Bigodes sempre estiveram por cima

setembro 29, 2009 · Posted in Humor · Comment 

por Beto Lyra

Einstein e seu bigode de gênio.

Tenho observado aqui e ali movimentos de justa homenagem aos bigodes. Ao contrário do que alguns poucos e barulhentos “invejosos” vinham insistindo em afirmar, os bigodes não caíram em desuso, pelo contrário, sempre estiveram em evidência, muito low profile às vezes, e em outras, nem tanto. Mesmo quando ironizavam dizendo que o “malandro-bigode era aquele que vivia nas bocas, mas sempre estava por fora”, os bigodudos, seguros de si, deram de ombros e nunca se abalaram. Grandes, pequenos, lisos ou encaracolados, tímidos ou exibicionistas, às vezes intelectuais também, os bigodes não poderiam deixar de aparecer neste blog. Espero que apreciem os exemplares aqui apresentados.

Começo pelo atualíssimo campeonato mundial de barba e bigode que aconteceu na Alemanha neste mês de setembro. O campeão foi o norte-americano David Trevor, do Alaska.

Campeão da principal categoria do concurso, David Trevor exibe bigode e barba estilo traçado artesanal.

Destaco a seguir outros concorrentes, sendo que o primeiro guarda imensa semelhança com um conhecido personagem de desenho animado. Pode parecer que não conto a verdade, mas meses atrás quase fui atropelado por um desses à entrada do Bar Astor, em Pinheiros. Minutos após o susto, pude observar seu proprietário amarrando as extremidades atrás das orelhas antes de devorar um vistoso filé Mostarda.

Esse estilo leva anos para chegar ao auge.

Ao contrário do que olhares superficiais poderiam induzir, o dono desse bigode não está sorrindo, mas contraindo seu rosto na medida exata para manter o melhor design para seu Modelo H.

Bigode modelo H exige cuidados em tempo de chuva.

O francês Herve Diebolt participou do campeonato de barba e bigode, na Alemanha.

Sendo tratado com tanto esmero e criatividade, o bigode não poderia deixar de marcar presença no campo das artes.

Na música por exemplo, estes  famosos exemplares ajudaram donos a arrastar multidões e fanatizar milhões com um simples abrir de suas bocas, ou melhor, com um simples movimento de seus bigodes.

Nos anos 60, bigodes musicais.

Nas artes plásticas, o bigode também marcou presença. Muitos artistas ostentaram bigodes charmosos, insinuantes e muitas vezes úteis no momento de conclusão de algumas de suas obras, quando a última pincelada era genialmente substituída por uma leve e determinada bigodada. Casos houve em que o artista preferiu perder uma orelha, mas não ficou sem bigode. Eis alguns desses gênios da pintura…

Autorretrato de Vincent Van Gogh.

Salvador Dali, tentando enxergar a origem de seu bigode.

No cinema, mais uma prova da presença marcante do bigode. Charles Chaplin imortalizou seu personagem Carlitos construído fio-a-fio.

Outro bigode genial: Carlitos, o garoto em tempos modernos.

E nas Letras não foi diferente. Dezenas de escritores que criaram verdadeiras obras-primas da literatura mundial ostentavam bigodes. Machado de Assis, considerado o maior autor brasileiro, e Nietzsche, o filósofo alemão autor de “Assim Falava Zaratustra”. Muitas vezes, ouvi dizer, na ausência de suas penas, canetas ou computadores, empregavam fios dos próprios bigodes para registrar seus momentos de inspiração.

Machado de Assis, o 1º bigode a presidir a Academia Brasileira de Letras.

Zaratustra usaria bigode? Nietzsche jamais esclareceu essa dúvida.

Comecei este post com a foto de um dos maiores gênios, que foi Albert Einstein. Falam muito de suas excentricidades, mas na questão do bigode foi bastante conservador. E para finalizar, cito outro gênio, Leonardo da Vinci, também adepto do bigode, que deixou crescer junto com a barba. Creio desnecessário dizer, mas sua obra-prima, La Gioconda (Mona Lisa) não possui bigode.

