Furo de notícia: o revolucionário Mercado de Crédito de Silêncio

julho 8, 2011 · Posted in Cidadania, Sustentabilidade · 8 Comments 

por Beto Lyra

Já escrevi aqui no Fio Do Bigode sobre vizinhos barulhentos. Mas, justiça seja feita, não é a vizinhança que é barulhenta, o mundo é que ficou barulhento.

Tive um professor no colegial que quando a classe pegava fogo, com conversas e alguma algazarra, gritava: “Ô irmão, não deixe o silêncio incomodar o barulho”. Homem de visão ou apenas um professor desesperado? Nunca soube definir.

O fato é que as cidades estão se adaptando ao contínuo crescimento do barulho. Como todos sabem, barulho em excesso impede o raciocínio normal das pessoas, desequilibrando-as e levando-as ao stress. Fábricas com barulho excessivo em sua produção, por exemplo, têm obrigatório o uso de equipamentos protetores (EPIs) para seus funcionários. Nos antigos pregões de bolsas, o nível de ruído era tão intenso que por inúmeras vezes o sindicato de operadores  (aqueles que ficavam gritando e ouvindo ordens de compra e venda) exigiu da Bovespa e da BM&F a adoção de medidas para a redução dos decibéis produzidos nas negociações de viva-voz.

Na área de lazer, os exemplos mais marcantes talvez sejam o de bares, que têm mesas na rua, e das baladas, que avançam pela madrugada adentro, impedindo, em muitos casos, o sono da vizinhança. E os aeroportos e rotas de aviões? Enfim, um inferno!

Mas, como diria o seu Creysson, “agora, o seus pobrema acabaram!” pois, com o lançamento ainda neste ano do “Mercado de Crédito de Silêncio”, empresas que em seu funcionamento normal produzem muito barulho poderão comprar créditos de silêncio de quem produzir ou trabalhar sem emitir qualquer ruído. Uma coisa compensa a outra. Fantástico não?

Por exemplo: digamos que você tenha uma construtora e esteja iniciando uma obra em um bairro bastante populoso e razoavelmente tranquilo até antes da chegada de sua empresa. Estamos na fase do bate-estaca, fazer o quê? Os vizinhos vão ao desespero e chegam a ficar com saudades daquelas manhãs de domingo em que um deles resolvia usar sua WAP para lavar carros e varrer com água a calçada. Em pouco tempo, xingam sua mãe enquanto você vistoria a obra, marcaram um pagode em frente de sua casa, e já querem te processar.

Mas agora, com o novo Mercado, sua empresa pode adquirir nas bolsas alguns créditos de silêncio de uma fábrica de computadores. Podem ser também de grandes escritórios de advocacia ou de contabilidade, preferencialmente no estado de Minas Gerais, afinal mineiros trabalham em silêncio. Uma das justificativas para a criação desse revolucionário mercado, é que ele incentivará o surgimento de novas atividades econômicas de baixo ou nenhum ruído, já que a receita obtida pela venda desses créditos nas bolsas se tornarão altamente atraentes.

Enfim, eis mais uma nobre contribuição do criativo, eficiente e sofisticado mercado financeiro para a solução de intrincados problemas da vida cotidiana.

Atentos como sempre a oportunidades de ganhos (da população, claro), os prefeitos e vereadores das cidades, principalmente daquelas com perfil industrial, estão em êxtase, pensando em como faturar um extra com o novo negócio. Alguns, menos criativos, pensam em instituir uma “Taxa do Silêncio”, que seria cobrada tanto do barulhento como também do silencioso. Do barulhento, porque está impondo à comunidade stress que produzirá afastamentos do trabalho, enlouquecimento de donas de casa e prejuízo aos estudos de alunos em geral. Isso gera custos de tratamentos, queda na produção e por consequencia menor arrecadação de impostos. Para os políticos, a nova taxa viria compensar tudo isso. Do silencioso, porque como este vai gerar uma renda nova, beneficiando a União com mais IR, o município também vai querer uma fatia dessa nova fonte de recursos.

Mas nada supera em criatividade a campanha política de um grupo de deputados que já pensa em realizar comícios sem microfones e sem aqueles infernais shows de pangarés country. Sacaram? Comícios silenciosos, cujo resultado (a ausência de barulho) poderá ser vendido em bolsa, no sofisticado Mercado de Crédito de Silêncio, rendendo uma grana a mais para a campanha.

