Meninos, eu vi … eu vi as Torres Gêmeas nascerem

setembro 8, 2011 · Posted in Mundo, Turismo · 40 Comments 

por Beto Lyra

A long long time ago

I can still remember how

That music used make me smile

Don McLean, 1971

Janeiro de 1972. Estava em Nova York pela primeira vez. Uma aventura iniciada no porto de Recife onde eu e meu primo Marcos embarcamos no lendário (e lerdíssimo) Frota Santos, um navio cargueiro brasileiro que levou açúcar para Nova Orleans. Descemos no berço do jazz.

Quatro dias batendo perna pela cidade e bairro francês, ouvindo jazz, e no 5º dia, um domingo, o programa especial: assistir a culto religioso, almoçar no parque (City Park) e jogar futebol contra a tripulação de um navio sul-africano. Isso mesmo, um jogo internacional. Ganhamos, não fiz gol, mas dei o passe para um dos nossos. Festa no navio brasileiro.

Dia seguinte, passagens compradas, Marcos e eu embarcamos no histórico Greyhound Bus Line, pela famosa Route 11 (não é a 66, mas é famosa também). Louisiana, Mississipi, Tennessee, Alabama, Georgia, Viginia, West Virginia, Maryland, Pennsylvania e, finalmente, New York. Dezenas de pessoas subindo e descendo do ônibus e nós dois firmes, sentados até o c… fazer bico.

Marinheiros de primeira viagem (literalmente), não reservamos hotel e assim às 3:00 da madrugada encontramos um na rua 46, o quase brasileiro Paramount. Daí em diante, foram 6 dias de bate perna pela ilha, boca aberta para o parque Central Park) , Waldorf Astoria, prédio do John Lennon, Empire State etc. Sempre ouvindo uma música que fazia o maior sucesso na época: American Pie, de Don McLean, cujos versos iniciais e finais (da canção e deste post) têm muito a ver com essa história toda.

Tirei dezenas de slides (alguém se lembra do tempo em que se tirava foto para revelação como slide?), muito vistos logo após o retorno ao Brasil e depois … nunca mais.

Até que neste ano resolvo transformar fotos de algumas viagens em digitais. As desta aventura entraram no bolo. Ao rever as imagens de NY de 40 anos atrás, a surpresa: estavam ali, já imponentes, os dois prédios que viriam a ser por algum tempo os  mais altos do mundo. Incompletos, faltando apenas alguns andares, no final de gestação. Como  disse, eu vi as Torres Gêmeas nascerem.

Agora, 10 anos depois do 11 de setembro, essas fotos me fazem lembrar a dezena de vezes em que tive de subir ao último andar de uma delas. Na primeira, para conhecer, nas demais para acompanhar, a família, amigos e comitivas de negócio que eu ajudava a coordenar nas visitas às bolsas de Chicago e NY.

E se … o nine eleven tivesse acontecido anos antes, numa das manhãs em que estava visitando-as? Deixa pra lá!

Bem, há fatos que se tornam inesquecíveis. Por exemplo:  todo o mundo sabe aonde estava ou o que fazia nos dias da morte do Kennedy, em 1963, da chegada à Lua, em 1969, ou do jogo Brasil 4 X Itália 1, em 1970. Eu me lembro bem aonde estava no 11 de setembro de 2001. Acreditem, estava em uma reunião na Câmara de Comércio Árabe-Brasileira, tratando da reabertura da Embaixada do Brasil no Iraque e de uma feira que haveria dos exportadores brasileiros, em Bagdá. Os telefones começam a tocar, alguém pede para ligar a TV a tempo de ver o 2º avião se chocar contra a Torre Norte, e o que inicialmente se supunha um acidente se transforma numa declaração de guerra. Nem é preciso dizer, o mundo mudava e nossa reunião já era! Não haveria mais embaixada alguma, nem feira de produtos. Atenções totalmente voltadas aos prédios pegando fogo.

