Na contramão: educação separada por gênero

fevereiro 6, 2010 · Posted in Educação 

por Lélia Lyra

Fio Do Bigode dá as boas vindas à bloguista convidada Lélia Lyra. Lélia tem tratado em sua coluna sobre educação no jornal Brasil Econômico de várias questões importantes, desde boas iniciativas até iniciativas que parecem boas mas não são.

Sua última coluna para o jornal traz uma das tantas decisões erradas com cara de certas que podem ser chamadas de “me engana que eu gosto”.

Mande ver Lélia!

A escola reflete e muitas vezes até reforça comportamentos discriminatórios como o de gênero. Caberia a ela, ao contrário, abrir espaço para a convivência e o debate de valores, com os quais se pode desconstruir, ampliar ou mudar modelos culturais ultrapassados. Como os que ainda vigoram para os papéis de homem e de mulher: ele provedor, protetor, agressivo; ela submissa, obediente, objeto sexual, voltada para os cuidados do lar e dos filhos. Isso desde que a escola se proponha a abrigar a diversidade, com todos os seus desafios. Mas há quem prefira segregar, promover delimitações em nome da defesa de direitos, caso do Grupo E-Jovem, rede nacional de coletivos gays, que lançou recentemente a Escola Jovem LGBT, em Campinas (SP), para oferecer formação na cultura LGBT (lésbicas, gays, transexuais etc.).

Parece piada, mas é assim que o grupo imagina contribuir para “um mundo em que todos se respeitem, livre de preconceitos”. E o detalhe que torna a piada trágica: o projeto tem apoio financeiro por meio de convênio entre o governo paulista e o federal. Foi uma das propostas selecionadas em edital público destinado a incentivar a educação e a arte. Mas há outras idéias incríveis para o poder público impulsionar com incentivos. No fim do ano passado, em um seminário sobre educação em Curitiba (PR), realizado pelo Instituto de Ensino e Fomento (IEF) e pela Associação de Educação Personalizada (AEP), o médico e professor de Ética e Psicologia da Adolescência e Infância Leonardo Amaya, que vive na Colômbia, defendeu a criação de escolas separadas para meninos e para meninas como tendência contemporânea e estratégia inovadora para o melhor desempenho escolar.

Ao jornal paranaense Gazeta do Povo, Amaya explicou que diferenças neurológicas entre meninos e meninas são responsáveis por uma defasagem de cerca de dois anos no amadurecimento deles em relação ao delas. Uma menina de 14 anos teria seu desenvolvimento e aprendizado potencializados se convivesse apenas com meninas de 14 anos na escola. A diferença biológica produz interesses peculiares que, na opinião de Amaya, não são considerados no colégio misto, fazendo com que um conteúdo seja desinteressante para a menina ou seja apresentado ao garoto antes de ele ter maturidade para compreendê-lo.

O professor chama a atenção para as condições de gênero apenas com a intenção de que se alcancem melhores resultados acadêmicos e de desenvolvimento individual. Dois exemplos brasileiros satisfazem sua tese. O Colégio São Bento, no Rio de Janeiro, só para meninos, por colocar a maioria de seus estudantes nas melhores universidades. Em sua página na Internet, a instituição ressalta que “os espaços são criados para que os alunos descubram novas possibilidades de encontro com o próximo, o outro diferente”. Só para meninas, a Escola Doméstica de Natal, fundada em 1914, oferece cursos de culinária, puericultura, economia doméstica, entre outros, que qualificaram esposas no passado e hoje são apresentados no contexto de conciliar carreira e família. Quanto discurso! Essas escolas não seriam ainda melhores com a heterogeneidade sexual, de maturidade, de conhecimentos, de classes sociais, de raças, etnias? Positivas para o desenvolvimento e a inovação são as diferenças.

Comments

Leave a Reply