Bem, você que pacientemente acompanhou esse extravagante furo noticioso do Fio Do Bigode, já deve ter sacado há muito tempo que esta bobageira escrita até aqui era apenas para ilustrar o seguinte: tal como este fictício Mercado de Crédito de Silêncio, o recém criado Mercado de Crédito de Carbono é um conto de Papai Noel, só que com justificativa econômica e muito dinheiro em marketing. Ou alguém acredita de verdade que empresas poluidoras — como as petrolíferas por exemplo –, só pelo fato de comprarem créditos de carbono de empresas que plantam árvores, diminuem ou eliminam os danos à natureza? Você acha que essas latinhas de alumínio, que em sua fabricação consomem enormes hidrelétricas, podem fazer bem ao meioambiente só porque suas fabricantes compram uns títulos em bolsa?

Se a nossa resposta for SIM a ambas as perguntas, podemos ficar olhando para a chaminé até dezembro, afinal somos crianças obedientes.

Onda verde com o chapéu alheio

outubro 1, 2010 · Posted in Cidadania, Sustentabilidade · 16 Comments 

ou Hipocrisia, a gente vê por aqui (parte 3)

por Beto Lyra

Alguns de nós já escrevemos sobre sustentabilidade aqui neste Fio Do Bigode.

Acredito que as pessoas razoáveis se preocupam com o assunto e participam, cada uma do seu jeito, de ações que visam à preservação do Planeta. Mas, como gosto de correr o risco de parecer chato (para muitos, isso já é quase uma certeza), volta e meia me vejo na posição contrária a algumas dessas manifestações a favor do verde e do meio ambiente. São manifestações sem lógica ou às custas dos outros. São aquelas em que quem propõe fica com os louros e quem participa é o bocó.

Um exemplo do primeiro tipo, das manifestações sem lógica, é a febre de plantio de mudas e arvorezinhas em praças públicas. Ora, se cada cidadão que reside próximo a uma praça resolver plantar nela um arbusto que seja, as praças deixariam de ser agradáveis espaços livres gramados para se transformarem em bosques.

Eu moro ao lado de uma praça. Algum tempo atrás, fui à administração regional do bairro suplicar para que dessem uma poda em uma das seringueiras que um precursor dos verdes teve a brilhante ideia de plantar no local. Aliás, plantou duas e se mudou. Típicas de fazendas, dadas as dimensões que atingem, as seringueiras hoje estão crescidas, suas raízes tomaram boa parte da superfície da praça e impedem ali o caminhar, seus galhos enormes fazem sombra densa que mata a grama e os pequenos arbustos, além de bloquear a iluminação municipal, que fica dirigida apenas aos céus.

Bem, na administração regional, a encarregada do setor afirmava que não era permitido a qualquer um plantar árvores em praças públicas, a não ser com expressa autorização. E arrematou: “Se todo o mundo resolver plantar o que quer, teremos um canteiro e não uma praça”. Isso sem se falar no gosto pessoal de cada um, que pode não ser uma beleza.

Na semana passada, um senhor aposentado morador da rua próxima à minha resolveu dar sua contribuição à natureza e plantou uma arvorezinha nessa praça, distante da seringueira, mas junto a uma meia dúzia de arbustos plantados por verdes bocós (e folgados) como ele. Fico p da vida, e daí?

O segundo tipo de “militante” verde é o que promove sua boa prática às custas dos outros. Caso do Pão de Açúcar, por exemplo. Recentemente, ao passar pelo caixa do supermercado, fui incentivado a deixar as embalagens de pasta de dente, café, ovos, entre outras, para ajudar a reciclagem. Quase caí na armadilha, mas me lembrei de que as embalagens já estavam no preço que eu pagava pelos produtos. Assim, a indústria de embalagens ganhava, a indústria de pasta de dente ganhava, o Pão de Açúcar ganhava, o Fisco ganhava e … o trouxão aqui pagava pelo que não levava.

Em um momento de rabugice ou lucidez (escolham), falei pro caixa dizer ao Sr. Diniz que, se quisesse ajudar de verdade o Planeta, pressionasse as fábricas a não venderem mais nessas embalagens. Assim, as árvores não seriam cortadas, tintas não seriam gastas, energia idem e menos custos, menos impostos. Ele riu, até agora não sei se entendeu.