E, assim, meninos eu vi, eu vi as torres cairem.  O final da canção do McLean era profética:

And them good old boys were drinkin’ whiskey and rye

Singin’, “this’ll be the day that I die.

this’ll be the day that I die”

Antes eu tivesse visto só nascerem.

E você também se lembra aonde estava quando as torres caíram?

Diplomacia malcheirosa

novembro 5, 2010 · Posted in Mundo, Política · 2 Comments 

por Pedro Scuro

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Pedro Scuro é uma dessas pessoas que você acaba de conhecer mas saca na hora que tem muitas coisas em comum. Uma delas é “horas de voo”. Tem estrada rodada e muita sensibilidade para fatos e oportunidades vividas.

Neste diplomacia malcheirosa, Pedro distila humor acerca da hipocrisia dominante na política.

Aproveitem o post.

Beto Lyra

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Na Roma antiga, como em muitas cidades brasileiras hoje em dia, os cidadãos urinavam em qualquer lugar, principalmente na rua. O problema ficou tão grave que as autoridades resolveram impor aos mijões multas pesadas, deixando absolutamente indignada a opinião pública. Afinal, dizia-se, urinar é uma função natural e, restringi-la, seria uma aberração, asneira, até pecado.

O debate esquentou e acabou tomando várias sessões do senado. Numa dessas, discursava o líder da oposição a favor do “direito de urinar” quando um senador da “base do governo” levantou-se e ostensivamente perguntou agitando bem diante do nariz do orador o punho cheio de moedas: “porventura isto cheira mal”?

Milhares de anos depois, na cidade de Praga, capital da então República Socialista da Tchecoslováquia, duas ditaduras, a do Brasil e a daquele país, resolveram assinar um acordo de cooperação econômica. Até aí, nada de mais, não fossem os dois países membros de blocos políticos antagônicos, um do Ocidente e o outro comunista. Mas, enfim, era só cooperação econômica, e, conforme foi sugerido ao senador romano, dinheiro não cheira mal.

Tudo ia às mil maravilhas quando um grupo de estudantes interrompeu a sessão solene de assinatura do acordo, protestando contra a ditadura militar brasileira, que na época violava direitos civis, políticos, econômicos, prendia, torturava e assassinava quem se atravesse a desafiar o regime.

A reação dos gorilas foi imediata. Os três brasileiros que participaram do protesto tiveram seus passaportes confiscados e suas vidas passaram a ser minuciosamente relatadas à embaixada em Praga por intermédio de informantes.

Os tchecos ficaram ainda mais indignados. Tentaram se livrar dos manifestantes, mas não conseguiram, porque, de modo corajoso dois líderes sindicais brasileiros, Roberto Morena e Lyndolpho Silva, e um dirigente do PCB, Davi Capistrano, impediram que os estudantes fossem deportados e entregues diretamente à ditadura militar.

Tudo isso testemunhado por um jornalista, correspondente em Praga, crítico do protesto contra o acordo entre as duas ditaduras. Intimo dos diplomatas, desde aquela época, quarenta anos depois escreve na imprensa sindical, pois “o mundo mudou, para melhor e para pior”, e muitos ainda têm “dificuldade de se adaptar aos novos tempos” (Mauro Santayana. “Diplomacia sem medo”, Revista do Brasil, São Paulo, nº. 48. Jun. 2010).

Não ele nem os diplomatas, que continuam tão pragmáticos como nos anos da ditadura, defendendo o direito dos regimes que sistematicamente violam direitos, não só para assinar acordos, mas também de terem “suas vozes ouvidas na discussão de questões graves referentes à guerra e à paz” (Celso Amorim, Brasil pede atenção à voz dos emergentes sobre paz e guerra. Disponível em http://www.uol.com.br, 15 jun. 2010).

A justificativa é um esdrúxulo princípio de “plena igualdade política entre as nações”, incluindo as que violam direitos. Caso do Brasil, que décadas depois do protesto de Praga, continua sendo um dos piores exemplos que existem. E do Irã, o país do mundo com a história mais extensa e contínua de tortura política, pelo menos desde os anos 50, sem interrupção.

