Vinhos e Copa do Mundo

junho 21, 2010 · Posted in Lazer · Comment 

por Pedro Sampaio

O Caio, no seu aguardado retorno, falou da tortura que é a Copa do Mundo. É mesmo uma tortura, 30 dias de futebol, uma boa desculpa para matar o trabalho, deitar num sofá nesse frio com um cobertor e ficar assistindo um monte de partidas. Para suportar esse sofrimento, normalmente acabamos comendo alguma bobagem e tomando alguma coisa. É difícil, mas com força de vontade vamos conseguir superar esse período.

O acompanhamento natural das partidas de futebol é uma boa cerveja. Mas para enfrentar a tortura mencionada, talvez seja caso de variar um pouco. Com o frio, um vinho cai muito bem. E já que a Copa ocorre na África do Sul, um país bom produtor de vinhos, nada melhor do que aproveitar a ocasião e experimentar alguns vinhos produzidos por lá. Por isso, hoje vamos de vinhos da África do Sul.

A África do Sul produz vinhos há muito tempo, desde o século XVII, com vinhedos plantados pela Cia das Índias Orientais com a finalidade de fornecer vinhos aos navios que cruzavam o Cabo da Boa Esperança. A região foi sempre importante produtora de vinhos, mas neste século, em razão do regime do apartheid, a produção estagnou e o país, como em todo o resto, ficou absolutamente esquecido como produtor de vinhos.

Após o fim do apartheid a produção de vinhos voltou a se desenvolver na África do Sul. Hoje ela é conhecida como o país produtor do Novo Mundo que tem o vinho mais ao estilo do Velho Mundo. Isso porque seus vinhos puxam mais para o lado da elegância do que da concentração.

As regiões vinícolas da África do Sul ficam todas perto da cidade do Cabo, que tem clima mais frio, com correntes de vento que vêem do pólo sul. As mais conhecidas são as de Stellenbosch (a maior de todas), Franschhoek e Paarl. Também tem importância a região de Constantia, por ter sido a primeira a produzir vinhos. Quem viajou por esses lugares afirma que são lindíssimos, com paisagens deslumbrantes. Aí está uma coisa boa de conferir.

As uvas mais utilizadas são as francesas, Cabernet Sauvignon, Merlot e Syrah nos tintos, com destaque para a última. Nos brancos, a Sauvignon Blanc e Chenin Blanc aparecem bem. Mas a África do Sul tem uma uva própria nos tintos, a Pinotage, desenvolvida por meio de um cruzamento das uvas Pinot Noir e Cinsault, lá chamada de Hermitage. Por isso a mistura ficou Pinotage. Produz vinhos tintos bem interessantes, alguns bem encorpados, outros macios e elegantes. Mas é preciso um pouco de cuidado, pois alguns vinhos com a Pinotage são meio duros e rústicos, com acidez exagerada. É necessário escolher bem.

Nós temos uma oferta razoável de vinhos da África do Sul nas nossas importadoras. Vou indicar alguns que já experimentei e outros com boa referência nos livros e revistas especializados em vinhos. Começando pelo produtor Kanonkop, um dos mais conhecidos. Seu vinho básico, o Kadette, um corte de Pinotage com Cabernet Sauvignon e Merlot, é bem gostoso. Sem grandes complicações, não muito encorpado, pode ser bebido jovem. Está a venda na Mistral, safra 2007 a US$23,90, e safra 2008 a US$25,90. Ótima pedida para acompanhar um jogo da Copa, junto com um bom queijo. O do tipo Fontina, da Sancor, que se encontra em qualquer supermercado, vai muito bem.

Já mais sério, para acompanhar um churrasco em dia de jogo, do mesmo produtor, o Cabernet Sauvignon, safra 05, é excelente. A venda na Mistral por US$57,50, safra 2003, e US$65,00, safra 2005. Vinho concentrado e complexo. Ainda mais sério, para alguns o melhor vinho da África do Sul, o Kanonkop Paul Sauer, safra 2005 a US$73,90 e 2006 a US$79,50, também na Mistral.

Outro produtor que experimentei e gostei muito é o Glen Carlou. O Glen Carlou Grand Classique 2005, um corte de várias uvas, é muito bom. Está a R$64,00 na importadora Grand Cru. E o Glen Carlou Syrah, safra 2006, está a R$81,00, na mesma importadora. Este é um vinho mais no estilo do Novo Mundo, concentrado, dosagem alcoólica de 14,5%, aroma de frutas negras, café e chocolate. Para quem gosta do estilo, é ótimo.

Vinho muito bem indicado e com ótimo preço é o Nederburg Private Bin Syrah. Nederburg é o vinho oficial da Copa, pois a casa é uma de suas patrocinadoras. Lá é vinho e não cerveja. O Nederburg Private Bin Syrah, safra 2007, está a R$38,00 na Casa Flora. Do mesmo produtor, o Cabernet Sauvignon também parece muito bom. O site da importadora não indica seu preço, mas deve estar na mesma faixa do Syrah. E o seu Pinotage ganhou a degustação da revista Gosto, especializada em gastronomia. O preço do Pinotage é R$40,65. Para quem no dia de jogo do Brasil vai matar de vez o trabalho e quer fazer um almoço mais caprichado, com, por exemplo, um belo pernil de cordeiro, esses vinhos são excelentes opções.

Nos tintos, ainda vale a pena lembrar um dos mais conhecidos vinhos da África do Sul, o Porcupine, do grande produtor Boekenhoutskloof. Na verdade é uma linha de vinhos, com várias uvas, como o Porcupine Merlot, o Porcupine Cabernet Sauvignon e o Porcupine Ridge Sirah. O último eu tomei e gostei muito. Todos a venda na Mistral por US$28,90.

Os brancos da África do Sul são igualmente bons. Sobretudo os mais simples, sem passagem pela madeira. Lá se dá bem uma uva branca francesa não muito conhecida, a Chenin Blanc. O do produtor Robertson Winery é bem indicado. Não o conheço, mas falam muito bem e o preço é ótimo. A safra 2009 está a US$15,90 na importadora Vinci. Como o preço é atraente, vou também experimentar o Sauvignon Blanc, do mesmo produtor, safra 2008, na mesma importadora a US$17,50. Os vinhos com a Sauvignon Blanc vão muito bem com um queijo de cabra fresco. Portanto, ótima pedida para ir bebericando e beliscando durante um jogo da Copa.

Podemos aproveitar ainda a oportunidade e tomar um bom vinho de sobremesa. Isso porque a África do Sul oferece uma das boas ofertas que temos em nosso mercado, por um preço para mortais. Vinho de sobremesa bom normalmente é caro. Mas o Nerdeburg Noble Late Harvest 2007 é muito bom. Já tomei, tem ótimo equilíbrio entre açúcar e acidez, muito importante nos vinhos de sobremesa. O preço de R$56,00, meia garrafa (para vinho de sobremesa não precisa mais), é realmente bom nessa espécie de vinho. A venda na Casa Flora.

Então pronto. Com o frio, vai ser mais fácil suportar toda a tortura da Copa do Mundo tomando esses vinhos do país anfitrião. E para torcer pelo time do Dunga, só meio de fogo. Portanto, saúde para todos e prá frente BRAASIILL!!!

Importadora Mistral: rua Rocha, 288, telefone (11)  3372-3400 ou site (WWW.mistral.com.br)

Importadora Grand Cru: site (WWW.grandcru.com.br)

  • rua Bela Cintra, 1.799, telefone (11) 3062-6388
  • Al. Nhambiquara, 614 – Moema – Tel: 3624-5819
  • Av. Independência, 1.640 – Jd. Sumaré – Tel: 3913-4396

Importadora Vinci: rua Dr. Siqueira Cardoso, 227, telefone (11) 2797-0000 ou site(WWW.vincivinhos.com.br)

Casa Flora Importadora: rua Santa Rosa, 207, telefone/fax (11) 2842-5199 ou site  WWW.casaflora.com.br)

Revista Gosto / Isabella Editora: telefone (11) 2361-1462

Velho Mundo vs. Novo Mundo, o filme

abril 18, 2010 · Posted in Cinema, Lazer · Comment 

por Beto Lyra

No post Velho Mundo vs. Novo Mundo, Pedrão contou um pouco sobre o reconhecimento mundial ao vinho californiano e o surgimento da grande rivalidade entre produtores norte-americanos e franceses.

