Programa de índio

novembro 8, 2009 · Posted in Humor 

por Beto Lyra

Muito antigamente, ao se falar de passeios “saias-justas” ou completamente sem-graça, empregavam-se expressões como “chato”, “cacete” e “um porre”. Depois, mais para os anos 1970, vingou a expressão “programa de índio”.

Não é difícil imaginar a origem de tal expressão, já que os índios sempre viveram no meio do mato, sem o conforto a que estamos habituados. Assim, ao se fazer um passeio com algum sofrimento, aborrecimento ou com algo que acaba dando errado, o diagnóstico fatalmente é:  “programa de índio”!

Pretendia fazer uma longa e profunda pesquisa sobre o entendimento popular sobre o assunto, mas a tarefa me pareceu o próprio “programa de índio”. Portanto, fiz apenas um rápido levantamento que me revelou que esse assunto também é controverso, já que nem todos o entendem como uma coisa ruim.

É verdade que as pessoas que já tiveram de esperar horas para embarcar em viagens aéreas, que tiveram o carro quebrado ao voltar de uma visita à sogra (se fosse na ida não ficariam tão chateadas) ou que foram acampar e acabaram surpreendidas por um dos erros comuns das previsões de tempo são unânimes em atribuir a situações como essas a sensação de “programa de índio”. Aliás, os adeptos dessa corrente, com uma ironia bancária ou hoteleira, não sei bem, passaram a classificar tais programas em quantidade de flechas, para deixar bem clara a hierarquia de seu dissabor.  Um programa chato seria “1 flecha” e um extremamente aborrecido ganharia a nota máxima de “5 flechas”. A associação com os índios se estendeu também a hospedagens horríveis: hotel 5 esteiras…

No entanto, mais de uma voz se levantou para dizer que se viver próximo à natureza, não trabalhar oito horas por dia, não ter contas a pagar e fazer indiozinhos na rede for “programa de índio”, então gostariam de trocar suas vidas atuais por essas atividades dos silvícolas.

Sempre compreendi perfeitamente a ambivalência da questão e não tinha um juízo definitivo sobre isso até que me deparei com uma matéria tratando de covarde ataque contra um pobre pato. Aconteceu nos Estados Unidos, onde tal ave levou cinco flechadas de um sujeito que era uma besta, digo, usava uma besta.

Desde então para não mais correr riscos desnecessários, passei a ser um pouco mais seletivo com as “flechas” dos convites ou programações em que não conheço a fundo os organizadores. Não quero pagar o pato!

Para que não fiquem muito chateados, o pato foi operado e passa bem.

Comments

Leave a Reply