O retrógrado regime iraniano abusa da população e massacra os opositores das formas mais bárbaras e humilhantes que se possa imaginar. Sobretudo se a pessoa é acusada de praticar moharebeh, “guerra contra Deus”, eufemismo do Código Penal iraniano para todo tipo de oposição ao governo.

Nada disso, porém, incomoda os pragmáticos, hoje em dia não somente “nossos” diplomatas, mas também “nossos” líderes estudantis e sindicais. Todos acanhalhados, vivendo de seus escritórios de representação do governo.

Mas, e daí, quem se importa, pois assim como o dinheiro, a falta de moral, de consciência acerca do que é certo ou errado, parece que não cheira mal.

Os olhos verdes e o foco do leitor

setembro 17, 2010 · Posted in Artes, Mundo · 28 Comments 

por Beto Lyra

Em meados dos anos 80, fiquei fascinado por uma capa da revista National Geographic. Tinha a foto de uma menina lindíssima com duas luas cheias verdes nos olhos e em trajes da região do oriente médio. Nunca mais esqueci sua expressão e volta e meia me lembrava daqueles olhos e rosto de beleza simples.

Dezessete anos mais tarde, logo depois da invasão norte-americana ao Afeganistão, após o atentado de 11 de setembro, a mesma revista publicava matéria sobre o novo alvo militar dos americanos. Em algum ponto do texto, informava que aquela menina de olhos verdes estava viva, para alegria de legião de leitores enfeitiçados por aquela capa de anos atrás. Ufa, eu não estava só!

Localizada, e fotografada, a então mulher afegã lembrava sua antiga beleza, mas mantinha intacto o olhar, agora triste porém ainda cativante. Os olhos dizem tudo, não é?

Mas por que esta história hoje? Porque exatamente hoje o site da CNN traz matéria sobre o fotógrafo Steve McCurry, felizardo e premiado ao clicar a imagem mágica da menina em 1985, que conta como fez a foto. Estava no campo de refugiados afegãos, na fronteira com Paquistão, pouco antes da ofensiva dos soviéticos na guerra (perdida pelo império) no Afeganistão em 1985.

Bem, e o que isso tem a ver com o nosso Fio Do Bigode?

Tudo! O FDB ficou fora do ar, aparentemente esquecido. Aparentemente, apenas! Pois não é que ao longo destas quase quatro semanas em que nosso antigo hospedeiro, o IG, perdeu arquivos de centenas de blogs, suspendeu serviços, esbanjou lentidão e desrespeito, e por fim matou seu ótimo produto “Blig”, recebemos dezenas de manifestações de leitores do Fio Do Bigode, saudosos, inconformados com a ausência e ávidos por posts novos deste elenco de 10 bloguistas, que fazem a festa e a força deste blog. Enfim, permaneceram de olho no FDB.

Eu mesmo fiquei à procura de uns novos olhos verdes que me fizessem novamente sonhar em rever todos os fiéis (e loucos) leitores do Fio Do Bigode.

E então voltamos. Espero que os leitores tenham foco e olhos generosos para a nova casa. Não é para ser mais feia ou mais bonita que a anterior. É apenas para ser a nossa nova casa.

Sejam todos bem-vindos!

Legalizar ou não as drogas?

maio 30, 2010 · Posted in Mundo · Comment 

por Beto Lyra

O tema legalizar ou não as drogas realmente é controverso. Há inúmeras teorias, opiniões e desejos envolvendo essa questão. Há também interesses que se agregam em torno de correntes educacionais, direitos do cidadão et cetera. O que fazer com as drogas?

Comecemos por informações aceitas como verdadeiras:

  • o consumo de drogas tem subido;
  • o número de usuários também;
  • o volume de dinheiro envolvido tem crescido;
  • as mortes pelo uso de droga também;
  • a violência nas ruas tem aumentado;
  • os confrontos entre polícia e traficantes também.

