Assim é se lhe parece

novembro 24, 2009 · Posted in Artes · Comment 

por Paulo Gil

Fio Do Bigode está em festa. Inaugura hoje um espaço para gente amiga e competente colocar suas idéias, apresentar propostas, provocar mais polêmicas ou mesmo não fazer nada disso. Serão eles os nossos bloguistas convidados, que aparecerão de quando em vez, para alegria nossa e, espero, de todos que pacientemente nos leem.

O primeiro bloguista convidado é o fotógrafo Paulo Gil, que saca tudo que acontece à sua volta, principalmente fotos.

Vamos lá Gil, a cena é sua!


Anos atrás descobriram que a famosa fotografia do francês Robert Doisneau, “O Beijo” (acima), era montada. Para fazê-la, ele contratou dois modelos para registrar a vida feliz da Paris dos anos 1950.

Recentemente, foi a vez de outro ícone do fotojornalismo cair por terra, ou melhor, perder sua aura de instante decisivo. Falo da foto do húngaro Robert Capa que registra o exato momento em que um soldado republicano era abatido pelas forças franquistas na Guerra Civil Espanhola.

Morte do soldado republicano, de Robert Capa.

Pessoalmente, passado o espanto, cheguei à conclusão de que não há nenhum problema nisso. Ambos radicalizaram o fato de que toda foto é manipulada, não importando as condições em que foram feitas. O fotógrafo, ao fazer suas opções (escolhas de câmera, lente, filme, posição em relação ao assunto, fundamentação política etc.), é que define tais condições. Portanto, ao alterar apenas uma dessas opções, a história poderia ser contada de outra maneira.

Poderia, porque isso também é relativo. Dizem que a fotografia atesta que “algo” existiu. No entanto, este “algo” foi transferido de uma determinada relação tempo e espaço para vir a ser outra realidade — a foto –, que passará a ser a partir do ponto de vista daquele que a vê e que vive em outro tempo/espaço. A viagem pode ser, e é, grande e bem gostosa de se trilhar. Fica para outro momento.

E se essa relação fotografia/verdade passa a ser o objeto do artista?

Aqui quero jogar âncora. Especificamente no trabalho de um artista catalão chamado Joan Fontcuberta. Nascido em 1955, é um dos grandes nomes da fotografia mundial, como fotógrafo e pensador.

Diz ele que desconfia de tudo. A fotografia é uma evidência, alguma coisa esteve de fato na frente da objetiva de uma câmera. Mas, e se isso não for bem assim, ou seja, e se aquilo que vemos, juramos que vemos, não for o resultado do que estava diante da câmera e sim da maneira como foi captado por ela? Este é o mote do trabalho de Fontcuberta.

Para mim, a imagem fotográfica, em que pese ser indicial, não passa de uma imagem… e, como tal, nada mais, nada menos que uma idéia. Não é um objeto específico que existe e sim aquilo que dele o fotógrafo acha que deva existir. Fotografar é como escrever um texto, estamos sempre escolhendo sujeitos, predicados, adjuntos e tudo mais. Fotografamos idéias.

Apresento algumas imagens de duas séries de Fontcuberta: “Herbarium” e “Cosmonauta Desconhecido”.


Olhando as imagens da série “Herbarium”, vemos um trabalho científico como os botânicos faziam no final do século XIX, começo do XX. Uma série que lembra, também, a atuação dos fotógrafos viajantes que vinham ao Brasil para registrar nossas fauna e flora de forma objetiva.

Olhando mais atentamente, percebemos, um pouco aqui, outro tanto acolá, situações estranhas. Lendo e ouvindo o artista, ficamos sabendo que todas estas imagens foram feitas a partir de lixo colhido nas ruas de Barcelona. Em seu estúdio, montou pacientemente seus cenários. Fotos perfeitas, nomes em latim e pronto.  Autor, qualidade das imagens, local em que eram apresentadas (museus, por exemplo), tudo atesta a veracidade das “plantas”.

Fontcuberta não tem a intenção de enganar as pessoas, pois sempre se “desmascara” no final de uma exposição, por exemplo. Quer que as pessoas duvidem do que veem, que não acreditem em “algo” apenas porque foi fotografado e essa foto seja indicial. Aquilo estava de fato ali, mas não é o que se vê na foto. Nunca é.

“Cosmonauta desconhecido” tem uma história bem diferente.