Com isso, acabei me lembrando de que no ano passado assisti pela primeira vez a “Bottle Shock”, filme baseado em fatos reais, que retrata os tempos iniciais da indústria do vinho na Califórnia, na década de 1970, principalmente a famosa competição entre os vinhos do velho e do novo mundo, idealizada e feita por Steven Spurrier, um comerciante de vinhos francês.

Foi em 1976 que Spurrier (Alan Rickman, o Prof. Severus, de Harry Potter), entediado e em apuros com o fraco nível dos negócios em sua loja de vinhos em Paris, foi até o Vale do Napa para identificar o que de melhor era produzido em termos de vinho para levá-los a Paris e submetê-los ao julgamento comparativo com os melhores da produção francesa, por um júri formado apenas por conhecedores franceses.

No Vale do Napa, visita vários produtores, entre eles Jim Barrett (Bill Pullman, de Independence Day), um ex-executivo que abandona tudo para investir no sonho de sua vida: tornar-se produtor de vinho.

Bem, daí que ele tem um filho, Bo (Chris Pine, o Capitão Kirk no recente Star Trek), com quem luta boxe para acertar desavenças cotidianas, este tem uma amiga que possui um bar, Eliza Dushku, que coordena um jogo de degustação com Gustavo Brambilla (Freddy Rodriguez, do seriado Sete Palmos), gerente do Chateau Montelena. Esse trio é o centro dos fatos que acabam determinando o destino dos Chardonnays da Califórnia. Há também Sam Fulton (Rachel Taylor), a amiga que gosta de Bo e Gustavo, mas não interfere na história.

Spurrier leva vinhos de 6 produtores para a tal degustação. Confrontados com 4 diferentes vinhos da Borgonha, até então os únicos de origem controlada, os californianos (das mesmas castas de uvas que os franceses) se dão melhor. Isso, é claro, você já sabia. O que talvez não soubesse é o que significa Bottle Shock.

Bottle Shock é o termo usado para se referir ao efeito que o engarrafamento tem sobre o vinho e é precisamente isso que dá origem ao destino desta história.

O filme merece ser visto preferencialmente acompanhado por um bom Chardonnay indicado, é claro, pelo degustador oficial do Fio Do Bigode, também conhecido por Pedrão.

Por fim, você pode tentar identificar no filme o verdadeiro Jim Barrett, proprietário do Chateau Montelena, que aparece como um dos produtores que fornecem amostras de vinhos para o concurso a Alan Rickman. Também o verdadeiro enólogo do Chateau, Mike Grgina, que foi o responsável pelo premiado Chardonnay Montelena 1973, aparece em várias cenas, inclusive na que Barrett prova uma amostra do vinho direto do barril.

Velho Mundo X Novo Mundo

abril 11, 2010 · Posted in Lazer · Comment 

por Pedro Sampaio

Engraçado como nessa vida tudo acaba virando discussão, debate, controvérsia. Parece que o ser humano gosta mesmo de polêmica. Vejam aqui nosso exemplo. Qualquer opinião, pronto, já vira discussão. Nada contra, pelo contrário, acho ótima uma boa disputa verbal ou escrita. Obedecendo a regras mínimas de civilidade, como não enfiar o dedo no olho ou não acertar golpe baixo, as polêmicas é que fazem as coisas andar para frente.

Até no mundo do vinho a polêmica está instalada. É a discussão sobre os vinhos no estilo do Velho Mundo ou vinhos no estilo do Novo Mundo. Velho Mundo, no caso, são os países europeus que têm tradição na produção de vinhos, como França, Itália, Portugal e Espanha. Já no Novo Mundo se enquadram tanto países da América, como EUA, Chile e Argentina, como países que na realidade foram berço da humanidade como Nova Zelândia, Austrália e África do Sul.

Muito se tem falado sobre as tendências do vinho moderno, se o gosto dos homens e mulheres nesse novo milênio é o mesmo de tempos passados. Lógico que não é uma discussão inocente e desinteressada. O vinho é um produto comercial e a competição no mercado mundial está cada vez mais acirrada. Apesar dos dados estatísticos não serem muito exatos, pois apontam para direções diversas, não precisa ser um grande conhecedor da matéria para concluir que o consumo de vinhos aumentou assustadoramente em todo o mundo. E a oferta no mercado também. A quantidade de opções para o consumidor é impressionante e compreende países que até há pouco tempo não tinham nenhuma tradição como produtores de vinhos.

A polêmica começou aí pelos anos 80 e 90, sobretudo em razão da interferência dos EUA no mercado do vinho. Como um grande mercado consumidor, os EUA sempre influenciaram os negócios no vinho. Mas na segunda metade do século passado, os EUA também começaram a aparecer como grandes produtores. Sobretudo na região da Califórnia, próxima à cidade de São Francisco. O negócio do vinho ganhou importância para os EUA, grandes empresas investiram e como tudo em que entra dinheiro grosso, os interesses econômicos passaram a determinar o tipo de vinho a ser produzido. Ao mesmo tempo, houve um enorme desenvolvimento da tecnologia, permitindo um aumento na qualidade dos vinhos mais baratos.

Nessa polêmica, teve grande relevância a participação de um crítico americano de vinhos, o Robert Parker, que edita a revista  Wine Advocate. O Parker começou a pontuar os vinhos de 0 a 100, realizando degustações com produtos de todo o mundo. Utilizou sempre um critério de gosto muito pessoal, bastante adequado ao mercado americano. O Parker gosta de vinhos encorpados, com muita fruta, dosagem alcoólica alta e com passagem marcante pela madeira, sem grande envelhecimento. As notas do Parker influenciaram nas vendas e passaram a ser uma referência importante para os produtores de vinhos.

Isso causou o que muitos afirmam ser uma Parketização dos vinhos. Uma padronização de estilos, com vinhos muito semelhantes sendo produzidos em diferentes partes do mundo. De um lado ocorreu sensível melhora na qualidade dos vinhos de consumo mais popular, mas de outro se perdeu muito da personalidade própria de cada região produtora de vinhos.

Os vinhos Parketizados, representariam os vinhos no estilo do Novo Mundo, mesmo quando produzidos na Europa. Os vinhos que resistem e tentam manter o estilo tradicional, representariam o time do Velho Mundo. Esse embate envolve muitas variantes e está muito bem retratado no filme Mondovino, documentário sobre o mundo do vinho interessante de assistir, dirigido por Jonathan Nossiter, que inclusive morou um tempo no Brasil. Não sei se ainda mora, mas no documentário, apesar de mostrar os argumentos dos dois lados, há certa tendência em favor dos vinhos do Velho Mundo. De qualquer forma, quem quiser conhecer um pouco desse assunto, vale assistir o filme.

O certo é que para nós consumidores, o importante é o resultado dessa discussão. O quanto ela significa melhoria na qualidade de vinhos com preços acessíveis. E o que esperamos exatamente de um vinho quando o compramos. Por isso, é interessante conhecer as diferenças essenciais nos dois estilos de vinhos e ir experimentando para se saber qual é aquele do nosso gosto.

Para traçar um paralelo entre os dois estilos, vou tentar apontar as diferenças básicas, evidentemente de uma forma um pouco esquemática. Começando pelas uvas. Os vinhos do Velho Mundo, apesar de considerarem importante a uva, dão mais destaque ao local de produção. Sequer há o hábito de indicar a uva no rótulo do vinho, ressalvadas algumas exceções. Na sua maior parte são misturas de mais de um tipo de uva, o que aqui no Brasil chamamos de corte. O que é relevante é o terreno, a região, a cultura local na produção do vinho, conjunto que normalmente se chama de terroir. Por isso que conhecemos esses vinhos pela sua região, como Bordeaux, Borgonha, Douro, Chianti, Barbaresco e outros.


Já os vinhos do Novo Mundo, talvez por não representarem regiões com tanta história e tradição na produção dos vinhos, dão bem mais importância à uva. Foi nesses vinhos que surgiu o hábito hoje comum de indicar a variedade da uva no rótulo. Por isso nos acostumados a comprar um Cabernet Sauvignon, um Syrah, um Chardonnay. A escolha dos melhores solos busca revelar não tanto um caráter local, uma cultura regional, mas sim a expressão possível numa determinada variedade de uva.

