Os olhos verdes e o foco do leitor

setembro 17, 2010 · Posted in Artes, Mundo · 28 Comments 

por Beto Lyra

Em meados dos anos 80, fiquei fascinado por uma capa da revista National Geographic. Tinha a foto de uma menina lindíssima com duas luas cheias verdes nos olhos e em trajes da região do oriente médio. Nunca mais esqueci sua expressão e volta e meia me lembrava daqueles olhos e rosto de beleza simples.

Dezessete anos mais tarde, logo depois da invasão norte-americana ao Afeganistão, após o atentado de 11 de setembro, a mesma revista publicava matéria sobre o novo alvo militar dos americanos. Em algum ponto do texto, informava que aquela menina de olhos verdes estava viva, para alegria de legião de leitores enfeitiçados por aquela capa de anos atrás. Ufa, eu não estava só!

Localizada, e fotografada, a então mulher afegã lembrava sua antiga beleza, mas mantinha intacto o olhar, agora triste porém ainda cativante. Os olhos dizem tudo, não é?

Mas por que esta história hoje? Porque exatamente hoje o site da CNN traz matéria sobre o fotógrafo Steve McCurry, felizardo e premiado ao clicar a imagem mágica da menina em 1985, que conta como fez a foto. Estava no campo de refugiados afegãos, na fronteira com Paquistão, pouco antes da ofensiva dos soviéticos na guerra (perdida pelo império) no Afeganistão em 1985.

Bem, e o que isso tem a ver com o nosso Fio Do Bigode?

Tudo! O FDB ficou fora do ar, aparentemente esquecido. Aparentemente, apenas! Pois não é que ao longo destas quase quatro semanas em que nosso antigo hospedeiro, o IG, perdeu arquivos de centenas de blogs, suspendeu serviços, esbanjou lentidão e desrespeito, e por fim matou seu ótimo produto “Blig”, recebemos dezenas de manifestações de leitores do Fio Do Bigode, saudosos, inconformados com a ausência e ávidos por posts novos deste elenco de 10 bloguistas, que fazem a festa e a força deste blog. Enfim, permaneceram de olho no FDB.

Eu mesmo fiquei à procura de uns novos olhos verdes que me fizessem novamente sonhar em rever todos os fiéis (e loucos) leitores do Fio Do Bigode.

E então voltamos. Espero que os leitores tenham foco e olhos generosos para a nova casa. Não é para ser mais feia ou mais bonita que a anterior. É apenas para ser a nossa nova casa.

Sejam todos bem-vindos!

(Coleção de) Boudin, quem diria, acabou no Brasil

julho 31, 2010 · Posted in Artes · Comment 

por Beto Lyra

Intelectuais de plantão,

Dêem uma lida no caderno Turismo, da Folha do dia 23/07, sobre a Normandia, o berço do Impressionismo, Boudin e Cia. Está ótimo e dá vontade de visitar tudo que é sugerido.

Sobre Boudin, posso contar um caso curioso. Tem umas 15 ou 20 obras dele no Museu Nacional de Belas Artes, do Rio. Vi uma exposição com essas telas no Museu Oscar Niemayer, de Curitiba, em 2004, acho. Mas não é isso que é curioso, e sim o modo como acabaram vindo para o Brasil.

Lá por meados do século XIX, a família de um “playboy” brasileiro da época, que insistia em não fazer nada a sério, mandou-o “estudar” na Europa. O rapaz se instala na França.

Mensalmente, pingava aquela graninha para manter o “estudo”, enviado pela família, que após certo tempo, ansiosa por notícias, começou a querer mais informações sobre o curso que estaria sendo feito.

Curso de pintura, informava o rapaz. Mas, diante de insistentes cobranças de que tipo de estudo, que tipo de trabalho fazia, o rapaz começou a mandar para a família, aqui no Brasil, algumas telas, pintadas por ele, decerto.

A família, de barões do café, ficou impressionada. Os amigos da família, também. O rapaz afinal tinha talento. Pediram mais. O “estudante”, incentivado pela graninha que continuava pingando mês a mês, enviou outras, no total umas 15 ou 20.

Não sei ao certo como e quando descobriram que as telas não eram pintadas pelo pretenso “artista”, mas sim por um francês, impressionista de primeira hora. Também não sei como terminou a história para a família e para o malandro. Houve castigo? Corte de mesada? Não importa.

O que realmente importa é que, décadas mais tarde, a família do playboy doou esses quadros para o Museu Nacional de Belas Artes do Rio que assim ficou com o maior conjunto de obras de Boudin numa instituição pública fora da França.