Leonardo da Vinci fez barba e bigode em todas as atividades que exerceu.

Apøs terminar este post, fui surpreendido com uma ótima foto de crianças vestidas como Mahatma Gandhi, em uma justa homenagem ao seu aniversário de 140 anos. Como vs. podem comprovar visualmente a homenagem ao líder da não violência comprova tudo o que já foi aqui dito sobre o bigode e completa os exemplares bigodes aqui postados anteriormente.

Dia Mundial da Não Violência – homengem a Mahatma Gandhi.


A foto é de Raj (não o da novela) Partidar, para Reuters.

Viva o leitor!

setembro 23, 2009 · Posted in Literatura · Comment 

por Beto Lyra

Tem gente dizendo ou escrevendo constantemente que está relendo determinado livro. Repare que é sempre um clássico ou obra de renomadíssimo autor. Alguns, já no dia seguinte ao que registraram em colunas de jornais ou revistas, dizem estar relendo um outro livro. E me pergunto: “Puxa, são humanos ou máquinas de leitura?”

Há tanta literatura boa e importante a ser lida, contemporânea ou clássica, que não seria preciso reler nada o resto de nossas vidas. Tenho por isso a impressão de que quem relê com tanta frequência é do tipo envergonhado. Sente-se embaraçado por estar lendo pela primeira vez o que, acredita, já deveria ter lido em outra época. Então lança mão da “releitura”.

Bem, é claro que consultas devem ser feitas para ajudar na elaboração de algum trabalho, texto, tese. Mas muitos fazem tal consulta apenas para colocar uma frase “lapidar” na sua obra. O truque, aí, é deixar claro que tal pensamento não é seu, mas que você é inteligente e transita o suficiente entre autores de respeito.

Por tudo isso, quero deixar os leitores confortáveis. Lanço hoje, neste Fio. Do. Bigode, a seção “Livros que eu deveria ter lido há mais tempo, mas não tive oportunidade”. É um espaço para quem quiser comentar, sugerir, incluir, criticar livros. Esclareço, só vale livro que está sendo lido ou foi lido nos últimos anos. Relido, não!

Jamais consegui ser devorador de livros, quanto mais de clássicos, mas li importantes livros assim que fiz amizade com a literatura, a partir dos 16, 17 anos. Mas há incontáveis obras que ainda quero ler. E sempre que o tempo permite faço questão de intercalar um livro importante com um bom e atraente “descartável” – que pode ser mais rapidamente vencido.

Fica combinado que o espaço dos “Livros que eu deveria ter lido…” servirá apenas para tratar daqueles mais importantes, que acrescentam algo após a leitura. Podem ser livros de história ou contando histórias, e valem os utilizados como texto obrigatório desses cursos de reciclagem intelectual, que tantas casas oferecem por aí.

Para mostrar que não é complicado, começo com cinco obras que li só depois de velho, infelizmente. O primeiro é Projetos para o Brasil, de José Bonifácio de Andrada e Silva, uma belíssima prova de que no início do século XIX havia gente preparada para pensar e planejar um país moderno, capaz de liderar o continente e ser parceiro das principais nações do mundo na época. Oportunidade desperdiçada.  Andrada era um ser privilegiado, formado em Filosofia, Direito, Mineralogia e Química, em Paris, e Minas, em Freiburg,  exerceu vários cargos diretivos na Europa e depois no Brasil. Quem estudou história do Brasil sabe que os projetos do Andrada não saíram das gavetas.

Outro livro que li só depois dos cinquenta foi Viagem ao Brasil, de Hans Staden, cronista alemão do século XIV, que escreveu apenas esta obra, narrando suas duas viagens ao Brasil.

No ano passado resolvi enfrentar a Comédia, de Dante. Desse verdadeiro tratado sobre a condição humana, li o Inferno e Purgatório, dei um bom tempo, e então fui ao Paraíso. Curioso é que só depois de séculos a obra passou a ser chamada de “Divina Comédia”. Talvez por conta de algum “releitor”, que quem sabe a leu na diagonal na primeira vez e precisou reler para entender o que Dante quis dizer .