A segunda distinção entre os dois estilos está na graduação alcoólica. Os vinhos do Velho Mundo mantém o álcool na casa dos 12 a 13%. Há cerca de 20 ou 30 anos atrás, era raro o vinho de mesa com graduação alcoólica superior. Nos vinhos do Novo Mundo, em razão da colheita mais tardia da uva para produzir maior quantidade de açúcar, a graduação alcoólica subiu para 14 ou 15%. Hoje, nos vinhos argentinos ou chilenos que costumamos comprar por aqui, essa é uma graduação normal.

Outra característica dos vinhos do Novo Mundo, em parte também decorrente da colheita tardia das uvas, é o aroma e o sabor mais arredondados, de fruta bem madura, que os especialistas costumam chamar de compota ou sopa de frutas. Nos tintos, os taninos chegam a apresentar certa impressão de doçura. São aromas e sabores fáceis de chamar atenção, de apreciar e que alguns dizem ser uma tendência do mercado, enquanto outros afirmam ser uma imposição do gosto americano.

Nos vinhos do Velho Mundo, a aroma é mais discreto, de fruta fresca, nos tintos e brancos. Aparecem os aromas complexos e sutis, como os de animais, de ervas, balsâmicos e outros. E o sabor costuma ser mais austero, menos suave. Não significa que os vinhos sejam duros, ásperos, e sim que o sabor é menos exuberante, mas mais profundo.

No filme Mondovino, um produtor tradicional da Borgonha consegue mostrar bem a diferença. Ele diz que os vinhos mais modernos têm uma degustação mais larga, um sabor abrangente que impressiona num primeiro momento. Mas é uma degustação mais curta. Já os vinhos que seguem a linha tradicional, têm uma degustação mais estreita, mas profunda e complexa, que permanece por mais tempo, evoca lembranças e estimula os sentidos.

Essa diversidade está de certa forma relacionada a outra diferença importante nos dois estilos. Os vinhos do Novo Mundo são produzidos para serem consumidos mais jovens, sem grande envelhecimento. A justificativa é a de que o mercado não quer comprar vinhos para ficar guardando por 5, 10 ou 20 anos para serem consumidos. Por isso, mesmo com uvas como a Cabernet Sauvignon, que apresentam taninos fortes, os produtores, aproveitando as novas tecnologias, procuram desenvolver vinhos prontos para o consumo rápido, no máximo em 2 ou 3 anos.

Nos vinhos do Velho Mundo, 2 ou 3 anos é o período mínimo de envelhecimento, para aqueles vinhos que eram considerados apropriados para o consumo rápido. Guardar por 5 anos uma garrafa é absolutamente normal. E os grandes vinhos exigem um período muito maior de envelhecimento. Essa característica interfere diretamente no resultado do vinho, pois o vinho mais envelhecido perde um pouco sua fruta e ganha nos aromas e sabores mais complexos, como os aromas animais.

Essas diferenças se relacionam com outra importante distinção. O uso da madeira. Sempre foi tradição, especialmente nos vinhos de maior guarda, o envelhecimento em barril de carvalho antes de o vinho ser engarrafado. O uso do carvalho confere ao vinho complexidade, maior potencial de envelhecimento, ajuda na formação de taninos elegantes. É usado em Bordeaux, alguns vinhos da Borgonha, no Rhone, no Piemonte, na Itália e em outras regiões tradicionais da Europa. Mas usado de forma moderada, sem permitir que a madeira interfira muito no aroma e sabor do vinho. Normalmente uma parte do vinho é guardada em barril e depois misturada com vinhos sem madeira.

No entanto, esse uso da madeira foi muito acentuado nos vinhos do Novo Mundo. A guarda dos vinhos em barril de carvalho novo passou a ser a regra, reforçada muitas vezes por chips que são colocados no vinho, como se faz com chá, para acentuar ainda mais a presença da madeira. É uma característica típica dos vinhos dos EUA e da Austrália, mesmo vinhos brancos. É também um gosto pessoal do Robert Parker.

O uso acentuado da madeira nos vinhos é uma marca dos vinhos do Novo Mundo. Isso acaba dando ao vinho aromas e sabores bem característicos de baunilha e anis, que são muito perceptíveis. Especialmente a baunilha. Basta prestar um pouco de atenção ao tomar um vinho do Novo Mundo com bastante madeira para perceber o aroma e sabor da baunilha, que decorre do carvalho. Alguns produtores até aproveitam os chips de carvalho para dar ao vinho o sabor da madeira e com isso encobrir eventuais falhas do vinho.

Pessoalmente, nunca gostei muito dos vinhos muito amadeirados. Não gosto de anis, nem mesmo nessas balas azuis. E baunilha em exagero também não me agrada muito, inclusive em doces. Por isso evito vinhos com passagem muito forte pelo carvalho. Gosto quando o vinho é envelhecido em barril de carvalho na medida certa, lhe dando complexidade, como num bom vinho de Bordeaux. Mas com o exagero na madeira, a baunilha encobre os demais aromas e sabores do vinho.

Mas tudo é uma questão de gosto. Tem muita gente que adora os vinhos amadeirados no estilo Novo Mundo. No entanto, houve tamanho exagero no uso da madeira, que mesmo produtores dessas regiões estão rediscutindo o tema.

Bom, mas muita conversa sem beber não dá certo. Dessa forma, é hora de indicar alguns vinhos nos dois estilos para quem quiser fazer a comparação, poder iniciar seus trabalhos. Vou tentar apontar apenas vinhos que considero bons, nenhum excessivamente rústico do Velho Mundo e sem exagero na madeira no Novo Mundo.

Começo aproveitando meu último artigo sobre os vinhos na Borgonha, indicando no time do Velho Mundo o Côte de Beaune, do produtor Joseph Drouhin, safra 2006, a venda na Mistral, por US$84,50 a garrafa. Vinho feito com a Pinot Noir, com aquela elegância e discrição que mencionei no artigo. No time do Novo Mundo, com a mesma Pinot Noir, a sugestão vai para o chileno Amayna, do produtor Viña Garcés, safra 2006, também a venda na Mistral, por US$53,50 a garrafa. Vinho típico do Novo Mundo, concentrado, com frutado exuberante, quase dando a impressão de doce, mas equilibrado, sem exagero na madeira. A uva é a mesma, mas vai dar para perceber a diferença nos dois vinhos.

Com o corte tradicional Cabernet Sauvignon/Merlot, sugiro dois vinhos de Bordeuax para representar o time do Velho Mundo, que oferecem preços acessíveis, pois são de pequenos produtores que não estão em regiões mais renomadas. O primeiro é o Château Tour de Mirambeau, “La Reserve”, safra 2005 a US$33,90 e safra 2006 a US$39,90, a venda na Mistral. O outro é Château Grand Moueys, safra 2005 a R$60,00 (reais, não dólar), a venda na Cellar. São vinhos realmente gostosos, que mostram um pouco do caráter de Bordeaux. Já estão prontos para tomar, mas agradecem mais um ou dois anos de garrafa, pois os vinhos de Bordeaux, quando envelhecem, apresentam melhor suas sutilezas.

Para confrontá-los, na esquadra do Novo Mundo escalei o chileno Montes Cabernet Sauvigon, safras 2006 e 2007, e Montes Merlot, safra 2007, todos também na Mistral, por US$20,90 a garrafa. Vinhos com ótima relação custo x benefício, uma das melhores no mercado. Também recomendo o Felino, da produtora argentina Viña Cobos, safra 2007, a venda na Grand Cru, por R$70,00 a garrafa, preço igualmente ótimo para a qualidade do vinho. Aqui vai ser fácil perceber a diferença entre os dois estilos, em vinhos que utilizam as mesmas uvas.

A Syrah é a uva do Vale do Rhone, na França, utilizada na produção dos grandes Hermitage e Cotie Rôtie. Vinhos espetaculares, de guarda, complexos, mas muito caros. De qualquer forma, indico como um craque no time do Velho Mundo, o Cote Rôtie “Lês Jumelles”, do produtor Paul Jaboulet Aîné, safra 2005, a venda por US$139,00, na Mistral. Este precisa envelhecer ainda uns 4 ou 5 anos para mostrar suas qualidades. Aberto agora vai parecer um vinho duro, rústico.

