Maestro, qual é a música?

outubro 28, 2009 · Posted in Música · Comment 

por Beto Lyra

Bem, como o Caio convocou a turma para ajudá-lo a encontrar boa música de gente nova, eu me meti a tentar escrever sobre alguns novos intérpretes, que não sei se ele ou vocês já conhecem, mas que creio merecem ser conhecidos e curtidos. Assim, aqui vai a primeira sugestão, que é Melody Gardot, cantora e compositora de jazz e blues norte-americana, de 24 anos. Começou a compor por recomendação médica (neste caso não houve erro médico) como tratamento das sequelas de um acidente com bicicleta que sofreu aos 19 anos (foi atropelada por um desses jipões, que alguns gostam de dirigir como F1).

Gardot tem, eu penso, voz aveludada, misteriosa, no bom estilo de Norah Jones. Lembra algumas vezes Madeleine Peyroux, só pra ficar nas comparações mais recentes. Ela afirma que foi influenciada musicalmente por Janis Joplin, Miles Davis e Stan Getz. Canta enfeitiçando, músicas compostas por ela mesma, em sua maioria. Seu primeiro disco foi “Some Lessons: the bedroom sessions” (2005), na realidade um EP. Das 6 faixas, prefiro “Down My Avenue” e “Cry Wolf”, letra que provavelmente foi escrita ao longo de seu tratamento de recuperação, mostrando decepção com sua lenta melhora.

Em 2006, gravou seu segundo CD, “Worrisome Heart”, um disco super uniforme, mostrando uma cantora que aparentava já ter muita estrada. Nele, eu gosto de todas as canções, mas destaco “Quiet Fire”, “Sweet Memory”, “Goodnite” e a música que dá título ao disco. Lançado apenas em 2008, alcançou rapidamente o 2º lugar no U.S. Billboard Top Jazz.

O terceiro disco, na realidade outro EP, é “Live From SoHo” (2009), que traz seis músicas, todas conhecidas, gravadas exclusivamente para o iTunes.

“My One And Only Thrill”, mais recente trabalho da cantora (2009), tem altos e baixos na minha opinião. Em oposição a faixas travadas, tem canções como “Who Will Confort Me” e “If The Stars Were Mine”, que trazem uma pegada maravilhosa, e “Your Heart Is As Black As Night” em que canta como as melhores intérpretes negras de jazz. Destaco ainda “Over The Rainbown”, a clássica balada gravada por Judy Garland, em 1939. Apesar do desbalanceamento, o disco alcançou novamente o 2º lugar na US Top Billboard, o 1º na Suécia e o 4º na França, além de ser bem vendido na Inglaterra, Holanda, Nova Zelândia e Austrália.

Por aqui, já tem este último CD, mas os anteriores não são fáceis de achar. Ou mandamos importar (e não fica barato) ou esperamos que as gravadoras compreendam que brasileiro também gosta de música boa.

Podem conferir mais uma apresentação ao vivo em que Gardot canta “Who Will Confort Me” (vejam só o bigode/barba do contrabaixista). Aproveitem!

O apetite pantagruélico por tributos

outubro 23, 2009 · Posted in Economia · Comment 

por Beto Lyra

Let me tell you how it will be
There’s one for you, nineteen for me
‘cos I’m the Taxman
yeah, I’m the Taxman

(Harrison e Lennon)*

Meses atrás, o governo brasileiro anunciou que estudava taxar a caderneta de poupança. Escândalo, revolta popular. Então o governo esclareceu que a taxação era só para ricos, isto é, para contas de poupança acima de R$ 50.000,00. Bem, nem vou discutir se R$ 50.000,00 em caderneta de poupança separam os pobres dos ricos, pois tenho certeza que não.

Por trás desse estudo governamental estava o lobby dos bancos, que demandavam uma taxação para a poupança. Motivo: a queda das taxas de juros tornou a remuneração das cadernetas mais interessante do que a dos fundos, que além de pagar IR também pagam taxa de administração para os próprios bancos. O lobby era uma tentativa para estancar a crescente migração de milhões de reais dos fundos de investimento, administrados pelos bancos, para a caderneta de poupança.

Os políticos de oposição ao governo aproveitaram a oportunidade para criticar Lula. Lula jogou a bola para o Congresso, que, imaginem só, empurrou com a barriga, não votando a medida.

