Páginas saborosas em Nova York

abril 30, 2010 · Posted in Gastronomia · Comment 

por Ana Franco

Ana tem inúmeras qualidades: é chef de cozinha, dona de buffet badalado, sampaulina e minha prima. Não sei ao certo, qual a ordem correta de importância dessa enorme qualificação, mas sei que escreve com competência e prazer sobre gastronomia.

A partir de agora, Ana frequentará esse espaço reservado a seleto grupo de bloguistas que têm em comum o prazer de degustar pratos e bebidas, sempre com humor.

Particularmente, sempre gostei de livros, ainda mais desses bonitos de gastronomia. Tenho certeza que também gostarão.

Senhores e senhoras, apurem seus Bigodes, com vocês, o post DIET de Ana Franco.

Beto Lyra


Quem gosta de cozinhar e de comer bem geralmente também gosta de livros sobre o assunto, né?

Outro dia mesmo, minha amiga Camila postou no Twitter que sofre de CCLG: Consumo Compulsivo de Livros de Gastronomia. Também sofro muito desse mal. Já tinha sido acometida por esta síndrome antes mesmo de me tornar cozinheira, quando ainda era apenas comilona.

Sou o tipo de pessoa que quando entra numa livraria não consegue sair com 1 livro só. É compulsão mesmo. Tenho que comprar pelo menos três.

Existia aqui em Sampa a  livraria Mille Foglie , especializada em gastronomia, empreendimento da querida Gabriela Mascioli. Aberta em dezembro de 2002 foi, durante alguns anos, o verdadeiro banquete de palavras dos amantes das Artes Culinárias. A linda fachada decorada com placas de cobre ainda continua lá, provocando uma pontada no coração dos órfãos que deixou.

Gabi foi nossa professora de Turismo Gastronômico e atribui o fechamento da loja à falta de público necessário para manter vivo um negócio tão nichado como esse. Eu particularmente acho que hoje o cenário seria diferente. O número de interessados por esse tipo de publicação cresce a cada dia e esse fato é facilmente comprovado pelo volume de títulos lançados a cada mês e pela quantidade de cursos livres, profissionalizantes e universitários que pululam por todo país.

Felizmente, para quem tem a oportunidade de viajar, Nova York parece ter nascido uma cidade feita de nichos. E lá você encontra a sensacional Kitchen Arts & Letters.

Com mais de 25 anos de existência e cerca de 13 mil títulos, a Kitchen Arts nasceu da vontade de Nach Waxman  de ter uma livraria especializada. A dúvida era se o negócio seria sobre esportes ou gastronomia. Para nossa sorte ele optou pela última.

Quando estive por lá, conversei longamente com Matt Sartwell , ex-editor que desgostoso e infeliz com as pressões do mercado editorial resolveu mudar de lado e há 15 anos gerencia a loja.

O lugar é bem pequeno e os mais de 13 mil títulos não têm espaço suficiente para ficarem todos expostos. Minha dica é que você vá sabendo o que quer. Ou pelo menos que tipo de livro quer.

No meu caso, eu buscava livros de cultura gastronômica não específicos de nenhuma região ou país. Queria algo abrangente, que falasse do mundo todo. Matt mandou buscar dois títulos no depósito e seu tiro não poderia ter sido mais certeiro: You Eat What You Are e Hungry Planet serão fundamentais no trabalho que estou desenvolvendo.

Além dos livros você encontra as revistas mais conceituadas da área como a Gastronomica e a Apicius, além de lindos posteres e cartões.

A Kitchen Arts & Letters aceita encomendas pelo site e por e-mail, procura livros difíceis de achar e ainda despacha para o mundo inteiro.

Vai lá:
Kitchen Arts & Letters
1435 Lexington Avenue, New York, NY, 10128
(212) 876.5550
www.kitchenartsandletters.com

(*) “Páginas saborosas em Nova York” foi originalmente publicado no blog “Cozinha de Idéias”

Viúvas de Pelé ou feijão maravilha!

abril 25, 2010 · Posted in Esporte · Comment 

por Beto Lyra

Escrevo sobre as viúvas de Pelé, por anos tristes e humildes santistas, que agora voltam a ficar alegrinhos, como eram quarenta anos atrás. Via de regra, santista não pode ficar alegrinho, pois aí fica metido.