Por isso, para permitir a degustação já, vale a pena experimentar o Croze Hermitage, “Lês Meysonniers”, safra 2005, a US$49,90, e o Saint Joseph Deschants, 2005, a US$63,25, ambos a venda na Mistral, que mostram como a Syrah, no Vale do Rhone, também produz vinhos frescos, alegres e gostosos, bons para tomar com amigos num bate-papo. São dos vinhos preferidos nos cafés de Lyon e Paris. Também são ótimos na mesa ou acompanhando queijos.

No Novo Mundo, a Syrah produz vinhos totalmente diversos. São bem representativos do estilo concentrado, com dosagem alcoólica alta e com muita fruta madura. Sobretudo na Austrália, onde a uva ganhou até o nome um pouco diferente de Shiraz. Os vinhos australianos não são o meu forte, pelo uso excessivo da madeira, mas têm uma legião de fãs. Aponto dois Shiraz australianos bem recomendados, o Killerman’s Run Shiraz, 2005, por R$91,80 a garrafa na importadora Decanter, e o Heartland 2007, a R$73,00 na Grand Cru. Também na Grand Cru, o chileno Tabali Special Reserve Syrah 2007, a R$76,00 a garrafa, é muito bom, enquanto na Argentina, o Luca Syrah 2007, da excelente produtora Laura Catena, a US$45,50 na importadora Vinci, é um típico exemplar de Syrah do Novo Mundo.

Os vinhos italianos e portugueses integram o time do Velho Mundo com galhardia. Mas não podem ser confrontados com vinhos do Novo Mundo que utilizam as mesmas uvas, pois são muito raros. No Novo Mundo, prevalecem as uvas francesas. Por isso, vou com um italiano que eu gosto muito, o Rosso de Montalcino, irmão mais simples do famoso Brunello de Montalcino. O do produtor Pieri, safra 2006, está a venda na Cellar por R$80,00. Vinho ótimo para a mesa acompanhando receitas italianas. E de Portugal, o Duas Quintas 2006, da região do Douro, por R$55,00 no Empório Mercantil.

Para enfrentá-los, por falta de uvas italianas e portuguesas, vamos com uma uva típica da Argentina, a Malbec. Sua origem é francesa, mas na França não tem grande importância. Na Argentina, virou quase uma representante de seus vinhos e do estilo do Novo Mundo, bem frutado, redondo, alcoólico, com taninos doces. O ícone dos vinhos Malbecs é sem dúvida o do produtor Nicolás Catena, o grande responsável pelo desenvolvimento dos vinhos argentinos e considerado um dos maiores produtores do mundo. Ele tem várias categorias de vinhos, mas sua linha intermediária, o Catena Malbec, é ótimo, sem muita madeira. O preço de US$25,50 é excepcional para a qualidade do vinho. A venda na Mistral, safra 2006.

Acho que já temos material suficiente para o embate. Polêmica é muito importante, ajuda no desenvolvimento das idéias. Mas também é uma ótima desculpa para beber bastante vinho. Portanto, armas em punho. Ou melhor, taças em punho e saúde para todos.

Importadora Mistral: rua Rocha, 288, telefone (11) 3372-3400 ou site (www.mistral.com.br)

Importadora Cellar: rua Juquis, 283, telefone (11) 5531-2419 ou site (www.cellar-af.com.br)

Importadora Grand Cru: site (www.grandcru.com.br)

  • rua Bela Cintra, 1.799, Jardins, telefone: (11) 3062-6388
  • al. Nhambiquara, 614, Moema, telefone (11) 3624-5819
  • av. Independência, 1.640, Jd. Sumaré, telefone (11) 3913-4396

Importadora Vinci: rua Dr. Siqueira Cardoso, 227, telefone (11) 2797-0000 ou site (www.vincivinhos.com.br)

Empório Mercantil: rua dos Pinheiros, 1.156, telefones (11) 3813-2929 e 3815-5393 ou site (www.emporiomercantil.com.br)

Feliz 2010 a todos!

dezembro 29, 2009 · Posted in Lazer · Comment 

Que tudo se realize
No ano que vai nascer
Muito dinheiro no bolso
Saúde pra dar e vender
(Francisco Alves e David Nasser)

São os votos da Redação do Fio Do Bigode

Até o dia 5 de janeiro.

Então é Natal …

dezembro 21, 2009 · Posted in Lazer · Comment 

por Lourdes e Clovis Garcia


Dias atrás, fiquei pensando como deveria ser o post pré-Natal (com maiúscula pra diferenciar do tal exame) e conclui que deveria ser um que, sem pieguice, falasse das coisas boas desse período, que vão desde a oportunidade de pensar nos amigos que não vemos há tempos até confraternizar com pessoas que não temos tanta proximidade, mas são legais embora quase desconhecidas, e com elas beber e comer, como as minhas boas origens familiares não negam.

Aí, como Lourdes e Clóvis, meus pais e do Pedrão, comandam uma das mais tradicionais festas de Natal da cidade, ninguém melhor do que eles para escrever um post para a edição especial natalina do Fio Do Bigode. Eu tenho certeza que será o nosso melhor presente ao leitor e para nós também, já que eles têm a experiência, classe e, o principal, que é o prazer em fazer aquilo que escrevi acima. Clovis inicia o post com pequeno histórico da origem da comemoração do Natal e Lourdes escreve sobre as noites felizes.

Com vocês, os donos das famosas ceias de portas e braços abertos, que sempre foi o traço marcante e genuíno do casal.

And so this is Christmas
I hope you have fun
The near and the dear one
The old and the young

(John Lennon)


A data do Natal, dia 25 de dezembro, é uma ficção. Na verdade, ninguém sabe a data  do nascimento de Cristo. Há mesmo quem diga que, na transposição do calendário Juliano para o Gregoriano, houve um erro de quatro anos e, assim, Cristo nasceu quatro anos antes de Cristo. Como houvesse muita confusão, com cada povo comemorando o Natal numa data diferente, o monge Dionísio, no século IV d.C., propôs a data de 25 dezembro, dois dias depois do solstício de inverno (no hemisfério norte, para nós, é solstício de verão), o que foi aprovado e decretado pelo Papa Julio I. Toda a Cristandade comemora então o Natal dia 25 de dezembro.
Como ficção, a data é alegórica, simbolizando o amor ao próximo, a paz entre os  homens de boa vontade, a integração de toda a humanidade. Assim, fiéis e infiéis, crentes e ateus, cristãos e judeus, muçulmanos, hinduístas, ou de qualquer outra crença, negros, pardos, brancos, amarelos, ou de qualquer outra cor que o ser humano possa ter, podemos estar unidos, com um só pensamento de amor.

Noites felizes

A introdução do Clovis serve para me fazer entender porque gosto tanto de Natal. Para mim, a solidariedade é o sentimento mais forte do ser humano. É ele que mais me comove e me faz ter interesse pelas coisas. Foi por ele que, quando jovem, participei da JUC (Juventude Universitária Católica) e, mais tarde, me entusiasmei pelo marxismo. Foi ele também que nos fez (eu, o Clovis e até as crianças) militantes do PDC.

E foi por aí que, logo depois do nosso casamento, um amigo nosso, Paulo Cotrim, que mantinha uma pensão para jovens universitários, pediu que déssemos uma festa de Natal para aqueles que não tinham família em São Paulo. Gostamos da idéia, mas achamos que se íamos abrir a casa para um grupo de pessoas, por que não estender mais e fazer uma reunião para todos que quisessem encontrar os amigos. E assim, num apartamento pequenino, sem móveis, porque tínhamos casado fazia 20 dias, demos uma festa para mais de 60 pessoas. Foi um festão, que chegou ao amanhecer, com grupos reunidos até no banheiro!

Desde esse dia, há 57 anos, mantivemos a nossa festa de Natal. Só falhamos um ano, quando mudamos de casa e não deu tempo de montar a festa. E apesar disso recebemos um monte de reclamações.

Conhecemos muita gente e muitas pessoas se conheceram nessas festas. Também muitos desconhecidos passaram por elas. Lembro-me de uma vez que entrei na cozinha e alguém me disse: “Pegue logo essa perna de peru antes que os donos apareçam”.  Muita gente famosa passou por ela, muitas criaturas estranhas também. Tinha amigos que vinham na festa só para ver como viriam vestidos alguns participantes.