Meus caros, vocês se acham imunes a essa onda verde que vende papel reciclado mais caro do que o papel comum? Que faz projetos de sustentabilidade com o nosso bolso? Bem, a onda pode virar um tsunami daqui a pouco.

É outra hipocrisia que a gente vê por aqui.

Código de Defesa do Consumidor

agosto 7, 2010 · Posted in Cidadania, Sustentabilidade · Comment 

por Dick Treacher

Prestes a completar 20 anos de vigência, o Código de Defesa do Consumidor, sem dúvida alguma, representa avanços significativos nas relações de consumo.

Seu texto, como tantos outros diplomas legais, chega a parecer um enunciado de belos princípios éticos os quais, as pessoas de bem, dificilmente teriam motivos para contestar.

Fábio Barbosa, do Santander, em palestra que pode ser vista acima, aborda este tema de forma super simples e, por isso mesmo, brilhante.

O problema está na enorme distância entre o que a lei  estabelece e o que se aplica na prática.

De um lado, ainda vemos produtores e fornecedores se armando com todos os tipos de artimanhas para empurrarem com a barriga consumidores corretos e com justas reclamações.

Por outro lado, vemos também consumidores mal intencionados que a todo o momento procuram pelo em ovo para justificarem suas inadimplências.

Para resolver estas questões, felizmente existem diversos mecanismos que vão desde as simples reclamações, os SACs, os Juizados Especiais, a imprensa etc.

E com relação ao Contribuinte? Quem defende o contribuinte perante a sanha arrecadatória do Fisco?

Por Fisco, quero me referir a essa infinidade de violências praticadas pelo aparato estatal ou paraestatal, o tempo todo contra a população a as empresas em geral.

E aí, não há qualquer distinção entre governos: os passados, os atuais e os futuros são todos iguais em todas as esferas, independentemente de qual Poder representam, posto que uma vez empossados, desaparece como que por milagre, a coerência entre o discurso e a ação.

A lista, conforme mencionei antes, é infinita, mas alguns exemplos merecem ser destacados:

IPTU: Quem já não se revoltou em pagar IPTU em locais sem melhoramentos públicos que justifiquem tal cobrança? E os aumentos abusivos?

ISS: Qual a contrapartida que as Prefeituras concedem aos profissionais e empresas que pagam este imposto?

ITBI: Incide na transmissão de bens imóveis, inclusive nas casas populares. Pode?

IPVA: O cidadão investe na aquisição de um automóvel, alimenta toda uma cadeia produtiva, e ainda é penalizado anualmente por manter a propriedade do veículo. Absurdo.

IRRF: Retenção na fonte! Nesse então, o contribuinte sequer tem a chance de primeiro utilizar seus recursos para depois pagar o imposto. É expropriado.

Chega de siglas? Ok. Existem milhares de outras. É só entrar no Google e pesquisar. Talvez o Brasil seja o único país do mundo que tem até dicionário de siglas.

Mas, se pelo menos, Saúde, Educação, Transportes e Segurança fossem serviços medianamente bem prestados pelo Estado, minha indignação seria menor.

Posso quase apostar, que nenhum dos leitores deste blog se utiliza regularmente do SUS, das escolas públicas, dos transportes coletivos, ou ainda, se sintam seguros com nossas polícias.

Há também os Cartórios, obrigatórios para nascer, viver e morrer. As multas de trânsito resultantes de armadilhas meticulosamente instaladas. Os bloqueios judiciais on-line, que deveriam ser utilizados apenas em casos extremos, mas que viraram expediente corriqueiro de juízes que raramente se dão ao trabalho de entrar no mérito das questões e, last but not least, os inúmeros impostos embutidos e invisíveis que taxam de A…limentos a Z…íperes indistintamente.

Ao contrário do consumidor, que pode rescindir um contrato que não lhe agrade, o contribuinte não tem com o Estado uma relação de consumo. Tem uma relação de subserviência medieval, tipo suseranos e vassalos, assemelhada a uma relação de escravidão, sem possibilidade de alforria onde o lema oficial é: Paga e não bufa!

Help!

Precisamos urgentemente de um Código de Defesa do Contribuinte!