Como bom assunto polêmico que é, não há uma certeza ou verdade única sobre ele. Todos ouvimos quase sempre a mesma coisa como identificação desse problema e também sobre o que deve ser feito para evitar o desastre que se anuncia para a próxima geração. Mas outro dia ouvi opinião diferente: “droga deve ser uma questão de saúde pública e não de polícia. Assim, deve-se legalizá-la  porque o numero de mortes cairá”. E a justificativa é que com a legalização, embora devam aumentar as mortes pelo maior e livre consumo de drogas, acabam as mortes nos confrontos polícia vs traficantes e nas guerras entre quadrilhas. Pelo raciocínio, os usuários de drogas não mais seriam perseguidos pela Lei, mas sim atendidos pelas agências de saúde, encarregadas de tratar e apoiar tais pessoas.

Adicionalmente, li ontem na Folha de S. Paulo, que nem todo usuário de droga é viciado e que, portanto, é capaz de determinar quando e quanto quer consumir, controlando os efeitos da droga. Não seria, portanto, considerado viciado.

Dessa maneira, a quantidade de pessoas a ser cuidada por órgãos de saúde do governo não seria tão grande e seria possível atendê-las com recurso e atenção adequadas. Então parece que ficaria fácil resolver. Mas quem terá coragem de implantar isso? E se não for tão simples assim? O que fariam os fabricantes e traficantes de drogas? Reagiriam à eminente queda de um império econômico?

Alguém, como perguntaria Garrincha, vai combinar algo com eles antes dessa alteração?

Haiti: um novo mico-leão dourado?

janeiro 20, 2010 · Posted in Mundo · Comment 

por Beto Lyra

Há tempos não via uma cobertura jornalística tão horrorosa quanto a que agora é feita no Haiti. É um festival de mesmices, obviedades e erros nas reportagens e coberturas feitas por correspondentes da imprensa brasileira.

Quem está acompanhando (e tem jeito de não acompanhar?) pode ver informações velhas, repetidas à exaustão, seguidas de comentários que fariam um universitário do Sílvio Santos corar de vergonha pelo vomitório de coisas óbvias agregadas às imagens das desgraças por que passa a população do Haiti após o terremoto. Como não há qualquer evento importante no cenário internacional por esta época do ano, nossa imprensa se debruçou sobre este festival de desgraças, e haja Ibope pra medir isso tudo.

Abro os jornais da manhã e leio “Haitianos procuram sobreviventes”, “O desespero toma conta das ruas de Porto Príncipe”, “Povo luta por comida” e outras manchetes bitoladas. Ah, por favor, chega! Vejo televisão e as conversas ao vivo com pessoas que estão no Haiti apresentam também suas pérolas de babaquice: “Fulano, como é que está a situação aí depois desse terremoto?”, “Beltrano, e como está a questão da segurança?”, “Cicrano, o que você está sentindo ao andar nas ruas de Porto Príncipe, com tanta destruição, mortos não enterrados, falta de alimentos, saques?” Meu Deus do céu! O próprio entrevistador já respondeu a pergunta, o que falta dizer?

Recorro a Gabriel Garcia Marques para dizer que se trata de uma crônica de uma morte anunciada, ou alguém tem dúvida de que o Haiti, tal como outros países da região e também da África, com a estrutura, pobreza e o abandono que tem, poderia ter outro destino?

Pois é, povo miserável, com violência exacerbada, luta de gangues, sem comida, sem produção, sem educação, sem nada, o que pode querer ou esperar? NADA! E o que foi dado ao Haiti pelos países que podem ajudar e não fazem? Uma força de paz da ONU, da qual orgulhosamente o Brasil é coordenador. Essa força da ONU está lá há 6 anos e conseguiu fazer muito na questão de violência, é verdade, mas pouco para ajudar a população e o país. Reduziu as lutas internas, mas não mexeu uma palha no sentido de acabar com as razões da violência, que são a fome, miséria, corrupção, desalento, entre outras. O brasileiro fica contente em ser benquisto pelo mundo todo, pelo haitiano neste caso em particular, e o máximo que consegue fazer é tornar-se amigo das comunidades locais, realizar jogo de futebol e outras levezas adicionais.