Quando terminou a União Soviética, uma parte significativa do material fotográfico espacial ganhou o mundo e foi leiloado em vários lugares. Nessa época, Fontcuberta teve acesso a uma fotografia de 5 cosmonautas e … acrescentou mais um, com seu próprio rosto. Este sexto cosmonauta ganhou de Fontcuberta uma história documentada fotograficamente desde a sua infância. Ganhou um nome também: Fontcuberta em russo, e ganhou vida.

Fontcuberta é o 3º da esquerda para direita.


Um dia, um fotógrafo especializado viu a foto montada e divulgada por Fontcuberta e percebeu que não era a foto com 5 pessoas que ele conhecia.

Foi a deixa para que Fontcuberta liberasse a história fictícia. O sexto astronauta tinha tripulado uma missão antes daquela de Gagarin. Ele e um cachorro. Mas, como tal missão não havia tido êxito, as autoridades soviéticas simplesmente retocaram a foto, como era praxe na URSS, retirando o “sexto” e desconhecido cosmonauta. Por isso ninguém o conhecia.

É genial! Ele apresentava a exposição não como autor das fotos, mas como um profundo conhecedor da fotografia, o que por si só era um atestado de idoneidade. Além disso, aonde levava sua exposição, convidava algum professor de russo local para que assumisse o cargo de presidente da fundação que “financiava tal descoberta”. Em algumas cidades, conseguiu que a exposição fosse feita no Museu de Ciência. Era a cereja no bolo da verdade, pois nada melhor do que o suporte de um espaço dedicado à ciência para dar credibilidade a tudo. No encerramento da exposição, Fontcuberta esclarecia todo o projeto e sua história.

Chegou a conseguir, em alguns momentos, o apoio de jornalistas que escreviam sobre o tema, como se este fosse verdadeiro ao longo de umas tantas páginas. Na  última, aquela de mais informações, falavam do trabalho de Fontcuberta.

Em outubro último, o fotógrafo fez uma apresentação no Itaú Cultural, durante a exposição “A invenção de um mundo” (aberta até 13 de dezembro). Exibiu um vídeo com trechos de um programa “sério” de uma TV espanhola sobre temas misteriosos. Nele, um repórter apresentava como verdadeira “a descoberta do sexto cosmonauta”. Era de embolar de dar risada. Não é necessário dizer que, no dia seguinte à transmissão de TV, todos os jornalistas científicos e os artistas desancaram o programa, via telefone, e-mail etc.

Sugiro ao leitor que faça uma pesquisa no santo Google – castelhano e inglês – sobre o trabalho de Fontcuberta. Não temos muita coisa por aqui. Não se espantem se aparecerem blogs como o de Juan Cabana… Fontcuberta é uma caixinha de excelentes surpresas.

Sobre o mesmo tema, outra boa surpresa está na exposição “Gigi, the black flower”, do pintor, produtor, fotógrafo e ilustrador Josh Goslfield, na Steven Kasher Gallery, em Nova York. Confira o site da exposição e o comentário de Lucas Mendes, na BBC Brasil pelos links abaixo:

http://www.bbc.co.uk/portuguese/cultura/2009/11/091119_lucasmendes_tp.shtml

http://joshgosfield.com/gigi/

Almoço de domingo

novembro 20, 2009 · Posted in Lazer · Comment 

por Pedro Sampaio

Domingão é dia de se refestelar. Nada como um almoço no domingo com a família ou com os amigos. Boa comida, boa bebida, muitas risadas, jogar conversa fora, discussões acaloradas, tudo vale nessa ocasião. Aquela coisa de melancolia no domingo é melhor deixar bem longe. A segunda feira é para ser lembrada na segunda feira.

Almoço no domingo clama por um bom vinho. Cada turma tem sua tradição e o cardápio varia bastante. Mas se há algo que volta e meia aparece é uma bela massa. As lasanhas, os capelletis à bolonhesa, os nhoques ao sugo e os raviólis com molho de tomate e manjericão sempre marcam presença. Por isso hoje vamos de vinhos para escoltar as boas massas.

Desde já fica ressalvado que estamos cuidando dessas massas com molho vermelho que normalmente comparecem nas mesas das famílias aos domingos. Pratos de massas com molhos mais suaves e até mais sofisticados, ficam para outra oportunidade. As massas com molho de tomate pedem o acompanhamento de um vinho tinto não muito encorpado nem muito complexo, vinhos mais simples e diretos, com boa acidez, para contrabalançar a acidez do molho de tomate.

