Gastronomia e turismo no Brasil

junho 25, 2012 · Posted in Gastronomia, Turismo · Comment 

(artigo publicado na revista Turismo em Foco, edição de junho 2012)

por Beto Lyra

Introdução

Ainda que não seja reconhecido como um destino gastronômico óbvio, o Brasil possui uma diversidade de sabores e ingredientes que impressionam chefs, gourmands e turistas de todo o mundo. A realização da Copa e dos Jogos Olímpicos no País abre uma oportunidade única para que o mundo também conheça o potencial da nossa culinária.

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Itália e França são países reconhecidos por sua vocação gastronômica. A região da Toscana, com seus vinhos, carnes de caça, azeites extravirgens e tempero mediterrâneo, está entre os lugares mais visitados pelos amantes da boa mesa. A capital francesa, que dispensa apresentações, traz opções não só para quem tem paladar sofisticado, como os apreciadores do foie gras de carnard e das trufas, mas também aos que buscam os pequenos prazeres de um pain au chocolat, um clássico das boulageries.

Não é novidade que o deleite de uma boa refeição sempre motivou o homem na busca pelos melhores sabores. A própria história do nosso continente remete ao prazer de comer. Em 1500, quando Pedro Álvares Cabral aportou em nosso País por engano, ele liderava, na verdade, uma expedição para buscar um carregamento de especiarias em Calicute, na Índia.

Desde a era das grandes navegações, viagens e comida estão associadas. Na Europa do século 18, nasceram os restaurantes, a partir da necessidade dos viajantes restaurarem as forças para vencer as jornadas entre cidades. A partir daí, abriram-se novas perspectivas para desbravadores, comerciantes e para a história da alimentação que, nos séculos seguintes, foi marcada pela evolução tecnológica que influenciou o preparo e a variedade de refeições.

Mas foi apenas no início do século 20 que excursões motivadas pela culinária começaram a surgir, com o aparecimento dos guias de viagens, que indicavam os melhores hotéis e restaurantes de cada região. O mais antigo de que se tem notícia, o Michelin, foi criado em 1900, com o objetivo de ajudar motoristas a encontrar bons alojamentos e comerem bem enquanto estavam na França. Até hoje o guia ainda é publicado e traz o suprassumo da culinária em diversos lugares do mundo. Seu sistema de cotação de restaurantes por estrelas, adotado inicialmente em 1926, virou referência no mercado.

O advento dos guias turísticos colaborou para que a gastronomia adquirisse uma importância singular no contexto turístico e diversos países começaram a explorar esse filão, principalmente os europeus, que passaram a criar roteiros com foco nas especialidades de suas cozinhas locais. Atualmente, há cidades e destinos que são visitados, sobretudo, pelo apelo culinário e por sua tradição na cozinha, como a já citada Paris e a região de Toscana.

No entanto, não só os gourmands buscam os prazeres da mesa ao viajar. Quem visita a região de Nápoles não deixa de saborear a pizza da província italiana. Da mesma forma, quem vai a Paris costuma provar algumas das iguarias da cuisine française, como o ratatouille, o confit de canard, ou o crème brûlée. Mesmo para os que não são grandes amantes da gastronomia, a degustação de um clássico originário do lugar onde se está enriquece a vivência com a cultura local.

Embora não seja reconhecido como um destino óbvio no circuito do turismo gourmet, o Brasil possui um enorme potencial nessa área. Se, por um lado, a vastidão territorial e as numerosas diferenças geográficas impedem o País de ter um único prato típico, por outro, as dimensões continentais proporcionam uma incrível variedade de opções, além de uma riqueza de ingredientes sem igual, apreciada por chefs de todo o mundo.  A mandioca, o açaí, o cupuaçu, o acarajé, a cocada, a feijoada, a caipirinha e o churrasco são alguns dos nossos elementos mais marcantes.

Essa diversidade de sabores, exemplificada aqui de forma muito breve, nós dá o panorama do quanto ainda a culinária brasileira pode ser ressaltada dentro do contexto turístico. Temos um vasto patrimônio para estruturar roteiros interessantes, que sejam fiéis à dimensão das iguarias do País.