Dias atrás, li no jornal que o presidente Lula disse que a taxação da poupança perdeu seu momento político. A seguir, no mesmo jornal, havia a notícia de que o Banco Central está preocupado com um possível aumento na inflação e por causa disso estuda aumentar a taxa de juros. Ah! Agora faz sentido, Lula não quer desgaste político em taxar a poupança (que seria para agradar aos bancos), mas acena com o aumento da taxa de juros (que é para agradar aos bancos). Na véspera de eleições, por que não agradar aos bancos?

Quase ao mesmo tempo, só se fala na criação de um novo tributo, com a justificativa de financiar a saúde. Isso mesmo, mais um imposto e, como em 1995, com um motivo nobre: saúde. Querem ressuscitar a CPMF, a contribuição provisória sobre movimentação financeira (provisória que durou 13 anos), só que com algum nome diferente. Evidentemente, como da outra vez, o dinheiro irá para o caixa do governo e não vai gerar recursos para a saúde.

Memória é bom: em 1995, o santo Dr. Adib Jatene, então ministro da saúde do governo FHC, defendia a criação de tributo sobre o cheque porque a saúde não tinha recursos e a arrecadação iria toda para a saúde. Apoiado pelas Polianas de plantão, o tributo foi aprovado pelo Congresso, mas o dinheiro acabou no caixa único do governo. Jatene, inocente útil na história, deixou o governo e voltou para seu hospital, de onde nunca deveria ter saído.

Agora a coisa vai se repetir. O atual ministro da saúde, um temporão, pede aprovação da taxa para a saúde, pois há, na afirmação dele, falta de recursos no setor. Como podem estar faltando recursos para a saúde se o governo se deu ao luxo de isentar os automóveis de impostos por um ano, se aumentou os salários dos funcionários públicos federais, se aprovou mais 7.000 vagas de vereadores pelo Brasil, se gastou milhões na campanha para receber as Olimpíadas? Se está comprando aviões-caça e submarino atômico? Se não investiu nem 50% do que deveria estar investindo no tal Pac?

A fúria arrecadadora do governo brasileiro lembra o apetite insaciável de Pantagruel, criação clássica de François Rabelais.  Filho de Gargantua, Pantagruel já nasceu com um apetite descomunal, mamando diariamente o leite de 4.600 vacas. Em suma, um saco sem fundo. Qualquer semelhança com personagens arrecadadores contemporâneos pode não ser mera coincidência.

Creio que todos se lembram do verso que abre este post, da música Taxman, dos Beatles, e provavelmente acham a proporção citada (1 para 19) uma ficção, uma coisa só pra inglês ver. Eu, infelizmente, admito que no Brasil essa ficção vai virar realidade. E prepare-se pois vem aí mais um tributo.

(*) Embora só creditada a George Harrison, Taxman teve a parceria de John Lennon.

_________________________________________________________________________________________________________________

Em tempo: depois que escrevi este post, o governo pantagruélico fez um lance audacioso: taxou em 2% a entrada de recurso estrangeiro no país. Pronto, fez o que queria e precisava para diminuir o rombo. Com entrada imediata em vigor, agora vai poder devolver o dinheiro das antecipações do IR e quem sabe vai sobrar algum para viagens do presidente.

Beba sem moderação

outubro 19, 2009 · Posted in Lazer · Comment 

Hoje o Bigode ganha mais um Fio. Trata-se de grande defensor das boas causas, principalmente das que à primeira vista parecem não ser muito importantes, mas que na essência são extremamente relevantes, imperdíveis e fundamentais, como ele mesmo gosta de dizer.

Com vocês, o humor fino e o conhecimento das boas coisas da vida do nosso novo bloguista.

Vai que é sua Pedrão!

por Pedrão

Nos dias de hoje, está na moda dizer que beber com moderação uma taça de vinho na refeição faz muito bem à saúde. Parece que o vinho tem componentes que dilatam as artérias e diminuem o colesterol ruim no sangue. E dizem que os franceses, apesar da comida gordurosa, sofrem menos de doenças coronárias do que a média da população de outros países, o que é computado ao consumo de vinhos.

Pode ser, mas esse negócio de que beber uma taça de vinho por dia faz bem à saúde não é comigo. Tudo bem que cuidar da saúde é importante, mas vinho não é remédio. Vinho está em outro departamento, existe para dar prazer e alegria. Se for para beber, é para valer.

