Furo de notícia: o revolucionário Mercado de Crédito de Silêncio

julho 8, 2011 · Posted in Cidadania, Sustentabilidade · 8 Comments 

por Beto Lyra

Já escrevi aqui no Fio Do Bigode sobre vizinhos barulhentos. Mas, justiça seja feita, não é a vizinhança que é barulhenta, o mundo é que ficou barulhento.

Tive um professor no colegial que quando a classe pegava fogo, com conversas e alguma algazarra, gritava: “Ô irmão, não deixe o silêncio incomodar o barulho”. Homem de visão ou apenas um professor desesperado? Nunca soube definir.

O fato é que as cidades estão se adaptando ao contínuo crescimento do barulho. Como todos sabem, barulho em excesso impede o raciocínio normal das pessoas, desequilibrando-as e levando-as ao stress. Fábricas com barulho excessivo em sua produção, por exemplo, têm obrigatório o uso de equipamentos protetores (EPIs) para seus funcionários. Nos antigos pregões de bolsas, o nível de ruído era tão intenso que por inúmeras vezes o sindicato de operadores  (aqueles que ficavam gritando e ouvindo ordens de compra e venda) exigiu da Bovespa e da BM&F a adoção de medidas para a redução dos decibéis produzidos nas negociações de viva-voz.

Na área de lazer, os exemplos mais marcantes talvez sejam o de bares, que têm mesas na rua, e das baladas, que avançam pela madrugada adentro, impedindo, em muitos casos, o sono da vizinhança. E os aeroportos e rotas de aviões? Enfim, um inferno!

Mas, como diria o seu Creysson, “agora, o seus pobrema acabaram!” pois, com o lançamento ainda neste ano do “Mercado de Crédito de Silêncio”, empresas que em seu funcionamento normal produzem muito barulho poderão comprar créditos de silêncio de quem produzir ou trabalhar sem emitir qualquer ruído. Uma coisa compensa a outra. Fantástico não?

Por exemplo: digamos que você tenha uma construtora e esteja iniciando uma obra em um bairro bastante populoso e razoavelmente tranquilo até antes da chegada de sua empresa. Estamos na fase do bate-estaca, fazer o quê? Os vizinhos vão ao desespero e chegam a ficar com saudades daquelas manhãs de domingo em que um deles resolvia usar sua WAP para lavar carros e varrer com água a calçada. Em pouco tempo, xingam sua mãe enquanto você vistoria a obra, marcaram um pagode em frente de sua casa, e já querem te processar.

Mas agora, com o novo Mercado, sua empresa pode adquirir nas bolsas alguns créditos de silêncio de uma fábrica de computadores. Podem ser também de grandes escritórios de advocacia ou de contabilidade, preferencialmente no estado de Minas Gerais, afinal mineiros trabalham em silêncio. Uma das justificativas para a criação desse revolucionário mercado, é que ele incentivará o surgimento de novas atividades econômicas de baixo ou nenhum ruído, já que a receita obtida pela venda desses créditos nas bolsas se tornarão altamente atraentes.

Enfim, eis mais uma nobre contribuição do criativo, eficiente e sofisticado mercado financeiro para a solução de intrincados problemas da vida cotidiana.

Atentos como sempre a oportunidades de ganhos (da população, claro), os prefeitos e vereadores das cidades, principalmente daquelas com perfil industrial, estão em êxtase, pensando em como faturar um extra com o novo negócio. Alguns, menos criativos, pensam em instituir uma “Taxa do Silêncio”, que seria cobrada tanto do barulhento como também do silencioso. Do barulhento, porque está impondo à comunidade stress que produzirá afastamentos do trabalho, enlouquecimento de donas de casa e prejuízo aos estudos de alunos em geral. Isso gera custos de tratamentos, queda na produção e por consequencia menor arrecadação de impostos. Para os políticos, a nova taxa viria compensar tudo isso. Do silencioso, porque como este vai gerar uma renda nova, beneficiando a União com mais IR, o município também vai querer uma fatia dessa nova fonte de recursos.