Eugène Boudin, professor de Monet, mentor do impressionismo e inspirador da malandragem brasileira.

Abapuru, homem que come gente

julho 17, 2010 · Posted in Artes · Comment 

por Geraldo Vidigal

Tarsila do Amaral (1886-1973), paulista de Capivari, freguesia formada em fins do século XVIII como base para as monções que subiam rumos às minas de ouro de Cuiabá, nasceu em berço de ouro na aristocracia rural paulista, recebendo refinada educação ao estilo francês.

Iniciando seus estudos no Colégio Sion, em São Paulo, completou-os na Espanha, em Barcelona, com destaque, desde logo interessando-se pelas artes.

Seu primeiro casamento foi arranjado pelo pai, como era usual então. Esse casamento foi anulado, por alegada incompatibilidade cultural com o irrelevante marido.

Estuda pintura com Pedro Alexandrino a partir de 1917. Em 1920 vai à França, frequentando a Academia Julian, estudando ainda na Academia Rénard.

De volta ao Brasil é apresentada por Annita Malfatti a Oswald de Andrade, Mario de Andrade e Menotti Del Picchia. Desses relacionamentos iria surgir o Modernismo (v.g. Manifesto da Poesia Pau-Brasil; livros como Macunaíma e Casa Grande & Senzala; Revistas como Estética, Klaxon e Antropofagia; pintores como Tarsila do Amaral e Anita Malfatti).

Em janeiro de 1923, une-se a Oswald, viajando a seguir a Portugal, Espanha e França, onde se aproxima do cubismo, em especial com Fernand Léger.

Em 1924, inicia sua fase “Pau Brasil”, retratando nossas fauna e flora, trilhos e máquinas.

Em 1926, casa-se com Oswald. No mesmo ano apresenta em Paris sua primeira exposição individual.

Em 1929, pinta o “Abaporu”. Ainda em 1929 expõe pela primeira vez no Brasil. A crise de 1929 empobrece a família de Tarsila.

Em 1930, a agora pobre moça rica torna-se Conservadora da Pinacoteca do Estado de São Paulo, função que perde com o advento de Getulio Vargas.

Em 1930, separa-se de Oswald, vende quadros particulares e viaja à União Soviética, onde vende quadro “O Pescador” para o Museu de Arte Ocidental de Moscou.

Volta à França, onde trabalha na construção civil e como pintora de paredes e portas, conseguindo dinheiro para voltar ao Brasil. Pouco após sua volta, é presa e acusada de subversão.

Em 1933, pinta o quadro “Operários”, iniciando fase social em sua pintura.

A partir de 1940, retorna a temáticas anteriores.

Seus quadros Abaporu (1928)  http://www.tarsiladoamaral.com.br/images/JPG/ABAPORU50.jpg e Antropofagia (1929) http://www.tarsiladoamaral.com.br/images/JPG/ANTROPOFAGIA50.jpg são os mais marcantes do período, nos quais corpos humanos são figuras centrais, representados com enormes coxas e seios, e minúsculas cabeças, tendo por cenário de fundo um sol com seus raios voltados para um centro aberto e com cactos erguendo-se ao céu.

Abaporu é o quadro mais importante já produzido no Brasil. Quando viu a tela, Oswald assustou-se e chamou o amigo Raul Bopp. Ficaram olhando a figura e acharam que representava algo excepcional. Tarsila lembrou-se de um dicionário tupi guarani: batizaram o quadro como Abaporu (homem que come gente).

Oswald escreve o Manifesto Antropófago, lançando o Movimento Antropofágico, cuja intenção é a de “deglutir” a cultura européia e lançar algo bem brasileiro. Este Movimento radical é o grito de independência da arte brasileira em relação à européia, da qual até então éramos caudatários e tributários. Foi a síntese do Movimento Modernista brasileiro.

O “Abaporu” foi vendido em 1995 no exterior por US$ 1.500.000,00 e adquirido pelo colecionador argentino Eduardo Costantini.

A respeito de Abaporu, conta-nos a própria Tarsila:

«Bopp foi lá no meu ateliê, na rua Barão de Piracicaba, assustou-se também. Oswald disse: “Isso é como se fosse um selvagem, uma coisa do mato” e Bopp concordou. Eu quis dar um nome selvagem também ao quadro e dei Abaporu, palavras que encontrei no dicionário de Montóia, da língua dos índios. Quer dizer antropófago.»