A pesca submarina e a fauna marinha

julho 12, 2010 · Posted in Cidadania, Sustentabilidade · Comment 

por Dick Treacher

Sou do tempo em que passava na TV o seriado Aventuras Submarinas, com Lloyd Bridges no papel do mergulhador/herói que defendia o bem contra o mal, lutando contra saqueadores, piratas e predadores. Bem, isso é passado.

Hoje, vivemos um tempo em que muita gente aparenta defender o meio ambiente e finge entender o que é sustentabilidade. No entanto, esse conhecimento é apenas superficial, de leitura de jornais, gera “frisson” e palestras no melhor estilo de “me engana que eu gosto”. O mal desses “entendidos” é que não sabem nada, mas repetem chavões que ouviram aqui e ali.

Para esclarecer algumas das questões ligadas ao tema, nosso Fio Do Bigode conta com o sólido conhecimento (da vivência) de Dick Treacher, amante do mar, da pesca e da Ilha Bela, não necessariamente nessa ordem.

Dick pratica pesca submarina há décadas, respeitando o meio ambiente, desde quando ainda não era moda reclamar de pesca predatória, poluição ou falar de práticas sustentáveis.

Alguém pode duvidar de que um pescador submarino seja “profundo” conhecedor do tema? Então, com vocês, Dick Treacher.

A Redação


De tempos em tempos e cada vez com maior freqüência, a pesca submarina vira alvo daqueles que se dizem defensores do meio ambiente.

Os variados ataques a esta modalidade esportiva têm sempre um ponto comum: equívocos, desinformações, parcialidade e preconceitos.

Para os que não conhecem, é importante informar que a pesca submarina é praticada em meio hostil ao homem, sem o auxílio de aparelhos de respiração subaquática e em profundidades que raramente ultrapassam os 25m.

Só isso já bastaria para evidenciar a pouca influência que esta prática exerce nos oceanos de profundezas abissais ou mesmo na lâmina d’água da plataforma continental, geralmente de 200m.

Há ainda toda uma regulamentação quanto ao tamanho mínimo de espécies, épocas de defeso, limitação de captura, além de áreas de preservação demarcadas.

Há também as limitações impostas pela natureza relativas às condições climáticas e de visibilidade da água, tornando a pesca submarina um esporte muitas vezes impossível de ser praticado em nosso litoral.

Mas, o mais importante é que há um Código de Ética informal entre os praticantes que, com muito zelo ao meio ambiente, denunciam os praticantes inescrupulosos, bem como orientam os principiantes quanto às espécies comestíveis e ao tamanho mínimo de cada uma. É aí que reside o principal diferencial entre a pesca sub e as demais modalidades: o praticante escolhe o peixe a ser capturado. Não mata a esmo para depois separar o que serve. É uma pesca seletiva.

Com relação à parcialidade com que ocorrem os ataques à pesca submarina, seria muito esclarecedor que se fizesse uma comparação com outras modalidades artesanais ou comerciais.

O “cerco” caiçara, originário dos indígenas, é uma espécie de labirinto formado por redes em que os peixes e outros animais entram e não conseguem sair, ficando presos nas malhas das redes. Estes artefatos são também um perigo para a navegação. É muito comum vermos tartarugas, santolas e várias espécies de peixes não comestíveis, mortos por afogamento ou de fome nestas armadilhas.

As “parelhas” de barcos pesqueiros comerciais, com redes camaroeiras na chamada pesca de arrasto, são talvez os maiores predadores e atuam impunemente. Fala-se, entre os caiçaras, em desperdício de mais de 90% do peso de espécies capturadas pelos arrastões, para depois selecionar os camarões e jogar fora, já mortos, os filhotes de dezenas de espécies de peixes. Isso sem contar os estragos nas estruturas do fundo do mar, geralmente em locais lodosos, onde diversas outras espécies procriam.

Há ainda as criminosas práticas de pesca com explosivos e captura de lagostas com compressores.

É estranho, mas nunca vi os ambientalistas protestarem nas peixarias espalhadas pelo país afora que põem à venda uma infinidade de filhotes de garoupas, robalos, badejos, linguados, enchovas e lagostas, para citar apenas algumas espécies, todos os dias do ano, faça chuva ou faça sol.

Mas, contra os pescadores submarinos eles estão sempre lá, protestando, esbravejando, escrevendo e, pior ainda, pressionando o Legislativo a criar dispositivos legais para restringir cada vez mais, discriminadamente, apenas a Pesca Sub.