Vale mencionar também que, no que diz respeito à sua reputação gastronômica no mercado mundial, o Brasil tem feito alguns avanços importantes, que podem ser atribuídos, principalmente, ao talento e à criatividade dos nossos chefs de cozinha.

Recentemente, três restaurantes brasileiros conquistaram boas posições no San Pellegrino World’s Best Restaurants, organizado pela revista inglesa Restaurant. O prêmio é um dos mais respeitados do setor e conta com a participação de chefs de cozinha e críticos gastronômicos europeus. Em comum, os estabelecimentos do País que aparecem no ranking da publicação procuram valorizar em seus pratos ingredientes tipicamente brasileiros.

Mas o Brasil pode ir ainda mais longe para conquistar, de fato, um merecido lugar entre os países reconhecidos pela singularidade de sua culinária. E o momento de investir é agora. A realização da Copa do Mundo e dos Jogos Olímpicos no Brasil, em 2014 e 2016, respectivamente, abre uma chance única. Durante esses megaeventos esportivos, teremos a presença de turistas das mais diferentes partes do mundo aqui, que poderão conhecer a vastidão da mesa brasileira. Temos a matéria-prima e a oportunidade, só precisamos atuar de modo a contribuir para uma profissionalização cada vez maior do setor de alimentação fora do lar. Assim, agências e operadoras de turismo podem passar a vender o Brasil também como um centro gastronômico.

A ANR (Associação Nacional de Restaurantes) vem atuando arduamente nesse sentido. Preocupada com a capacitação dos profissionais do setor de alimentação fora do lar, a associação mantém quatro grupos de trabalho, de modo a prepará-los para atender, da melhor forma, consumidores locais e turistas.

No Grupo de Trabalho Técnico (GT-TEC), os responsáveis pelas áreas técnicas dos estabelecimentos dividem boas práticas de fabricação, normas reguladoras e padrões de fiscalização para aperfeiçoar seus negócios. Assuntos pertinentes à gestão do capital humano e à legislação trabalhista são debatidos no Grupo de Trabalho de Recursos Humanos (GT-RH). Já o Grupo de Trabalho de Comunicação (GT-COM), é pautado por discussões relacionadas ao universo do marketing, das mídias sociais e da assessoria de imprensa. Por fim, no Grupo de Trabalho de Sustentabilidade, profissionais da cadeia de food service avaliam e compartilham caminhos e soluções sustentáveis para o ramo.

Além das reuniões periódicas desses comitês, a entidade promove palestras, workshops e seminários sobre questões relevantes e tendências, com foco na profissionalização do setor, a exemplo do Encontro Nacional de Vigilâncias Sanitárias. O evento, agendado para o dia 2 de agosto de 2012, discutirá as práticas necessárias para o cumprimento das exigências vigentes para restaurantes e operadores em cada cidade.

O trabalho realizado pela organização é de suma importância para o desenvolvimento do mercado, mas não é o suficiente. Cabe também ao poder público, em suas diferentes esferas e considerando igualmente parcerias com a iniciativa privada, propor políticas públicas e de incentivo. Já é passada a hora de planejar e executar ações para, de fato, conseguirmos explorar da melhor forma todo o potencial turístico da gastronomia brasileira. Nessa aposta, todos ganham: consumidores, restaurantes e governo.

Meninos, eu vi … eu vi as Torres Gêmeas nascerem

setembro 8, 2011 · Posted in Mundo, Turismo · 40 Comments 

por Beto Lyra

A long long time ago

I can still remember how

That music used make me smile

Don McLean, 1971

Janeiro de 1972. Estava em Nova York pela primeira vez. Uma aventura iniciada no porto de Recife onde eu e meu primo Marcos embarcamos no lendário (e lerdíssimo) Frota Santos, um navio cargueiro brasileiro que levou açúcar para Nova Orleans. Descemos no berço do jazz.