E, se dermos uma olhada no quadro, a despeito de sua inusitada estrutura, não deixa de ser muito sensual. Um(a) ser nu(a), de corpo superdimensionado, cabeça pequena, um sol um tanto… estranho, com seus raios voltados para dentro, fugurativamente próximo ao vaginal, e um cacto que não deixa de ser poli-fálico (com hífen e tudo, viram, “gênios” medíocres, destruidores, pouco a pouco, da lingua portuguesa! Aliás, porque é que só a língua portuguesa necessita se abastardar, aculturar, emburrecer em relação a suas origens ibero-romanísticas? Ítalo parlantes, hispano hablantes e francófonos são menos burros que os lusófonos? E… por quê novas regras gramaticais não são seguidas em Portugal?  As linguas evoluem – e o devem – ao sabor das alterações movidas pelas sociedades.  Mas o que temos não é isso: é involução determinada pelas “Academias”, não pela força viva dos povos. Tema talvez para outros posts).

Deixando as zebras, fardadas ou listradas e outros animais de rabo, pra lá, registro certas coincidências, apenas para se pensar:

A B A P O R U (presenteado por Tarsila ao marido Oswald) significa “Homem que come gente”, em Tupi-Guarani. Mas também é um anagrama:

A

R A U

B O P

Candidatos: com rugas e passado, por favor!

maio 17, 2010 · Posted in Artes, Política · Comment 

por Paulo Gil

Se você é, como eu, absolutamente cético em relação à veracidade de uma foto, ganhou mais um argumento de peso. A nova versão do photoshop. Algo impressionante!

Tudo  ficou mais divertido. Podemos estar sem ter estado. Quando se quer tirar alguém ou algo de uma imagem, basta selecionar o elemento indesejável e o programa aciona seus algoritmos a olhar para um lado e para o outro a fim de ver o que existe por ali. Pronto! Ele calcula como este entorno ocuparia o lugar selecionado e  a realidade muda com uma velocidade fantástica.

Gostava mais do tempo em que dava trabalho. Mesmo o laboratório sendo digital. As alterações impunham respeito. Agora, mudamos o que ficará para a história tão rapidamente como um texto do twitter.

Pessoalmente adoro tudo isso. O que se vê “através” da fotografia não existe. Existe o que vemos, ou supomos ver naquele pedaço de papel ou monitor. Algumas imagens são resultado da ação direta da luz. Única e exclusivamente. Outras, parecem que sim mas não o são. São resultado de trucagens. Quando tudo fica claro, sem problemas.

A questão torna-se discutível quando este tipo de manipulação (entendendo aqui manipular como a atitude de se adulterar a imagem original com supressão ou acréscimo de elementos) é feita e não se diz. Principalmente  em imagens ditas jornalísticas.

Imagens jornalísticas manipuladas passam para o campo genericamente conhecido como arte. Há um trabalho belíssimo de um fotografo que registrou lugares maravilhosos em rincões do planeta de difícil acesso e, portanto, comprovação. São paisagens deslumbrantes que…. não existem.

Quando pensamos em publicidade creio ser um recurso absolutamente aceitável. Publicidade lida com o imaginário… É fantasia. Isso não quer dizer que se pode mentir. Enganar no que diz respeito aos benefícios e qualidades de um determinado produto.

Mas dá para fazer um carro virar um robô, ou  transformar os faróis de outro em olhos que se apaixonam por um determinado combustível. Alem disso, a trucagem ou o uso da imagem digital agiliza, e muito, o trabalho dos publicitários. Não ache que isto não era feito nos tempos do negativo. Era, e dava um trabalho louco!

Sinto ser redundante nesta questão da imagem criada e nem sempre apresentada como tal.  Mas, como ainda se crê – ou queremos crer – que a fotografia só pode mostrar aquilo que de fato ela viu, patinamos no limo da percepção de que muitas vezes não é bem assim. Uma sensação, em alguns casos,  de desapontamento, decepção, sei lá!

Com o início da propaganda eleitoral mecanismos de manipulação serão utilizados sem nenhum constrangimento. Todos serão bonitos. Que garantia teremos que pessoas nas fotos não serão suprimidas ou então acrescentadas ? Ruas limpas,  funcionários com seus uniformes passados e limpos digitalmente etc. e tal. Candidatos fazendo seus discursos em lugares onde não estiveram.

Se sempre se fez isso com cortes nas imagens, por que não com tanta sofisticação ao alcance da mão?

Fotografias prontas dos candidatos majoritários com fundo liso prontas a receber o aliado. Ou recém aliado. A história vai para o passado, ou para o lixo.  Tem sido assim desde sempre. Quantos escreveram e registraram em cartório que ficariam em seus cargos até o último dia e que não o fizeram? Por que não mentir na foto também?