Mais um tempo e encontrei A Utopia, de Sir Thomas More, conselheiro do Rei Henrique VIII, da Inglaterra. Já citei esse livro em o Penico do Sarney, para enfatizar que na ilha ideal criada por More, leis e códigos eram feitos de forma simples e inteligível por todos, para que todos soubessem claramente o que era permitido ou não fazer, direitos e obrigações etc. Ora, se todos entendiam as leis e códigos, era simples cumpri-los e, em caso de infração, o próprio envolvido era capaz de se defender ou buscar seus direitos. Simples, não?

Atualmente leio Tratado sobre a Tolerância, de Voltaire, já que estou envolvido em um imenso projeto sobre tolerância, que deve ficar pronto em 2011. E vejo na fila de espera, altivo e imponente, Pantagruel, de Rabelais. Ouvi e usei muito a expressão apetite pantagruélico, mas sempre com um sentimento de uso indevido já que o conhecimento ainda não me pertencia.

Convido pois os leitores, com fios ou sem fios de bigode, a colaborar para o “Livros que eu deveria ter lido há mais tempo, mas não tive oportunidade”, com a intenção de ajudar aos demais a descobrir títulos perdidos no tempo e de provar que não se envergonham de ler só agora o que devia ter sido lido em priscas eras.

A foto dos livros, que transmite a sensação de sedimentação de conhecimento, é da competente Lin Pernille.

Tirou do baú?

setembro 19, 2009 · Posted in Humor · Comment 

por Caio Ferreira

Com vocês, Caio, o novo blogueiro deste espaço, dono de fino humor e de sacadas rápidas e inteligentes como eram as do Guga no tênis. Desafiador e agradável na arte de esgrimir com palavras, com ele o Bigode ganha mais Fio.

Dá-lhe Caio


Há pessoas que são realmente especiais. Algumas por seus atos de bravura, outras por sua inteligência, por alguma extrema habilidade, ou pelo espírito indomável e desbravador. Poderia enumerar vários atributos que tornam uma pessoa especial e que nos levam a admirá-la, mas há um traço que chama minha atenção em particular: o da forte convicção.

Admiro as pessoas que têm convicções inabaláveis, são fiéis a seus princípios e não temem defendê-los, mesmo sob o risco de serem estigmatizadas pela sociedade ou ridicularizadas pelos fracos. Normalmente, são pessoas dogmáticas, coerentes e, principalmente, honestas.

Esse convicto ser, porém, pode cair em desuso ou se tornar obsoleto, pois valoriza princípios que se perderam no tempo. Ele se mantém fiel a valores que mercad…, digo mercador, nenhum reconhece mais. Creio tratar-se de um tipo em extinção.

Pois tenho um amigo assim. Suas opiniões (e olha que são muitas) ora têm o dom de cair como uma luva paralisante em briga de torcida, ora como tijolo em caminhão de ovos. São de rara contundência.
Quem o conhece, respeita! E, dos que não o conhecem direito, tenho pena. Para os íntimos, há o prazer de colecionar suas pérolas de sarcasmo.

Pois imaginem que ele, neste momento de efervescência política, quando se fala tão mal do poder legislativo brasileiro (é bom esclarecer, pois poderiam pensar que falo de outro país) e de seus detentores, sejam eles répteis ou batráquios representados por aquela figura  impoluta de fartos “…” (tenho medo até de sussurrar essa palavra), neste momento de falta de valores generalizada, o meu amigo não só resolve criar um blog  como resolve também cutucar a onça com vara curta e, usando a mais obsoleta das nossas expressões, lhe dá o nome de “Fio do Bigode”.

É ou não um admirável e especial espécime em extinção?

E eu próprio sou exemplo de que o amigo é de fato corajoso. Ele me convidou para escrever regularmente aqui no blog. Os leitores têm duas chances: uma de que eu não consiga produzir na quantidade necessária; a outra é que seus insistentes protestos provoquem o cancelamento do convite.

Enquanto isso, “a gente vai levando esta vida” assim, baianamente…

CAIO FERREIRA, ex-várias coisas, atualmente é auto ex-ilado em SFX. Como não foi exilado político, nem terrorista, dá duro trabalhando o mercado imobiliário da região.