Lembro claramente de uma manhã em que, ao chegar no escritório, após o São Paulo ganhar sua primeira Copa Libertadores, encontrei meu sócio santista, que antes mesmo de eu dizer algo disparou: “quando vocês forem bicampeões do mundo aí sim pode falar de futebol.” Quis o destino, e o mestre Telê Santana, que esse bicampeonato viesse rapidinho e meu (já então) ex-sócio enfiou a viola no saco.

Agora uma nova geração de torcedores santistas fica alegrinha com seu time de inúmeros talentos, jovens rápidos e habilidosos, que vai ganhar o torneio paulista no próximo domingo. Essa molecada já é endeusada pela torcida e pela imprensa, mas estão distantes anos-luz do Panteão dos grandes craques.

Mal acostumados, nem bem começaram a carreira e já exibem aquela criatividade moicana. Pedaladas, comemorações i-no-va-do-ras e, é claro, uma leve arrogância de alguns deles.

Isso sem falar no veterano Robinho, também conhecido por Bobinho pela gesticulação boboca em suas comemorações de gol. Ele, que foi pra Europa e voltou sem conseguir jogar bola, gosta de pedalar, fazer bonito para a arquibancada. Quando faz gol beija o anel, chupa o dedão e outras firulas en-gra-ça-das. Em seus últimos jogos, parece não estar em campo. Hoje, contra o Santo André, seu time começou perdendo por 1×0. No segundo tempo, o Santo André cansou (ou o Santos tem um fôlego do outro mundo?) e os moicanos decidiram o jogo fazendo três bonitos gols, enquanto ele permanecia apagado. Aí, com o jogo mais fácil, afinal o adversário estava com 10 em campo, Bobinho consegue dar um chapéu no marcador, só para se mostrar à torcida. Nenhuma objetividade, pois o lance deu em nada. Ah, deu sim: o Santo André fez seu segundo gol logo depois.

Muito bem, o Santos deve ganhar também o segundo jogo da final e, depois de campeão,  a imprensa unanimemente exigirá Neymar, um dos moicanos, e talvez mais um ou outro moleque na seleção. Comparações com o antigo Santos surgirão a rodo. As viúvas de Pelé voltarão a sorrir, mas convenhamos, essa molecada tem que comer muito feijão antes de chegar a algum lugar mais alto.

Velho Mundo vs. Novo Mundo, o filme

abril 18, 2010 · Posted in Cinema, Lazer · Comment 

por Beto Lyra

No post Velho Mundo vs. Novo Mundo, Pedrão contou um pouco sobre o reconhecimento mundial ao vinho californiano e o surgimento da grande rivalidade entre produtores norte-americanos e franceses.

Com isso, acabei me lembrando de que no ano passado assisti pela primeira vez a “Bottle Shock”, filme baseado em fatos reais, que retrata os tempos iniciais da indústria do vinho na Califórnia, na década de 1970, principalmente a famosa competição entre os vinhos do velho e do novo mundo, idealizada e feita por Steven Spurrier, um comerciante de vinhos francês.

Foi em 1976 que Spurrier (Alan Rickman, o Prof. Severus, de Harry Potter), entediado e em apuros com o fraco nível dos negócios em sua loja de vinhos em Paris, foi até o Vale do Napa para identificar o que de melhor era produzido em termos de vinho para levá-los a Paris e submetê-los ao julgamento comparativo com os melhores da produção francesa, por um júri formado apenas por conhecedores franceses.

No Vale do Napa, visita vários produtores, entre eles Jim Barrett (Bill Pullman, de Independence Day), um ex-executivo que abandona tudo para investir no sonho de sua vida: tornar-se produtor de vinho.

Bem, daí que ele tem um filho, Bo (Chris Pine, o Capitão Kirk no recente Star Trek), com quem luta boxe para acertar desavenças cotidianas, este tem uma amiga que possui um bar, Eliza Dushku, que coordena um jogo de degustação com Gustavo Brambilla (Freddy Rodriguez, do seriado Sete Palmos), gerente do Chateau Montelena. Esse trio é o centro dos fatos que acabam determinando o destino dos Chardonnays da Califórnia. Há também Sam Fulton (Rachel Taylor), a amiga que gosta de Bo e Gustavo, mas não interfere na história.