Dos candidatos minoritários, tomara que tentativas como o “ficha limpa” melhorem um pouco tudo isso nos aliviando do show de bizarrices fotográficas que,sem dúvida, mais uma vez enfrentaremos neste ano .

E que os candidatos tenham rugas e passado.

Projetos futuros

março 16, 2010 · Posted in Artes · Comment 

por Paulo Gil

Outro dia vi a foto de uma amiga do tempo da escola. Tinha os cabelos brancos. Fiquei assustado. Lembrei-me de mim com cabelos; e dos dela: eram castanhos.

É difícil, às vezes, ver o amigo de infância com cabelos brancos.

Foi destes momentos em que “a ficha cai” em que a noção do tempo bate à porta.

Quando vemos alguém que nos conheceu quando éramos outro, por um momento respiramos novamente aqueles ares. Depois, graças ao que seja, voltamos para onde estamos. Prontos para a foto de agora.

A fotografia realmente pode ser um espelho com memória. A gente se reconhece não apenas na foto em que estamos “presentes” mas naquelas em que não estamos porém de alguma maneira por ali estávamos. Conhecíamos as personagens, respiramos os ares daqueles momentos.

Ler uma foto depende do lugar da história em que estamos. Adoro isso. Olho para mim na foto e tenho aquela impressão de ter sido outro. Ainda bem!

Por vezes envelhecer me deixa meio acabrunhado no entanto descubro, pouco a pouco, que este saber – tornar-se maior, como dizem os espanhóis – é a grande arte.  O que nos dá a perspectiva de futuro.

Ao contrário de um álbum de fotografias:  história acumulada. Adoro fotografar, mas, no que diz respeito às fotos pessoais,  não tenho um álbum, tenho caixas cheias de imagens a serem re-descobertas.

Isso tudo me trouxe um pequeno caso: meu tio foi almoçar outro dia em casa de minha mãe. À saída do prédio, encontrou um velho amigo que lhe disse: “Olá! Como vai?  Precisamos nos encontrar para lembrar o passado!” Ao que meu tio respondeu: “Lembrar o passado não! Pensar nos projetos que temos para o futuro!”

É isso. Quais as fotos a serem feitas?

Qual futuro pretendo seja um dia parte de minha memória?

Bom ter mestres da vida, como meu tio, assim, ao alcance da mão. Mantém viva aquela deliciosa “angustia” das infinitas possibilidades que existem quando estamos diante de  um papel em branco ou  olhando através do visor de uma câmera.

Antropofagia e fotografia

janeiro 15, 2010 · Posted in Artes · Comment 

por Paulo Gil

Dizem que o antropófago comia seus adversários para absorver sua essência, coragem, alma. A energia que lhe faria vir a ser melhor.

E ai, um dia, ocorreu-me a pergunta se não teria a mesma intenção, porém menos trágica, a quantidade de fotos que fazemos uns dos outros e que guardamos feito troféus nas estantes, paredes, álbuns etc.

Ter a foto do filho em suas etapas de crescimento, daqueles que já partiram, as nossas mesmas – aquele que carregamos mas sabemos ser outro.

Avós, filhos amigos, o cachorro, a viagem: as provas de termos sido, estado… almas que nos pertencem e que nos trazem o que foi ou o que supomos ter sido.

Não seria isso um ato de antropofagia? Precisamos nos alimentar de memórias, precisamos da “presença” do outro para nos nutrir. E é impressionante como se fotografa nos dias de hoje. Não basta estar ali, o que move é recordar que ali esteve. Viagens, bares, festas etc.

E como fica no caso das imagens das quais somos apenas espectadores?

Marcou-me o dia – fiquei com uma inveja gostosa – em que encontrei um grupo de poetas, entre os quais meu primo Ruy Proença, numa exposição de fotografias de São Paulo no Instituto Moreira Salles. Eram fotos de uma época em que talvez encontrássemos nossos pais nos seus primeiros anos de calça comprida.

Aqueles poetas buscavam naqueles anônimos histórias para suas escritas. Queriam alimentar suas almas. Com tacapes azuis ou pretos e caldeirões pautados.

Barthes chamava por punctum aquele dado, às vezes pequeno, da foto que nos fisga e nos deixa caminhar por ela. O interessante é o fato de que são infinitos os anzóis em uma foto, pois eles não estão nela mesma e sim naquele que a vê.

A maneira como caminhamos pela vida determina isso. E é este o motivo dos muitos anzóis: cada um come o que gostar mais… e haverá aquele que passará reto.