Bom, vamos colocar as coisas nos devidos lugares, para também não pensarem que agora entrou um pau d’água no Fio.Do.Bigode, falando um monte de besteiras. Beber para valer nas horas certas. Antes de mais nada, bebida é na hora do lazer, da diversão, sem compromisso. Bebida não combina com coisa séria.

Toda vez que bebida entra em assunto sério acaba causando confusão. Veja nosso caso, um blog com a seriedade do Fio.Do.Bigode colocando em risco seu prestígio. Porque a única explicação no convite que o Beto me fez para colaborar com o blog é a de que ele estava de fogo quando pensou em tamanha temeridade.

Bebida também não combina com trabalho. Nos dias de trabalho, que infelizmente representam a maioria na nossa existência, o negócio é água, suco ou chá. Vá lá, uma coca zero. coca light já não dá. É insuportável. E coca normal é para os menores de 40 anos.

Nas poucas vezes que tentei escrever alguma coisa relacionada ao trabalho depois de tomar umas e outras, me sentia um gênio com idéias brilhantes, por que não dizer revolucionárias. Ainda bem que mantive um resquício de sobriedade para deixar a conferência para o dia seguinte. Pelo amor de Deus! No pouco que fazia algum sentido, a quantidade de asneiras era inacreditável.

Não preciso nem dizer que bebida também não combina com fossa. Nessa hora, é melhor ficar sóbrio, se precisar conversar, desabafar, que seja com alguém também sóbrio. Bêbado na fossa é muito chato. Fica debruçado em cima de algum coitado que normalmente não está na fossa. Pior, também não está bêbado. E não há quem segure a choradeira, normalmente em volume perceptível em todo o quarteirão.

Por fim, bebida não combina com valentão. Homem que gosta muito de arrumar encrenca, de brigar, já é meio esquisito. De todo modo, gosto não se discute, se quer muito brigar, ficar se esfregando em outro homem, problema de cada um. Mas é melhor fazer isso sóbrio, porque se beber muito vai acabar apanhando.

Ah sim, quase ia me esquecendo. Bebida é legal nas horas livres, quando estamos absolutamente à vontade. Agora se o planejamento no dia envolve atividades na alcova, de caráter libidinoso, é preciso cautela. Sobretudo para os homens. Quando a intenção é essa, o exagero na bebida pode causar embaraço. Até certo ponto ajuda, mas ultrapassado esse ponto, a eficiência, em alguns aspectos, corre o risco de ficar comprometida.

Feitas essas ressalvas, nada de bebida para fazer bem para a saúde. O que faz bem para a saúde é vagem sem sal cozida no vapor. Chuchu refogado sem nenhum tempero. Arroz integral com cenoura ralada crua. Acompanhado de água. Ou chá de losna.

Bebida é para se divertir. Um bom whisky na sexta feira, após uma semana de trabalho. Tomar uma bela cachaça nos domínios do Caio, em Gonçalves ou São Francisco de Xavier. O bar de cachaças na pracinha central de Gonçalves é um verdadeiro colosso! Uma cerveja na praia ou acompanhando uma farta feijoada. As cervejas estão melhorando muito, com várias opções novas.

Mas do que eu gosto mesmo é vinho. Por isso me meto a falar de vinho, dar palpites, fazer combinações com comida. Ou melhor, utilizando uma linguagem mais metida, como incumbe a quem quer falar de vinho, fazer harmonizações com pratos bem elaborados. Lógico que não sou eu quem elabora esses pratos. A depender de mim na cozinha, qualquer harmonização seria um verdadeiro desastre.

Diante da insanidade do Beto a que já me referi, vou aproveitar este espaço no Fio.Do.Bigode para falar um pouco sobre vinhos e comida. Também posso falar de algumas outras coisas, mas sobre futebol e música, assuntos que costumo me intrometer, o Beto e o Caio, ainda que com opiniões controvertidas, já estão dando conta do recado.

É bom deixar claro que os palpites que darei sobre vinhos não têm nenhuma erudição. É tudo na base da experiência, pois já bebi muito vinho. O pouco de erudição que adquiri, foi lendo alguns livros, especialmente do Saul Galvão, crítico gastronômico falecido recentemente e que era primo distante meu e do chefe aqui do Blog. Quem quiser ficar com o original e não com o plágio, recomendo o livro Tintos e Brancos, do Saul Galvão. Livro sem frescura, fácil de ler, e que dá uma visão geral das diversas regiões vinícolas espalhadas pelo mundo, com muitas indicações para o consumidor.