Essas noites de Natal acabavam quando o dia começava a clarear. Muitas vezes, quando eu acordava, havia pessoas dormindo pelas salas. Cada ano era diferente: algumas vezes apareciam corais que vinham cantar músicas sacras, outras vezes passavam bandinhas na rua e todos nós íamos nos confraternizar no portão. O grupo de jovens sempre trazia seus violões. Algumas vezes, alguém nos reunia para rezar.  Havia grupos que davam festas em casa e quando terminavam vinham se encontrar conosco.

Nunca sabíamos quem vinha nem quantos vinham, o que tornava a festa mais saborosa. Sempre gostamos que as festas tivessem bastante comida, bebida e muitos presentes, porque é assim que o ser humano pode se confraternizar. Não acho que isso possa modificar o espírito do Natal, nem o tornar menos cristão, pois a primeira coisa que Jesus recebeu foram os presentes dos Reis Magos. Também nunca me preocupei se faltava comida. Sempre tive a certeza de que as pessoas não vinham para comer.
Nesses anos todos, a festa foi se modificando: no começo só adultos, depois com crianças, mais tarde, com os amigos adolescentes, agora com noras, genro e netos. Muitos já se foram, mas estão presentes, porque acreditamos que enquanto perdurarem em nossas memórias eles estarão vivos, e sempre nos lembramos de todos eles.


De uns anos para cá, eu e o Clovis jogamos a toalha. Não agüentamos mais passar a noite em claro, nem tão pouco tenho fôlego para organizar uma ceia para tanta gente. Além disso, o pessoal da família tem que comparecer a outras reuniões. Por isso, passamos a festa para o almoço e agora é para a família e alguns amigos convidados. Clovis, com a ajuda dos netos, se veste de Papai Noel e distribui os presentes para todos. Para não perder o sentido de solidariedade, todo ano pego uma carta para o Papai Noel no correio e os netos pequenos vão levar na casa da criança os brinquedos que ela pediu.

Quando eu era menina, assisti um filme que me deixou muito comovida. Era um musical, Balalaika. Havia uma cena em que, na noite de Natal, os dois lados dos combatentes paravam a guerra e cantavam juntos a música Noite Feliz.  Pode ser piegas, mas eu gostaria que o mundo inteiro parasse no dia 24 para cantar junto.

FELIZ NATAL PARA TODOS!

Natal regado a vinho

dezembro 17, 2009 · Posted in Lazer · Comment 

por Pedrão

Natal é uma época meio confusa. Ou melhor, meio ambígua. Tem um lado muito chato, que é o do consumo desenfreado. Decoração de Natal já no começo de novembro, algumas vezes final de outubro, não dá. Comprar presentes na época do Natal é uma aporrinhação. Sem nenhuma desconsideração aos presenteados. Ao contrário, agüentar as lojas lotadas, shopping abarrotados, é uma demonstração de enorme afeição.

Mas o Natal tem um lado legal. Para a maior parte das pessoas, o que pega no Natal é o espírito de confraternização. É a hora de desejar o bem, pensar nos outros, ter uma mensagem de otimismo nesse mundo maluco. Pode parecer piegas, mas no Natal há um sentimento geral de paz. E isso não faz mal a ninguém.

O mais legal é que esse sentimento geral de confraternização normalmente se dá ao redor da mesa. Natal é hora de comer para valer, profissionalmente. E nada de comida leve. É no Natal que nos debruçamos sem nenhuma culpa no pernil de porco, no tender e no peru recheado. Sem contar os que avançam numa bacalhoada. Ou em outras receitas especiais, como um medalhão de vitela, lombo de porco e pernil de cordeiro. Vamos esquecer as calorias a mais, o colesterol. Depois se corre atrás do prejuízo.

Também é hora do vinho. Tudo bem, cerveja é legal, ponche precisa ter, outras bebidas, sucos, refrigerantes, mas no Natal o vinho é insubstituível. Por isso hoje é dia de vinho para a mesa do Natal.

No Natal, para iniciar os trabalhos é de lei um espumante. Quem tem possibilidade e está imbuído do espírito natalino, com vontade de por a mão no bolso, o negócio é ir de Champagne. Qualquer um desses que encontramos nas prateleiras de supermercados é excelente, Louis Roederer, Veuve Clicquot, Moët Chandon, Gosset e Taittinger, todos valem muito a pena. Infelizmente, nada abaixo dos R$180,00 a garrafa.

Mas não há motivo para desespero. Existem muitas alternativas para o bolso de nós mortais. Sobretudo entre os espumantes nacionais. Esqueçam aquela coisa de antigamente, quando se tirava sarro do champagne nacional. Hoje o Brasil produz espumantes de primeira, que rivalizam com a maioria dos importados. Sem nenhum nacionalismo exacerbado, que não tem qualquer espaço no terreno do vinho.

Temos várias marcas nacionais com produtos muito bons, que são facilmente encontrados em supermercados. Miolo, Salton, Chandon, Marson, Casa Valduga, Pizzato e muitas outras casas oferecem espumantes Brut excelentes. Tem que ser o Brut, que designa o espumante seco. Indico, meio aleatoriamente, o espumante Evidence da Salton, na casa dos R$50,00 a garrafa. Espumante cremoso, com ótima perlage (borbulhas), realmente gostoso. Costuma ter a venda no Carrefour, um ou outro Pão de Açúcar, e nesta semana estava com um preço bom, abaixo dos R$50,00, no Empório Mercantil, ali na rua dos Pinheiros, quase na esquina com a Pedroso de Moraes. Ótimo lugar para comprar vinhos.

Também cabe a sugestão do Chandon Reserva Brut, que tem em qualquer supermercado, com preço entre R$35,00 a R$40,00 a garrafa. Seco, delicado e refrescante, perfeito para esse início dos trabalhos no Natal. Ou então o top da casa, o Excellence Chandon Brut, com preço por volta dos R$70,00 a R$80,00. Como o próprio nome revela, é excelente.

Ultrapassada essa fase inicial que normalmente envolve frutas secas, amêndoas e castanhas, começam a aparecer as saladas, algumas mousses e pratos de entrada. No tradicional Natal na casa dos meus pais, é famosa a mousse de camarão. Portanto, é hora de um vinho branco.

Como normalmente o clima é quente, a pedida é um vinho branco seco, leve, mas bem aromático, em razão dos diversos sabores e aromas das entradas na mesa do Natal. Nada de muito encorpado. É bom lembrar que ainda vem muita coisa pela frente. Os feitos com a Riesling, que já comentei em outro artigo (v. Um Bom Vinho Branco), caem muito bem nessa hora.

Ou então um Sauvignon Blanc leve, refrescante, sem passagem pela madeira. Os vinhos com a Sauvignon Blanc apresentam um aroma cítrico bem característico. Evocam laranja, lima, limão, maracujá, às vezes outras frutas tropicais, como abacaxi e manga. Não é invenção de enochato não. Quem prestar um pouco de atenção, gastar um tempo cheirando o vinho, vai perceber claramente esses aromas. Evidente que não precisa ficar fazendo pose de entendido com nariz empinado, dando fungadas escandalosas. Mas sentir o aroma é uma das coisas legais na degustação do vinho.

A uva Sauvignon Blanc é originária da França e produz excelentes vinhos brancos no Vale do Loire. São os conhecidos Pouilly Fumé e Sancerre, que são fáceis de encontrar nas importadoras. Mas o preço é um pouco salgado. A sorte é que existem diversas outras opções, inclusive aqui na América do Sul.

Uma ótima escolha é o Montes Sauvignon Blanc, do produtor Viña Montes, um dos melhores produtores do Chile, o que não é pouca coisa. É a linha intermediária da casa. Está a venda na Mistral, safra 2007, por U$20,90. Volta e meia aparece em prateleiras de supermercados.

O Montes Sauvignon Blanc é um vinho refrescante, com aqueles aromas cítricos bem marcantes. Sobretudo maracujá. Na boca, aparecem novamente os sabores cítricos. É perfeito para aperitivo e entradas. Também acompanha um peixe grelhado, se for o caso.