Comento isso porque adoro pegar fotos que encontro na rua. Histórias que são abandonadas porque seus suportes foram tomados por fungos, riscos, luz em excesso etc. Ou, simplesmente, porque alguém quis esvaziar suas gavetas.

Um dia encontrei um cromo na rua. Esse que aparece aqui. Uma família, suponho, mãe, filhas e filho? Alguma amiga junto? O que me fez perder, ou ganhar, muito tempo com esta imagem foi o momento e por quem  ela foi feita. Achei ser, provavelmente, em um fim de semana, clicada pelo pai que chegou da cidade e foi à praia, ainda vestindo seu traje de trabalho, a fim de ver a todos e pisar na areia. Em sua alegria, deixou que saísse na foto um de seus sapatos. Provavelmente calçaria ainda o outro. Para mim este é o centro da imagem. A foto é de quem não está nela. Devo reconhecer minha profunda curiosidade em saber qual rosto este provável pai teria. De qualquer maneira, senti-me saciado.

Lamento apenas não ser poeta.

Assim é se lhe parece

novembro 24, 2009 · Posted in Artes · Comment 

por Paulo Gil

Fio Do Bigode está em festa. Inaugura hoje um espaço para gente amiga e competente colocar suas idéias, apresentar propostas, provocar mais polêmicas ou mesmo não fazer nada disso. Serão eles os nossos bloguistas convidados, que aparecerão de quando em vez, para alegria nossa e, espero, de todos que pacientemente nos leem.

O primeiro bloguista convidado é o fotógrafo Paulo Gil, que saca tudo que acontece à sua volta, principalmente fotos.

Vamos lá Gil, a cena é sua!


Anos atrás descobriram que a famosa fotografia do francês Robert Doisneau, “O Beijo” (acima), era montada. Para fazê-la, ele contratou dois modelos para registrar a vida feliz da Paris dos anos 1950.

Recentemente, foi a vez de outro ícone do fotojornalismo cair por terra, ou melhor, perder sua aura de instante decisivo. Falo da foto do húngaro Robert Capa que registra o exato momento em que um soldado republicano era abatido pelas forças franquistas na Guerra Civil Espanhola.

Morte do soldado republicano, de Robert Capa.

Pessoalmente, passado o espanto, cheguei à conclusão de que não há nenhum problema nisso. Ambos radicalizaram o fato de que toda foto é manipulada, não importando as condições em que foram feitas. O fotógrafo, ao fazer suas opções (escolhas de câmera, lente, filme, posição em relação ao assunto, fundamentação política etc.), é que define tais condições. Portanto, ao alterar apenas uma dessas opções, a história poderia ser contada de outra maneira.

Poderia, porque isso também é relativo. Dizem que a fotografia atesta que “algo” existiu. No entanto, este “algo” foi transferido de uma determinada relação tempo e espaço para vir a ser outra realidade — a foto –, que passará a ser a partir do ponto de vista daquele que a vê e que vive em outro tempo/espaço. A viagem pode ser, e é, grande e bem gostosa de se trilhar. Fica para outro momento.

E se essa relação fotografia/verdade passa a ser o objeto do artista?

Aqui quero jogar âncora. Especificamente no trabalho de um artista catalão chamado Joan Fontcuberta. Nascido em 1955, é um dos grandes nomes da fotografia mundial, como fotógrafo e pensador.

Diz ele que desconfia de tudo. A fotografia é uma evidência, alguma coisa esteve de fato na frente da objetiva de uma câmera. Mas, e se isso não for bem assim, ou seja, e se aquilo que vemos, juramos que vemos, não for o resultado do que estava diante da câmera e sim da maneira como foi captado por ela? Este é o mote do trabalho de Fontcuberta.

Para mim, a imagem fotográfica, em que pese ser indicial, não passa de uma imagem… e, como tal, nada mais, nada menos que uma idéia. Não é um objeto específico que existe e sim aquilo que dele o fotógrafo acha que deva existir. Fotografar é como escrever um texto, estamos sempre escolhendo sujeitos, predicados, adjuntos e tudo mais. Fotografamos idéias.

Apresento algumas imagens de duas séries de Fontcuberta: “Herbarium” e “Cosmonauta Desconhecido”.


Olhando as imagens da série “Herbarium”, vemos um trabalho científico como os botânicos faziam no final do século XIX, começo do XX. Uma série que lembra, também, a atuação dos fotógrafos viajantes que vinham ao Brasil para registrar nossas fauna e flora de forma objetiva.