As opiniões que arriscarei também passam longe daquela conversa de muitos enólogos. Nada de aroma de casca de lima da Pérsia, de especiarias da Tanzânia, de grama cortada da Escócia. Tem enólogo que adora encontrar no vinho aromas de coisas que nem existem no Brasil. Sem com isso desprezar totalmente a questão do aroma, que é uma das melhores coisas do vinho. Com um pouco de atenção, alguns aromas são bem perceptíveis e gostosos, enriquecem o vinho.

Como o mercado de vinhos está aquecido, existe muita oferta interessante, com preços razoáveis. Mas também existe muita enganação, nomes pomposos, preços altos e vinhos porcarias. Naquilo que souber, tentarei dar sugestões de boas compras para quem quiser tomar bons vinhos sem ter que hipotecar a casa.

Para uma primeira intervenção, chega de falatório. Saúde para todos e até a próxima.

Cadê a nova música?

outubro 16, 2009 · Posted in Música · Comment 

por Caio Ferreira

Embora eu ainda não tenha idade para iniciar conversas com frases como “Antigamente”, ou “No meu tempo”, preciso reconhecer que a evolução tecnológica hoje acontece em velocidade tão grande que coisas que fizeram parte integrante da minha vida por muitos anos viraram pó e desapareceram sem deixar vestígios, dando a impressão que nunca existiram (não, não vou dar exemplos). Isso não me deixa perplexo, ou desorientado, muito pelo contrário. Até que me viro muito bem incorporando essas novidades ao meu dia-a-dia, mas ainda sou adepto do meio “físico” de perceber as coisas.

Exemplificando, posso dizer que o que me leva hoje a comprar um livro ainda são as tradicionais referências de amigos, resenhas de bons críticos em jornais e revistas, só que agora pesquisadas via Internet, e a fundamental folheada nos livros expostos nas livrarias. Da mesma forma, ainda gosto de ir às lojas conhecer os eletro-eletrônicos que depois vou adquirir pela Internet, onde pesquiso produtos e preços.

Outro dia percebi, porém, algumas dificuldades por falta de referências das minhas fontes tradicionais. O caso é que já não consigo descobrir (ou ser apresentado a) novas músicas, feitas por gente jovem. Faz tempo que ando em círculos nesse campo e isso me entristece, pois adoro música.

Rádios hoje em dia não apresentam novidades, só os mesmos artistas conhecidos de sempre. Televisão, nem pensar! Até as novelas da Globo que na década de 70 lançavam artistas novos em trilha sonora de novela (como Ivan Lins com “Madalena”), hoje estão atoladas na mesmice da bossa nova.

É claro que já ouvi falar do My Space, inclusive já frequentei uma época. Mas não me achei lá dentro. Comecei pesquisando por gênero musical, escolhi rock, que imaginei, devia ter muita novidade, mas muita mesmo. Daí abriu uma nova página com as várias vertentes do gênero, antigas e atuais – clássicos, anos 60, 70, stream, trash etc. Nessa hora, afora os campos manjadíssimos, não consegui perceber pelo nome qual gênero era antigo e qual era atual. Escolhi um ao acaso e fui apresentado a uma infinidade de bandas, com videoclip e tudo a que tinha direito. Adorei! A garotada é privilegiada. Tem ferramentas para se produzir de uma forma inimaginável (ou seja, hoje em dia dá pra ser ninguém com muita classe e tecnologia, a um custo baixíssimo). Daí comecei a ver alguns vídeos, ouvir faixas aleatoriamente, mudei de gênero, ouvi mais um pouco, saí do rock, tentei jazz, depois tentei MPB, e nada de encontrar alguma referência que me dissesse o que valia a pena ou não.

Então, cansei de procurar e não achar nada que me agradasse. Percebi que se quisesse encontrar música boa no My Space pelo famoso método de tentativa e erro não ia ter tempo nem para dormir. Por isso, desisti.

Outro problema é que não tenho filhos que me apresentem novidades musicais, mas pelo que meus amigos me contam, os filhos hoje em dia gostam mais dos CDs dos pais.

Enfim, estou perdido e pedindo socorro. Algum de vocês poderia me ajudar a descobrir a música do século 21?