Puro preconceito, talvez pelo fato de a pesca sub ter sido considerada um “esporte de elite”, logo que foi introduzida no Brasil por volta de 1955. Hoje em dia, é praticada por muitos habitantes das comunidades caiçaras que já perceberam os malefícios das modalidades utilizadas por seus antepassados, nada tendo portanto de elitista.

Os leitores podem ter certeza absoluta de que os pescadores submarinos, juntamente com os praticantes da pesca esportiva, são muito mais preservacionistas do que quaisquer outros pescadores e, principalmente, do que os novos e desinformados ambientalistas, que por falta de conhecimento pretendem proibir tudo.

Obviamente, os praticantes que não seguem os preceitos da boa técnica e do jogo limpo devem ser rigorosamente punidos, assim como todos os trapaceiros de quaisquer outras modalidades esportivas.

Sou testemunha presencial das transformações ocorridas nos últimos 50 anos no fundo do mar na costa de Ilhabela, voltada para o canal de São Sebastião: as tariobas e berbigões sumiram dos baixios da Siriúba e da Barra Velha. Os praguarís sumiram do fundo das baías nas praias do Perequê, Itaguassú e Itaquanduba, onde uma camada de barro cobriu a areia original. Os caranguejos sumiram dos mangues. Também os mangues foram aterrados. Diversos crustáceos de fundo como as tamarutacas e uma infinidade de pequenos peixes e moluscos da mesma forma, desapareceram. Cardumes de sardinhas e de tainhas raramente são vistos, e uma espécie de limo esverdeado tomou conta das pedras na faixa da arrebentação.

As causas de tudo isso?

O assoreamento do canal, a poluição dos rios e córregos, a ocupação urbana irregular e desordenada que continua ocorrendo e a destruição dos mangues, além das modalidades de pesca predatória já mencionadas. Tudo, menos a pesca sub.

Portanto, ao mesmo tempo em que elogiamos a preocupação dos ambientalistas com a preservação do litoral, ficamos ansiosos para vê-los atuantes nas reais causas da diminuição do volume e da diversidade da nossa fauna marinha.

Hipocrisia, a gente vê por aqui (parte 2)

março 21, 2010 · Posted in Sustentabilidade · Comment 

por Beto Lyra

Sempre achei estranho combater os efeitos e não as causas. Exemplo: campanha contra as armas. Se somos um povo pacífico e ordeiro (como dizem) e repudiamos a violência, por que não proibir o funcionamento das fábricas de armas? Na mais fina interpretação do “me engana que eu gosto”, o brasileiro entra na discussão de “armas” vs “não armas” como se, a partir de sua proibição, o país amanhecesse  mais pacífico do que nunca. Não tem jeito, o brasileiro entra na primeira onda que vem, não pensa ou questiona nada.

Do mesmo gênero, é a atual febre no Brasil de liberalismo sustentável, que tem em Marina Silva sua mais notável porta-bandeira. Leio que a Economia Verde defendida em sua pré-plataforma eleitoral, além da austeridade fiscal (quem poderia ser contra isso?), quer subsidiar iniciativas “limpas”, como energia solar e carros elétricos, e não atividades como pecuária extensiva.

Só os produtores e os distribuidores de combustíveis, são contrários a isso, não é? Mas, a economia verde vai além, quer inibir a pecuária. Não estava no texto que li, mas quer também inibir a expansão das fronteiras da soja e outras plantações que, de um lado invadem e destroem florestas, mas de outro, produzem alimentos a uma população que não para e nem parará tão cedo de crescer.

O que querem os verdes e, em particular, Marina Silva? A pré-candidata, naquele tom de voz de D. Paulo Arns, diz que estão querendo “satanizar” esse debate. Como assim? O risco com Marina Silva talvez seja o de tornar temas conflituosos em questões do “bem” contra o “mal”. Entendo, que mais uma vez mais se evita discutir e tratar a principal causa do problema, que nesse caso é o crescimento demográfico. O país, na verdade o mundo, precisa de alimentos, cada vez mais.