A Itália, naturalmente, produz os melhores vinhos para acompanhar massas. Como uma das maiores produtoras do mundo, a Itália tem vinhos para todos os gostos e bolsos, produzidos de norte a sul. Entre vários outros, sugiro três fáceis de encontrar e que apresentam boas opções, com preços decentes.

O primeiro é o conhecido Valpolicella, produzido na região do Vêneto, perto de Verona. A uva que predomina na sua produção é a Corvina, variedade local que pouco aparece em outras localidades. O Valpolicella normalmente é um vinho para ser tomado jovem, com um aroma e sabor frutado direto, sem maiores complicações. Ele tem algumas classificações. O melhor é ficar com as classificações Clássico e Clássico Superiore, que aparecem no rótulo.

Existem muitos Valpolicellas espalhados nas prateleiras de supermercados, mas boa parte é de produtores e negociantes que produzem em grande escala e nem sempre agradam. Aqui, é preciso escolher os bons produtores, senão é possível haver decepção.

O Valpolicella de que mais gosto é do produtor Zenato, a venda na importadora Cellar por R$40,00 a garrafa, safra 2006. Já foi muito mais barato, mas pela boa procura, o preço acabou subindo. A lei da oferta e procura é implacável. De qualquer forma, continua sendo uma ótima relação custo-benefício, pois o vinho é muito gostoso. É um tiro certeiro e acompanha muito bem as massas.

Também como ótimos Valpolicellas, valem as sugestões do Valpolicella do produtor Alegrini/2008, à venda na importadora Grand Cru por R$60,00, e do produtor Le Ragose, que estava à venda na Terroir também por R$60,00. Segundo informação obtida por telefone, o Le Ragose esgotou na Terroir e por ora não há expectativa de nova importação. Uma pena, porque é um dos melhores. Quem encontrar em supermercado pode comprar que não vai se arrepender.

Outro vinho ótimo para acompanhar massas é o Dolcetto, produzido com a uva desse nome na região do Piemonte, no norte da Itália, perto da cidade de Turim. É a região que produz os grandes Barolos e Barbarescos, que estão entre os melhores vinhos da Itália e do mundo, vinhos para longa guarda, encorpados, complexos e maravilhosos, para ocasiões muito especiais. Até porque pelo seu preço, só mesmo uma vez ou… uma vez mesmo.

Já o Dolcetto é um vinho mais simples. Apesar do nome da uva, é um vinho bem seco, cor rubi escura, mas que é leve e gostoso, para tomar jovem, sem grande envelhecimento. Na minha modesta opinião, um dos melhores vinhos para acompanhar massas. O Dolcetto é produzido em algumas pequenas vilas do Piemonte, cujo nome pode aparecer no rótulo. Temos o Dolcetto D’Alba, produzido na cidade de Alba, o Dolcetto D’Asti, produzido em Asti, e assim por diante. Os melhores são de Alba.

Ao contrário dos Valpolicellas, difícil encontrar um Dolcetto que seja ruim. Existem vários no mercado, alguns meio caros. Com preço razoável e ótima qualidade, destaco o Dolcetto D’Alba do Renato Ratti, safra 2007 , a venda na importadora Expand por R$78,00 a garrafa. Também gosto muito do Dolcetto D”Alba, do Bruno Giacosa, a venda na Mistral, safra 2007 por U$47,50, e safra 2008 por U$47,90. As duas safras são excelentes. Quase toda a importadora tem um bom Dolcetto, por isso quem gostar mesmo desse vinho, pode ir testando e experimentado.

Por último, acompanhamento perfeito para as massas no domingão é um bom Montepulciano d’Abruzzo, vinho menos conhecido. Produzido na região de Abruzzo, que fica para o lado do mar Adriático, na região mais central da Itália. A uva, óbvio, é a Montepulciano. Também é um vinho simples que sozinho não chama a atenção, mas com comida cresce significativamente.

Existem alguns produtos em prateleiras de supermercados, bem baratos, mas que não são grande coisa. Os melhores custam um pouco mais caro. O produtor Masciarelli é muito bom e seu Montepulciano d’Abruzzo básico custa R$40,00, na Cellar. O Masciarelli tem um vinho superior, o Montepulciano d’Abruzzo “Marina Svetic”, que é realmente excelente, vinho mais complexo, que foge um pouco do estilo dos demais indicados. Mas é caso de experimentar, apesar do preço de R$105,00.

