o bem contra o mal, lutando contra saqueadores, piratas e predadores. Bem, isso é passado.

Hoje, vivemos um tempo em que muita gente aparenta defender o meio ambiente e finge entender o que é sustentabilidade. No entanto, esse conhecimento é apenas superficial, de leitura de jornais, gera “frisson” e palestras no melhor estilo de “me engana que eu gosto”. O mal desses “entendidos” é que não sabem nada, mas repetem chavões que ouviram aqui e ali.

Para esclarecer algumas das questões ligadas ao tema, nosso Fio Do Bigode conta com o sólido conhecimento (da vivência) de Dick Treacher, amante do mar, da pesca e da Ilha Bela, não necessariamente nessa ordem.

Dick pratica pesca submarina há décadas, respeitando o meio ambiente, desde quando ainda não era moda reclamar de pesca predatória, poluição ou falar de práticas sustentáveis.

Alguém pode duvidar de que um pescador submarino seja “profundo” conhecedor do tema? Então, com vocês, Dick Treacher.

A Redação


De tempos em tempos e cada vez com maior freqüência, a pesca submarina vira alvo daqueles que se dizem defensores do meio ambiente.

Os variados ataques a esta modalidade esportiva têm sempre um ponto comum: equívocos, desinformações, parcialidade e preconceitos.

Para os que não conhecem, é importante informar que a pesca submarina é praticada em meio hostil ao homem, sem o auxílio de aparelhos de respiração subaquática e em profundidades que raramente ultrapassam os 25m.

Só isso já bastaria para evidenciar a pouca influência que esta prática exerce nos oceanos de profundezas abissais ou mesmo na lâmina d’água da plataforma continental, geralmente de 200m.

Há ainda toda uma regulamentação quanto ao tamanho mínimo de espécies, épocas de defeso, limitação de captura, além de áreas de preservação demarcadas.

Há também as limitações impostas pela natureza relativas às condições climáticas e de visibilidade da água, tornando a pesca submarina um esporte muitas vezes impossível de ser praticado em nosso litoral.

Mas, o mais importante é que há um Código de Ética informal entre os praticantes que, com muito zelo ao meio ambiente, denunciam os praticantes inescrupulosos, bem como orientam os principiantes quanto às espécies comestíveis e ao tamanho mínimo de cada uma. É aí que reside o principal diferencial entre a pesca sub e as demais modalidades: o praticante escolhe o peixe a ser capturado. Não mata a esmo para depois separar o que serve. É uma pesca seletiva.

Com relação à parcialidade com que ocorrem os ataques à pesca submarina, seria muito esclarecedor que se fizesse uma comparação com outras modalidades artesanais ou comerciais.

O “cerco” caiçara, originário dos indígenas, é uma espécie de labirinto formado por redes em que os peixes e outros animais entram e não conseguem sair, ficando presos nas malhas das redes. Estes artefatos são também um perigo para a navegação. É muito comum vermos tartarugas, santolas e várias espécies de peixes não comestíveis, mortos por afogamento ou de fome nestas armadilhas.

As “parelhas” de barcos pesqueiros comerciais, com redes camaroeiras na chamada pesca de arrasto, são talvez os maiores predadores e atuam impunemente. Fala-se, entre os caiçaras, em desperdício de mais de 90% do peso de espécies capturadas pelos arrastões, para depois selecionar os camarões e jogar fora, já mortos, os filhotes de dezenas de espécies de peixes. Isso sem contar os estragos nas estruturas do fundo do mar, geralmente em locais lodosos, onde diversas outras espécies procriam.

Há ainda as criminosas práticas de pesca com explosivos e captura de lagostas com compressores.

É estranho, mas nunca vi os ambientalistas protestarem nas peixarias espalhadas pelo país afora que põem à venda uma infinidade de filhotes de garoupas, robalos, badejos, linguados, enchovas e lagostas, para citar apenas algumas espécies, todos os dias do ano, faça chuva ou faça sol.

Mas, contra os pescadores submarinos eles estão sempre lá, protestando, esbravejando, escrevendo e, pior ainda, pressionando o Legislativo a criar dispositivos legais para restringir cada vez mais, discriminadamente, apenas a Pesca Sub.

Puro preconceito, talvez pelo fato de a pesca sub ter sido considerada um “esporte de elite”, logo que foi introduzida no Brasil por volta de 1955. Hoje em dia, é praticada por muitos habitantes das comunidades caiçaras que já perceberam os malefícios das modalidades utilizadas por seus antepassados, nada tendo portanto de elitista.

Os leitores podem ter certeza absoluta de que os pescadores submarinos, juntamente com os praticantes da pesca esportiva, são muito mais preservacionistas do que quaisquer outros pescadores e, principalmente, do que os novos e desinformados ambientalistas, que por falta de conhecimento pretendem proibir tudo.

Obviamente, os praticantes que não seguem os preceitos da boa técnica e do jogo limpo devem ser rigorosamente punidos, assim como todos os trapaceiros de quaisquer outras modalidades esportivas.

Sou testemunha presencial das transformações ocorridas nos últimos 50 anos no fundo do mar na costa de Ilhabela, voltada para o canal de São Sebastião: as tariobas e berbigões sumiram dos baixios da Siriúba e da Barra Velha. Os praguarís sumiram do fundo das baías nas praias do Perequê, Itaguassú e Itaquanduba, onde uma camada de barro cobriu a areia original. Os caranguejos sumiram dos mangues. Também os mangues foram aterrados. Diversos crustáceos de fundo como as tamarutacas e uma infinidade de pequenos peixes e moluscos da mesma forma, desapareceram. Cardumes de sardinhas e de tainhas raramente são vistos, e uma espécie de limo esverdeado tomou conta das pedras na faixa da arrebentação.

As causas de tudo isso?

O assoreamento do canal, a poluição dos rios e córregos, a ocupação urbana irregular e desordenada que continua ocorrendo e a destruição dos mangues, além das modalidades de pesca predatória já mencionadas. Tudo, menos a pesca sub.

Portanto, ao mesmo tempo em que elogiamos a preocupação dos ambientalistas com a preservação do litoral, ficamos ansiosos para vê-los atuantes nas reais causas da diminuição do volume e da diversidade da nossa fauna marinha.

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