Quatro dias batendo perna pela cidade e bairro francês, ouvindo jazz, e no 5º dia, um domingo, o programa especial: assistir a culto religioso, almoçar no parque (City Park) e jogar futebol contra a tripulação de um navio sul-africano. Isso mesmo, um jogo internacional. Ganhamos, não fiz gol, mas dei o passe para um dos nossos. Festa no navio brasileiro.

Dia seguinte, passagens compradas, Marcos e eu embarcamos no histórico Greyhound Bus Line, pela famosa Route 11 (não é a 66, mas é famosa também). Louisiana, Mississipi, Tennessee, Alabama, Georgia, Viginia, West Virginia, Maryland, Pennsylvania e, finalmente, New York. Dezenas de pessoas subindo e descendo do ônibus e nós dois firmes, sentados até o c… fazer bico.

Marinheiros de primeira viagem (literalmente), não reservamos hotel e assim às 3:00 da madrugada encontramos um na rua 46, o quase brasileiro Paramount. Daí em diante, foram 6 dias de bate perna pela ilha, boca aberta para o parque Central Park) , Waldorf Astoria, prédio do John Lennon, Empire State etc. Sempre ouvindo uma música que fazia o maior sucesso na época: American Pie, de Don McLean, cujos versos iniciais e finais (da canção e deste post) têm muito a ver com essa história toda.

Tirei dezenas de slides (alguém se lembra do tempo em que se tirava foto para revelação como slide?), muito vistos logo após o retorno ao Brasil e depois … nunca mais.

Até que neste ano resolvo transformar fotos de algumas viagens em digitais. As desta aventura entraram no bolo. Ao rever as imagens de NY de 40 anos atrás, a surpresa: estavam ali, já imponentes, os dois prédios que viriam a ser por algum tempo os  mais altos do mundo. Incompletos, faltando apenas alguns andares, no final de gestação. Como  disse, eu vi as Torres Gêmeas nascerem.

Agora, 10 anos depois do 11 de setembro, essas fotos me fazem lembrar a dezena de vezes em que tive de subir ao último andar de uma delas. Na primeira, para conhecer, nas demais para acompanhar, a família, amigos e comitivas de negócio que eu ajudava a coordenar nas visitas às bolsas de Chicago e NY.

E se … o nine eleven tivesse acontecido anos antes, numa das manhãs em que estava visitando-as? Deixa pra lá!

Bem, há fatos que se tornam inesquecíveis. Por exemplo:  todo o mundo sabe aonde estava ou o que fazia nos dias da morte do Kennedy, em 1963, da chegada à Lua, em 1969, ou do jogo Brasil 4 X Itália 1, em 1970. Eu me lembro bem aonde estava no 11 de setembro de 2001. Acreditem, estava em uma reunião na Câmara de Comércio Árabe-Brasileira, tratando da reabertura da Embaixada do Brasil no Iraque e de uma feira que haveria dos exportadores brasileiros, em Bagdá. Os telefones começam a tocar, alguém pede para ligar a TV a tempo de ver o 2º avião se chocar contra a Torre Norte, e o que inicialmente se supunha um acidente se transforma numa declaração de guerra. Nem é preciso dizer, o mundo mudava e nossa reunião já era! Não haveria mais embaixada alguma, nem feira de produtos. Atenções totalmente voltadas aos prédios pegando fogo.

E, assim, meninos eu vi, eu vi as torres cairem.  O final da canção do McLean era profética:

And them good old boys were drinkin’ whiskey and rye

Singin’, “this’ll be the day that I die.

this’ll be the day that I die”

Antes eu tivesse visto só nascerem.

E você também se lembra aonde estava quando as torres caíram?

Carnaval, mais um sacrificiozinho ou dois

fevereiro 19, 2010 · Posted in Música, Turismo · Comment 

por Geraldo Vidigal

De carona no tema carnavalesco, tratado de forma magnífica pelo Caio, e depois que desci a ripa nos muitos sambas-enredo repetitivos, longuíssimos e quase monocórdios, lembrei-me de poucos mas grandes – IMENSOS – sambas-enredo. Por isso mesmo imortais.