Quem mora em São Paulo deve se lembrar de como era viajar pelo interior do estado. Já ao sair da cidade haviam sítios e chácaras, o cinturão verde, com legumes e verduras, e granjas, produzindo ovos. Mais à frente, fazendas e mais fazendas com rebanhos, de corte e de leite, e muitas plantações de alimentos, como café, milho e feijão. Atualmente, tudo isso é cana de açúcar. O cinturão verde se quebrou e as plantações das antigas fazendas de alimentos acabaram expulsas e “empurradas” para o norte. Assim, se nas regiões sul e sudeste, não há mais espaço suficiente, e a Centro-oeste está se esticando cada vez mais para o norte, a invasão da Amazônia é uma decorrência. E isso ocorre sem limites, o que é aterrador.

Se, no caso das armas, ninguém fecha as fábricas, no caso de estouro populacional, ninguém (Governo, Igrejas, políticos, entre outros) faz nada para inibir a fabricação de filhos ou a migração rumo a São Paulo e outros grandes centros. Aumenta a população, crescem as cidades, e assim cresce a necessidade de expandir fronteiras para novas terras onde fabricar comida.

Recapitulemos, é proibido proibir armas, mas quem as possuir é punido com prisão. Nesse mesmo sentido, é proibido proibir ter filhos, mas inúmeras formas de se obter maior quantidade de alimentos são proibidas, e algumas vezes, punidas. Transgênicos, pecuária extensiva, comer carnes, tudo isso faz parte do discursinho naif dessas ONGs e comunidades que vivem de doações de empresas interessadas na defesa dessas teses. Essas entidades (ôpa, isso é coisa de terreiro) não têm qualquer independência econômica, pois são, direta ou indiretamente, financiadas por outros interesses econômicos, mas arrotam uma altivez de dar inveja.

Em resumo, por que não fazer campanhas pela educação de casais para que evitem filhos? Por que não criar políticas para “segurar” famílias no campo e em centros menores? Por que não fechar as fábricas de armas?

A mentira do aquecimento global?

fevereiro 26, 2010 · Posted in Sustentabilidade · Comment 

por Beto Lyra

A maioria das pessoas pensa que uma nação para ser feliz precisa ser grande; mas mesmo que estejam certas, elas não têm a menor idéia do que seja uma nação grande, ou uma nação pequena… Há um limite para o tamanho das nações, assim como há um limite para outras coisas; plantas, animais, instrumentos; pois nenhuma delas retém seu poder natural quando é muito grande, ou muito pequena; ao contrário, ou perde inteiramente sua natureza, ou se deteriora.

Aristóteles, 322 a.C.

Quando fazia o curso de administração de empresas na FGV (no largo período em que prestigiei a instituição com minha presença/ausência), soube da existência do Clube de Roma, um grupo de intelectuais, cientistas e homens de empresas da Europa e América do Norte, com participação de representantes da Ásia, África e América Latina, que resolveu estudar o crescimento da população,  o desenvolvimento industrial e agrícola, o uso de recursos naturais e a poluição, visando prever como estaria o mundo em meados do século XXI. O Clube gerou dois informes. O primeiro (Limites do Crescimento) alertava para o perigo de que se não se mudassem algumas das variáveis citadas acima,  catástrofes ocorreriam. Trocando em miúdos, se a população, produção de alimentos e uso de recursos naturais continuassem crescendo como estavam, faltariam comida e energia.

Poucos anos mais tarde, o Clube de Roma produziu seu segundo informe (Momento de Decisão), que com mais ameaças catastróficas, alertava para uma única saída: os países deveriam aderir a um sistema mundial integrado. Sim, isso mesmo, era uma tentativa dos grandes países, “preocupadíssimos” com o futuro do mundo, passarem a gerir os recursos naturais, formas de produção e inclusive políticas de controle populacional, para adequarem todas as nações ao que deveria ser o mundo, nas visões e interesses deles, os grandes.

O tempo passou, a China deu uma banana para tudo isso, o Brasil e a Índia não se enquadraram (não por falta de tentar, mas por não conseguir manter controles) e o mundo está longe de acabar. Houve desmatamento de montão para expansão das fronteiras agrícolas e pecuária, e tudo continua longe de qualquer catástrofe.