Outro bom Montepulciano d”Abruzzo é o do produtor Filomusi Guelfi, a venda na importadora Vinci por R$58,11, safra 2003, um pouco antiga para esse vinho, mas que ainda está bom. É comprar para beber já, sem guardar muito tempo.

Todos esses vinhos devem ser bebidos refrescados, temperatura aí pelos 16º. É bom lembrar que esse negócio de tomar vinho tinto na temperatura ambiente vale para a Europa e outras regiões mais temperadas. No Brasil, num dia quente de 25 ou 30º., vinho na temperatura ambiente parece sopa de uva com álcool. O vinho tinto pode e dever ser refrescado, os mais encorpados para uma temperatura de cerca de 18º., os mais simples por volta de 16º.. Colocar na porta da geladeira por 50 minutos antes de servir resolve o problema.

Muito bem, no mais, mãos à obra. Um viva para a macarronada no final de semana. SALUTE E ARRIVEDERTE!

Grand Cru: rua Bela Cintra, 1.799, Jardins, telefone (11) 3062-6388; al. Nhambiquara, 614, Moema, telefone (11) 3624-5819; av. Independência, 1.640, Jd. Sumaré, telefone (11) 3913-4396 ou site (www.grandcru.com.br).

Expand: av. Cidade Jardim, 790, telefone (11) 2102-7788; lojas em diversos Shoppings, como Iguatemi, Villa-Lobos, Higienópolis e Jardim Sul ou site (www.expand.com.br).

Cellar: rua Juquis, 283, telefone (11) 5531-2419 ou site (www.cellar-af.com.br).

Mistral: rua Rocha, 288, telefone (11) 3372-3400 ou site (www.mistral.com.br).

Vinci: rua Dr. Siqueira Cardoso, 227, telefone (11) 2797-0000 ou site (www.vincivinhos.com.br).

Terroir: av. Europa, 580, telefone (11) 3087-8300; rua Aurora, 872, telefone (11) 2109-1500 ou site (www.terroirvinhos.com.br).

(as importadoras costumam não cobrar o frete para compras de no mínimo 6 garrafas; é bom consultar).

A foto acima “Shower Time!” é de Conanil, em Creative Commons.

Grandes clássicos do futebol

novembro 19, 2009 · Posted in Esporte · Comment 

por Beto Lyra

Eu hoje, igual a todo brasileiro
Vou passar o dia inteiro
Entre faixas e bandeiras coloridas

(Golden Boys em “Eu sou tricampeão do mundo”.

Bem, como os últimos posts e comentários deste Fio Do Bigode têm sido tratados como assunto familiar ou papinho entre amigos, elogios pra cá, lembranças comuns pra lá, eu me permiti, apenas por esta vez, escrever um post também familiar e falar de assunto de bastante familiaridade para os que nos prestigiam com sua leitura.

Falo de futebol, já que se aproxima o final do Campeonato Brasileiro. Times “paraguaios” saíram na frente e ficaram pra trás. Times de chegada largaram mal e estão entre os primeiros. Quem vai ganhar? Ninguém em sã consciência pode garantir nada.

Mas se não conseguimos prever o futuro, ao menos podemos falar com segurança sobre o que passou. Vou me ater apenas à papa fina do futebol, isto é, aos grandes clássicos, aqueles que despertam as paixões, fanatismos, frustrações e por que não? … iras.

Em termos mundiais, posso falar do que acompanhei desde cedo, ou seja, dos timaços de Real Madrid, Benfica, Inter de Milão e Santos, que dominaram boa parte da década de 1960. Cada jogo entre eles valia nada mais, nada menos que uma estrela de campeão mundial no peito. E os times uruguaios e argentinos? Vamos falar sério, eram ótimos times e várias vezes venceram os timaços acima, mas não foi no futebol, foi em algum outro tipo de disputa em que eram válidos lances da cintura para cima. Pra mim, não vale a pena lembrar disso.

Nessa mesma época, pelos gramados daqui, os maiores clássicos eram entre Santos e Botafogo, com algumas chegadas do Palmeiras e, mais pro fim da década, do Cruzeiro.

Na década de 1970, na Europa, os times holandeses faziam furor, entre eles o Ajax de Cruyff e na Alemanha o Bayern de Munique, de Beckenbauer. No Patropi, logo após o tricampeonato brasileiro no Mundial do México, os clássicos eram a coisa mais apaixonante de se assistir. Em campo estavam “apenas” os melhores jogadores de futebol do mundo. Eu e meu irmão não perdíamos um jogo sequer. Todo domingo após o almoço lá íamos nós para o Morumbi ver o clássico da semana, não importando se nossos times iriam ou não jogar, pois só tinha jogo bom. Morro de saudades.