O embaixador brasileiro no Haiti, Igor Kipman defende que o “Brasil mande menos combatentes e mais uma companhia de saúde, mais pessoal de educação” (Agência Brasil). Posteriormente acrescentou que “não precisamos de combatentes para ensinar criança a escovar os dentes. Temos 900 combatentes fazendo ações cívico-sociais, como distribuição de alimentos e construção de latrinas.” (O Estado de S. Paulo).

Relatório elaborado pelo chefe da Minustah (Missão de estabilização da ONU para o Haiti), Hedi Annabi, cita que a produção nacional de alimentos e a ajuda humanitária que recebe não cobrem a metade das necessidades da população. E acrescenta que “o Haiti importa 52% do restante de seus alimentos (o que inclui mais de 80% do seu arroz) e todo o seu combustível”. Portanto, sem atacar a questão da estrutura econômica do país qualquer ação humanitária terá o efeito “enxuga-gelo”. Ou tão a gosto dos brasileiros: “me engana que eu gosto”.

Vamos falar sério. Se os Estados Unidos, a ONU e mesmo o Brasil querem ajudar realmente, deveriam organizar uma verdadeira task force internacional para “levantar” de vez o país, ou isso não é prioridade para ninguém? Uma task force que tenha coordenadores experientes com um plano de recuperação econômica real e adequado para o Haiti, quem sabe um Plano Marshall caribenho, levando recursos, máquinas, know how produtivo, e ensinamentos de espírito empresarial e empreendedorismo.

Em conversa com amigos defendi essa idéia e ouvi que não adiantaria nada disso no Haiti, pois diferentemente do Japão pós 1945, aonde houve intenso aporte de capital, e da Europa, aonde o Plano Marshall foi aplicado em sua reconstrução depois da II Guerra Mundial, o haitiano não tem a formação educacional nem a personalidade desses povos, nem o país tem histórico econômico forte como tinham tais nações.

Não concordo com essa argumentação! Acredito mesmo que se o mundo quiser consertar de verdade o Haiti, (e futuramente, seus equivalentes africanos e caribenhos), vai ter que pisar na lama e “construir” um país que os haitianos não conseguiram fazer sózinhos até agora.

Jogar alimentos do avião, montar hospitais de campanha, despachar projetos como os de Zilda Arns não vão resolver mais. Irá apenas aliviar as consciências de quem no restante do ano vai apoiar movimentos do tipo “Salvem o mico-leão dourado”.

Resumo da ópera: que venha um Plano de Recuperação Realista para o Haiti.

O Haiti é aqui (ou não é?)

E pobres são como podres e todos sabem como se tratam os pretos
E quando você for dar uma volta no Caribe
E quando for trepar sem camisinha
E apresentar sua participação inteligente no bloqueio a Cuba
Pense no Haiti, reze pelo Haiti
O Haiti é aqui
O Haiti não é aqui

(Gilberto Gil e Caetano Veloso)

Um olhar sobre alterações na vida social dos seres humanos

dezembro 7, 2009 · Posted in Mundo · Comment 

por Geraldo Vidigal

O bloguista convidado da vez é Geraldo Vidigal, parceiro de copo e de boas conversas, não necessariamente encostados no balcão. Geraldo é dessas pessoas que às vezes você pensa que está flutuando por aí durante uma conversa, mas que quase sempre vem com comentário abraçando um lado da questão que até então não estava na mesa de discussão.

Este post de hoje é um bom exemplo disso. Leiam (enquanto leem, imaginem alguém constantemente empurrando os óculos com o dedo indicador) e me digam se não tenho razão.

Vamos lá Geraldo!