Spurrier leva vinhos de 6 produtores para a tal degustação. Confrontados com 4 diferentes vinhos da Borgonha, até então os únicos de origem controlada, os californianos (das mesmas castas de uvas que os franceses) se dão melhor. Isso, é claro, você já sabia. O que talvez não soubesse é o que significa Bottle Shock.

Bottle Shock é o termo usado para se referir ao efeito que o engarrafamento tem sobre o vinho e é precisamente isso que dá origem ao destino desta história.

O filme merece ser visto preferencialmente acompanhado por um bom Chardonnay indicado, é claro, pelo degustador oficial do Fio Do Bigode, também conhecido por Pedrão.

Por fim, você pode tentar identificar no filme o verdadeiro Jim Barrett, proprietário do Chateau Montelena, que aparece como um dos produtores que fornecem amostras de vinhos para o concurso a Alan Rickman. Também o verdadeiro enólogo do Chateau, Mike Grgina, que foi o responsável pelo premiado Chardonnay Montelena 1973, aparece em várias cenas, inclusive na que Barrett prova uma amostra do vinho direto do barril.

Velho Mundo X Novo Mundo

abril 11, 2010 · Posted in Lazer · Comment 

por Pedro Sampaio

Engraçado como nessa vida tudo acaba virando discussão, debate, controvérsia. Parece que o ser humano gosta mesmo de polêmica. Vejam aqui nosso exemplo. Qualquer opinião, pronto, já vira discussão. Nada contra, pelo contrário, acho ótima uma boa disputa verbal ou escrita. Obedecendo a regras mínimas de civilidade, como não enfiar o dedo no olho ou não acertar golpe baixo, as polêmicas é que fazem as coisas andar para frente.

Até no mundo do vinho a polêmica está instalada. É a discussão sobre os vinhos no estilo do Velho Mundo ou vinhos no estilo do Novo Mundo. Velho Mundo, no caso, são os países europeus que têm tradição na produção de vinhos, como França, Itália, Portugal e Espanha. Já no Novo Mundo se enquadram tanto países da América, como EUA, Chile e Argentina, como países que na realidade foram berço da humanidade como Nova Zelândia, Austrália e África do Sul.

Muito se tem falado sobre as tendências do vinho moderno, se o gosto dos homens e mulheres nesse novo milênio é o mesmo de tempos passados. Lógico que não é uma discussão inocente e desinteressada. O vinho é um produto comercial e a competição no mercado mundial está cada vez mais acirrada. Apesar dos dados estatísticos não serem muito exatos, pois apontam para direções diversas, não precisa ser um grande conhecedor da matéria para concluir que o consumo de vinhos aumentou assustadoramente em todo o mundo. E a oferta no mercado também. A quantidade de opções para o consumidor é impressionante e compreende países que até há pouco tempo não tinham nenhuma tradição como produtores de vinhos.

A polêmica começou aí pelos anos 80 e 90, sobretudo em razão da interferência dos EUA no mercado do vinho. Como um grande mercado consumidor, os EUA sempre influenciaram os negócios no vinho. Mas na segunda metade do século passado, os EUA também começaram a aparecer como grandes produtores. Sobretudo na região da Califórnia, próxima à cidade de São Francisco. O negócio do vinho ganhou importância para os EUA, grandes empresas investiram e como tudo em que entra dinheiro grosso, os interesses econômicos passaram a determinar o tipo de vinho a ser produzido. Ao mesmo tempo, houve um enorme desenvolvimento da tecnologia, permitindo um aumento na qualidade dos vinhos mais baratos.

Nessa polêmica, teve grande relevância a participação de um crítico americano de vinhos, o Robert Parker, que edita a revista  Wine Advocate. O Parker começou a pontuar os vinhos de 0 a 100, realizando degustações com produtos de todo o mundo. Utilizou sempre um critério de gosto muito pessoal, bastante adequado ao mercado americano. O Parker gosta de vinhos encorpados, com muita fruta, dosagem alcoólica alta e com passagem marcante pela madeira, sem grande envelhecimento. As notas do Parker influenciaram nas vendas e passaram a ser uma referência importante para os produtores de vinhos.

