Velho Mundo vs. Novo Mundo, o filme

abril 18, 2010 · Posted in Cinema, Lazer · Comment 

por Beto Lyra

No post Velho Mundo vs. Novo Mundo, Pedrão contou um pouco sobre o reconhecimento mundial ao vinho californiano e o surgimento da grande rivalidade entre produtores norte-americanos e franceses.

Com isso, acabei me lembrando de que no ano passado assisti pela primeira vez a “Bottle Shock”, filme baseado em fatos reais, que retrata os tempos iniciais da indústria do vinho na Califórnia, na década de 1970, principalmente a famosa competição entre os vinhos do velho e do novo mundo, idealizada e feita por Steven Spurrier, um comerciante de vinhos francês.

Foi em 1976 que Spurrier (Alan Rickman, o Prof. Severus, de Harry Potter), entediado e em apuros com o fraco nível dos negócios em sua loja de vinhos em Paris, foi até o Vale do Napa para identificar o que de melhor era produzido em termos de vinho para levá-los a Paris e submetê-los ao julgamento comparativo com os melhores da produção francesa, por um júri formado apenas por conhecedores franceses.

No Vale do Napa, visita vários produtores, entre eles Jim Barrett (Bill Pullman, de Independence Day), um ex-executivo que abandona tudo para investir no sonho de sua vida: tornar-se produtor de vinho.

Bem, daí que ele tem um filho, Bo (Chris Pine, o Capitão Kirk no recente Star Trek), com quem luta boxe para acertar desavenças cotidianas, este tem uma amiga que possui um bar, Eliza Dushku, que coordena um jogo de degustação com Gustavo Brambilla (Freddy Rodriguez, do seriado Sete Palmos), gerente do Chateau Montelena. Esse trio é o centro dos fatos que acabam determinando o destino dos Chardonnays da Califórnia. Há também Sam Fulton (Rachel Taylor), a amiga que gosta de Bo e Gustavo, mas não interfere na história.

Spurrier leva vinhos de 6 produtores para a tal degustação. Confrontados com 4 diferentes vinhos da Borgonha, até então os únicos de origem controlada, os californianos (das mesmas castas de uvas que os franceses) se dão melhor. Isso, é claro, você já sabia. O que talvez não soubesse é o que significa Bottle Shock.

Bottle Shock é o termo usado para se referir ao efeito que o engarrafamento tem sobre o vinho e é precisamente isso que dá origem ao destino desta história.

O filme merece ser visto preferencialmente acompanhado por um bom Chardonnay indicado, é claro, pelo degustador oficial do Fio Do Bigode, também conhecido por Pedrão.

Por fim, você pode tentar identificar no filme o verdadeiro Jim Barrett, proprietário do Chateau Montelena, que aparece como um dos produtores que fornecem amostras de vinhos para o concurso a Alan Rickman. Também o verdadeiro enólogo do Chateau, Mike Grgina, que foi o responsável pelo premiado Chardonnay Montelena 1973, aparece em várias cenas, inclusive na que Barrett prova uma amostra do vinho direto do barril.

Ditadura baiana

setembro 16, 2009 · Posted in Artes, Cinema, Música · Comment 

por Beto Lyra

O sono corria bem até que fui assolado por imagens de um amigo passando em casa e dizendo “vamos logo, estamos atrasados para o show da Ivete (Sangalo). A reação foi imediata, calafrios seguidos de calores e um leve enjôo. Acordei com a boca seca e agradecendo por não ser realidade o convite. Ou teria eu comprado um ingresso para assistir Ivete Sangalo? Na dúvida, abri um livro para não adormecer novamente e evitar uma eventual continuação da tortura. Consegui. Logo clareou e eu pude enfim contar meu pesadelo para que não se repetisse.