Para não me enredar em críticas injustas registro alguns desses grandes sambas de grandes carnavais, que me marcaram ao longo da vida, e de alguns outros sambas-enredo, que embora não tenham concorrido em desfiles carnavalescos, marcaram fundo a música popular brasileira.

Certamente há outros, de que não me lembrei, mas creio que muitos  concordarão quando destaco a magnitude desses abaixo, cujas letras são reproduzidas apenas em seus pontos mais famosos (até porque alguns, mesmo melodicamente fantásticos, parecem  in-ter-mi-ná-veis), destacando ora a Escola de Samba, ora o autor.

Hino de Exaltação À Mangueira, de Enéas Brittes da Silva e Aloisio Augusto da Costa, Mangueira, 1956

Mangueira teu cenário é uma beleza
Que a natureza criou, ô…ô…
O morro com teus barracões de zinco,
Quando amanhece, que esplendor,
Todo o mundo te conhece ao longe,
Pelo som teus tamborins
E o rufar do teu tambor, Chegou, ô… ô…
A mangueira chegou, ô… ô…

Bahia de Todos os Deuses, de Zuzuca do Salgueiro, Acadêmicos do Salgueiro, 1969
Bahia!

Os meu olhos estão brilhando
Meu coração palpitando
De tanta felicidade!
És a rainha da beleza universal,
Minha querida Bahia.

Samba para um Rei Negro, de Zuzuca do Salgueiro, Acadêmicos do Salgueiro, 1971

Nos anais da nossa história,
Vamos relembrar
Personagens de outrora
Que iremos recordar.
Sua vida, sua glória,
Seu passado imortal,
Que beleza
A nobreza do tempo colonial.
O-lê-lê, ô-lá-lá,
Pega no ganzê
Pega no ganzá!

Mangueira, Minha Madrinha Querida, de Zuzuca do Salgueiro, Acadêmicos do Salgueiro, 1972

Ô-ô-ô, ó meu Senhor,
foi Mangueira
Estação Primeira
quem me batizou
Tengo-Tengo
Santo Antônio, Chalé,
minha gente, é muito samba no pé!

É Hoje, de Almir da Iha, União da Ilha, 1981

A minha alegria atravessou o mar
E ancorou na passarela
Fez um desembarque fascinante
No maior show da terra
Será que eu serei o dono desta festa
Um rei
No meio de uma gente tão modesta

Bum Bum paticumbum prugurundum, de Aluisio Machado, Império Serrano, 1982

Bum bum paticumbum prugurundum,
o nosso samba minha gente é isso aí, é isso aí
Bumbum paticumbum prugurundum,
contagiando a Marquês de Sapucaí

Há sambas-enredo que não foram objeto de desfile na avenida,  mas que se encontram entre os maiores, como:

Foi um Rio Que Passou Em Minha Vida, de Paulinho da Viola

Ah! Minha Portela!
Quando vi você passar
Senti meu coração apressado
Todo o meu corpo tomado
Minha alegria voltar
Não posso definir aquele azul
Não era do céu, nem era do mar
Foi um rio que passou em minha vida
E meu coração se deixou levar.

Brasil Pandeiro, de Assis Valente

Chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor
Eu fui à Penha, fui pedir à padroeira para me ajudar
Salve o Morro do Vintém, Pindurassaia, eu quero ver
Eu quero ver o Tio Sam tocar pandeiro para o mundo sambar
O Tio Sam está querendo conhecer a nossa batucada
Anda dizendo que o molho da baiana melhorou seu prato
Vai entrar no cuzcuz, acarajé e abará
Na Casa Branca já dançou a batucada de Ioiô, Iaiá
Brasil, esquentai vossos pandeiros, iluminai os terreiros
que nós queremos sambar.

Feitiço da Vila, de Noel Rosa

Quem nasce lá na Vila
Nem sequer vacila
Ao abraçar o samba
Que faz dançar os galhos,
Do arvoredo e faz a lua,
Nascer mais cedo.