Daí por diante, até os dias de hoje, não houve supremacia de um timaço, mas uma sucessão de grandes times se revezando com a taça na mão. O mesmo ocorreu na América.

Em resumo, não há mais grandes clássicos, nem na Europa, nem no Brasil, muito menos nas terras de nuestros hermanos. Sim, acabou. Hoje, tem grandes patrocínios para clubes, que contratam os melhores jogadores em atividade, mas esquadrão, timaço ou time dos sonhos, nem pensar, pois faltam a todos uma coisinha simples, um detalhe, mas que faz toda a diferença: o amor à camisa. Os locutores e comentaristas tratam de valorizar cada jogo, assoprando a brasa escurecida das rivalidades entre times e torcidas.

Já que falei em brasa, vou puxá-la para a minha sardinha. Por que não ressaltar os clássicos das decisões dos mundiais de clubes? Sim, porque o São Paulo, por acaso o meu time de coração, quando vai à disputa desse título não falha, tem 100% de aproveitamento. Fez clássicos jogos contra o esquadrão do Barcelona, em 1992, e ganhou por 2×1. No ano seguinte, outro clássico, agora contra o poderoso Milan. São Paulo 3×2. E, mais recentemente, em 2005, na 1ª Taça Fifa, contra o Liverpool: faturamos 1×0. Pelos meus cálculos, na próxima vez, teremos que ganhar de algum clube da Alemanha e virar tetra do mundo.

Mas vivemos do passado, que nem tia Marocas. Clássicos mesmo foram o Fla-Flu no Rio, os duelos entre o Trio de Ferro (Corinthians, São Paulo e Palmeiras) em Sampa, de Inter e Grêmio no sul, e com muita concessão, de Cruzeiro e Atlético, em BH. Fora esses aí, apenas o Santos e Corinthians naqueles 20 anos de tabu, ponto final. Você que me lê consegue lembrar de algum grande clássico não citado aqui?

Deixei para o fim o maior de todos os clássicos do futebol. Tão imponente em sua grandeza que, com apenas dois jogos travados, conseguiu ser guindado à categoria de “Clássico dos Clássicos” do futebol. De um lado estava o Golden Team de 1971, que vestia camisas amarelas, mas que não eram da seleção brasileira e sim camisas “tomadas emprestadas” de um tradicional colégio de padres da zona oeste de São Paulo. E, de outro, o bravo time do Teleposto Bosque da Saúde. Vejam só as fotos e escalações abaixo para serem tomados de profunda emoção. Ou não.

Time dos sonhos no Jogo 2: Beto Lyra. Zé Cosentino, Bô, Pedrão e Modesto.

Jogo 1: Modesto, Zé Cosentino, Guilherme, Pedrão e Beto Lyra. Apoiados por Paulo Whitaker, Lou Garcia e Marcos Assumpção.

Som, som…testanto 1, 2, 3

novembro 14, 2009 · Posted in Música · Comment 

por Beto Lyra

Maybe I’m crazy
Maybe you’re crazy
Maybe we’re crazy
Probably

(Gnarls Barkley)

Parece que após o final dos anos 70 a música sofreu algum castigo divino. Algo, inexplicável para nós mortais, ocorreu e mudou a direção da história da música pop no mundo. Se até então, talento, arrojo e inovação marcavam os gênios, depois não se conseguiu reunir essas três qualidades em uma mesma pessoa ou grupo. Talvez uma punição de Deus que, irado com a declaração de Lennon de que os Beatles seriam mais famosos do que Jesus Cristo, passou a não mais permitir que essas três qualidades fossem possuídas por uma só pessoa ou grupo. Assim, passaram a existir artistas talentosos e inovadores, mas não arrojados, ou inovadores e arrojados, mas não talentosos, ou ainda arrojados e talentosos, mas não inovadores. Entendeu aonde quero chegar?

Bem, talvez o verso acima, do grupo Gnarls Barkley, sobre o qual falarei aqui, explique por que não conseguimos retomar a trilha virtuosa de décadas passadas. Ou talvez não, talvez a loucura tenha passado, infelizmente. Mas, o fato é que nós, amantes da música, é que fomos punidos e estamos privados, desde então, de conviver com os artistas geniais, como antes.