Isso causou o que muitos afirmam ser uma Parketização dos vinhos. Uma padronização de estilos, com vinhos muito semelhantes sendo produzidos em diferentes partes do mundo. De um lado ocorreu sensível melhora na qualidade dos vinhos de consumo mais popular, mas de outro se perdeu muito da personalidade própria de cada região produtora de vinhos.

Os vinhos Parketizados, representariam os vinhos no estilo do Novo Mundo, mesmo quando produzidos na Europa. Os vinhos que resistem e tentam manter o estilo tradicional, representariam o time do Velho Mundo. Esse embate envolve muitas variantes e está muito bem retratado no filme Mondovino, documentário sobre o mundo do vinho interessante de assistir, dirigido por Jonathan Nossiter, que inclusive morou um tempo no Brasil. Não sei se ainda mora, mas no documentário, apesar de mostrar os argumentos dos dois lados, há certa tendência em favor dos vinhos do Velho Mundo. De qualquer forma, quem quiser conhecer um pouco desse assunto, vale assistir o filme.

O certo é que para nós consumidores, o importante é o resultado dessa discussão. O quanto ela significa melhoria na qualidade de vinhos com preços acessíveis. E o que esperamos exatamente de um vinho quando o compramos. Por isso, é interessante conhecer as diferenças essenciais nos dois estilos de vinhos e ir experimentando para se saber qual é aquele do nosso gosto.

Para traçar um paralelo entre os dois estilos, vou tentar apontar as diferenças básicas, evidentemente de uma forma um pouco esquemática. Começando pelas uvas. Os vinhos do Velho Mundo, apesar de considerarem importante a uva, dão mais destaque ao local de produção. Sequer há o hábito de indicar a uva no rótulo do vinho, ressalvadas algumas exceções. Na sua maior parte são misturas de mais de um tipo de uva, o que aqui no Brasil chamamos de corte. O que é relevante é o terreno, a região, a cultura local na produção do vinho, conjunto que normalmente se chama de terroir. Por isso que conhecemos esses vinhos pela sua região, como Bordeaux, Borgonha, Douro, Chianti, Barbaresco e outros.


Já os vinhos do Novo Mundo, talvez por não representarem regiões com tanta história e tradição na produção dos vinhos, dão bem mais importância à uva. Foi nesses vinhos que surgiu o hábito hoje comum de indicar a variedade da uva no rótulo. Por isso nos acostumados a comprar um Cabernet Sauvignon, um Syrah, um Chardonnay. A escolha dos melhores solos busca revelar não tanto um caráter local, uma cultura regional, mas sim a expressão possível numa determinada variedade de uva.

A segunda distinção entre os dois estilos está na graduação alcoólica. Os vinhos do Velho Mundo mantém o álcool na casa dos 12 a 13%. Há cerca de 20 ou 30 anos atrás, era raro o vinho de mesa com graduação alcoólica superior. Nos vinhos do Novo Mundo, em razão da colheita mais tardia da uva para produzir maior quantidade de açúcar, a graduação alcoólica subiu para 14 ou 15%. Hoje, nos vinhos argentinos ou chilenos que costumamos comprar por aqui, essa é uma graduação normal.

Outra característica dos vinhos do Novo Mundo, em parte também decorrente da colheita tardia das uvas, é o aroma e o sabor mais arredondados, de fruta bem madura, que os especialistas costumam chamar de compota ou sopa de frutas. Nos tintos, os taninos chegam a apresentar certa impressão de doçura. São aromas e sabores fáceis de chamar atenção, de apreciar e que alguns dizem ser uma tendência do mercado, enquanto outros afirmam ser uma imposição do gosto americano.

Nos vinhos do Velho Mundo, a aroma é mais discreto, de fruta fresca, nos tintos e brancos. Aparecem os aromas complexos e sutis, como os de animais, de ervas, balsâmicos e outros. E o sabor costuma ser mais austero, menos suave. Não significa que os vinhos sejam duros, ásperos, e sim que o sabor é menos exuberante, mas mais profundo.

No filme Mondovino, um produtor tradicional da Borgonha consegue mostrar bem a diferença. Ele diz que os vinhos mais modernos têm uma degustação mais larga, um sabor abrangente que impressiona num primeiro momento. Mas é uma degustação mais curta. Já os vinhos que seguem a linha tradicional, têm uma degustação mais estreita, mas profunda e complexa, que permanece por mais tempo, evoca lembranças e estimula os sentidos.