Mas, talvez, o “Rei” de todos os sambas-enredo seja o “Samba do Crioulo Doido”, de Sérgio Porto, aliás, Stanislaw Ponte Preta, gravado pouco antes de sua morte pelo Quarteto em Cy.  Nesse disco (antes de Cybele, Cylene, Cynara e Cyva, ou Cyntia, Cyregina, Cymíramis e Cyva, ou ainda Sandra Machado no lugar de Cymíramis cantarem), ouve-se a voz de Stanislaw, declamando:

“Este é o samba do crioulo doido. A história de um compositor queca da Silva, durante muitos anos obedeceu o regulamento e só fez samba sobre a história do Brasil. E tome de Inconfidência, Abolição, Proclamação, Chica da Silva. E o coitado do crioulo tendo que aprender tudo para o enredo da escola. Até que no ano passado escolheram o enredo complicado: “a atual conjuntura”. Aí o crioulo endoidou de vez. E aí saiu este samba”.

Segundo os registros que me pareceram mais confiáveis, estaria em vigor desde a década de 30 certo (ou incerto, visto que não encontrei o danado) decreto getulista que determinava que os Sambas-Enredo das Escolas de Samba tivessem por tema a História do Brasil. Daí surgiu a expressão “Samba do Crioulo Doido”, quando nos temas – por vezes – algumas Escolas teriam enfiado os pés pelas mãos em termos historiográficos.

Sérgio Porto morreu no mesmo ano do lançamento dessa sua música, mas antes do AI5, que instaurou o regime de exceção e tornou óbvio o regime ditatorial. Não obstante, já em 1966 o dublê de jornalista e satirista criou o FEBEAPÁ – Festival de Besteiras que Assola o País, que, com jeitão de noticiário sério, ironizava e criticava o regime militar. Em um dos FEBEAPÁ’s noticiou a decisão militar de mandar prender Sófocles, pois certa peça de sua autoria, encenada à época, seria “subversiva”.

Há quem afirme post mortem que Ponte Preta fizera o samba (seu único) em protesto contra a ditadura militar, o que estaria óbvio não nas entrelinhas do samba, mas por conta da frase de abertura do pândego de plantão.

Como explicita o Gil, Cosi è (se vi pare); ou A chacun sa verité; ou a Chacon – porque consta, ou ao menos parece, que Lélia é quem tem sempre razão.

Assim, sem outros prolegômenos, vai a letra do Samba-Enredo Maior

Samba do Crioulo Doído, de Stanislaw Ponte Preta (Sérgio Marcus Rangel Porto)

Foi em Diamantina / Onde nasceu JK
Que a princesa Leopoldina / Arresolveu se
Mas Chica da Silva / Tinha outros pretendentes
E obrigou a princesa / A se casar com Tiradentes
Lá iá lá iá lá ia / O bode que deu vou te contar (bis)
Joaquim José / Que também é
Da Silva Xavier / Queria ser dono do mundo
E se elegeu Pedro II
Das estradas de Minas / Seguiu pra São Paulo
E falou com Anchieta / O vigário dos índios
Aliou-se a Dom Pedro / E acabou com a falseta
Da união deles dois / Ficou resolvida a questão
E foi proclamada a escravidão/E foi proclamada a escravidão
Assim se conta essa história/Que é dos dois a maior glória.
Leopoldina virou trem / E D. Pedro é uma estação também
O, ô , ô, ô, ô, ô / O trem tá atrasado ou já passou (bis)

…. E, doido ou não, carnaval só ano que vem. O resto é micareta.

Noronha: paraíso nada perdido

dezembro 13, 2009 · Posted in Lazer, Turismo · Comment 

por Beto Lyra

Fernando de Noronha! Lugar dos meus sonhos. Sempre quis ir para lá.

Enfim, surge uma oportunidade na agenda da família, e pronto, lá vamos nós. Viagem matinal com a Gol de São Paulo até Recife, tempo em que pudemos desfrutar de um novo conceito de marketing da companhia, anunciado orgulhosamente pelo Comandante. Qual é o conceito novo? Simples, não há refeição ou lanche, apenas amendoim e dois tipos de refrigerantes, que nunca ouvi (e provavelmente não mais ouvirei) na vida.