Das violentas transformações havidas no século XX, e que alteraram a educação e a forma comportamental, a primeira profunda foi a da televisão: transformou o círculo familiar num semicírculo, no qual as comunicações internas do grupo foram bloqueadas e direcionadas no sentido daquilo que a mídia decide que deve ser o pensamento coletivo.

A segunda foi a da Net: tornou o semicírculo em individualidades conectadas on line.

Antes da TV — e pelos milênios anteriores — o bebê nascia, conhecia a mãe, pouco após o pai, seu quarto e a família, a casa, o quarteirão, e, assim sucessivamente, o bairro, a cidade, o país e o mundo.

A educação começava no bêabá, passava pela decoreba da tabuada, e ia seguindo um rigor multimilenar no qual o raciocínio seguia lógica cartesianamente empirista, na qual primeiramente se analisam os dados para, descartando o descartável (como diria Descartes), chegar à conclusão irrepreensível.

Após a TV, o bebê nascia e, enquanto estava conhecendo o pai, a família e a casa, já ia conhecendo o mundo, antes de conhecer o quarteirão. Apenas, as notícias chegam devagar, lentas – mas muitíssimo mais velozes do que antes.

Aí, o raciocínio se inverte, a partir da geração BabyBoomer, o raciocínio dos bebês sofre uma súbita inversão: de empírico e dedutivo, passa a emocional e indutivo. Surge a má-temática moderna, o ensino da leitura pela apreensão de vocábulo por inteiro, e novas formas de ensinar o antigo.

Daí à maior rebeldia entre pais e filhos da história. A ruptura inevitável entre raciocínios incompatíveis levou a movimentos jovens de ordem planetária, somente comparáveis às revoluções oriundas da disseminação das teorias sociais a partir do século XIX. Mas sem suas sangrentas e desnecessárias consequências: geração não-violência.

Em 1990, pela 1ª vez na história, o mundo pode acompanhar pela TV uma guerra em “tempo real”: Na “Tempestade no Deserto”, a 1ª grande guerra contra o Iraque, a bomba que se via cair na TV, ainda não tinha caído: ESTAVA caindo; as balas ESTAVAM tracejando naquele preciso momento; os corpos atingidos ESTAVAM de fato explodindo diante de seus olhos.

Isso ocorreu apenas meia dúzia de anos antes da popularização da Internet. A Internet conecta todo o mundo on line em tempo real.

Quebrado o semicírculo de opiniões facilmente moldáveis e direcionáveis, tornamo-nos todos individualidades conectadas na etérea nuvem eletrônica que nos bombardeia 24 horas ao dia.

Por toda parte somos filmados e fotografados, os movimentos acompanhados e potencialmente policiados todo o tempo. Os indivíduos abrem mão de suas individualidades, de suas privacidades, optando pela coletividade – ou a ela sendo dirigidos. O sigilo vai se esvanecendo. As redes de busca registram, pela eternidade, as preferências de cada indivíduo, formatando as opiniões de cada um a posteriori, a partir das premissas de suas preferências evidenciadas na Net.

A Net, por sua vez, banalizou o sexo; pasteurizou e endeusou a violência. Sexo é o prazer em ter o outro, só pelo prazer no mais elevado grau, inclusive por vezes elevando a grau de prazer comportamento possessivo e agressivo entre os pares. Ou é sonho, fantasia, compartilhados na rede nos sites específicos. Companheirismo, parceria, cumplicidade, prazer em “estar com”, não estão em questão.

Nos jogos eletrônicos, matar, destruir e trucidar, massivamente em massa, passa a ser o ideal, o sonho e o prêmio. Mas nesses jogos a vigilância – de resto, geral – não ocorre.

O século XXI apenas começou…, e eu não consegui encontrar nem uma pitadinha de humor nessa estória toda.

Quem sabe, ao longo dele, aprendo a achar graça em pedaços de corpos volantes, vigilância continuada, policialismo e dirigismo eletrônicos e raciocínios protoviolentos.