Essa diversidade está de certa forma relacionada a outra diferença importante nos dois estilos. Os vinhos do Novo Mundo são produzidos para serem consumidos mais jovens, sem grande envelhecimento. A justificativa é a de que o mercado não quer comprar vinhos para ficar guardando por 5, 10 ou 20 anos para serem consumidos. Por isso, mesmo com uvas como a Cabernet Sauvignon, que apresentam taninos fortes, os produtores, aproveitando as novas tecnologias, procuram desenvolver vinhos prontos para o consumo rápido, no máximo em 2 ou 3 anos.

Nos vinhos do Velho Mundo, 2 ou 3 anos é o período mínimo de envelhecimento, para aqueles vinhos que eram considerados apropriados para o consumo rápido. Guardar por 5 anos uma garrafa é absolutamente normal. E os grandes vinhos exigem um período muito maior de envelhecimento. Essa característica interfere diretamente no resultado do vinho, pois o vinho mais envelhecido perde um pouco sua fruta e ganha nos aromas e sabores mais complexos, como os aromas animais.

Essas diferenças se relacionam com outra importante distinção. O uso da madeira. Sempre foi tradição, especialmente nos vinhos de maior guarda, o envelhecimento em barril de carvalho antes de o vinho ser engarrafado. O uso do carvalho confere ao vinho complexidade, maior potencial de envelhecimento, ajuda na formação de taninos elegantes. É usado em Bordeaux, alguns vinhos da Borgonha, no Rhone, no Piemonte, na Itália e em outras regiões tradicionais da Europa. Mas usado de forma moderada, sem permitir que a madeira interfira muito no aroma e sabor do vinho. Normalmente uma parte do vinho é guardada em barril e depois misturada com vinhos sem madeira.

No entanto, esse uso da madeira foi muito acentuado nos vinhos do Novo Mundo. A guarda dos vinhos em barril de carvalho novo passou a ser a regra, reforçada muitas vezes por chips que são colocados no vinho, como se faz com chá, para acentuar ainda mais a presença da madeira. É uma característica típica dos vinhos dos EUA e da Austrália, mesmo vinhos brancos. É também um gosto pessoal do Robert Parker.

O uso acentuado da madeira nos vinhos é uma marca dos vinhos do Novo Mundo. Isso acaba dando ao vinho aromas e sabores bem característicos de baunilha e anis, que são muito perceptíveis. Especialmente a baunilha. Basta prestar um pouco de atenção ao tomar um vinho do Novo Mundo com bastante madeira para perceber o aroma e sabor da baunilha, que decorre do carvalho. Alguns produtores até aproveitam os chips de carvalho para dar ao vinho o sabor da madeira e com isso encobrir eventuais falhas do vinho.

Pessoalmente, nunca gostei muito dos vinhos muito amadeirados. Não gosto de anis, nem mesmo nessas balas azuis. E baunilha em exagero também não me agrada muito, inclusive em doces. Por isso evito vinhos com passagem muito forte pelo carvalho. Gosto quando o vinho é envelhecido em barril de carvalho na medida certa, lhe dando complexidade, como num bom vinho de Bordeaux. Mas com o exagero na madeira, a baunilha encobre os demais aromas e sabores do vinho.

Mas tudo é uma questão de gosto. Tem muita gente que adora os vinhos amadeirados no estilo Novo Mundo. No entanto, houve tamanho exagero no uso da madeira, que mesmo produtores dessas regiões estão rediscutindo o tema.

Bom, mas muita conversa sem beber não dá certo. Dessa forma, é hora de indicar alguns vinhos nos dois estilos para quem quiser fazer a comparação, poder iniciar seus trabalhos. Vou tentar apontar apenas vinhos que considero bons, nenhum excessivamente rústico do Velho Mundo e sem exagero na madeira no Novo Mundo.