Uma breve parada em Recife e embarque no início da tarde para Noronha. Na aproximação da ilha, o avião dá um giro completo o que permite excelente noção do arquipélago todo. Após a descida, um pouco de burocracia local: como o acesso à ilha é extremamente controlado, todos têm de passar por uma espécie de Imigração, onde é paga a taxa de permanência em Noronha.

No solo as primeiras impressões são de que há organização perfeita: ônibus para levar às pousadas, briefing e venda de passeios pelos agentes turísticos e informações claras e precisas sobre o que fazer à noite.

Por sorte pegamos uma pousada bem localizada, quase no meio da ilha, próxima de restaurantes e do centro histórico, a Vila dos Remédios, onde há mais bares, restaurantes e até balada. Na primeira noite, restou jantar como programa. Recebemos a dica do Tom Marrom. Não bastasse o restaurante estar na ilha, parte de um paraíso, deu um jeito de demonstrar toda a sua integração com a natureza, envolvendo a construção em muitos galhos, raízes etc. O resultado ficou meio postiço, engraçado, mas no que interessava a casa foi bem: comemos peixe na folha de bananeira e um belo atum feito na grelha bem pilotada pelo próprio dono, acompanhados de boa música brasileira.

Dia seguinte bem cedo passaram na pousada (pontualmente) para nos pegar para um passeio, criativamente chamado de … Ilhatur. Nunca soube, mas há uma estrada federal por lá, a tal de BR 363. Seus extensos 7 km foram percorridos à exaustão em idas e vindas pelo nosso tour, que insistia em visitar um ponto turístico na parte sul e percorrer novamente a BR para nos levar a uma trilha na parte norte. Sem brincadeira, isso foi o que aconteceu.

Mas novamente, no que interessava, estivemos em lugares estupendos. Alguns demandaram bom esforço físico, como a descida para a praia da Baia do Sancho, que começou com uma escadinha com 15 degraus, que exigia entortar o corpo para a esquerda de modo a conseguir passar com pé de pato, snorquel, máscara e câmera fotográfica. Vencida essa primeira etapa, anda-se por um estreito patamar entre rochedos para então ter de virar o corpo no ar para encaixar na 2ª escadinha, esta do tipo marinheiro. Ainda não chegamos a lugar nenhum, pois falta vencer vários degraus de pedra, semidestruídos e com bons trechos sem apoio. “Ufa!, ainda bem que valeu a pena”, é a primeira impressão depois que nos equipamos para ver corais, peixes, tartarugas etc. Bate perna pra cá, bate pra lá, tudo maravilhoso. Peixes de todos os tamanhos e êpa … acho que é um tubarão, pequeno, mas tubarão. Olho para os demais, todos calmos, e assim trato de ter certeza de que há um bom par de nadadores entre mim e o tubarão. Volto a contemplar a natureza.

De volta à praia, me desvencilhando dos penduricalhos náuticos, encontro-me naquela situação de causar inveja: areia e sal no corpo e mais um retoque de protetor solar… argh!  É preciso encarar. Protetor solar é item de primeira necessidade na ilha se você não quiser ficar parecido com um turista nórdico após tomar um sol das cinco.

Mais idas e vindas pela BR, praias e vistas imbatíveis e, para finalizar, o por do sol no Forte do Boldró. Todos os que estão na ilha se reúnem ali para terminar o dia – o sol se pondo no mar, emoldurado por duas ilhas menores (Dois Irmãos). No local, um barzinho serve cerveja, pastéis e outros petiscos, tudo embalado por um sonzinho maneiro de um músico local. O sol se põe, ninguém quer ir embora.

Na sequência, jantar no Flamboyants, mais peixe na folha de bananeira e cama. Menos para o Fabio, meu filho, que vai para a balada na vila e chega quase com os guias do passeio da manhã seguinte.