Mas nada supera em criatividade a campanha política de um grupo de deputados que já pensa em realizar comícios sem microfones e sem aqueles infernais shows de pangarés country. Sacaram? Comícios silenciosos, cujo resultado (a ausência de barulho) poderá ser vendido em bolsa, no sofisticado Mercado de Crédito de Silêncio, rendendo uma grana a mais para a campanha.

Bem, você que pacientemente acompanhou esse extravagante furo noticioso do Fio Do Bigode, já deve ter sacado há muito tempo que esta bobageira escrita até aqui era apenas para ilustrar o seguinte: tal como este fictício Mercado de Crédito de Silêncio, o recém criado Mercado de Crédito de Carbono é um conto de Papai Noel, só que com justificativa econômica e muito dinheiro em marketing. Ou alguém acredita de verdade que empresas poluidoras — como as petrolíferas por exemplo –, só pelo fato de comprarem créditos de carbono de empresas que plantam árvores, diminuem ou eliminam os danos à natureza? Você acha que essas latinhas de alumínio, que em sua fabricação consomem enormes hidrelétricas, podem fazer bem ao meioambiente só porque suas fabricantes compram uns títulos em bolsa?

Se a nossa resposta for SIM a ambas as perguntas, podemos ficar olhando para a chaminé até dezembro, afinal somos crianças obedientes.

Onda verde com o chapéu alheio

outubro 1, 2010 · Posted in Cidadania, Sustentabilidade · 16 Comments 

ou Hipocrisia, a gente vê por aqui (parte 3)

por Beto Lyra

Alguns de nós já escrevemos sobre sustentabilidade aqui neste Fio Do Bigode.

Acredito que as pessoas razoáveis se preocupam com o assunto e participam, cada uma do seu jeito, de ações que visam à preservação do Planeta. Mas, como gosto de correr o risco de parecer chato (para muitos, isso já é quase uma certeza), volta e meia me vejo na posição contrária a algumas dessas manifestações a favor do verde e do meio ambiente. São manifestações sem lógica ou às custas dos outros. São aquelas em que quem propõe fica com os louros e quem participa é o bocó.

Um exemplo do primeiro tipo, das manifestações sem lógica, é a febre de plantio de mudas e arvorezinhas em praças públicas. Ora, se cada cidadão que reside próximo a uma praça resolver plantar nela um arbusto que seja, as praças deixariam de ser agradáveis espaços livres gramados para se transformarem em bosques.

Eu moro ao lado de uma praça. Algum tempo atrás, fui à administração regional do bairro suplicar para que dessem uma poda em uma das seringueiras que um precursor dos verdes teve a brilhante ideia de plantar no local. Aliás, plantou duas e se mudou. Típicas de fazendas, dadas as dimensões que atingem, as seringueiras hoje estão crescidas, suas raízes tomaram boa parte da superfície da praça e impedem ali o caminhar, seus galhos enormes fazem sombra densa que mata a grama e os pequenos arbustos, além de bloquear a iluminação municipal, que fica dirigida apenas aos céus.

Bem, na administração regional, a encarregada do setor afirmava que não era permitido a qualquer um plantar árvores em praças públicas, a não ser com expressa autorização. E arrematou: “Se todo o mundo resolver plantar o que quer, teremos um canteiro e não uma praça”. Isso sem se falar no gosto pessoal de cada um, que pode não ser uma beleza.

Na semana passada, um senhor aposentado morador da rua próxima à minha resolveu dar sua contribuição à natureza e plantou uma arvorezinha nessa praça, distante da seringueira, mas junto a uma meia dúzia de arbustos plantados por verdes bocós (e folgados) como ele. Fico p da vida, e daí?

O segundo tipo de “militante” verde é o que promove sua boa prática às custas dos outros. Caso do Pão de Açúcar, por exemplo. Recentemente, ao passar pelo caixa do supermercado, fui incentivado a deixar as embalagens de pasta de dente, café, ovos, entre outras, para ajudar a reciclagem. Quase caí na armadilha, mas me lembrei de que as embalagens já estavam no preço que eu pagava pelos produtos. Assim, a indústria de embalagens ganhava, a indústria de pasta de dente ganhava, o Pão de Açúcar ganhava, o Fisco ganhava e … o trouxão aqui pagava pelo que não levava.