Começo aproveitando meu último artigo sobre os vinhos na Borgonha, indicando no time do Velho Mundo o Côte de Beaune, do produtor Joseph Drouhin, safra 2006, a venda na Mistral, por US$84,50 a garrafa. Vinho feito com a Pinot Noir, com aquela elegância e discrição que mencionei no artigo. No time do Novo Mundo, com a mesma Pinot Noir, a sugestão vai para o chileno Amayna, do produtor Viña Garcés, safra 2006, também a venda na Mistral, por US$53,50 a garrafa. Vinho típico do Novo Mundo, concentrado, com frutado exuberante, quase dando a impressão de doce, mas equilibrado, sem exagero na madeira. A uva é a mesma, mas vai dar para perceber a diferença nos dois vinhos.

Com o corte tradicional Cabernet Sauvignon/Merlot, sugiro dois vinhos de Bordeuax para representar o time do Velho Mundo, que oferecem preços acessíveis, pois são de pequenos produtores que não estão em regiões mais renomadas. O primeiro é o Château Tour de Mirambeau, “La Reserve”, safra 2005 a US$33,90 e safra 2006 a US$39,90, a venda na Mistral. O outro é Château Grand Moueys, safra 2005 a R$60,00 (reais, não dólar), a venda na Cellar. São vinhos realmente gostosos, que mostram um pouco do caráter de Bordeaux. Já estão prontos para tomar, mas agradecem mais um ou dois anos de garrafa, pois os vinhos de Bordeaux, quando envelhecem, apresentam melhor suas sutilezas.

Para confrontá-los, na esquadra do Novo Mundo escalei o chileno Montes Cabernet Sauvigon, safras 2006 e 2007, e Montes Merlot, safra 2007, todos também na Mistral, por US$20,90 a garrafa. Vinhos com ótima relação custo x benefício, uma das melhores no mercado. Também recomendo o Felino, da produtora argentina Viña Cobos, safra 2007, a venda na Grand Cru, por R$70,00 a garrafa, preço igualmente ótimo para a qualidade do vinho. Aqui vai ser fácil perceber a diferença entre os dois estilos, em vinhos que utilizam as mesmas uvas.

A Syrah é a uva do Vale do Rhone, na França, utilizada na produção dos grandes Hermitage e Cotie Rôtie. Vinhos espetaculares, de guarda, complexos, mas muito caros. De qualquer forma, indico como um craque no time do Velho Mundo, o Cote Rôtie “Lês Jumelles”, do produtor Paul Jaboulet Aîné, safra 2005, a venda por US$139,00, na Mistral. Este precisa envelhecer ainda uns 4 ou 5 anos para mostrar suas qualidades. Aberto agora vai parecer um vinho duro, rústico.

Por isso, para permitir a degustação já, vale a pena experimentar o Croze Hermitage, “Lês Meysonniers”, safra 2005, a US$49,90, e o Saint Joseph Deschants, 2005, a US$63,25, ambos a venda na Mistral, que mostram como a Syrah, no Vale do Rhone, também produz vinhos frescos, alegres e gostosos, bons para tomar com amigos num bate-papo. São dos vinhos preferidos nos cafés de Lyon e Paris. Também são ótimos na mesa ou acompanhando queijos.

No Novo Mundo, a Syrah produz vinhos totalmente diversos. São bem representativos do estilo concentrado, com dosagem alcoólica alta e com muita fruta madura. Sobretudo na Austrália, onde a uva ganhou até o nome um pouco diferente de Shiraz. Os vinhos australianos não são o meu forte, pelo uso excessivo da madeira, mas têm uma legião de fãs. Aponto dois Shiraz australianos bem recomendados, o Killerman’s Run Shiraz, 2005, por R$91,80 a garrafa na importadora Decanter, e o Heartland 2007, a R$73,00 na Grand Cru. Também na Grand Cru, o chileno Tabali Special Reserve Syrah 2007, a R$76,00 a garrafa, é muito bom, enquanto na Argentina, o Luca Syrah 2007, da excelente produtora Laura Catena, a US$45,50 na importadora Vinci, é um típico exemplar de Syrah do Novo Mundo.

Os vinhos italianos e portugueses integram o time do Velho Mundo com galhardia. Mas não podem ser confrontados com vinhos do Novo Mundo que utilizam as mesmas uvas, pois são muito raros. No Novo Mundo, prevalecem as uvas francesas. Por isso, vou com um italiano que eu gosto muito, o Rosso de Montalcino, irmão mais simples do famoso Brunello de Montalcino. O do produtor Pieri, safra 2006, está a venda na Cellar por R$80,00. Vinho ótimo para a mesa acompanhando receitas italianas. E de Portugal, o Duas Quintas 2006, da região do Douro, por R$55,00 no Empório Mercantil.