Olhando mais atentamente, percebemos, um pouco aqui, outro tanto acolá, situações estranhas. Lendo e ouvindo o artista, ficamos sabendo que todas estas imagens foram feitas a partir de lixo colhido nas ruas de Barcelona. Em seu estúdio, montou pacientemente seus cenários. Fotos perfeitas, nomes em latim e pronto.  Autor, qualidade das imagens, local em que eram apresentadas (museus, por exemplo), tudo atesta a veracidade das “plantas”.

Fontcuberta não tem a intenção de enganar as pessoas, pois sempre se “desmascara” no final de uma exposição, por exemplo. Quer que as pessoas duvidem do que veem, que não acreditem em “algo” apenas porque foi fotografado e essa foto seja indicial. Aquilo estava de fato ali, mas não é o que se vê na foto. Nunca é.

“Cosmonauta desconhecido” tem uma história bem diferente.

Quando terminou a União Soviética, uma parte significativa do material fotográfico espacial ganhou o mundo e foi leiloado em vários lugares. Nessa época, Fontcuberta teve acesso a uma fotografia de 5 cosmonautas e … acrescentou mais um, com seu próprio rosto. Este sexto cosmonauta ganhou de Fontcuberta uma história documentada fotograficamente desde a sua infância. Ganhou um nome também: Fontcuberta em russo, e ganhou vida.

Fontcuberta é o 3º da esquerda para direita.


Um dia, um fotógrafo especializado viu a foto montada e divulgada por Fontcuberta e percebeu que não era a foto com 5 pessoas que ele conhecia.

Foi a deixa para que Fontcuberta liberasse a história fictícia. O sexto astronauta tinha tripulado uma missão antes daquela de Gagarin. Ele e um cachorro. Mas, como tal missão não havia tido êxito, as autoridades soviéticas simplesmente retocaram a foto, como era praxe na URSS, retirando o “sexto” e desconhecido cosmonauta. Por isso ninguém o conhecia.

É genial! Ele apresentava a exposição não como autor das fotos, mas como um profundo conhecedor da fotografia, o que por si só era um atestado de idoneidade. Além disso, aonde levava sua exposição, convidava algum professor de russo local para que assumisse o cargo de presidente da fundação que “financiava tal descoberta”. Em algumas cidades, conseguiu que a exposição fosse feita no Museu de Ciência. Era a cereja no bolo da verdade, pois nada melhor do que o suporte de um espaço dedicado à ciência para dar credibilidade a tudo. No encerramento da exposição, Fontcuberta esclarecia todo o projeto e sua história.

Chegou a conseguir, em alguns momentos, o apoio de jornalistas que escreviam sobre o tema, como se este fosse verdadeiro ao longo de umas tantas páginas. Na  última, aquela de mais informações, falavam do trabalho de Fontcuberta.

Em outubro último, o fotógrafo fez uma apresentação no Itaú Cultural, durante a exposição “A invenção de um mundo” (aberta até 13 de dezembro). Exibiu um vídeo com trechos de um programa “sério” de uma TV espanhola sobre temas misteriosos. Nele, um repórter apresentava como verdadeira “a descoberta do sexto cosmonauta”. Era de embolar de dar risada. Não é necessário dizer que, no dia seguinte à transmissão de TV, todos os jornalistas científicos e os artistas desancaram o programa, via telefone, e-mail etc.

Sugiro ao leitor que faça uma pesquisa no santo Google – castelhano e inglês – sobre o trabalho de Fontcuberta. Não temos muita coisa por aqui. Não se espantem se aparecerem blogs como o de Juan Cabana… Fontcuberta é uma caixinha de excelentes surpresas.

Sobre o mesmo tema, outra boa surpresa está na exposição “Gigi, the black flower”, do pintor, produtor, fotógrafo e ilustrador Josh Goslfield, na Steven Kasher Gallery, em Nova York. Confira o site da exposição e o comentário de Lucas Mendes, na BBC Brasil pelos links abaixo:

http://www.bbc.co.uk/portuguese/cultura/2009/11/091119_lucasmendes_tp.shtml

http://joshgosfield.com/gigi/

Minas: esquadrão literário X engodo musical

outubro 6, 2009 · Posted in Artes, Literatura, Música · Comment 

por Beto Lyra

A questão é polêmica, eu sei. Mas se eu abordei, em outro post, a Ditadura Baiana que nos tortura constantemente, como não falar um pouco do sofrimento que nos é imposto pelos irmãos músicos mineiros?