Outro Sauvignon Blanc de destaque é o Amayna, safra 2007, também a venda na Mistral por U$32,50. É um vinho mais complexo, estruturado, mas muito gostoso. Vai com as entradas, mas acompanha pratos de peixe que de vez em quando comparecem no Natal. O produtor Viña Garcez Silva tem outro Amayna Sauvignon Blanc, que passa pela madeira e é bem mais encorpado. Ótimo, mas com preço mais elevado. É vinho para outro tipo de ocasião. Peçam o simples, que não passou pela madeira.

Ainda como boas opções, temos o Sauvignon Blanc Ciclos, do Michel Torino, a R$45,00, o Las Perdices, a R$49,00, e o da Viña Mar, a R$35,00. Todos a venda no Empório Mercantil.

Nessa hora, há grande chance de começar a aparecer o Tender. O Tender tem um sabor diferente, normalmente um pouco adocicado. Pode-se ficar no vinho branco que vai muito bem. Mas vale arriscar um vinho rosado, outro que sofre preconceito. Vamos afastar esse preconceito, pois os rosés melhoraram demais nos últimos tempos, estão até meio na moda, porque bem adequados a esse nosso calor escaldante. São vinhos com aromas leves de frutas vermelhas, como morango e framboesa.

A sugestão de rosado é o Crios, safra 2007, da produtora argentina Suzana Balbo. Cor bonita, aroma de frutas vermelhas, sabor refrescante, com corpo suficiente para acompanhar o Tender. Também a venda no Empório Mercantil, na casa dos R$38,00. Servir gelado, mas não estupidamente como uma cerveja. Quem experimentar vai gostar.

E aí vai chegando a hora do vamos ver. O pernil de porco se apresenta. Também o peru recheado. Nunca fui grande fã do peru (ave, bem dito, do outro não sou nenhum pouco fã), achava meio sem graça, até conhecer o peru recheado da minha sogra. Coisa séria, merece seminários e grupos de estudo. Com o pernil de porco e o peru recheado, exige-se a presença de um vinho tinto. As opções são muitas, mas a carne de porco pede um vinho tinto português.

Os vinhos portugueses estão cada vez melhores e têm vocação para escoltar uma boa carne de porco. Na mesa de Natal, costumam fazer bonito. Por isso, para a hora do vamos ver, o negócio é um bom vinho tinto português.

Novamente, existem muitas alternativas no mercado, inclusive nos supermercados tradicionais. A primeira sugestão é um vinho fácil de encontrar, com preço surpreendente para sua qualidade. Em qualquer supermercado se encontra. É o Quinta do Perdigão, vinho da região do Dão em Portugal. Muito bem feito, de corpo médio, não é muito pesado, com aromas e sabores de frutas vermelhas, acompanha bem os pratos do Natal. É um vinho muito gostoso, que agrada a todos, inclusive aqueles não muito habituados ao consumo de vinho. O preço por volta de R$25,00 é realmente convidativo face à qualidade do vinho. Excelente relação custo-benefício. Está sempre a venda no Pão de Açúcar, no Carrefour, e está a R$23,00, safra 2007, no Empório Mercantil. Para quem precisa segurar uma festa grande, com muitos convidados, esta é uma das melhores escolhas.

Outro vinho português excelente na mesa do Natal é o Crasto, produzido no Douro. A região do Douro pede uma visita. É uma das mais bonitas de Portugal, com produção excepcional de vinhos. É daí que vem o conhecido Vinho do Porto. Mas o Douro está cada vez melhor nos vinhos de mesa, para acompanhar a refeição. A Quinta do Crasto se destaca e o vinho Crasto, sua linha básica, é muito bom. Aromas de frutas vermelhas e pretas, sabor cativante, vai escoltar um pernil com galhardia. Na festa, servir na temperatura de 18º., o que exige um tempo na geladeira.

Eu não sei quem importa o Crasto, porém não há problema, pois ele é encontrado em todos os supermercados na faixa de R$50,00 a R$60,00. Normalmente nas safras de 2006 e 2007. É um vinho que pode envelhecer, por isso prefiro a safra mais antiga. Mas a de 2007 já está boa. Quem quiser arriscar um pouco mais na faixa dos R$100,00, o Quinta do Crasto Reserva é ótimo.

Ainda de Portugal, na mesma região do Douro, um vinho realmente delicioso é o Altano. Fácil de gostar, vinho redondo, frutado, mas com bom corpo. O da safra 2006 está a venda na Mistral por U$19,90. O Altano Reserva é ainda melhor, um dos vinhos mais gostosos que já tomei na sua faixa de preço, que é de U$49,90. Cerca de R$80,00, quem tomar, tenho certeza, vai gostar. Podem cobrar depois.

Quinta do Perdigão, Crasto ou Altano, ou até os três se a festa for para mais gente. Pronto, a questão do vinho tinto está resolvida.

Nessa altura, muitos já vão estar meio baleados e ainda falta a sobremesa. Como a sobremesa no Natal varia muito, normalmente com a presença de algumas muito doces, caso da tradicional rabanada, não cabe entrar com um vinho de sobremesa tipo Sauternes ou Tokaji. São deliciosos, mas a regra é a de que o vinho de sobremesa tem que ser mais doce do que a própria sobremesa, senão ele perde a graça, realça apenas sua acidez. Também pelo estado das pessoas, nessa altura o vinho de sobremesa, que normalmente é caro, não vai ser muito aproveitado.

Por isso, para esse momento, pode se voltar para o espumante ou então partir para um Vinho do Porto, que serve para acompanhar a sobremesa e também como um digestivo. Existem diversas opções de Vinho do Porto, desde os Vintages, os melhores, mas muito caros, até o simples Ruby, que é mais barato e pode ser bem gostoso. Aqui a recomendação vai para um Ruby de padrão mais elevado, o Granham’s Six Grapes, a venda na Mistral por U$54,90. A produtora Graham’s é uma das melhores no Porto. Não estranhar o nome inglês, pois muitos dos produtores do Porto são ingleses.

Vale lembrar que uma garrafa de Vinho do Porto serve muita gente, pois ele não é para ser bebido na mesma quantidade que um vinho de mesa. E mesmo depois de aberta, a garrafa de Vinho do Porto pode ser guardada por vários dias, sendo consumida aos poucos.

Com o Porto, vamos chegando ao final dos trabalhos. Quem achou essa comedida sugestão de vinhos no Natal um pouco exagerada, pode pegar o espumante ou o rosado e com ele atravessar toda a jornada. Mas para os verdadeiros fortes de espírito, o negócio é passar por cada fase e aproveitá-la. No final é possível que a perna bambeie um pouco, a dicção não vai estar mais perfeita. Não tem problema. É Natal. Deus perdoa.

Portanto, saúde para todos e um Feliz Natal!

Sugestão de supermercados com boas opções para a compra de Vinhos:

Empório Mercantil: rua dos Pinheiros, 1.156, telefones (11) 3813-2929 e 3815-5393 ou site (WWW.emporiomercantil.com.br). Ótimo lugar para compra – trabalha com muitas importadoras. Bom preço, ótimo atendimento. Está com promoções no Natal.

Supermercado Pão de Açúcar: unidade do Shopping Iguatemi. Tem seleção diferenciada com muito mais variedade do que nas outras unidades da rede. Promoção de Natal.

Empório Santa Maria: av. Cidade Jardim, 790, telefone (11) 3816–4344. Possui uma adega da importadora Expand, mas vale a pena a prateleira do próprio Supermercado . Trabalha com diversas importadoras. Boa variedade e preços melhores do que se imagina.

Casa Santa Luzia: al. Lorena, 1.471, telefone (11) 3897-5000. O mercado dos endinheirados. Tem vinhos caríssimos, mas também tem muitas opões com bom preço. Boa variedade, com bom atendimento.

Endereços e telefones das importadoras – ver o post Almoço no Domingo.

Noronha: paraíso nada perdido

dezembro 13, 2009 · Posted in Lazer, Turismo · Comment 

por Beto Lyra

Fernando de Noronha! Lugar dos meus sonhos. Sempre quis ir para lá.

Enfim, surge uma oportunidade na agenda da família, e pronto, lá vamos nós. Viagem matinal com a Gol de São Paulo até Recife, tempo em que pudemos desfrutar de um novo conceito de marketing da companhia, anunciado orgulhosamente pelo Comandante. Qual é o conceito novo? Simples, não há refeição ou lanche, apenas amendoim e dois tipos de refrigerantes, que nunca ouvi (e provavelmente não mais ouvirei) na vida.