Em um momento de rabugice ou lucidez (escolham), falei pro caixa dizer ao Sr. Diniz que, se quisesse ajudar de verdade o Planeta, pressionasse as fábricas a não venderem mais nessas embalagens. Assim, as árvores não seriam cortadas, tintas não seriam gastas, energia idem e menos custos, menos impostos. Ele riu, até agora não sei se entendeu.

Meus caros, vocês se acham imunes a essa onda verde que vende papel reciclado mais caro do que o papel comum? Que faz projetos de sustentabilidade com o nosso bolso? Bem, a onda pode virar um tsunami daqui a pouco.

É outra hipocrisia que a gente vê por aqui.

Código de Defesa do Consumidor

agosto 7, 2010 · Posted in Cidadania, Sustentabilidade · Comment 

por Dick Treacher

Prestes a completar 20 anos de vigência, o Código de Defesa do Consumidor, sem dúvida alguma, representa avanços significativos nas relações de consumo.

Seu texto, como tantos outros diplomas legais, chega a parecer um enunciado de belos princípios éticos os quais, as pessoas de bem, dificilmente teriam motivos para contestar.

Fábio Barbosa, do Santander, em palestra que pode ser vista acima, aborda este tema de forma super simples e, por isso mesmo, brilhante.

O problema está na enorme distância entre o que a lei  estabelece e o que se aplica na prática.

De um lado, ainda vemos produtores e fornecedores se armando com todos os tipos de artimanhas para empurrarem com a barriga consumidores corretos e com justas reclamações.

Por outro lado, vemos também consumidores mal intencionados que a todo o momento procuram pelo em ovo para justificarem suas inadimplências.

Para resolver estas questões, felizmente existem diversos mecanismos que vão desde as simples reclamações, os SACs, os Juizados Especiais, a imprensa etc.

E com relação ao Contribuinte? Quem defende o contribuinte perante a sanha arrecadatória do Fisco?

Por Fisco, quero me referir a essa infinidade de violências praticadas pelo aparato estatal ou paraestatal, o tempo todo contra a população a as empresas em geral.

E aí, não há qualquer distinção entre governos: os passados, os atuais e os futuros são todos iguais em todas as esferas, independentemente de qual Poder representam, posto que uma vez empossados, desaparece como que por milagre, a coerência entre o discurso e a ação.

A lista, conforme mencionei antes, é infinita, mas alguns exemplos merecem ser destacados:

IPTU: Quem já não se revoltou em pagar IPTU em locais sem melhoramentos públicos que justifiquem tal cobrança? E os aumentos abusivos?

ISS: Qual a contrapartida que as Prefeituras concedem aos profissionais e empresas que pagam este imposto?

ITBI: Incide na transmissão de bens imóveis, inclusive nas casas populares. Pode?

IPVA: O cidadão investe na aquisição de um automóvel, alimenta toda uma cadeia produtiva, e ainda é penalizado anualmente por manter a propriedade do veículo. Absurdo.

IRRF: Retenção na fonte! Nesse então, o contribuinte sequer tem a chance de primeiro utilizar seus recursos para depois pagar o imposto. É expropriado.

Chega de siglas? Ok. Existem milhares de outras. É só entrar no Google e pesquisar. Talvez o Brasil seja o único país do mundo que tem até dicionário de siglas.

Mas, se pelo menos, Saúde, Educação, Transportes e Segurança fossem serviços medianamente bem prestados pelo Estado, minha indignação seria menor.

Posso quase apostar, que nenhum dos leitores deste blog se utiliza regularmente do SUS, das escolas públicas, dos transportes coletivos, ou ainda, se sintam seguros com nossas polícias.

Há também os Cartórios, obrigatórios para nascer, viver e morrer. As multas de trânsito resultantes de armadilhas meticulosamente instaladas. Os bloqueios judiciais on-line, que deveriam ser utilizados apenas em casos extremos, mas que viraram expediente corriqueiro de juízes que raramente se dão ao trabalho de entrar no mérito das questões e, last but not least, os inúmeros impostos embutidos e invisíveis que taxam de A…limentos a Z…íperes indistintamente.