Aliás, há diversas questões dos mineiros que não entendo como é que acontecem. A primeira delas diz respeito à Inconfidência Mineira, fato histórico, que marcou a posição de revolta dos residentes no Brasil contra a Coroa. Isso eu entendo claramente. O que não consegui jamais entender é porque os mineiros ficam orgulhosos em serem chamados de Inconfidentes. Ora, inconfidente quer dizer não digno de confiança, inconfiável. Assim, me pareceria mais adequado qualquer outro nome como “revoltosos”, “anti-Coroa” “contra-impostos” ou “social-democrata” (êpa, essa foi demais, desculpem).

A segunda questão é que mineiro, apesar do jeitinho tímido, humilde e matuto, é corajoso e arrojado, orgulhoso, hábil e esperto. Tão esperto e hábil que apesar de o estado nunca ter sido considerado da região nordeste do Brasil, usufruiu das benesses da Sudene, antigo órgão do governo federal responsável por programas que despejavam recursos na recuperação dos estados … nordestinos.

Quero respeitosamente reverenciar o esquadrão literário mineiro, cujos expoentes máximos Guimarães Rosa e Carlos Drummond de Andrade estão muito bem secundados por Otto Lara Resende, Rubem Fonseca, Affonso Romano de Sant’Anna, Paulo Mendes Campos, Adélia Prado, Fernando Sabino e ia me esquecendo de Hélio Pellegrino, que é até nome de rua em São Paulo.

Bem, mas voltemos ao campo musical. Foi-se o tempo em que a música feita e tocada no Brasil tinha cor e gosto de café com leite. Milton Nascimento e Chico Buarque, por exemplo, fizeram uma dobradinha incrível, com clássicos como “Cálice”, “O que será (à flor da pele) e “Cio da Terra”, mas a dupla parou cedo. Milton, justiça seja feita, fez discos magistrais, entre um porre e outro, nos áureos tempos. Nos últimos quinze anos, no entanto, só desovou músicas de segunda, aliado àquele grupo mineiro de enganadores, como Fernando Brandt, Beto Guedes, Lô Borges e seu irmão Marcio, Tavinho Moura, Toninho Horta e Flavio Venturini. Volta e meia escuto na rádio alguma música de um desses compositores/cantores e a vontade é trocar imediatamente pela “Hora do Brasil”, que pelo menos dá pra dar risada.

Milton Nascimento parece mineiro, e se fez passar por mineiro a vida inteira, deu até as sílabas iniciais de seu nome a um disco “Minas”, afirmando ser sua raiz de verdade. Mas ele nasceu no Rio. Seu pai era dono de uma estação de rádio e assim ele respirou o mundo artístico desde pequeno. Cresceu em Três Pontas, fez bela carreira, lindos discos, carregou esse grupo de enganadores nas costas, mas cansou e esqueceu de parar, aposentar, pendurar chuteiras. Quase como Romário, que foi enganar na 2ª divisão dos EUA, no Tupy de Minas e na Austrália, pra tentar ganhar algum dinheiro e chegar a 1.000 gols. Uma vergonha!

Por causa de Milton tivemos que aguentar aquelas torturantes ladainhas nas duplas que inventava com Mercedes Sosa, Violeta Parra e Victor Jara. Tenho quase certeza que os golpes militares pararam na América Latina (Honduras é a exceção que confirma a regra) pois ninguém mais quer ter que escutar canções de protesto com a trinca acima. Nem os militares, é lógico.

Mas volta e meia Milton reaparece, para tristeza dos que gostavam dele e infortúnio de todos que o assistem. Agora está reduzido a uma figura que eu me atreveria até a comparar àquela fumacinha aterrorizante que aparece de quando em vez na série Lost.

Ditadura baiana

setembro 16, 2009 · Posted in Artes, Cinema, Música · Comment 

por Beto Lyra

O sono corria bem até que fui assolado por imagens de um amigo passando em casa e dizendo “vamos logo, estamos atrasados para o show da Ivete (Sangalo). A reação foi imediata, calafrios seguidos de calores e um leve enjôo. Acordei com a boca seca e agradecendo por não ser realidade o convite. Ou teria eu comprado um ingresso para assistir Ivete Sangalo? Na dúvida, abri um livro para não adormecer novamente e evitar uma eventual continuação da tortura. Consegui. Logo clareou e eu pude enfim contar meu pesadelo para que não se repetisse.

