Minas: esquadrão literário X engodo musical

outubro 6, 2009 · Posted in Artes, Literatura, Música 

por Beto Lyra

A questão é polêmica, eu sei. Mas se eu abordei, em outro post, a Ditadura Baiana que nos tortura constantemente, como não falar um pouco do sofrimento que nos é imposto pelos irmãos músicos mineiros?

Aliás, há diversas questões dos mineiros que não entendo como é que acontecem. A primeira delas diz respeito à Inconfidência Mineira, fato histórico, que marcou a posição de revolta dos residentes no Brasil contra a Coroa. Isso eu entendo claramente. O que não consegui jamais entender é porque os mineiros ficam orgulhosos em serem chamados de Inconfidentes. Ora, inconfidente quer dizer não digno de confiança, inconfiável. Assim, me pareceria mais adequado qualquer outro nome como “revoltosos”, “anti-Coroa” “contra-impostos” ou “social-democrata” (êpa, essa foi demais, desculpem).

A segunda questão é que mineiro, apesar do jeitinho tímido, humilde e matuto, é corajoso e arrojado, orgulhoso, hábil e esperto. Tão esperto e hábil que apesar de o estado nunca ter sido considerado da região nordeste do Brasil, usufruiu das benesses da Sudene, antigo órgão do governo federal responsável por programas que despejavam recursos na recuperação dos estados … nordestinos.

Quero respeitosamente reverenciar o esquadrão literário mineiro, cujos expoentes máximos Guimarães Rosa e Carlos Drummond de Andrade estão muito bem secundados por Otto Lara Resende, Rubem Fonseca, Affonso Romano de Sant’Anna, Paulo Mendes Campos, Adélia Prado, Fernando Sabino e ia me esquecendo de Hélio Pellegrino, que é até nome de rua em São Paulo.

Bem, mas voltemos ao campo musical. Foi-se o tempo em que a música feita e tocada no Brasil tinha cor e gosto de café com leite. Milton Nascimento e Chico Buarque, por exemplo, fizeram uma dobradinha incrível, com clássicos como “Cálice”, “O que será (à flor da pele) e “Cio da Terra”, mas a dupla parou cedo. Milton, justiça seja feita, fez discos magistrais, entre um porre e outro, nos áureos tempos. Nos últimos quinze anos, no entanto, só desovou músicas de segunda, aliado àquele grupo mineiro de enganadores, como Fernando Brandt, Beto Guedes, Lô Borges e seu irmão Marcio, Tavinho Moura, Toninho Horta e Flavio Venturini. Volta e meia escuto na rádio alguma música de um desses compositores/cantores e a vontade é trocar imediatamente pela “Hora do Brasil”, que pelo menos dá pra dar risada.

Milton Nascimento parece mineiro, e se fez passar por mineiro a vida inteira, deu até as sílabas iniciais de seu nome a um disco “Minas”, afirmando ser sua raiz de verdade. Mas ele nasceu no Rio. Seu pai era dono de uma estação de rádio e assim ele respirou o mundo artístico desde pequeno. Cresceu em Três Pontas, fez bela carreira, lindos discos, carregou esse grupo de enganadores nas costas, mas cansou e esqueceu de parar, aposentar, pendurar chuteiras. Quase como Romário, que foi enganar na 2ª divisão dos EUA, no Tupy de Minas e na Austrália, pra tentar ganhar algum dinheiro e chegar a 1.000 gols. Uma vergonha!

Por causa de Milton tivemos que aguentar aquelas torturantes ladainhas nas duplas que inventava com Mercedes Sosa, Violeta Parra e Victor Jara. Tenho quase certeza que os golpes militares pararam na América Latina (Honduras é a exceção que confirma a regra) pois ninguém mais quer ter que escutar canções de protesto com a trinca acima. Nem os militares, é lógico.

Mas volta e meia Milton reaparece, para tristeza dos que gostavam dele e infortúnio de todos que o assistem. Agora está reduzido a uma figura que eu me atreveria até a comparar àquela fumacinha aterrorizante que aparece de quando em vez na série Lost.

Comments

Leave a Reply