Ao contrário do consumidor, que pode rescindir um contrato que não lhe agrade, o contribuinte não tem com o Estado uma relação de consumo. Tem uma relação de subserviência medieval, tipo suseranos e vassalos, assemelhada a uma relação de escravidão, sem possibilidade de alforria onde o lema oficial é: Paga e não bufa!

Help!

Precisamos urgentemente de um Código de Defesa do Contribuinte!

A pesca submarina e a fauna marinha

julho 12, 2010 · Posted in Cidadania, Sustentabilidade · Comment 

por Dick Treacher

Sou do tempo em que passava na TV o seriado Aventuras Submarinas, com Lloyd Bridges no papel do mergulhador/herói que defendia o bem contra o mal, lutando contra saqueadores, piratas e predadores. Bem, isso é passado.

Hoje, vivemos um tempo em que muita gente aparenta defender o meio ambiente e finge entender o que é sustentabilidade. No entanto, esse conhecimento é apenas superficial, de leitura de jornais, gera “frisson” e palestras no melhor estilo de “me engana que eu gosto”. O mal desses “entendidos” é que não sabem nada, mas repetem chavões que ouviram aqui e ali.

Para esclarecer algumas das questões ligadas ao tema, nosso Fio Do Bigode conta com o sólido conhecimento (da vivência) de Dick Treacher, amante do mar, da pesca e da Ilha Bela, não necessariamente nessa ordem.

Dick pratica pesca submarina há décadas, respeitando o meio ambiente, desde quando ainda não era moda reclamar de pesca predatória, poluição ou falar de práticas sustentáveis.

Alguém pode duvidar de que um pescador submarino seja “profundo” conhecedor do tema? Então, com vocês, Dick Treacher.

A Redação


De tempos em tempos e cada vez com maior freqüência, a pesca submarina vira alvo daqueles que se dizem defensores do meio ambiente.

Os variados ataques a esta modalidade esportiva têm sempre um ponto comum: equívocos, desinformações, parcialidade e preconceitos.

Para os que não conhecem, é importante informar que a pesca submarina é praticada em meio hostil ao homem, sem o auxílio de aparelhos de respiração subaquática e em profundidades que raramente ultrapassam os 25m.

Só isso já bastaria para evidenciar a pouca influência que esta prática exerce nos oceanos de profundezas abissais ou mesmo na lâmina d’água da plataforma continental, geralmente de 200m.

Há ainda toda uma regulamentação quanto ao tamanho mínimo de espécies, épocas de defeso, limitação de captura, além de áreas de preservação demarcadas.

Há também as limitações impostas pela natureza relativas às condições climáticas e de visibilidade da água, tornando a pesca submarina um esporte muitas vezes impossível de ser praticado em nosso litoral.

Mas, o mais importante é que há um Código de Ética informal entre os praticantes que, com muito zelo ao meio ambiente, denunciam os praticantes inescrupulosos, bem como orientam os principiantes quanto às espécies comestíveis e ao tamanho mínimo de cada uma. É aí que reside o principal diferencial entre a pesca sub e as demais modalidades: o praticante escolhe o peixe a ser capturado. Não mata a esmo para depois separar o que serve. É uma pesca seletiva.

Com relação à parcialidade com que ocorrem os ataques à pesca submarina, seria muito esclarecedor que se fizesse uma comparação com outras modalidades artesanais ou comerciais.

O “cerco” caiçara, originário dos indígenas, é uma espécie de labirinto formado por redes em que os peixes e outros animais entram e não conseguem sair, ficando presos nas malhas das redes. Estes artefatos são também um perigo para a navegação. É muito comum vermos tartarugas, santolas e várias espécies de peixes não comestíveis, mortos por afogamento ou de fome nestas armadilhas.

As “parelhas” de barcos pesqueiros comerciais, com redes camaroeiras na chamada pesca de arrasto, são talvez os maiores predadores e atuam impunemente. Fala-se, entre os caiçaras, em desperdício de mais de 90% do peso de espécies capturadas pelos arrastões, para depois selecionar os camarões e jogar fora, já mortos, os filhotes de dezenas de espécies de peixes. Isso sem contar os estragos nas estruturas do fundo do mar, geralmente em locais lodosos, onde diversas outras espécies procriam.