Mesmo assim, para todos que como eu adoram música é impossível viver sem ter algum reprodutor de som por perto. Seja um toca-cd, iPod, computador ou o bom e velho rádio, o importante é, constantemente, ouvir aquele som que faz a vida ficar mais leve.

É o caso do Gnarls Barkley, nome dado à união entre o DJ Danger Mouse e o rapper Cee-Lo Green, que deu certo, muito certo. Cee-Lo tem voz marcante, típica dos afro-americanos, com uma postura no palco que para mim lembra Tim Maia, sem as reclamações e palavrões. Cee-Lo é cantor, compositor e produtor musical, e se tornou conhecido por fazer parte do Goodie Mob.

Mouse é muito mais que DJ, é multi-instrumentos. Sua carreira começou a ser conhecida em 2004, quando lançou seu “Grey Album”, uma mistura do “Black Album” do Jay-Z com o “White Album” dos Beatles. Um mês atrás, foi anunciado que Mouse tocará com James Mercer, da banda indie The Shins, formando em 2010 a dupla “Broken Bells”.

Unidos desde 2005, “Gnarls Barkley” não parou de fazer sucesso. Faz música com balanço, daquelas que obrigam a dançar, cantar e pular. Às vezes hip hop, às vezes soul, outras funk, suas canções trouxeram prêmios como Grammy, em 2007, e MTV Awards, em 2006 e 2008.

O primeiro disco, “St. Elsewhere”, de 2006, traz “Smiley Face” e a faixa que dá nome ao disco. Ambas são ritmadas, com boas letras e ajudam a quebrar um pouco o frenesi que “Crazy” e “Gone Daddy Gone” despertam e fazem com que todo o mundo se comporte como pipoca em seus shows. Vendeu quase 6 milhões de cópias e jogou a dupla nas alturas, com apresentações pelo mundo todo.

Em 2008, veio o segundo trabalho, “Odd Couple”, para mim melhor tecnicamente que o primeiro, embora bem menos contagiante. Chamo a atenção para as dançantes “Surprise”, “Blind Mary” e “Run” e as cadenciadas “No Time Soon” e “Would Be Killer”.

Confiram mais uma das apresentações ao vivo do Gnarls Barkley, em que cantam “Surprise”. Danger Mouse é o que aparece tocando órgão elétrico, com barbicha e, é claro, bigode. SOM NA CAIXA!

Programa de índio

novembro 8, 2009 · Posted in Humor · Comment 

por Beto Lyra

Muito antigamente, ao se falar de passeios “saias-justas” ou completamente sem-graça, empregavam-se expressões como “chato”, “cacete” e “um porre”. Depois, mais para os anos 1970, vingou a expressão “programa de índio”.

Não é difícil imaginar a origem de tal expressão, já que os índios sempre viveram no meio do mato, sem o conforto a que estamos habituados. Assim, ao se fazer um passeio com algum sofrimento, aborrecimento ou com algo que acaba dando errado, o diagnóstico fatalmente é:  “programa de índio”!

Pretendia fazer uma longa e profunda pesquisa sobre o entendimento popular sobre o assunto, mas a tarefa me pareceu o próprio “programa de índio”. Portanto, fiz apenas um rápido levantamento que me revelou que esse assunto também é controverso, já que nem todos o entendem como uma coisa ruim.

É verdade que as pessoas que já tiveram de esperar horas para embarcar em viagens aéreas, que tiveram o carro quebrado ao voltar de uma visita à sogra (se fosse na ida não ficariam tão chateadas) ou que foram acampar e acabaram surpreendidas por um dos erros comuns das previsões de tempo são unânimes em atribuir a situações como essas a sensação de “programa de índio”. Aliás, os adeptos dessa corrente, com uma ironia bancária ou hoteleira, não sei bem, passaram a classificar tais programas em quantidade de flechas, para deixar bem clara a hierarquia de seu dissabor.  Um programa chato seria “1 flecha” e um extremamente aborrecido ganharia a nota máxima de “5 flechas”. A associação com os índios se estendeu também a hospedagens horríveis: hotel 5 esteiras…

No entanto, mais de uma voz se levantou para dizer que se viver próximo à natureza, não trabalhar oito horas por dia, não ter contas a pagar e fazer indiozinhos na rede for “programa de índio”, então gostariam de trocar suas vidas atuais por essas atividades dos silvícolas.

