Furo de notícia: o revolucionário Mercado de Crédito de Silêncio

julho 8, 2011 · Posted in Cidadania, Sustentabilidade · 8 Comments 

por Beto Lyra

Já escrevi aqui no Fio Do Bigode sobre vizinhos barulhentos. Mas, justiça seja feita, não é a vizinhança que é barulhenta, o mundo é que ficou barulhento.

Tive um professor no colegial que quando a classe pegava fogo, com conversas e alguma algazarra, gritava: “Ô irmão, não deixe o silêncio incomodar o barulho”. Homem de visão ou apenas um professor desesperado? Nunca soube definir.

O fato é que as cidades estão se adaptando ao contínuo crescimento do barulho. Como todos sabem, barulho em excesso impede o raciocínio normal das pessoas, desequilibrando-as e levando-as ao stress. Fábricas com barulho excessivo em sua produção, por exemplo, têm obrigatório o uso de equipamentos protetores (EPIs) para seus funcionários. Nos antigos pregões de bolsas, o nível de ruído era tão intenso que por inúmeras vezes o sindicato de operadores  (aqueles que ficavam gritando e ouvindo ordens de compra e venda) exigiu da Bovespa e da BM&F a adoção de medidas para a redução dos decibéis produzidos nas negociações de viva-voz.

Na área de lazer, os exemplos mais marcantes talvez sejam o de bares, que têm mesas na rua, e das baladas, que avançam pela madrugada adentro, impedindo, em muitos casos, o sono da vizinhança. E os aeroportos e rotas de aviões? Enfim, um inferno!

Mas, como diria o seu Creysson, “agora, o seus pobrema acabaram!” pois, com o lançamento ainda neste ano do “Mercado de Crédito de Silêncio”, empresas que em seu funcionamento normal produzem muito barulho poderão comprar créditos de silêncio de quem produzir ou trabalhar sem emitir qualquer ruído. Uma coisa compensa a outra. Fantástico não?

Por exemplo: digamos que você tenha uma construtora e esteja iniciando uma obra em um bairro bastante populoso e razoavelmente tranquilo até antes da chegada de sua empresa. Estamos na fase do bate-estaca, fazer o quê? Os vizinhos vão ao desespero e chegam a ficar com saudades daquelas manhãs de domingo em que um deles resolvia usar sua WAP para lavar carros e varrer com água a calçada. Em pouco tempo, xingam sua mãe enquanto você vistoria a obra, marcaram um pagode em frente de sua casa, e já querem te processar.

Mas agora, com o novo Mercado, sua empresa pode adquirir nas bolsas alguns créditos de silêncio de uma fábrica de computadores. Podem ser também de grandes escritórios de advocacia ou de contabilidade, preferencialmente no estado de Minas Gerais, afinal mineiros trabalham em silêncio. Uma das justificativas para a criação desse revolucionário mercado, é que ele incentivará o surgimento de novas atividades econômicas de baixo ou nenhum ruído, já que a receita obtida pela venda desses créditos nas bolsas se tornarão altamente atraentes.

Enfim, eis mais uma nobre contribuição do criativo, eficiente e sofisticado mercado financeiro para a solução de intrincados problemas da vida cotidiana.

Atentos como sempre a oportunidades de ganhos (da população, claro), os prefeitos e vereadores das cidades, principalmente daquelas com perfil industrial, estão em êxtase, pensando em como faturar um extra com o novo negócio. Alguns, menos criativos, pensam em instituir uma “Taxa do Silêncio”, que seria cobrada tanto do barulhento como também do silencioso. Do barulhento, porque está impondo à comunidade stress que produzirá afastamentos do trabalho, enlouquecimento de donas de casa e prejuízo aos estudos de alunos em geral. Isso gera custos de tratamentos, queda na produção e por consequencia menor arrecadação de impostos. Para os políticos, a nova taxa viria compensar tudo isso. Do silencioso, porque como este vai gerar uma renda nova, beneficiando a União com mais IR, o município também vai querer uma fatia dessa nova fonte de recursos.

Mas nada supera em criatividade a campanha política de um grupo de deputados que já pensa em realizar comícios sem microfones e sem aqueles infernais shows de pangarés country. Sacaram? Comícios silenciosos, cujo resultado (a ausência de barulho) poderá ser vendido em bolsa, no sofisticado Mercado de Crédito de Silêncio, rendendo uma grana a mais para a campanha.

Bem, você que pacientemente acompanhou esse extravagante furo noticioso do Fio Do Bigode, já deve ter sacado há muito tempo que esta bobageira escrita até aqui era apenas para ilustrar o seguinte: tal como este fictício Mercado de Crédito de Silêncio, o recém criado Mercado de Crédito de Carbono é um conto de Papai Noel, só que com justificativa econômica e muito dinheiro em marketing. Ou alguém acredita de verdade que empresas poluidoras — como as petrolíferas por exemplo –, só pelo fato de comprarem créditos de carbono de empresas que plantam árvores, diminuem ou eliminam os danos à natureza? Você acha que essas latinhas de alumínio, que em sua fabricação consomem enormes hidrelétricas, podem fazer bem ao meioambiente só porque suas fabricantes compram uns títulos em bolsa?

Se a nossa resposta for SIM a ambas as perguntas, podemos ficar olhando para a chaminé até dezembro, afinal somos crianças obedientes.