Mas é prudente exorcizar esses demônios. E aqui vai. Tenho verdadeiro medo, paúra mesmo, quando escuto ou vejo qualquer programa moderno em que artistas baianos são impostos aos ouvintes/expectadores. A Bahia já deu, como bem disse Gilberto Gil, régua e compasso a muitos de seus filhos. Talentosos sem dúvida, eles ganharam o mundo, ao menos o Brasil. No campo da música, foram levas de cantores e compositores maravilhosos. Entre eles, eu respeito os inícios de carreiras do próprio Gil, Caetano Veloso, Maria Bethânia, Gal Gosta, Tom Zé, Dorival Caymmi, Novos Baianos e paro por aqui. Digo início de carreira porque ao longo de tantos anos os talentos se esgotaram, infelizmente, e sobrou apenas muita fama — na última década e meia, uma catástrofe consubstanciada na repetição idiota de que eles são maravilhosos, seus discos excelentes e ai de quem disser que não gosta deles e de sua baianidade. Somos (é, eu me incluo nesse grupo) ridicularizados, afinal eles são deuses. Poucos anos atrás, a mulher de um amigo fez cara de inteligente e declarou o seguinte durante uma festa: “Sábado fui ver o show do Caetano. Ah, é tão bom ouvir Caetano.”

Me afastei desse grupo de risco. Pode ter sido bom ouvir Caetano e outros baianos.  Hoje são pura enganação imposta pela indústria fonográfica e pelos turistas bocós que vão pra Bahia e voltam com fitinha no braço e sotaque local depois de uma semana por lá. Trata-se mesmo de uma ditadura, que como tal é imposta por uma minoria, barulhenta é verdade, mas minoria. Muitos desses artistas endeusam sua Bahia e baianidade, mas moram no Rio e trabalham em São Paulo.

O pior é que temos que engolir tudo o que vem da Bahia, estilos(?) como axé e pagode baiano, e gente como Daniela Mercury, os filhos do Caymmi, Babado Novo, É o Tchan, Raul Seixas (convenhamos, Rock das aranhas só é engraçado quando se tem 17 anos), com as letras do mago da auto-ajuda Paulo Coelho, e Carlinhos Brown. Porém, pior mesmo, é o que nem é de lá mas diz que é, como Claudia Leitte e Preta Gil.

Deixei de lado, de propósito, João Gilberto, considerado gênio da música brasileira. Concordo que ele seja gênio, mas aí pergunto: que tipo de gênio? Ora, esse compositor/cantor(?) tratou a todos como imbecis e fez dinheiro interpretando “o pato, vinha cantando alegremente, quém, quém”, com vozinha de criança, e dando esporro ao vivo nos produtores de seus shows por causa do som, do ar-condicionado, do serviço de garçon etc.

Os poucos que se arriscaram a falar contra essa ditadura baiana, como Lobão fez ao dizer que era ridícula a interpretação de Caetano quando tremia o queixo ao cantar “cucurucucúuuuuu, Palomaaaaa…, foram criticados e/ou perseguidos.

Em outras áreas das artes, como o cinema, a ditadura baiana impôs Glauber Rocha, que fez uma dezena de filmes, que todos na época fingiam compreender, para poder dizer: Ah, é tão bom ver Glauber.

Na literatura, o expoente sem dúvida foi Jorge Amado, com obra riquíssima e instigadora, reveladora dos costumes e problemas da Bahia. Genial! Ganhou merecido lugar entre os imortais da Academia Brasileira de Letras. Quando morreu, porém, a ditadura baiana impôs para sucedê-lo a viúva Zélia Gattai, uma mulher sensível, companheira e que escreveu uns três livros de memórias. E ai de quem criticasse ou ousasse querer disputar com ela a cadeira de Jorge.