Sempre compreendi perfeitamente a ambivalência da questão e não tinha um juízo definitivo sobre isso até que me deparei com uma matéria tratando de covarde ataque contra um pobre pato. Aconteceu nos Estados Unidos, onde tal ave levou cinco flechadas de um sujeito que era uma besta, digo, usava uma besta.

Desde então para não mais correr riscos desnecessários, passei a ser um pouco mais seletivo com as “flechas” dos convites ou programações em que não conheço a fundo os organizadores. Não quero pagar o pato!

Para que não fiquem muito chateados, o pato foi operado e passa bem.

Um bom vinho branco

novembro 4, 2009 · Posted in Lazer · Comment 

por Pedro Sampaio

É muito comum a afirmação de que bom é o vinho tinto. Há quem diga que tem vinho branco em casa apenas para servir a alguma visita de mau gosto. Puro preconceito. Evidente que gosto não se discute, mas normalmente a preferência pelo vinho tinto decorre de hábitos, costumes e de falta de contato com bons vinhos brancos.

Como a vida não é muito longa e pelo menos, ao que eu saiba, ela é uma só,  sou a favor de experimentar aquilo a que não estamos muito habituados. Podemos ter surpresas e momentos de prazer e alegria. Por isso hoje minha sugestão é experimentar alguns bons vinhos brancos.

Existem ótimos vinhos brancos que combinam com o nosso clima, na maior parte do ano muito quente. E também combinam muito bem com comida. A regra de que carne vai bem com vinho tinto e peixes com vinho branco não é absoluta. As carnes mais leves e brancas combinam com muitos vinhos brancos. Já os peixes e frutos do mar normalmente não se acertam mesmo com vinhos tintos, pois alteram seu sabor. Pratos com peixe e frutos do mar pedem o acompanhamento de um bom branco.

O vinho branco não é necessariamente feito de uvas brancas. O que dá coloração ao vinho é a casca da uva. Uma uva tinta pode servir para a produção de vinho branco. Alguns champagnes brancos são feitos de Pinot Noir, uva tinta que também produz vinhos tintos.

No entanto, os vinhos brancos mais conhecidos são feitos de uvas brancas, como a Chardonnay e a Sauvignon Blanc. As duas têm origem francesa. A primeira produz os grandes vinhos brancos da Borgonha, considerados os melhores brancos do mundo, mas muito caros no Brasil. A segunda é muito utilizada em Bordeaux e no Vale do Loire. Existem excelentes opções com essas uvas no mercado de vinhos a preços acessíveis para os mortais, sobretudo provenientes da Argentina e do Chile. Vão ficar para uma próxima vez.

A sugestão do dia é uma uva não tão conhecida, mas que pode resultar em vinhos brancos de primeira. São os vinhos com a uva Riesling, base dos melhores brancos da Alemanha e da região francesa da Alsácia. Os vinhos com essa uva são saborosos, têm muito aroma, boa acidez e caem muito bem nos dias quentes. Servem como aperitivo e acompanham vários pratos, como peixes defumados, embutidos, salsichas e frios em geral. Os especialistas falam também na boa harmonização com a culinária asiática, pois os vinhos feitos com a Riesling, mesmo quando secos, têm sempre algum toque de doce, contrabalançado pela acidez. Pessoalmente, com comida oriental e asiática, prefiro cerveja.

Destacar a acidez do vinho pode assustar um pouco, mas o vinho branco precisa de acidez para não ficar enjoativo. Lógico que o excesso de acidez é ruim, mas isso somente ocorre em vinhos desequilibrados. A acidez no ponto certo dá vida ao vinho, sobretudo o branco.

A Alemanha tem vinhos brancos especiais feitos com a Riesling. Os vinhos da Alemanha ficaram um tempo com péssima fama por causa daqueles produtos docinhos, de garrafa azul, que andaram na moda, mas que eram horríveis. Não que o vinho doce não possa ser bom. Existem vinhos doces muito bons, inclusive com a Riesling. Aqueles vinhos da garrafa azul eram ruins não por serem doces, mas porque eram ruins mesmo. Servem para fazer ponche, como o internacionalmente famoso ponche do meu pai no Natal.

Outra dificuldade que os vinhos da Alemanha enfrentam é o nome. Exceção feita a alguns casos raros, a língua alemã é simplesmente impenetrável. Os nomes dos vinhos alemães são difíceis de decifrar. É preciso atenção. Mas vale a pena superar esse obstáculo e experimentar o vinho alemão.