Ditadura baiana

setembro 16, 2009 · Posted in Artes, Cinema, Música · Comment 

por Beto Lyra

O sono corria bem até que fui assolado por imagens de um amigo passando em casa e dizendo “vamos logo, estamos atrasados para o show da Ivete (Sangalo). A reação foi imediata, calafrios seguidos de calores e um leve enjôo. Acordei com a boca seca e agradecendo por não ser realidade o convite. Ou teria eu comprado um ingresso para assistir Ivete Sangalo? Na dúvida, abri um livro para não adormecer novamente e evitar uma eventual continuação da tortura. Consegui. Logo clareou e eu pude enfim contar meu pesadelo para que não se repetisse.

Mas é prudente exorcizar esses demônios. E aqui vai. Tenho verdadeiro medo, paúra mesmo, quando escuto ou vejo qualquer programa moderno em que artistas baianos são impostos aos ouvintes/expectadores. A Bahia já deu, como bem disse Gilberto Gil, régua e compasso a muitos de seus filhos. Talentosos sem dúvida, eles ganharam o mundo, ao menos o Brasil. No campo da música, foram levas de cantores e compositores maravilhosos. Entre eles, eu respeito os inícios de carreiras do próprio Gil, Caetano Veloso, Maria Bethânia, Gal Gosta, Tom Zé, Dorival Caymmi, Novos Baianos e paro por aqui. Digo início de carreira porque ao longo de tantos anos os talentos se esgotaram, infelizmente, e sobrou apenas muita fama — na última década e meia, uma catástrofe consubstanciada na repetição idiota de que eles são maravilhosos, seus discos excelentes e ai de quem disser que não gosta deles e de sua baianidade. Somos (é, eu me incluo nesse grupo) ridicularizados, afinal eles são deuses. Poucos anos atrás, a mulher de um amigo fez cara de inteligente e declarou o seguinte durante uma festa: “Sábado fui ver o show do Caetano. Ah, é tão bom ouvir Caetano.”

Me afastei desse grupo de risco. Pode ter sido bom ouvir Caetano e outros baianos.  Hoje são pura enganação imposta pela indústria fonográfica e pelos turistas bocós que vão pra Bahia e voltam com fitinha no braço e sotaque local depois de uma semana por lá. Trata-se mesmo de uma ditadura, que como tal é imposta por uma minoria, barulhenta é verdade, mas minoria. Muitos desses artistas endeusam sua Bahia e baianidade, mas moram no Rio e trabalham em São Paulo.

O pior é que temos que engolir tudo o que vem da Bahia, estilos(?) como axé e pagode baiano, e gente como Daniela Mercury, os filhos do Caymmi, Babado Novo, É o Tchan, Raul Seixas (convenhamos, Rock das aranhas só é engraçado quando se tem 17 anos), com as letras do mago da auto-ajuda Paulo Coelho, e Carlinhos Brown. Porém, pior mesmo, é o que nem é de lá mas diz que é, como Claudia Leitte e Preta Gil.

Deixei de lado, de propósito, João Gilberto, considerado gênio da música brasileira. Concordo que ele seja gênio, mas aí pergunto: que tipo de gênio? Ora, esse compositor/cantor(?) tratou a todos como imbecis e fez dinheiro interpretando “o pato, vinha cantando alegremente, quém, quém”, com vozinha de criança, e dando esporro ao vivo nos produtores de seus shows por causa do som, do ar-condicionado, do serviço de garçon etc.

Os poucos que se arriscaram a falar contra essa ditadura baiana, como Lobão fez ao dizer que era ridícula a interpretação de Caetano quando tremia o queixo ao cantar “cucurucucúuuuuu, Palomaaaaa…, foram criticados e/ou perseguidos.

Em outras áreas das artes, como o cinema, a ditadura baiana impôs Glauber Rocha, que fez uma dezena de filmes, que todos na época fingiam compreender, para poder dizer: Ah, é tão bom ver Glauber.