Há ainda as criminosas práticas de pesca com explosivos e captura de lagostas com compressores.

É estranho, mas nunca vi os ambientalistas protestarem nas peixarias espalhadas pelo país afora que põem à venda uma infinidade de filhotes de garoupas, robalos, badejos, linguados, enchovas e lagostas, para citar apenas algumas espécies, todos os dias do ano, faça chuva ou faça sol.

Mas, contra os pescadores submarinos eles estão sempre lá, protestando, esbravejando, escrevendo e, pior ainda, pressionando o Legislativo a criar dispositivos legais para restringir cada vez mais, discriminadamente, apenas a Pesca Sub.

Puro preconceito, talvez pelo fato de a pesca sub ter sido considerada um “esporte de elite”, logo que foi introduzida no Brasil por volta de 1955. Hoje em dia, é praticada por muitos habitantes das comunidades caiçaras que já perceberam os malefícios das modalidades utilizadas por seus antepassados, nada tendo portanto de elitista.

Os leitores podem ter certeza absoluta de que os pescadores submarinos, juntamente com os praticantes da pesca esportiva, são muito mais preservacionistas do que quaisquer outros pescadores e, principalmente, do que os novos e desinformados ambientalistas, que por falta de conhecimento pretendem proibir tudo.

Obviamente, os praticantes que não seguem os preceitos da boa técnica e do jogo limpo devem ser rigorosamente punidos, assim como todos os trapaceiros de quaisquer outras modalidades esportivas.

Sou testemunha presencial das transformações ocorridas nos últimos 50 anos no fundo do mar na costa de Ilhabela, voltada para o canal de São Sebastião: as tariobas e berbigões sumiram dos baixios da Siriúba e da Barra Velha. Os praguarís sumiram do fundo das baías nas praias do Perequê, Itaguassú e Itaquanduba, onde uma camada de barro cobriu a areia original. Os caranguejos sumiram dos mangues. Também os mangues foram aterrados. Diversos crustáceos de fundo como as tamarutacas e uma infinidade de pequenos peixes e moluscos da mesma forma, desapareceram. Cardumes de sardinhas e de tainhas raramente são vistos, e uma espécie de limo esverdeado tomou conta das pedras na faixa da arrebentação.

As causas de tudo isso?

O assoreamento do canal, a poluição dos rios e córregos, a ocupação urbana irregular e desordenada que continua ocorrendo e a destruição dos mangues, além das modalidades de pesca predatória já mencionadas. Tudo, menos a pesca sub.

Portanto, ao mesmo tempo em que elogiamos a preocupação dos ambientalistas com a preservação do litoral, ficamos ansiosos para vê-los atuantes nas reais causas da diminuição do volume e da diversidade da nossa fauna marinha.

Hipocrisia, a gente vê por aqui (parte 1)

janeiro 6, 2010 · Posted in Cidadania · Comment 

por Beto Lyra

“Me engana que eu gosto”. É o que se costuma dizer para as mentiras deslavadas, histórias inverossímeis ou afirmações “madeireiras” — isto é, ditas por caras-de-pau.

Quantas e quantas vezes tentam nos fazer crer em teses mirabolantes ou desculpas esfarrapadas? Em geral, trata-se de assunto ou tema que toma conta da mídia e ganha ares de inconteste verdade, que se torna um tsunami, tal o volume e força com que passa por cima de tudo e todos. Quem se atrever a questionar alguma vírgula não é levado a sério ou então é ridicularizado.

Essa técnica de convencimento, desonesta e safada, tem sido observada no meio político, grande parte das vezes com a triste omissão de membros da imprensa. O uso do cinto de segurança nos veículos é um exemplo do que quero dizer.

Lembro de viagens que fiz quando moleque no banco de trás da Rural Willis,  sem algo a me manter preso ou seguro. Muito tempo depois, já na faculdade, comprei meu primeiro carro, um Fuscão, que me deu muitas alegrias, e que só tinha um simples cinto de segurança, para a cintura, cujo uso não era obrigatório, nem sequer sugerido.