Mas é prudente exorcizar esses demônios. E aqui vai. Tenho verdadeiro medo, paúra mesmo, quando escuto ou vejo qualquer programa moderno em que artistas baianos são impostos aos ouvintes/expectadores. A Bahia já deu, como bem disse Gilberto Gil, régua e compasso a muitos de seus filhos. Talentosos sem dúvida, eles ganharam o mundo, ao menos o Brasil. No campo da música, foram levas de cantores e compositores maravilhosos. Entre eles, eu respeito os inícios de carreiras do próprio Gil, Caetano Veloso, Maria Bethânia, Gal Gosta, Tom Zé, Dorival Caymmi, Novos Baianos e paro por aqui. Digo início de carreira porque ao longo de tantos anos os talentos se esgotaram, infelizmente, e sobrou apenas muita fama — na última década e meia, uma catástrofe consubstanciada na repetição idiota de que eles são maravilhosos, seus discos excelentes e ai de quem disser que não gosta deles e de sua baianidade. Somos (é, eu me incluo nesse grupo) ridicularizados, afinal eles são deuses. Poucos anos atrás, a mulher de um amigo fez cara de inteligente e declarou o seguinte durante uma festa: “Sábado fui ver o show do Caetano. Ah, é tão bom ouvir Caetano.”

Me afastei desse grupo de risco. Pode ter sido bom ouvir Caetano e outros baianos.  Hoje são pura enganação imposta pela indústria fonográfica e pelos turistas bocós que vão pra Bahia e voltam com fitinha no braço e sotaque local depois de uma semana por lá. Trata-se mesmo de uma ditadura, que como tal é imposta por uma minoria, barulhenta é verdade, mas minoria. Muitos desses artistas endeusam sua Bahia e baianidade, mas moram no Rio e trabalham em São Paulo.

O pior é que temos que engolir tudo o que vem da Bahia, estilos(?) como axé e pagode baiano, e gente como Daniela Mercury, os filhos do Caymmi, Babado Novo, É o Tchan, Raul Seixas (convenhamos, Rock das aranhas só é engraçado quando se tem 17 anos), com as letras do mago da auto-ajuda Paulo Coelho, e Carlinhos Brown. Porém, pior mesmo, é o que nem é de lá mas diz que é, como Claudia Leitte e Preta Gil.

Deixei de lado, de propósito, João Gilberto, considerado gênio da música brasileira. Concordo que ele seja gênio, mas aí pergunto: que tipo de gênio? Ora, esse compositor/cantor(?) tratou a todos como imbecis e fez dinheiro interpretando “o pato, vinha cantando alegremente, quém, quém”, com vozinha de criança, e dando esporro ao vivo nos produtores de seus shows por causa do som, do ar-condicionado, do serviço de garçon etc.

Os poucos que se arriscaram a falar contra essa ditadura baiana, como Lobão fez ao dizer que era ridícula a interpretação de Caetano quando tremia o queixo ao cantar “cucurucucúuuuuu, Palomaaaaa…, foram criticados e/ou perseguidos.

Em outras áreas das artes, como o cinema, a ditadura baiana impôs Glauber Rocha, que fez uma dezena de filmes, que todos na época fingiam compreender, para poder dizer: Ah, é tão bom ver Glauber.

Na literatura, o expoente sem dúvida foi Jorge Amado, com obra riquíssima e instigadora, reveladora dos costumes e problemas da Bahia. Genial! Ganhou merecido lugar entre os imortais da Academia Brasileira de Letras. Quando morreu, porém, a ditadura baiana impôs para sucedê-lo a viúva Zélia Gattai, uma mulher sensível, companheira e que escreveu uns três livros de memórias. E ai de quem criticasse ou ousasse querer disputar com ela a cadeira de Jorge.

Por último, deixei para falar um pouco mais dos outrora grandes artistas que, mesmo ricos, não se cansam de mamar nas fontes de recursos do Estado. Cansados mesmo eles ficaram de ouvir críticas, cantar por amor ao ofício, de ganhar menos daqueles que só podem pagar menos para vê-los. Nos últimos meses, Caetano e Gil, separadamente, foram buscar recursos limitados da Lei Rouanet, que se não fossem canalizados para shows de ambos poderiam irrigar muitos projetos de gente iniciante, que não tem como concorrer com esses monstros sagrados na busca de patrocínios junto a empresas. Ora, se querem ser populares, que reduzam de vez em quando os preços dos ingressos de seus shows.

Finalmente, para consolo, há quem defenda a tese de que os artistas baianos são em menor número do que se pode precipitadamente acreditar. Explico: segundo essa tese, Caetano e Bethânia são a mesma pessoa. Pois é, depois que tomei conhecimento disso, esperançoso passei a notar a exagerada semelhança entre eles e jamais, acreditem, vi os dois juntos em um mesmo local.

Em tempo: em defesa da classe musical baiana, devo esclarecer que Jorge Mautner, que se mete a tocar violino e é um horror, embora pareça filhote da ditadura baiana, não é baiano, mas carioca.