Na literatura, o expoente sem dúvida foi Jorge Amado, com obra riquíssima e instigadora, reveladora dos costumes e problemas da Bahia. Genial! Ganhou merecido lugar entre os imortais da Academia Brasileira de Letras. Quando morreu, porém, a ditadura baiana impôs para sucedê-lo a viúva Zélia Gattai, uma mulher sensível, companheira e que escreveu uns três livros de memórias. E ai de quem criticasse ou ousasse querer disputar com ela a cadeira de Jorge.

Por último, deixei para falar um pouco mais dos outrora grandes artistas que, mesmo ricos, não se cansam de mamar nas fontes de recursos do Estado. Cansados mesmo eles ficaram de ouvir críticas, cantar por amor ao ofício, de ganhar menos daqueles que só podem pagar menos para vê-los. Nos últimos meses, Caetano e Gil, separadamente, foram buscar recursos limitados da Lei Rouanet, que se não fossem canalizados para shows de ambos poderiam irrigar muitos projetos de gente iniciante, que não tem como concorrer com esses monstros sagrados na busca de patrocínios junto a empresas. Ora, se querem ser populares, que reduzam de vez em quando os preços dos ingressos de seus shows.

Finalmente, para consolo, há quem defenda a tese de que os artistas baianos são em menor número do que se pode precipitadamente acreditar. Explico: segundo essa tese, Caetano e Bethânia são a mesma pessoa. Pois é, depois que tomei conhecimento disso, esperançoso passei a notar a exagerada semelhança entre eles e jamais, acreditem, vi os dois juntos em um mesmo local.

Em tempo: em defesa da classe musical baiana, devo esclarecer que Jorge Mautner, que se mete a tocar violino e é um horror, embora pareça filhote da ditadura baiana, não é baiano, mas carioca.

Vitus, na vida como ela é

setembro 9, 2009 · Posted in Cinema, Humor · Comment 

por Beto Lyra

Bem, como “spoiler” de plantão, não consigo deixar passar qualquer oportunidade de oferecer uma percepção diferente aos filmes aqui comentados. Dessa vez trata-se de Vitus, a história de um garoto prodígio, que muitos insistem em classificar como comédia dramática ou filme família perfeita. Para muitos, o entendimento é de que Vitus quer ser tratado como uma criança comum e daí se rebela constantemente como uma criancinha comum.

Ledo engano. Vitus é um garoto mimado, egoísta, que só quer fazer coisas que tem vontade, quando tem vontade. Gosta e tem talento raro para a música, mas como seus pais querem obrigá-lo a virar músico, resolve ser do contra e, para tanto, ultrapassa, como veremos, qualquer limite razoável.

Vitus é de fato um superdotado, tanto de inteligência como de saco, pois aguenta a aporrinhação de seus pais que estão loucos para que ele se torne um novo Mozart, fadado ao sucesso, e que naturalmente os pais exibiriam mundo afora (deve ser só Hemisfério Norte, na visão alemã). Sucesso também significaria uma vida massacrante para o pequeno gênio, mas dinheiro e mais dinheiro para os gananciosos pais do garoto. Tanto é verdade, que o pai diante da potencial mina de ouro, abandona seus negócios na promissora empresa em que é sócio e  transforma a vida familiar em um monte de contas a pagar. Não fosse pelo nível cultural que esses pais têm, poderiam perfeitamente ser comparados aos inúmeros pais de craques de futebol que largam tudo o que fazem, quando fazem algo, apenas para grudarem nos seus pintinhos e não precisarem fazer mais nada na vida.

Vitus é inteligente o suficiente para perceber essa armação e luta para escapar dela. Tem no avô, este sim um desinteressado por dinheiro, apesar de suas grandes dívidas, um verdadeiro pai. E é com ele que divide suas preocupações, anseios e dúvidas. O avô é louco, com escassos momentos de lucidez, mas respeita o neto, o escuta e fala frases quase sem sentido, como Peter Sellers em Being There (Muito Além do Jardim). Vitus, inteligente que é, entende as palavras do avô do jeito que quer e assim toca a vida.