O tempo passou e a legislação brasileira começou a se ocupar com a segurança de todos os motoristas e passageiros. Aos poucos foram impondo medidas adicionais, como a trava nos bancos da frente, o cinto de 3 pontas e, mais tarde,  o seu uso obrigatório, inclusive no banco traseiro. Posteriormente, foi imposta a obrigatoriedade do uso de cinto em ônibus intermunicipais. Nada de explicar motivos e educar para o uso, mas simplesmente: não usou, leva multa!

Mais recentemente, conscienciosos legisladores começaram a discutir a obrigatoriedade de todos os veículos brasileiros saírem de fábrica com air bags. Viu? Ainda não deu nem tempo desse acessório ganhar um nome em português, mas já está para virar obrigação. E aí, não cumpriu, leva multa!

Que fique bem claro, sou a favor do uso de todas as medidas e equipamentos de segurança. É uma questão de lógica e bom senso diante dos evidentes benefícios aos passageiros, além dos dados estatísticos que comprovam a redução das mortes nos acidentes de trânsito desde que esses acessórios se tornaram obrigatórios.

Até aí, tudo bem. Mas não consigo compreender por que não é obrigatório o uso de cinto de segurança em ônibus urbano. Por que não é proibido viajar em pé nesses ônibus?

Vejamos: o Código Brasileiro de Trânsito (art. 65) exige o uso do cinto de segurança nos ônibus, para condutor e passageiro, exceto (vejam que hilário) nos ônibus em que é permitido viajar em pé (?). Juro que queria entender essa “lógica”. Exige-se cinto de segurança para todos os veículos em que se viaja sentado, inclusive em ônibus intermunicipais, que trafegam por estradas em geral mais seguras do que as ruas dos centros urbanos. Então, por que raios, nessas mesmas ruas, piores vias de tráfego, admite-se não usá-lo, e o que é pior, permite-se passageiros em pé, sem nada em termos de segurança, a não ser seus próprios braços a agarrar apoios nos bancos e teto?

Já se tentou mudar essa incoerência quando, em 2005, um deputado federal apresentou Projeto de Lei tornando obrigatório o uso de cinto de segurança em todos os ônibus, inclusive nos urbanos. Mas o relator dessa proposta, um nobre colega do primeiro deputado, sabe-se lá o que passava em sua cabeça, rejeitou o mérito de tal Projeto de Lei. Justificou que os ônibus urbanos em todo o mundo não usam cinto de segurança, e completou com “em razão de suas especificidades, pois há grande volume e rotatividade de passageiros”. Brilhante, não?

No mínimo, não há coragem em impor regras de importância para os cidadãos à poderosa indústria do transporte coletivo urbano. O fato de no exterior não ser imposta a obrigatoriedade do uso de cintos, não muda a questão no Brasil, onde há índices mais elevados de acidentes urbanos com vítimas graves. Lá fora, além de veículos coletivos mais bem conservados e seguros, também as vias são mais bem conservadas e sinalizadas, sem esquecer que seus condutores são mais bem treinados e responsáveis do que nossos motoristas, pois as penalidades são conhecidamente mais duras do que as daqui. Ou alguém não conhece as loucuras praticadas pelos motoristas de ônibus no Aterro do Flamengo, no Rio, por exemplo?

Alguém pode questionar quanto aos vagões do metrô, que têm similaridade com os ônibus urbanos. Bem, nesse caso creio que pode ser aceitável não ser obrigatório o uso de equipamentos de segurança e admitir-se passageiros em pé, por vários motivos, entre eles aceleração e desaceleração gradual, velocidade constante, trajeto uniforme sem grandes curvas e inexistência de ultrapassagens ou mudanças de faixa. Enfim, a possibilidade de algo inesperado acontecer nos trens de metrô é extremamente mais reduzida se comparada aos riscos das ruas e avenidas dos grandes centros.

Então, por que não corrigir imediatamente o erro de 2005, quando a Câmara rejeitou o Projeto de Lei? Por que postergar a imposição de regra que preserve o cidadão e passageiro nos ônibus urbanos?

Não me engana, que eu não gosto!

