Ídolos, heróis e mansos de espírito

outubro 13, 2009 · Posted in Esporte 

por Beto Lyra

No post “Heróis em preto e branco”, contei sobre minha experiência com futebol e sobre aqueles que considero grandes personagens. Um deles, herói de todo brasileiro, foi e ainda é Pelé. Reverenciado como Rei, foi um jogador de futebol único, inigualável, o maior de todos. Não há e nem nunca houve alguém que pudesse rivalizar com ele. Todos os grandes jogadores do mundo reconhecem, como leais súditos, o verdadeiro Rei. Há uma única exceção, o argentino Maradona, ótimo jogador de futebol, mas sempre uma figura histriônica, cujos dois grandes momentos, que ele mesmo se orgulha de contar, foram o gol de mão contra a Inglaterra, na Copa de 1986, no México, e depois o episódio da tal água “batizada” com tranquilizantes, que ele e companheiros da seleção argentina ofereceram aos brasileiros em jogo da Copa de 1990, na Itália. Dá pra ser herói assim?

Lembro bem das transmissões ao vivo de jogos pela TV, em que um dos maiores locutores esportivos, Mario Moraes, narrava os  lances do jogo chamando todos os jogadores pelos nomes e, no caso de Pelé, como justo reconhecimento à sua nobreza, apenas empregava um simples e sonoro, porém majestoso, “Ele”.

Li no excelente e oportuno post do Caio “Ídolos (argh)”, que ele considera Pelé um caso único de herói de verdade, apesar de politicamente correto. Acrescento apenas que vejo o Pelé herói da mesma maneira que os antigos gregos viam seus deuses heróis: como personagens capazes de verdadeiras façanhas, mas sempre com suas fraquezas expostas, fraquezas estas que os levavam a cometer erros humanos, a vacilarem, a ponto de serem até mesmo derrotados.

Assim, ao lado da face boazinha, correta, temente a Deus, Pelé teve suas fraquezas plenamente humanas, tanto nos campos de futebol quanto em sua vida privada.

Pelé nunca foi santo. Como dizia Mario Filho, em seu livro “O negro no futebol brasileiro”, ao contrário da maioria dos jogadores da época — Garrincha inclusive –, que apanhavam e ficavam quietos, Pelé reagia. Depois de uma falta, levantava e olhava seu adversário fundo nos olhos e revidava quase sempre. Ele machucou intencionalmente vários adversários ao revidar lances maldosos. Assim, quebrou a perna de seu implacável marcador Procópio, distribuiu cotoveladas, como aquela inesquecível no rosto de um uruguaio na Copa de 1970 que tentava pegá-lo, por trás, para matar um ataque brasileiro. Pelé foi soberano também na maldade. Uma maldade humana, para se defender.

Na vida pessoal dizem que não foi marido fiel, que teve problemas com a educação dos filhos e que, nos negócios, sempre esteve cercado por gente duvidosa. Enfim, uma pessoa de carne e osso, como todos nós e foi isso que fez dele o maior herói de todos, porque ninguém gosta de gente “maravilhosamente boa, sem defeitos, como Xuxa, a única humana a gerar virgem seu próprio filho, e Roberto Carlos, que mantém, em todos os shows que dá, um lugar vago na platéia para a esposa que morreu há anos.

Lembro de um grande filme, Lendas da Paixão (Legends of the fall), de 1994, com Anthony Hopkins, Brad Pitt e Aidan Quinn. Pitt e Quinn eram irmãos totalmente diferentes. O primeiro era aventureiro, humano e errado. O segundo era perfeitinho e morria de inveja de Pitt, que recebia atenções e olhares mais carinhosos das mulheres e do velho pai, Hopkins. No auge de uma das brigas familiares, Quinn pergunta: “Por que não mereço a mesma atenção que meu irmão recebe, se faço tudo direito, se sou bom marido, se cumpro todas as minhas obrigações e ele não?” A resposta do pai é a única possível de ser dada a alguém que não consegue entender a vida: o silêncio.

Só os mansos de espírito se contentam com a fantasiosa pureza interpretada pelos mestres do fingimento. Como nunca me enquadrei nesse grupo, sempre torci pela Paula contra Hortência, pela Luiza Brunet contra a virgem Xuxa, pelo Piquet pai contra o virgem Senna, pelo Erasmo Carlos contra o “rei” da Jovem Guarda.

Para finalizar, recomendo o documentário sobre Waldick Soriano, feito com brilho por Patrícia Pillar, que mostra o quão humano foi o politicamente incorreto cantor, ídolo de milhões de outros humanos.

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