Tenta aproximação de uma garota, por quem se apaixona, não sexualmente, mas por uma razão muito simples: suprir a presença e afeto feminino que lhe foram negados desde criança. Sua mãe ou estava ausente ou perseguindo-o para estudar e estudar música.

Nas ausências da mãe, Vitus tinha a companhia de uma garotinha cerca de 7 anos mais velha que ele. Brincavam como se ambos tivessem 12 anos. E é essa garota que Vitus, aos 13, reencontra e tenta fazer dela sua amiga, confidente e parceira. Mas ela não está preparada e confunde tudo, pois embora com 20 aninhos continua com uma cabecinha de 12 e é incapaz de sacar o espaço que Vitus lhe abre em sua vida.

Azar no amor, sorte no jogo. Vitus passa a especular na bolsa de valores. Consegue amealhar uma pequena fortuna para si e o avô, que quita as dívidas e enlouquece de vez, comprando um simulador de voo e logo em seguida um avião de verdade. É claro que o louco do avô vai acabar se dando mal. Um dia sai voando em direção ao sol e antes de derreter o avião sofre um acidente cujas sequelas vão levá-lo à morte.

Com o dinheiro ganho na bolsa, Vitus também socorre o pai (que está sendo escorraçado da empresa em que é sócio) e arquiteta a compra do controle acionário.

Como não tem mais nada pra fazer, Vitus volta a se dedicar à música. Ainda é um gênio e passa a dar concertos, quando quer e onde quer. Enfim, um garoto mimado, mas um gênio.

C.Q.D. (Clássica abreviatura de Conforme Queríamos Demonstrar).

O verdadeiro plano de Irina Palm

setembro 9, 2009 · Posted in Cinema, Humor · 13 Comments 

por Beto Lyra

Percebo, ao contrário do entendimento comum do filme, que Irina Palm não era a pessoa delicada e sensível, capaz de fazer coisas que jamais imaginou fazer apenas para conseguir dinheiro para o pagamento de caríssimo tratamento médico, último fio de esperança para a sobrevivência de seu neto, Ollie.

Maggie, o verdadeiro nome de Irina Palm, era somente uma mulher procurando suprir suas carências afetivas e sexuais.

Não concorda? Então me acompanhe.

Maggie casou cedo, com o único homem que diz ter conhecido, e enviuvou logo. Nunca mais se aproximou de outro homem.

Ora, inglês nunca foi famoso por ser bom amante. Inglês quer beber e, quando chegar em casa, jantar e continuar bebendo. Por consequencia, inglesa que quer vida sexual boa tem que atravessar o Canal ou dar uma esticada até a Grécia, como fez Shirley Valentine, outra inglesinha insatisfeita com seu casamento, no filme homônimo de 1989.

Mesmo após ficar viúva, Maggie não saiu da Inglaterra, assim como também não se aventurou com o fotógrafo Robert Kincald/Clint Eastwood, de Pontes de Madison, nem com o pilantra Mike, de Caminho das Indias. Ora, chupou o dedo, literalmente, esse tempo todo.

Assim, quando surge uma notícia ruim, como a de que seu neto não reage ao tratamento até então feito, Maggie pira e, inconscientemente (?) vai parar num porno-shop. Aí, na entrevista de emprego, faz cara de surpresa, de indignação, mas já estava “caidassa” pelo gigolô Mikki, que acariciou suas mãos e, o melhor de tudo, não pediu para ela cozinhar, como o ex-marido fazia.

Pronto, rapidamente ela se adaptou às novas funções e em nenhum momento deixou transparecer nojo ou raiva, pelo contrário, logo levou porta-retratos, garrafa térmica e caneca para o chá, além de um creme, que todo o mundo que assiste ao filme fica tentando ler o nome para depois comprar na farmácia. Em resumo, amava o que fazia. Pelo dinheiro? Não, é claro, pois se fosse pelo vil metal necessário para salvar seu neto, ela teria aceitado a proposta do concorrente de Mikki que quis roubá-la para seus quadros profissionais.

Maggie era uma devassa enrustida, com um certo olhar inocente, que dava a suas mãos a liberdade criativa de movimentos. Daí seu sucesso.