Para enfrentá-los, por falta de uvas italianas e portuguesas, vamos com uma uva típica da Argentina, a Malbec. Sua origem é francesa, mas na França não tem grande importância. Na Argentina, virou quase uma representante de seus vinhos e do estilo do Novo Mundo, bem frutado, redondo, alcoólico, com taninos doces. O ícone dos vinhos Malbecs é sem dúvida o do produtor Nicolás Catena, o grande responsável pelo desenvolvimento dos vinhos argentinos e considerado um dos maiores produtores do mundo. Ele tem várias categorias de vinhos, mas sua linha intermediária, o Catena Malbec, é ótimo, sem muita madeira. O preço de US$25,50 é excepcional para a qualidade do vinho. A venda na Mistral, safra 2006.

Acho que já temos material suficiente para o embate. Polêmica é muito importante, ajuda no desenvolvimento das idéias. Mas também é uma ótima desculpa para beber bastante vinho. Portanto, armas em punho. Ou melhor, taças em punho e saúde para todos.

Importadora Mistral: rua Rocha, 288, telefone (11) 3372-3400 ou site (www.mistral.com.br)

Importadora Cellar: rua Juquis, 283, telefone (11) 5531-2419 ou site (www.cellar-af.com.br)

Importadora Grand Cru: site (www.grandcru.com.br)

  • rua Bela Cintra, 1.799, Jardins, telefone: (11) 3062-6388
  • al. Nhambiquara, 614, Moema, telefone (11) 3624-5819
  • av. Independência, 1.640, Jd. Sumaré, telefone (11) 3913-4396

Importadora Vinci: rua Dr. Siqueira Cardoso, 227, telefone (11) 2797-0000 ou site (www.vincivinhos.com.br)

Empório Mercantil: rua dos Pinheiros, 1.156, telefones (11) 3813-2929 e 3815-5393 ou site (www.emporiomercantil.com.br)

Presos podem votar?

abril 6, 2010 · Posted in Política · Comment 

por Beto Lyra

Quando penso que já vi de tudo na vida, percebo que não sei de nada. Pois bem, a recente resolução do TSE-Tribunal Superior Eleitoral, aprovada em março, determinando a instalação de seções eleitorais nos presídios para o voto de presos provisórios e de jovens entre 16 e 21 anos dá uma ótima demonstração de quão criativo o ser humano pode ser.

Ora, mandar instalar seções eleitorais dentro dos presídios não é propriamente uma medida sensata, por mais que seja clara a Constituição brasileira nesse assunto. Só para lembrar, a Constituição estabelece que apenas os presos com sentença criminal, que não mais podem recorrer, não têm direito a voto. Logo, se o preso ainda pode recorrer de sentença, ou ainda não foi julgado, tem direito de votar. Estamos falando de cerca de 152 mil presos provisórios, dentro do total de 473 mil presos.

Na verdade, diferentemente dos EUA por exemplo, não há um sistema penal no Brasil. Cada um dos 26 Estados e também o Distrito Federal possuem sistemas próprios, com diferenças entre si, com estruturas organizacionais, polícias e leis de execução penais adicionais à Lei federal. Quero dizer com isso que há práticas muito diferentes nesse campo entre, por exemplo, São Paulo e Amazonas, com riscos também diferentes entre eles.

Assim, principalmente nos Estados mais populosos, onde consequentemente as populações carcerárias também são bem maiores, cresceram imensas e poderosas facções criminosas, que dominam os presídios, impondo leis e penas próprias, inclusive as de morte, não só dentro deles como também fora.

Diz a Constituição brasileira que a soberania popular será exercida pelo sufrágio universal e pelo voto direto e secreto. Aí pergunto: que voto secreto pode existir nas prisões dominadas por facções criminosas? Quem irá garantir o sigilo do voto e a segurança desse eleitor? Quem será que irá receber esses votos se não os candidatos que representam o próprio crime organizado?

Peço a opinião do leitor desse Fio Do Bigode para saber em que categoria enquadrar essa “novidade”, se na “me engana, que eu gosto” ou na “hipocrisia, a gente vê por aqui”.