Mudando completamente de assunto, mas aproveitando que estou falando de Internet e tecnologias, preciso dizer que estou assustadíssimo com a tal da tecnologia. Fui comprar remédios para meu irmão que sofreu um acidente de moto e na drogaria me ofereceram o famoso cartão de cliente especial que dá direito a descontos. Como a diferença de preço era grande, aceitei o cartão. Forneci o CPF para o cadastro e quando quis continuar a recitar os demais dados, a funcionária falou que não era preciso, já estava tudo lá na tela. Verdade! RG, endereço, telefone, celular, estado civil etc. Pergunto: A drogaria comprou dados roubados ou a receita federal e/ou os bancos estão vendendo nosso dados cadastrais?

Ídolos, heróis e mansos de espírito

outubro 13, 2009 · Posted in Esporte · Comment 

por Beto Lyra

No post “Heróis em preto e branco”, contei sobre minha experiência com futebol e sobre aqueles que considero grandes personagens. Um deles, herói de todo brasileiro, foi e ainda é Pelé. Reverenciado como Rei, foi um jogador de futebol único, inigualável, o maior de todos. Não há e nem nunca houve alguém que pudesse rivalizar com ele. Todos os grandes jogadores do mundo reconhecem, como leais súditos, o verdadeiro Rei. Há uma única exceção, o argentino Maradona, ótimo jogador de futebol, mas sempre uma figura histriônica, cujos dois grandes momentos, que ele mesmo se orgulha de contar, foram o gol de mão contra a Inglaterra, na Copa de 1986, no México, e depois o episódio da tal água “batizada” com tranquilizantes, que ele e companheiros da seleção argentina ofereceram aos brasileiros em jogo da Copa de 1990, na Itália. Dá pra ser herói assim?

Lembro bem das transmissões ao vivo de jogos pela TV, em que um dos maiores locutores esportivos, Mario Moraes, narrava os  lances do jogo chamando todos os jogadores pelos nomes e, no caso de Pelé, como justo reconhecimento à sua nobreza, apenas empregava um simples e sonoro, porém majestoso, “Ele”.

Li no excelente e oportuno post do Caio “Ídolos (argh)”, que ele considera Pelé um caso único de herói de verdade, apesar de politicamente correto. Acrescento apenas que vejo o Pelé herói da mesma maneira que os antigos gregos viam seus deuses heróis: como personagens capazes de verdadeiras façanhas, mas sempre com suas fraquezas expostas, fraquezas estas que os levavam a cometer erros humanos, a vacilarem, a ponto de serem até mesmo derrotados.

Assim, ao lado da face boazinha, correta, temente a Deus, Pelé teve suas fraquezas plenamente humanas, tanto nos campos de futebol quanto em sua vida privada.

Pelé nunca foi santo. Como dizia Mario Filho, em seu livro “O negro no futebol brasileiro”, ao contrário da maioria dos jogadores da época — Garrincha inclusive –, que apanhavam e ficavam quietos, Pelé reagia. Depois de uma falta, levantava e olhava seu adversário fundo nos olhos e revidava quase sempre. Ele machucou intencionalmente vários adversários ao revidar lances maldosos. Assim, quebrou a perna de seu implacável marcador Procópio, distribuiu cotoveladas, como aquela inesquecível no rosto de um uruguaio na Copa de 1970 que tentava pegá-lo, por trás, para matar um ataque brasileiro. Pelé foi soberano também na maldade. Uma maldade humana, para se defender.

Na vida pessoal dizem que não foi marido fiel, que teve problemas com a educação dos filhos e que, nos negócios, sempre esteve cercado por gente duvidosa. Enfim, uma pessoa de carne e osso, como todos nós e foi isso que fez dele o maior herói de todos, porque ninguém gosta de gente “maravilhosamente boa, sem defeitos, como Xuxa, a única humana a gerar virgem seu próprio filho, e Roberto Carlos, que mantém, em todos os shows que dá, um lugar vago na platéia para a esposa que morreu há anos.

Lembro de um grande filme, Lendas da Paixão (Legends of the fall), de 1994, com Anthony Hopkins, Brad Pitt e Aidan Quinn. Pitt e Quinn eram irmãos totalmente diferentes. O primeiro era aventureiro, humano e errado. O segundo era perfeitinho e morria de inveja de Pitt, que recebia atenções e olhares mais carinhosos das mulheres e do velho pai, Hopkins. No auge de uma das brigas familiares, Quinn pergunta: “Por que não mereço a mesma atenção que meu irmão recebe, se faço tudo direito, se sou bom marido, se cumpro todas as minhas obrigações e ele não?” A resposta do pai é a única possível de ser dada a alguém que não consegue entender a vida: o silêncio.