Agora, lembrando de meus tempos e escola, devo finalizar com a clássica abreviatura “C.Q.D.”, que significa “Conforme Queremos Demonstrar”.

Em tempo: só inglês para gostar de buraquear em sex-shop.

O penico do Sarney

setembro 8, 2009 · Posted in Humor · 4 Comments 

por Beto Lyra

Nem tudo que é fifty é bom. Os 50 anos de carreira política de Sarney, por exemplo, concentram tudo de ruim. Ruy Castro lembrou bem outro dia. Era 1990. Dia da transmissão da Presidência da República de José Sarney para Fernando Collor. No jornal, a charge do genial Millôr Fernandes trazia um bebê com a cara e o bigodaço do Sarney, sentado no penico, gritando “Mamãe, acabei!” Chorei uns bons minutos de tanto rir (que desgraça a gente rir da própria desgraça).

De lá prá cá, é difícil dizer o que melhorou na política. O que continua pior é fácil, como a perpetuação no poder daqueles que se “sacrificam” tanto em nome do povo. Nesse quesito, Sarney tornou-se um benchmark. Desde sempre colocou a família e os amigos ocupando posições estratégicas na administração pública. Ao ver endurecer a concorrência por cargos em seu próprio Estado, deu um jeito de “defender” os interesses dos cidadãos do Amapá, que nem limite faz com Maranhão. Reelegeu-se senador. Quanto desprendimento!

Para evitar outros sustos no Maranhão e até no Amapá, surgiram propostas no Senado de divisão de alguns dos estados brasileiros, entre eles … Maranhão. Imaginem, mais uma capital (talvez a construção de uma nova cidade), novos cargos de prefeito, vereadores, deputados estaduais e federais, ah, e claro, 3 novos senadores, pelo Maranhão do Sul.

Se dividir ao meio é bom para fomentar o desenvolvimento – base da justificativa das propostas separatistas –, é o caso de se perguntar por que não começar por estado mais necessitado, pelo Piauí, que sequer estava na relação dos tais projetos? Artimanhas da família Sarney, que só sarneysistas explicam. Se ocorressem no campo da medicina, o diagnóstico seria certeiro: câncer em fase de metástase.

E la nave va…, como diria Fellini. Vamos que vamos, com Sarney. Que currículo! Governador do Maranhão, sucedido, entre outros, pelo genro e pela filha (esta por 3 mandatos), tornou-se “o cara” da Arena, partido político que se fez e desfez com os governos militares. Depois pulou para a Frente Liberal, juntou-se ao MDB, virou vice-presidente de Tancredo Neves e acabou na presidência. Aí o currículo forte em bastidores não deu conta das exigências na frente executiva. Sarney sucumbiu às pressões e deu no desgoverno que deu: moratória brasileira, hiperinflação, corrupção de montão e uma Constituição que, de tão detalhista, está mais para paraíso de advogado que para defesa de cidadãos.

E aqui vale um parêntese para lembrar Thomas More, assessor e crítico de Henrique VIII e autor do livro sobre a ilha chamada Utopia. Ilha onde a razão guiava as decisões e as estruturas política e social. Em Utopia, as leis eram mínimas e simples, porque para serem obedecidas deviam ser entendidas por todos os seus cidadãos. Sendo simples, o próprio povo podia cobrar seus direitos e se defender por conta própria na Justiça — sem intermediários!

E la nave de Sarney va… Entre um marimbondo de fogo e outro, ele continuou e ainda mantém a saga de desgoverno, agora na presidência do Senado. Uma carreira e tanto! E no que toca o Maranhão, a competência da família mostrou-se esmerada: continua a ser o pior dos estados brasileiros, exceção feita ao Piauí.

2009. Tenho apenas uma sugestão a Millôr Fernandes: que atualize a charge com o mesmo desenho, mas com a mãe perguntando ao bebê “Acabou, filho?” “Ainda não, mamãe”, responderá o bigodudo sarneyzinho.