Por último, deixei para falar um pouco mais dos outrora grandes artistas que, mesmo ricos, não se cansam de mamar nas fontes de recursos do Estado. Cansados mesmo eles ficaram de ouvir críticas, cantar por amor ao ofício, de ganhar menos daqueles que só podem pagar menos para vê-los. Nos últimos meses, Caetano e Gil, separadamente, foram buscar recursos limitados da Lei Rouanet, que se não fossem canalizados para shows de ambos poderiam irrigar muitos projetos de gente iniciante, que não tem como concorrer com esses monstros sagrados na busca de patrocínios junto a empresas. Ora, se querem ser populares, que reduzam de vez em quando os preços dos ingressos de seus shows.

Finalmente, para consolo, há quem defenda a tese de que os artistas baianos são em menor número do que se pode precipitadamente acreditar. Explico: segundo essa tese, Caetano e Bethânia são a mesma pessoa. Pois é, depois que tomei conhecimento disso, esperançoso passei a notar a exagerada semelhança entre eles e jamais, acreditem, vi os dois juntos em um mesmo local.

Em tempo: em defesa da classe musical baiana, devo esclarecer que Jorge Mautner, que se mete a tocar violino e é um horror, embora pareça filhote da ditadura baiana, não é baiano, mas carioca.

Vitus, na vida como ela é

setembro 9, 2009 · Posted in Cinema, Humor · Comment 

por Beto Lyra

Bem, como “spoiler” de plantão, não consigo deixar passar qualquer oportunidade de oferecer uma percepção diferente aos filmes aqui comentados. Dessa vez trata-se de Vitus, a história de um garoto prodígio, que muitos insistem em classificar como comédia dramática ou filme família perfeita. Para muitos, o entendimento é de que Vitus quer ser tratado como uma criança comum e daí se rebela constantemente como uma criancinha comum.

Ledo engano. Vitus é um garoto mimado, egoísta, que só quer fazer coisas que tem vontade, quando tem vontade. Gosta e tem talento raro para a música, mas como seus pais querem obrigá-lo a virar músico, resolve ser do contra e, para tanto, ultrapassa, como veremos, qualquer limite razoável.

Vitus é de fato um superdotado, tanto de inteligência como de saco, pois aguenta a aporrinhação de seus pais que estão loucos para que ele se torne um novo Mozart, fadado ao sucesso, e que naturalmente os pais exibiriam mundo afora (deve ser só Hemisfério Norte, na visão alemã). Sucesso também significaria uma vida massacrante para o pequeno gênio, mas dinheiro e mais dinheiro para os gananciosos pais do garoto. Tanto é verdade, que o pai diante da potencial mina de ouro, abandona seus negócios na promissora empresa em que é sócio e  transforma a vida familiar em um monte de contas a pagar. Não fosse pelo nível cultural que esses pais têm, poderiam perfeitamente ser comparados aos inúmeros pais de craques de futebol que largam tudo o que fazem, quando fazem algo, apenas para grudarem nos seus pintinhos e não precisarem fazer mais nada na vida.

Vitus é inteligente o suficiente para perceber essa armação e luta para escapar dela. Tem no avô, este sim um desinteressado por dinheiro, apesar de suas grandes dívidas, um verdadeiro pai. E é com ele que divide suas preocupações, anseios e dúvidas. O avô é louco, com escassos momentos de lucidez, mas respeita o neto, o escuta e fala frases quase sem sentido, como Peter Sellers em Being There (Muito Além do Jardim). Vitus, inteligente que é, entende as palavras do avô do jeito que quer e assim toca a vida.

Tenta aproximação de uma garota, por quem se apaixona, não sexualmente, mas por uma razão muito simples: suprir a presença e afeto feminino que lhe foram negados desde criança. Sua mãe ou estava ausente ou perseguindo-o para estudar e estudar música.

Nas ausências da mãe, Vitus tinha a companhia de uma garotinha cerca de 7 anos mais velha que ele. Brincavam como se ambos tivessem 12 anos. E é essa garota que Vitus, aos 13, reencontra e tenta fazer dela sua amiga, confidente e parceira. Mas ela não está preparada e confunde tudo, pois embora com 20 aninhos continua com uma cabecinha de 12 e é incapaz de sacar o espaço que Vitus lhe abre em sua vida.