Só os mansos de espírito se contentam com a fantasiosa pureza interpretada pelos mestres do fingimento. Como nunca me enquadrei nesse grupo, sempre torci pela Paula contra Hortência, pela Luiza Brunet contra a virgem Xuxa, pelo Piquet pai contra o virgem Senna, pelo Erasmo Carlos contra o “rei” da Jovem Guarda.

Para finalizar, recomendo o documentário sobre Waldick Soriano, feito com brilho por Patrícia Pillar, que mostra o quão humano foi o politicamente incorreto cantor, ídolo de milhões de outros humanos.

Ídolos (argh!)

outubro 9, 2009 · Posted in Humor · Comment 

por Caio Ferreira

“Imagem de falsa divindade, que é objeto de culto” é a definição de ídolo, conforme o “Definir” (Dicionário Priberam da Língua Portuguesa). Então, se resolvi escrever sobre ídolos, vou escrever sobre falsas divindades.

Acho que vou me dar mal hoje! Apesar daquela conhecidíssima frase “Pobre do povo que precisa de ídolos”, cujo autor desconheço, o fato é que hoje convivemos com vários deles, impostos cotidianamente pela mídia em geral, agora por necessidade compulsiva de se fabricar “celebridades” para vender jornal, revista etc. Temos uma enorme quantidade e variedade de ídolos para todos os gostos. Tantos que devemos ser agora um povo miserável, e não apenas pobre.

Não gosto de ídolos. Não me lembro de ter cultuado ninguém, embora admire várias pessoas, e há várias a serem admiradas. Mas alguns desses ídolos incomodam demais, principalmente os ídolos “politicamente corretos”. Estes chateiam mais do que aqueles coitados(as) que por 15 minutos de fama participam de qualquer BBB da vida.

O ídolo “politicamente correto” é o queridinho da mídia, esta sempre em evidência, ora dando exemplos, ora conselhos (econômicos, amorosos, culinários, sexuais etc.), ora fazendo declarações contundentes, enfim, um modelo de conduta em qualquer situação, inclusive quando “peca”, por que é nesse momento que ele cresce, organizando uma coletiva de imprensa para uma sessão de arrependimento e mea culpa. Por trás disso, normalmente, uma estratégia planejada de marketing, uma excelente assessoria de imprensa, patrocinadores, e um belo esquema de faturamento… E falta alegria, humor e sinceridade.

Os “politicamente incorretos”, por sua vez, também estão sempre em evidência a cada escorregão, declaração infeliz ou acesso de raiva. Daí a mídia cai em cima, revira o passado, relembra os podres, traz depoimentos dos ex-tudo (ex-namorado, ex-esposo, ex-parceiro, ex-sócio, ex-colega, ex-amigo, ex-credor, ex-patrocinador). Mas, cá pra nós, acho que são pessoas muito mais humanas, sinceras e divertidas. Garanto! Vejam a minha lista de comparações entre ídolos PI X ídolos PC:

  • Nelson Piquet a Airton Senna (por pelo menos 3 voltas)
  • Serginho Chulapa a Ronaldinho Fofômeno (um leve pontapé no bandeirinha já faz toda a diferença)
  • Guga a Roger Federer (por 3 sets a 1, pelo menos)
  • Andre Agassi a Pete Sampras
  • Muhammed Ali a Joe Frazier
  • Tim Maia a Roberto Carlos
  • Tim Maia a Chico Buarque
  • Tim Maia a (quase) todo mundo
  • Cassia Eller a Marisa Monte
  • Angela Ro Ro a Zizi Possi
  • Keith Richards a Mick Jagger
  • Mick Jagger a John Lennon
  • John Lennon a Paul Mcartney
  • Rolling Stones a Beatles
  • Felipe Camargo a Tarcísio Meira
  • Paulo Francis a Arnaldo Jabor

Pelé… Bem, esse é a exceção que confirma a regra. Desse eu gosto. Admiro. Admiro muito. São 53 anos de muita personalidade, carinho e paciência frente aos fãs, frente à mídia, sem nunca desapontar os que o idolatram (exceto por algumas declarações famosas, é claro). Pensando em por que e como mencioná-lo nesse post, afinal de contas o cara é o ídolo dos ídolos, ao mesmo tempo em que é o ídolo mais politicamente correto que conheço, de repente entendi tudo, a coisa é perfeitamente lógica: Pelé é mesmo o maior de todos os ídolos e o mais “politicamente correto” deles. Já, o Edson Arantes do Nascimento deve ser da minha turma aí de cima (coluna da esquerda, é claro!).