Durma-se com um barulho desses

setembro 8, 2009 · Posted in Cidadania, Humor · 1 Comment 

por Beto Lyra

Nos cinquenta, a gente fica mais seletivo. Mas a falta de paciência para algumas coisas faz você apreciar mais outras. Por exemplo, quem mora em cidade tem vizinho, para o bem e para o mal.

Quem não gosta de um bom vizinho, que socorre nas horas difíceis em que se precisa de um limão, um ovo ou mesmo um pouco de açúcar? Aquele que ajuda nas questões de administração do condomínio ou de uma rua, colaborando na segurança, fazendo rodízio para a escola dos filhos e assim por diante.

Só que para achar esse bom vizinho, você experimentou conviver antes com seu oposto, o mau vizinho. Quem é ele? Ah, em geral é aquele que ouve música alta, sempre de gosto diferente do seu, tem horários diversos e polêmicos em relação aos seus, estaciona o carro rente à risca da sua vaga e, via de regra, não topa participar das despesas e tarefas que a vizinhança precisa fazer junto. E sem falar das festas que, com motivo ou sem, incomodam pra cacete, não deixando ninguém em um raio de quilômetro dormir, a não ser usando a velha técnica de ligar um ventilador barulhento para encobrir o som maneiro que aumenta seu volume conforme a festa avança.

Mas, de uns tempos pra cá, parece que os maus vizinhos viraram mais tecnológicos. Usam equipamentos eletroeletrônicos sem jamais compreender que os outros pobres vizinhos não são capazes de agüentar seus ruídos além de 2 ou 3 horas de paciência. Você certamente se lembra de algum desses aparelhos. Não quero dizer que não sejam bons ou úteis na vida cotidiana, pelo contrário. São ótimos, se bem empregados com critério. E é aqui que a coisa pega: critério.

Você sabe o que é um compressor, não é? Também sabe como é ensurdecedor o funcionamento de um compressor que, entre outros, atende pelo nome de Wap e é usado para lavar pisos, paredes, carros etc. Foi provavelmente desenvolvido pelos nazistas para torturar membros das tropas aliadas durante a 2ª Grande Guerra. Hoje, torturam durante horas a fio pobres vizinhos, que ficam à mercê de impiedosos proprietários que simplesmente os jogam nas mãos de empregados, sem qualquer habilidade e orientação. Eles gastam horas e horas de água, energia e ouvidos, tentando deixar brancas as pedras que originalmente são cinzas.

E os cortadores elétricos de grama? Reparou que todo dia tem algum jardineiro fazendo serviço na vizinhança? Pois é, todos os dias podemos ouvir o mavioso zuuuum zuuuuum desses cortadores.

Celulares. Como não ouvir as conversas ao celular e acompanhar as discussões e negociações feitas por nosso vizinho com quem sabe-se lá que está no outro lado da linha. Chega a ser agoniante acompanhar só um lado da conversa, embora pelo volume da voz seja fácil de acreditar que nem seu vizinho nem o interlocutor precisem desse pequeno aparelho para ouvir o que o outro diz. Ah, mas isso foi aperfeiçoado pelos malditos rádios-telefones generalizados nas mãos dos motoboys que fazem entrega na vizinhança. Com eles, pode-se tomar conhecimento que a secretária de sei-lá-quem não quer que eles voltem sem fazer a entrega pessoalmente, ou que passem no banco para ver o saldo de suas contas.

Mas nem tudo que está na lista negra é eletrônico. Eu, por exemplo, tenho vizinhos que falam alto, mas alto mesmo, sem qualquer eletrônico. É um tal de: Fulaaaano, traz um pano pra miiim. Ou Sicraaaana, vem me ajudaaaaá. Para compensar, no dia em que meu time ganha, toco uma corneta de ar comprimido ou provoco meu cachorro pra “comemorar”.

Os itens principais da lista são, na verdade, falta de critério e bom senso. Por outro lado, sou obrigado a confessar que às vezes quando volto para casa e ouço um dos vizinhos, músico profissional, ensaiando seu cello, penso que seria maravilhoso poder ouvir isso na hora de dormir. Quem não gostaria, nesse momento, de dizer: “Durma-se com um barulho desses”.