Azar no amor, sorte no jogo. Vitus passa a especular na bolsa de valores. Consegue amealhar uma pequena fortuna para si e o avô, que quita as dívidas e enlouquece de vez, comprando um simulador de voo e logo em seguida um avião de verdade. É claro que o louco do avô vai acabar se dando mal. Um dia sai voando em direção ao sol e antes de derreter o avião sofre um acidente cujas sequelas vão levá-lo à morte.

Com o dinheiro ganho na bolsa, Vitus também socorre o pai (que está sendo escorraçado da empresa em que é sócio) e arquiteta a compra do controle acionário.

Como não tem mais nada pra fazer, Vitus volta a se dedicar à música. Ainda é um gênio e passa a dar concertos, quando quer e onde quer. Enfim, um garoto mimado, mas um gênio.

C.Q.D. (Clássica abreviatura de Conforme Queríamos Demonstrar).

O verdadeiro plano de Irina Palm

setembro 9, 2009 · Posted in Cinema, Humor · 13 Comments 

por Beto Lyra

Percebo, ao contrário do entendimento comum do filme, que Irina Palm não era a pessoa delicada e sensível, capaz de fazer coisas que jamais imaginou fazer apenas para conseguir dinheiro para o pagamento de caríssimo tratamento médico, último fio de esperança para a sobrevivência de seu neto, Ollie.

Maggie, o verdadeiro nome de Irina Palm, era somente uma mulher procurando suprir suas carências afetivas e sexuais.

Não concorda? Então me acompanhe.

Maggie casou cedo, com o único homem que diz ter conhecido, e enviuvou logo. Nunca mais se aproximou de outro homem.

Ora, inglês nunca foi famoso por ser bom amante. Inglês quer beber e, quando chegar em casa, jantar e continuar bebendo. Por consequencia, inglesa que quer vida sexual boa tem que atravessar o Canal ou dar uma esticada até a Grécia, como fez Shirley Valentine, outra inglesinha insatisfeita com seu casamento, no filme homônimo de 1989.

Mesmo após ficar viúva, Maggie não saiu da Inglaterra, assim como também não se aventurou com o fotógrafo Robert Kincald/Clint Eastwood, de Pontes de Madison, nem com o pilantra Mike, de Caminho das Indias. Ora, chupou o dedo, literalmente, esse tempo todo.

Assim, quando surge uma notícia ruim, como a de que seu neto não reage ao tratamento até então feito, Maggie pira e, inconscientemente (?) vai parar num porno-shop. Aí, na entrevista de emprego, faz cara de surpresa, de indignação, mas já estava “caidassa” pelo gigolô Mikki, que acariciou suas mãos e, o melhor de tudo, não pediu para ela cozinhar, como o ex-marido fazia.

Pronto, rapidamente ela se adaptou às novas funções e em nenhum momento deixou transparecer nojo ou raiva, pelo contrário, logo levou porta-retratos, garrafa térmica e caneca para o chá, além de um creme, que todo o mundo que assiste ao filme fica tentando ler o nome para depois comprar na farmácia. Em resumo, amava o que fazia. Pelo dinheiro? Não, é claro, pois se fosse pelo vil metal necessário para salvar seu neto, ela teria aceitado a proposta do concorrente de Mikki que quis roubá-la para seus quadros profissionais.

Maggie era uma devassa enrustida, com um certo olhar inocente, que dava a suas mãos a liberdade criativa de movimentos. Daí seu sucesso.

Agora, lembrando de meus tempos e escola, devo finalizar com a clássica abreviatura “C.Q.D.”, que significa “Conforme Queremos Demonstrar”.

Em tempo: só inglês para gostar de buraquear em sex-shop.