Uma breve parada em Recife e embarque no início da tarde para Noronha. Na aproximação da ilha, o avião dá um giro completo o que permite excelente noção do arquipélago todo. Após a descida, um pouco de burocracia local: como o acesso à ilha é extremamente controlado, todos têm de passar por uma espécie de Imigração, onde é paga a taxa de permanência em Noronha.

No solo as primeiras impressões são de que há organização perfeita: ônibus para levar às pousadas, briefing e venda de passeios pelos agentes turísticos e informações claras e precisas sobre o que fazer à noite.

Por sorte pegamos uma pousada bem localizada, quase no meio da ilha, próxima de restaurantes e do centro histórico, a Vila dos Remédios, onde há mais bares, restaurantes e até balada. Na primeira noite, restou jantar como programa. Recebemos a dica do Tom Marrom. Não bastasse o restaurante estar na ilha, parte de um paraíso, deu um jeito de demonstrar toda a sua integração com a natureza, envolvendo a construção em muitos galhos, raízes etc. O resultado ficou meio postiço, engraçado, mas no que interessava a casa foi bem: comemos peixe na folha de bananeira e um belo atum feito na grelha bem pilotada pelo próprio dono, acompanhados de boa música brasileira.

Dia seguinte bem cedo passaram na pousada (pontualmente) para nos pegar para um passeio, criativamente chamado de … Ilhatur. Nunca soube, mas há uma estrada federal por lá, a tal de BR 363. Seus extensos 7 km foram percorridos à exaustão em idas e vindas pelo nosso tour, que insistia em visitar um ponto turístico na parte sul e percorrer novamente a BR para nos levar a uma trilha na parte norte. Sem brincadeira, isso foi o que aconteceu.

Mas novamente, no que interessava, estivemos em lugares estupendos. Alguns demandaram bom esforço físico, como a descida para a praia da Baia do Sancho, que começou com uma escadinha com 15 degraus, que exigia entortar o corpo para a esquerda de modo a conseguir passar com pé de pato, snorquel, máscara e câmera fotográfica. Vencida essa primeira etapa, anda-se por um estreito patamar entre rochedos para então ter de virar o corpo no ar para encaixar na 2ª escadinha, esta do tipo marinheiro. Ainda não chegamos a lugar nenhum, pois falta vencer vários degraus de pedra, semidestruídos e com bons trechos sem apoio. “Ufa!, ainda bem que valeu a pena”, é a primeira impressão depois que nos equipamos para ver corais, peixes, tartarugas etc. Bate perna pra cá, bate pra lá, tudo maravilhoso. Peixes de todos os tamanhos e êpa … acho que é um tubarão, pequeno, mas tubarão. Olho para os demais, todos calmos, e assim trato de ter certeza de que há um bom par de nadadores entre mim e o tubarão. Volto a contemplar a natureza.

De volta à praia, me desvencilhando dos penduricalhos náuticos, encontro-me naquela situação de causar inveja: areia e sal no corpo e mais um retoque de protetor solar… argh!  É preciso encarar. Protetor solar é item de primeira necessidade na ilha se você não quiser ficar parecido com um turista nórdico após tomar um sol das cinco.

Mais idas e vindas pela BR, praias e vistas imbatíveis e, para finalizar, o por do sol no Forte do Boldró. Todos os que estão na ilha se reúnem ali para terminar o dia – o sol se pondo no mar, emoldurado por duas ilhas menores (Dois Irmãos). No local, um barzinho serve cerveja, pastéis e outros petiscos, tudo embalado por um sonzinho maneiro de um músico local. O sol se põe, ninguém quer ir embora.

Na sequência, jantar no Flamboyants, mais peixe na folha de bananeira e cama. Menos para o Fabio, meu filho, que vai para a balada na vila e chega quase com os guias do passeio da manhã seguinte.

Rumamos para o Porto, pegamos um barcão para rodear a ilha e, de cara, a sorte de encontrar uma farra de golfinhos. As praias foram se sucedendo: Biboca, Cachorro, do Meio, Conceição, Boldró … e Baia do Sancho, novamente. Parada do barco e mergulho, agora sem o sufoco das descidas e escaladas. Vamos até o fim de Noronha, na Ponta da Sapata, onde se busca em seu portal um ponto perfeito para a visualização do mapa da América do Sul e da África. Damos meia-volta e na hora do almoço estamos no Porto.

Caminhamos uns 500 metros até o Museu dos Tubarões, na praia Buraco da Raquel, uma enorme fenda na pedra em frente à praia, sobre a qual todos os guias acham en-gras-sa-dís-si-mo contar histórias. Não se pode entrar no mar, muito agitado, mas a beleza do lugar e o serviço do restaurante do Museu garantem o programa.

Próxima parada na praia de Sto. Antonio, antes de repetir o por do sol no Forte do Boldró. Pegamos taxi, a melhor maneira de se locomover por Noronha de forma independente, pois é razoavelmente barato e…ufa…tem ar condicionado. À noite, passeamos a pé por Vila Velha e quando bateu a fome atracamos na Pizzaria Feitiço da Vila. Traço comum na ilha e muito agradável é a música ao vivo nos bares e restaurantes, embora o repertório mescle ótimas canções de Gil, Tim Maia, Jorge Ben e Lulu Santos, com as grudentas de Djavan e Seu Jorge.

Na manhã seguinte, a jóia da coroa em Noronha: mergulho autônomo (com cilindro de ar comprimido). Roupa e equipamento são fornecidos pela operadora, tudo em ótimo estado, 1º mundo. Instruções assimiladas, mergulhamos. É indescritível a sensação. A proximidade com peixes, tartarugas que parecem querer mostrar o caminho a você, além dos corais, dá uma visão completamente diferente do mundo. Dá vontade de ir a Copenhague pressionar esses governantes a tratarem seriamente a questão ambiental.

E aqui faço um parênteses. Em Noronha, todo o discurso de preservação ambiental não resiste a poucos dias de permanência por lá. A energia na ilha é resultado da queima de óleo em estação explorada por companhia energética estatal. Há um único aparelho de geração de energia eólica, que não funciona há 2 anos, quando um raio cortou uma das aletas de sua captação do vento (será que desconhecem para-raios?). Esse único equipamento supria cerca de 40% da demanda de energia da ilha. Ou seja, com três simples aparelhos desses, Noronha seria autossuficiente em energia elétrica, não poluidora. Dá para acreditar que não seja assim? Bem, e a frota de veículos? Como há muitos locais de difícil acesso, jipes e utilitários 4×4 são muito empregados por lá. Todos movidos a diesel, esse diesel brasileiro que polui mais do que qualquer outro do mundo.

Mas voltemos ao paraíso, após o mergulho, em uma praia muito conhecida, mas que ninguém indica a turistas: Conceição. Como na música de Cauby, “ninguém sabe, ninguém viu”. Alguém ainda lembra do nosso litoral norte paulista nos anos 60/70? Então, Conceição é assim. Linda, quase deserta, embora tenha um bar-restaurante com cerveja geladíssima e peixes bem preparados. Depois, o tradicional por do sol nos espera.

O jantar dessa noite foi para comemorar meu aniversário e o convite para um restaurante especializado em lagostas veio de meu filho Otavio. Chegamos cedo ao Ecologiku’s, longe de qualquer burburinho, escondido em ruas esburacadas atrás do aeroporto. Pedimos o último exemplar de lagosta e uma muqueca também de lagosta e nos divertimos com os criativos aperitivos que a dona, uma baiana convertida à ilha há décadas, nos apresenta contando seus segredos. Pouco depois de nós, chega um casal que dá boa noite e diz “viemos comer lagosta”. Viram? Chegar cedo ajuda.



Na manhã seguinte, um rápido passeio para tirar fotos que julgamos faltar em nossa câmera e nos aprontamos para o traslado ao aeroporto.

Maravilhosa Noronha.

