O mundo nas mãos

julho 6, 2010 · Posted in Esporte, Humor 

por Pedro Sampaio

Copa do Mundo acontece de tudo. Não adianta fazer ar indiferente. É um momento único em que muita coisa estranha faz a gente torcer, delirar, depois raciocinar. Nessa Copa, houve de tudo.  Mas na minha opinião, nenhuma das coisas que aconteceu é tão emblemática do que a mão do Suárez, do Uruguai, evitando o gol de Gana, no último segundo da prorrogação. Infração escandalosa, na frente de milhões de pessoas, punida com expulsão. No entanto, salvou o Uruguai, que depois ganhou nos pênaltis. A infração à lei ganhou. Mas a pergunta fica, quem naquela hora não colocaria a mão?

Não sei não, mas acho que todo o mundo colocaria a mão. O Dunga com certeza. No nosso time, o Lúcio, atleta de Cristo, numa emergência dessa ordem, colocaria a mão. O Juan, nosso melhor jogador, verdadeiro cavalheiro, não teria dúvida, pois já estendeu sua mão na hora do fogo. O Felipe Melo, bem, nem pensar, colocaria os travos da chuteira. Mas não dando, daria um soco na bola.

Jogadores de qualquer outro time não teriam dúvidas. Colocariam a mão na bola em cima da linha para salvar o time. Os beques da Holanda iriam direto com a mão. Os da Argentina, sem nenhuma hesitação, pois já têm tradição nesse costume. Os da Inglaterra, ao invés do retorno inglório, tacariam a mão. Os da França, já puseram a mão por muito menos. Os australianos, acostumados com o Rugby, não teriam dificuldade em agarrar com a mão. Os japoneses, bons no Karatê, dariam um golpe com a mão. Também os jogadores de Camarões. Os dos EUA, não pestanejariam. Poriam a mão. Pensando bem, até os jogadores de Gana colocariam a mão para salvar o time no último segundo da prorrogação.

Todos colocariam a mão. O Lula, nosso presidente, não teria nada a perder. Poria a mão. Sua candidata, a Dilma, sempre querendo copiar o Lula, tacaria a mão. O seu opositor, Serra, tentaria ser engraçado, mas não iria titubear. Desengonçadamente estenderia a mão. A Marina da Silva, falaria na necessidade de defender os gramados nos campos de futebol judiados, mas rezando um terço, colocaria a mão.

O Galvão Bueno poria a mão. O Casagrande, nosso melhor comentarista, sóbrio ou não, colocaria a mão. O Milton Leite, melhor narrador da Copa, logo esticaria a mão para depois soltar um “Que Beleza”.  O Trajano, na ESPN, com seu mau humor, não teria porque pensar. Mão. O Xico Sá, o melhor cronista de futebol nos jornais, tiraria um sarro, falaria das mulheres, mas na hora H poria a mão. Mesmo o Tostão, o maior de todos, dissertaria sobre a alma humana, mas discretamente estenderia a mão.

Todos o fariam naquela hora. Nelson Mandela, o grande líder da África do Sul, sem nenhum pudor, salvaria com a mão em cima da linha. Obama, se pudesse resolver os conflitos mundiais com um truque de mão, não iria vacilar. Mão. Ghandi, o grande líder da não violência, que começou como advogado na África do Sul, não pensaria duas vezes. No último segundo da prorrogação, pacificamente salvaria com a mão.

Mas não apenas líderes mundiais impediriam o gol com a mão. Grandes filósofos agiriam da mesma forma. Aristóteles consideraria de grande equidade estender a mão naquele momento para impedir uma enorme injustiça. Descartes concluiria ser de lógica cartesiana evitar a derrota com a mão. Karl Marx observaria estar ali, naquela mão, a possibilidade de emancipação da classe operária. Freud veria na mão, no último minuto, a libertação da sexualidade reprimida.

Maomé encontraria no Alcorão passagens recomendando a mão para impedir que a bola ultrapassasse a linha fatal. Buda, se não conseguisse parar a bola com meditação, logo estenderia a mão. Jesus Cristo tentaria um milagre, mas se falhasse, trataria de objetivamente colocar a mão.

O Antonio, o José, a Maria, o Flávio, o Pedro, o Roberto, a Cristina, a Marta, todos nós faríamos a mesma defesa com a mão que o Suárez fez, salvando o gol no último segundo. Na hora que a casa está prestes a desmoronar, que tudo está a perder, não teríamos dúvida em cometer uma infração, uma violação à lei, escancaradamente, na frente de todos. E se desse certo, como deu com Suárez, iríamos vibrar como loucos, orgulhosos de nossa infração, que transformou uma derrota certa numa vitória épica.

É mesmo muito esquisito o ser humano.

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