Nosso mercado oferece boas opções em importadoras. Nunca as vi em prateleiras de supermercados. Os preços infelizmente sempre surpreendem de forma negativa. Não é muito fácil encontrar vinho bom feito com a Riesling por menos de R$50,00. De qualquer forma, não sei se o dólar desvalorizado é bom para economia, mas é ótimo para comprar vinhos. As sugestões que vou fazer são aquelas mais acessíveis.

Uma escolha certa são os vinhos do produtor Dr. Bürklin-Wolf, da região vinícola de Pfalz. Os vinhos Riesling de sua linha mais básica, o Villa Bürklin Weiss QbA trocken e o Dr.Bürklin Rieslin QbA trocken, ambos da safra de 2006, estão a venda na importadora Mistral, por U$37,50 e U$43,75 cada garrafa. Esse produtor tem outros vinhos com preços mais elevados, acima de R$150,00, que devem ser muito bons. Eu não conheço, pois apesar de gostar muito de vinhos, não costumo gastar tanto numa garrafa.

Outro bom produtor é Selbach-Oster. Já experimentei seu vinho Zeltinger Schlossberg Selbach-Oster Riesling QBA Trocken 2007 e gostei muito. Preço U$46,00, na importadora Vinci.

Estes são vinhos brancos secos. Os vinhos alemães secos feitos com a Riesling costumam ter um aroma muito bom, meio floral. Apesar de secos, têm um sabor frutado gostoso, que lembra pêssegos e frutas cítricas, e sempre apresentam um pequeno toque doce, bem contrabalançado pela acidez. Têm teor alcoólico baixo para vinhos, por volta de 10%.

Li que a importadora Decanter está trazendo novos vinhos da Alemanha de produtores conceituados, mas não conheço os vinhos. A Decanter tem uma enoteca, onde fazem degustações.

A Riesling também dá excelentes vinhos na Alsácia, região francesa com forte influência alemã, pois já pertenceu à Alemanha. Os vinhos da Alsácia feitos com a Riesling costumam ser um pouco mais encorpados dos que os da Alemanha, têm maior teor alcoólico e sabor frutado mais acentuado. Mas são vinhos secos, aparece menos o toque doce que encontramos nos alemães. A Mistral tem o produtor Marcel Deiss, com um Riesling de U$59,90, muito bom.

Mas aqui a sugestão vai para o produtor Albert Mann. O seu Riesling básico, chamado de  “Tradition”, safra 2007, é bem gostoso, a venda na importadora Cellar por R$55,00 telefone (11) 5531-2419. Pelo que me lembro, a tampa é inclusive de rosca, prática que vem se disseminando em razão das dificuldades na produção de rolhas e que não significa que necessariamente o vinho seja inferior. Para quem quiser arriscar, num preço mais salgado, a R$125,00, o Riesling Grand Cru “Schlossberg”, do mesmo produtor, é excelente.

Uma boa idéia para tomar esses vinhos, que não dá muito trabalho e não agride terrivelmente o bolso, é comprar no setor de congelados em supermercados algumas dessas travessas com carpáccio de salmão ou truta defumada. Segundo a receita aqui da casa, é só tirar da embalagem, temperar com azeite, pimenta do reino moída na hora, e dill ou salsinha, e servir com creme azedo, umas cebolas e raiz forte em conserva, que também se encontra fácil no supermercado, acompanhado de pão, de preferência desses com farinha integral. O creme azedo pode ser feito em casa com creme de leite e coalhada seca.

Este é um bom lanche para uma noite quente, que vai combinar com os vinhos indicados. Num grupo maior de pessoas, vale até a pena tomar um vinho da Alemanha e outro da Alsácia, para comparar. Aí está uma brincadeira gostosa de fazer.

Como o Fio.Do.Bigode está cada vez ficando mais sério nas discussões filosóficas, políticas, musicais e esportivas, vale aqui um brinde com um bom vinho da uva Riesling. Viva o debate, a diversidade, a polêmica e a democracia.

Saúde para todos e até a próxima.

Mistral: vendas pelo telefone (11) 3372–3400 ou pelo site (www.mistral.com.br); preços em dólar pela cotação do dia; em São Paulo, entrega em casa sem cobrar frete para as compras acima de 6 garrafas.

Vinci: vendas pelo telefone (11) 2797-0000 ou pelo site (www.vincivinhos.com.br); preços com dólar na cotação R$1,49; entrega em casa, sem cobrar frete.

Decanter: enoteca, na rua Joaquim Floriano, no. 838, São Paulo, telefone (11) 3073-0500.