“Meu ideal político é a democracia, para que todo homem seja respeitado como indivíduo e nenhum venerado” Albert Einstein.

Minas: esquadrão literário X engodo musical

outubro 6, 2009 · Posted in Artes, Literatura, Música · Comment 

por Beto Lyra

A questão é polêmica, eu sei. Mas se eu abordei, em outro post, a Ditadura Baiana que nos tortura constantemente, como não falar um pouco do sofrimento que nos é imposto pelos irmãos músicos mineiros?

Aliás, há diversas questões dos mineiros que não entendo como é que acontecem. A primeira delas diz respeito à Inconfidência Mineira, fato histórico, que marcou a posição de revolta dos residentes no Brasil contra a Coroa. Isso eu entendo claramente. O que não consegui jamais entender é porque os mineiros ficam orgulhosos em serem chamados de Inconfidentes. Ora, inconfidente quer dizer não digno de confiança, inconfiável. Assim, me pareceria mais adequado qualquer outro nome como “revoltosos”, “anti-Coroa” “contra-impostos” ou “social-democrata” (êpa, essa foi demais, desculpem).

A segunda questão é que mineiro, apesar do jeitinho tímido, humilde e matuto, é corajoso e arrojado, orgulhoso, hábil e esperto. Tão esperto e hábil que apesar de o estado nunca ter sido considerado da região nordeste do Brasil, usufruiu das benesses da Sudene, antigo órgão do governo federal responsável por programas que despejavam recursos na recuperação dos estados … nordestinos.

Quero respeitosamente reverenciar o esquadrão literário mineiro, cujos expoentes máximos Guimarães Rosa e Carlos Drummond de Andrade estão muito bem secundados por Otto Lara Resende, Rubem Fonseca, Affonso Romano de Sant’Anna, Paulo Mendes Campos, Adélia Prado, Fernando Sabino e ia me esquecendo de Hélio Pellegrino, que é até nome de rua em São Paulo.

Bem, mas voltemos ao campo musical. Foi-se o tempo em que a música feita e tocada no Brasil tinha cor e gosto de café com leite. Milton Nascimento e Chico Buarque, por exemplo, fizeram uma dobradinha incrível, com clássicos como “Cálice”, “O que será (à flor da pele) e “Cio da Terra”, mas a dupla parou cedo. Milton, justiça seja feita, fez discos magistrais, entre um porre e outro, nos áureos tempos. Nos últimos quinze anos, no entanto, só desovou músicas de segunda, aliado àquele grupo mineiro de enganadores, como Fernando Brandt, Beto Guedes, Lô Borges e seu irmão Marcio, Tavinho Moura, Toninho Horta e Flavio Venturini. Volta e meia escuto na rádio alguma música de um desses compositores/cantores e a vontade é trocar imediatamente pela “Hora do Brasil”, que pelo menos dá pra dar risada.

Milton Nascimento parece mineiro, e se fez passar por mineiro a vida inteira, deu até as sílabas iniciais de seu nome a um disco “Minas”, afirmando ser sua raiz de verdade. Mas ele nasceu no Rio. Seu pai era dono de uma estação de rádio e assim ele respirou o mundo artístico desde pequeno. Cresceu em Três Pontas, fez bela carreira, lindos discos, carregou esse grupo de enganadores nas costas, mas cansou e esqueceu de parar, aposentar, pendurar chuteiras. Quase como Romário, que foi enganar na 2ª divisão dos EUA, no Tupy de Minas e na Austrália, pra tentar ganhar algum dinheiro e chegar a 1.000 gols. Uma vergonha!

Por causa de Milton tivemos que aguentar aquelas torturantes ladainhas nas duplas que inventava com Mercedes Sosa, Violeta Parra e Victor Jara. Tenho quase certeza que os golpes militares pararam na América Latina (Honduras é a exceção que confirma a regra) pois ninguém mais quer ter que escutar canções de protesto com a trinca acima. Nem os militares, é lógico.

Mas volta e meia Milton reaparece, para tristeza dos que gostavam dele e infortúnio de todos que o assistem. Agora está reduzido a uma figura que eu me atreveria até a comparar àquela fumacinha aterrorizante que aparece de quando em vez na série Lost.