Rumamos para o Porto, pegamos um barcão para rodear a ilha e, de cara, a sorte de encontrar uma farra de golfinhos. As praias foram se sucedendo: Biboca, Cachorro, do Meio, Conceição, Boldró … e Baia do Sancho, novamente. Parada do barco e mergulho, agora sem o sufoco das descidas e escaladas. Vamos até o fim de Noronha, na Ponta da Sapata, onde se busca em seu portal um ponto perfeito para a visualização do mapa da América do Sul e da África. Damos meia-volta e na hora do almoço estamos no Porto.

Caminhamos uns 500 metros até o Museu dos Tubarões, na praia Buraco da Raquel, uma enorme fenda na pedra em frente à praia, sobre a qual todos os guias acham en-gras-sa-dís-si-mo contar histórias. Não se pode entrar no mar, muito agitado, mas a beleza do lugar e o serviço do restaurante do Museu garantem o programa.

Próxima parada na praia de Sto. Antonio, antes de repetir o por do sol no Forte do Boldró. Pegamos taxi, a melhor maneira de se locomover por Noronha de forma independente, pois é razoavelmente barato e…ufa…tem ar condicionado. À noite, passeamos a pé por Vila Velha e quando bateu a fome atracamos na Pizzaria Feitiço da Vila. Traço comum na ilha e muito agradável é a música ao vivo nos bares e restaurantes, embora o repertório mescle ótimas canções de Gil, Tim Maia, Jorge Ben e Lulu Santos, com as grudentas de Djavan e Seu Jorge.

Na manhã seguinte, a jóia da coroa em Noronha: mergulho autônomo (com cilindro de ar comprimido). Roupa e equipamento são fornecidos pela operadora, tudo em ótimo estado, 1º mundo. Instruções assimiladas, mergulhamos. É indescritível a sensação. A proximidade com peixes, tartarugas que parecem querer mostrar o caminho a você, além dos corais, dá uma visão completamente diferente do mundo. Dá vontade de ir a Copenhague pressionar esses governantes a tratarem seriamente a questão ambiental.

E aqui faço um parênteses. Em Noronha, todo o discurso de preservação ambiental não resiste a poucos dias de permanência por lá. A energia na ilha é resultado da queima de óleo em estação explorada por companhia energética estatal. Há um único aparelho de geração de energia eólica, que não funciona há 2 anos, quando um raio cortou uma das aletas de sua captação do vento (será que desconhecem para-raios?). Esse único equipamento supria cerca de 40% da demanda de energia da ilha. Ou seja, com três simples aparelhos desses, Noronha seria autossuficiente em energia elétrica, não poluidora. Dá para acreditar que não seja assim? Bem, e a frota de veículos? Como há muitos locais de difícil acesso, jipes e utilitários 4×4 são muito empregados por lá. Todos movidos a diesel, esse diesel brasileiro que polui mais do que qualquer outro do mundo.

Mas voltemos ao paraíso, após o mergulho, em uma praia muito conhecida, mas que ninguém indica a turistas: Conceição. Como na música de Cauby, “ninguém sabe, ninguém viu”. Alguém ainda lembra do nosso litoral norte paulista nos anos 60/70? Então, Conceição é assim. Linda, quase deserta, embora tenha um bar-restaurante com cerveja geladíssima e peixes bem preparados. Depois, o tradicional por do sol nos espera.

O jantar dessa noite foi para comemorar meu aniversário e o convite para um restaurante especializado em lagostas veio de meu filho Otavio. Chegamos cedo ao Ecologiku’s, longe de qualquer burburinho, escondido em ruas esburacadas atrás do aeroporto. Pedimos o último exemplar de lagosta e uma muqueca também de lagosta e nos divertimos com os criativos aperitivos que a dona, uma baiana convertida à ilha há décadas, nos apresenta contando seus segredos. Pouco depois de nós, chega um casal que dá boa noite e diz “viemos comer lagosta”. Viram? Chegar cedo ajuda.



Na manhã seguinte, um rápido passeio para tirar fotos que julgamos faltar em nossa câmera e nos aprontamos para o traslado ao aeroporto.

Maravilhosa Noronha.