Durma-se com um barulho desses

setembro 8, 2009 · Posted in Cidadania, Humor · 1 Comment 

por Beto Lyra

Nos cinquenta, a gente fica mais seletivo. Mas a falta de paciência para algumas coisas faz você apreciar mais outras. Por exemplo, quem mora em cidade tem vizinho, para o bem e para o mal.

Quem não gosta de um bom vizinho, que socorre nas horas difíceis em que se precisa de um limão, um ovo ou mesmo um pouco de açúcar? Aquele que ajuda nas questões de administração do condomínio ou de uma rua, colaborando na segurança, fazendo rodízio para a escola dos filhos e assim por diante.

Só que para achar esse bom vizinho, você experimentou conviver antes com seu oposto, o mau vizinho. Quem é ele? Ah, em geral é aquele que ouve música alta, sempre de gosto diferente do seu, tem horários diversos e polêmicos em relação aos seus, estaciona o carro rente à risca da sua vaga e, via de regra, não topa participar das despesas e tarefas que a vizinhança precisa fazer junto. E sem falar das festas que, com motivo ou sem, incomodam pra cacete, não deixando ninguém em um raio de quilômetro dormir, a não ser usando a velha técnica de ligar um ventilador barulhento para encobrir o som maneiro que aumenta seu volume conforme a festa avança.

Mas, de uns tempos pra cá, parece que os maus vizinhos viraram mais tecnológicos. Usam equipamentos eletroeletrônicos sem jamais compreender que os outros pobres vizinhos não são capazes de agüentar seus ruídos além de 2 ou 3 horas de paciência. Você certamente se lembra de algum desses aparelhos. Não quero dizer que não sejam bons ou úteis na vida cotidiana, pelo contrário. São ótimos, se bem empregados com critério. E é aqui que a coisa pega: critério.

Você sabe o que é um compressor, não é? Também sabe como é ensurdecedor o funcionamento de um compressor que, entre outros, atende pelo nome de Wap e é usado para lavar pisos, paredes, carros etc. Foi provavelmente desenvolvido pelos nazistas para torturar membros das tropas aliadas durante a 2ª Grande Guerra. Hoje, torturam durante horas a fio pobres vizinhos, que ficam à mercê de impiedosos proprietários que simplesmente os jogam nas mãos de empregados, sem qualquer habilidade e orientação. Eles gastam horas e horas de água, energia e ouvidos, tentando deixar brancas as pedras que originalmente são cinzas.

E os cortadores elétricos de grama? Reparou que todo dia tem algum jardineiro fazendo serviço na vizinhança? Pois é, todos os dias podemos ouvir o mavioso zuuuum zuuuuum desses cortadores.

Celulares. Como não ouvir as conversas ao celular e acompanhar as discussões e negociações feitas por nosso vizinho com quem sabe-se lá que está no outro lado da linha. Chega a ser agoniante acompanhar só um lado da conversa, embora pelo volume da voz seja fácil de acreditar que nem seu vizinho nem o interlocutor precisem desse pequeno aparelho para ouvir o que o outro diz. Ah, mas isso foi aperfeiçoado pelos malditos rádios-telefones generalizados nas mãos dos motoboys que fazem entrega na vizinhança. Com eles, pode-se tomar conhecimento que a secretária de sei-lá-quem não quer que eles voltem sem fazer a entrega pessoalmente, ou que passem no banco para ver o saldo de suas contas.

Mas nem tudo que está na lista negra é eletrônico. Eu, por exemplo, tenho vizinhos que falam alto, mas alto mesmo, sem qualquer eletrônico. É um tal de: Fulaaaano, traz um pano pra miiim. Ou Sicraaaana, vem me ajudaaaaá. Para compensar, no dia em que meu time ganha, toco uma corneta de ar comprimido ou provoco meu cachorro pra “comemorar”.

Os itens principais da lista são, na verdade, falta de critério e bom senso. Por outro lado, sou obrigado a confessar que às vezes quando volto para casa e ouço um dos vizinhos, músico profissional, ensaiando seu cello, penso que seria maravilhoso poder ouvir isso na hora de dormir. Quem não gostaria, nesse momento, de dizer: “Durma-se com um barulho desses”.