Exceto para os que alertam sobre os perigos enormes do aquecimento global. Esses novos catastrofistas são os que sucederam aos membros e seguidores do Clube de Roma. Sim, de vinte anos para cá, uma sucessão de estudos e informes foram gerados por cientistas e organizações alertando para os riscos do desaparecimento da vida humana da face da terra se os países não controlarem a emissão de CO2, leia-se, desmatamento, expansão das fronteiras agrícolas, exploração de recursos naturais, nível de industrialização, enfim, tudo que possa permitir aos grandes algum controle ou retaliação sobre os modos de produção dos países emergentes. O mais famoso desses novos informes é o que o ex-presidente norte-americano, Al Gore, vive apresentando mundo afora. E de novo quem é o culpado pela ameaça da vez? O próprio ser humano, em especial os habitantes dos países em desenvolvimento.

Quem nunca leu ou ouviu histórias de povos antigos que faziam oferendas a deuses para aplacarem sua ira e assim não despejassem raios, chuvas ou eclipses contra eles? Quem nunca viu pelas ruas um sujeito no meio de populares gritando “o mundo vai acabar”, “Deus vai punir o pecador”, “só se salvarão os bons”? Quem não vê agora alguém na mídia dizendo “(essa inundação) é uma vingança da Natureza”?

Clube de Roma e aquecimento global para mim são membros dessa mesma grande família. São ameaças, cada vez mais bem articuladas, para os que insistem em pecar, ora contra Deus, ora contra a “ordem natural das coisas” ou contra a sagrada “mãe-natureza”.

A Terra já foi gelada, depois se aqueceu. Houve secas e dilúvios (alguém se lembra da arca de Noé?). E o mundo e seu habitante mais presente (mais nefasto, para muitos) foram mudando, crescendo até chegar ao que são hoje.

Vejamos alguns fatos recentes que colocam em cheque essa febre catastrófica. No final do ano passado, o Painel Intergovernamental de Mudança Climática (IPCC), ligado à ONU, anunciou previsão de que o gelo sobre o Himalaia desapareceria até 2035 devido ao aquecimento global. Isto também estava presente no livro de Al Gore. Menos de dois meses depois do anúncio, pressionados pelo governo da Índia, cientistas do IPCC recuaram em suas previsões dizendo que os dados de seu trabalho estavam mal fundamentados. Como assim? Bem, cientistas independentes rastrearam a origem da projeção do esgotamento de gelo e a atribuíram à ONG WWF, que a teria tirado da revista New Scientist, que cita o dado de um estudo não publicado. Em resumo, o IPCC pisou na bola e se queimou na questão do aquecimento. De propósito? Foi inocente? Leviano?

Há um excelente documentário da BBC que desmente uma acusação fácil e leviana que é a de que o homem é responsável pelo aquecimento global porque contribui para o efeito estufa – retenção de calor na atmosfera por gases como o dióxido de carbono (CO2). No entanto, 95% do efeito estufa é decorrente da concentração de outro gás: o vapor d’água. O CO2 corresponde a apenas 3,6% do total. E mais, desses 3,6%, o homem responde por só 0,1%. Nesse ponto, o climatologista francês, Marcel Leroux diz que “na atmosfera do IPCC não há água”.

Muito bem, o IPCC acusa o homem pelo aquecimento global baseado em 3 pilares: séries históricas dos desvios de temperaturas, séries históricas de concentrações de CO2 e previsão de clima com base no dobro da concentração atual de CO2.

Bem, segundo cientistas ouvidos pela BBC, os desvios de temperaturas  não tiveram crescimento constante nem linear, pois houve períodos com redução de temperatura na terra. Outro dado importante é que não há proporcionalidade entre aumento de CO2 e aumento de temperatura.

Agora vejam isto, entre 1943 e 1966, época em que se consolidou crescimento urbano junto com crescimento econômico, houve redução de 0,18o na temperatura global (fonte: artigo do Doutor em geologia Gustavo M. Baptista).

Para vários cientistas sérios, com os quais concordo, as temperaturas da terra são cíclicas, reguladas por fenômenos naturais, e mudarão, para mais quente ou mais frio, independente de nossa participação. Temos que aceitar e conviver com isso: o homem não é tão importante e fundamental como acha que é.

O IPCC, com sua mirabolante tese do aquecimento global provocado pelo homem, será o novo Clube de Roma e o tempo irá desmentir tanto catastrofismo.

Finalmente, retomo o pensamento de Aristóteles que, mais de 2.300 anos atrás, alertava para limites de crescimento de tudo. Não ouso discordar do mestre, mas me assanho a dizer que ninguém pode, nem ele mesmo poderia, afirmar qual é o limite para nós e o mundo.