Almoço de domingo

novembro 20, 2009 · Posted in Lazer · Comment 

por Pedro Sampaio

Domingão é dia de se refestelar. Nada como um almoço no domingo com a família ou com os amigos. Boa comida, boa bebida, muitas risadas, jogar conversa fora, discussões acaloradas, tudo vale nessa ocasião. Aquela coisa de melancolia no domingo é melhor deixar bem longe. A segunda feira é para ser lembrada na segunda feira.

Almoço no domingo clama por um bom vinho. Cada turma tem sua tradição e o cardápio varia bastante. Mas se há algo que volta e meia aparece é uma bela massa. As lasanhas, os capelletis à bolonhesa, os nhoques ao sugo e os raviólis com molho de tomate e manjericão sempre marcam presença. Por isso hoje vamos de vinhos para escoltar as boas massas.

Desde já fica ressalvado que estamos cuidando dessas massas com molho vermelho que normalmente comparecem nas mesas das famílias aos domingos. Pratos de massas com molhos mais suaves e até mais sofisticados, ficam para outra oportunidade. As massas com molho de tomate pedem o acompanhamento de um vinho tinto não muito encorpado nem muito complexo, vinhos mais simples e diretos, com boa acidez, para contrabalançar a acidez do molho de tomate.

A Itália, naturalmente, produz os melhores vinhos para acompanhar massas. Como uma das maiores produtoras do mundo, a Itália tem vinhos para todos os gostos e bolsos, produzidos de norte a sul. Entre vários outros, sugiro três fáceis de encontrar e que apresentam boas opções, com preços decentes.

O primeiro é o conhecido Valpolicella, produzido na região do Vêneto, perto de Verona. A uva que predomina na sua produção é a Corvina, variedade local que pouco aparece em outras localidades. O Valpolicella normalmente é um vinho para ser tomado jovem, com um aroma e sabor frutado direto, sem maiores complicações. Ele tem algumas classificações. O melhor é ficar com as classificações Clássico e Clássico Superiore, que aparecem no rótulo.

Existem muitos Valpolicellas espalhados nas prateleiras de supermercados, mas boa parte é de produtores e negociantes que produzem em grande escala e nem sempre agradam. Aqui, é preciso escolher os bons produtores, senão é possível haver decepção.

O Valpolicella de que mais gosto é do produtor Zenato, a venda na importadora Cellar por R$40,00 a garrafa, safra 2006. Já foi muito mais barato, mas pela boa procura, o preço acabou subindo. A lei da oferta e procura é implacável. De qualquer forma, continua sendo uma ótima relação custo-benefício, pois o vinho é muito gostoso. É um tiro certeiro e acompanha muito bem as massas.

Também como ótimos Valpolicellas, valem as sugestões do Valpolicella do produtor Alegrini/2008, à venda na importadora Grand Cru por R$60,00, e do produtor Le Ragose, que estava à venda na Terroir também por R$60,00. Segundo informação obtida por telefone, o Le Ragose esgotou na Terroir e por ora não há expectativa de nova importação. Uma pena, porque é um dos melhores. Quem encontrar em supermercado pode comprar que não vai se arrepender.

Outro vinho ótimo para acompanhar massas é o Dolcetto, produzido com a uva desse nome na região do Piemonte, no norte da Itália, perto da cidade de Turim. É a região que produz os grandes Barolos e Barbarescos, que estão entre os melhores vinhos da Itália e do mundo, vinhos para longa guarda, encorpados, complexos e maravilhosos, para ocasiões muito especiais. Até porque pelo seu preço, só mesmo uma vez ou… uma vez mesmo.

Já o Dolcetto é um vinho mais simples. Apesar do nome da uva, é um vinho bem seco, cor rubi escura, mas que é leve e gostoso, para tomar jovem, sem grande envelhecimento. Na minha modesta opinião, um dos melhores vinhos para acompanhar massas. O Dolcetto é produzido em algumas pequenas vilas do Piemonte, cujo nome pode aparecer no rótulo. Temos o Dolcetto D’Alba, produzido na cidade de Alba, o Dolcetto D’Asti, produzido em Asti, e assim por diante. Os melhores são de Alba.

Ao contrário dos Valpolicellas, difícil encontrar um Dolcetto que seja ruim. Existem vários no mercado, alguns meio caros. Com preço razoável e ótima qualidade, destaco o Dolcetto D’Alba do Renato Ratti, safra 2007 , a venda na importadora Expand por R$78,00 a garrafa. Também gosto muito do Dolcetto D”Alba, do Bruno Giacosa, a venda na Mistral, safra 2007 por U$47,50, e safra 2008 por U$47,90. As duas safras são excelentes. Quase toda a importadora tem um bom Dolcetto, por isso quem gostar mesmo desse vinho, pode ir testando e experimentado.

Por último, acompanhamento perfeito para as massas no domingão é um bom Montepulciano d’Abruzzo, vinho menos conhecido. Produzido na região de Abruzzo, que fica para o lado do mar Adriático, na região mais central da Itália. A uva, óbvio, é a Montepulciano. Também é um vinho simples que sozinho não chama a atenção, mas com comida cresce significativamente.

Existem alguns produtos em prateleiras de supermercados, bem baratos, mas que não são grande coisa. Os melhores custam um pouco mais caro. O produtor Masciarelli é muito bom e seu Montepulciano d’Abruzzo básico custa R$40,00, na Cellar. O Masciarelli tem um vinho superior, o Montepulciano d’Abruzzo “Marina Svetic”, que é realmente excelente, vinho mais complexo, que foge um pouco do estilo dos demais indicados. Mas é caso de experimentar, apesar do preço de R$105,00.

Outro bom Montepulciano d”Abruzzo é o do produtor Filomusi Guelfi, a venda na importadora Vinci por R$58,11, safra 2003, um pouco antiga para esse vinho, mas que ainda está bom. É comprar para beber já, sem guardar muito tempo.

Todos esses vinhos devem ser bebidos refrescados, temperatura aí pelos 16º. É bom lembrar que esse negócio de tomar vinho tinto na temperatura ambiente vale para a Europa e outras regiões mais temperadas. No Brasil, num dia quente de 25 ou 30º., vinho na temperatura ambiente parece sopa de uva com álcool. O vinho tinto pode e dever ser refrescado, os mais encorpados para uma temperatura de cerca de 18º., os mais simples por volta de 16º.. Colocar na porta da geladeira por 50 minutos antes de servir resolve o problema.

Muito bem, no mais, mãos à obra. Um viva para a macarronada no final de semana. SALUTE E ARRIVEDERTE!

Grand Cru: rua Bela Cintra, 1.799, Jardins, telefone (11) 3062-6388; al. Nhambiquara, 614, Moema, telefone (11) 3624-5819; av. Independência, 1.640, Jd. Sumaré, telefone (11) 3913-4396 ou site (www.grandcru.com.br).

Expand: av. Cidade Jardim, 790, telefone (11) 2102-7788; lojas em diversos Shoppings, como Iguatemi, Villa-Lobos, Higienópolis e Jardim Sul ou site (www.expand.com.br).

Cellar: rua Juquis, 283, telefone (11) 5531-2419 ou site (www.cellar-af.com.br).

Mistral: rua Rocha, 288, telefone (11) 3372-3400 ou site (www.mistral.com.br).

Vinci: rua Dr. Siqueira Cardoso, 227, telefone (11) 2797-0000 ou site (www.vincivinhos.com.br).

Terroir: av. Europa, 580, telefone (11) 3087-8300; rua Aurora, 872, telefone (11) 2109-1500 ou site (www.terroirvinhos.com.br).

(as importadoras costumam não cobrar o frete para compras de no mínimo 6 garrafas; é bom consultar).

A foto acima “Shower Time!” é de Conanil, em Creative Commons.

Um bom vinho branco

novembro 4, 2009 · Posted in Lazer · Comment 

por Pedro Sampaio

É muito comum a afirmação de que bom é o vinho tinto. Há quem diga que tem vinho branco em casa apenas para servir a alguma visita de mau gosto. Puro preconceito. Evidente que gosto não se discute, mas normalmente a preferência pelo vinho tinto decorre de hábitos, costumes e de falta de contato com bons vinhos brancos.

Como a vida não é muito longa e pelo menos, ao que eu saiba, ela é uma só,  sou a favor de experimentar aquilo a que não estamos muito habituados. Podemos ter surpresas e momentos de prazer e alegria. Por isso hoje minha sugestão é experimentar alguns bons vinhos brancos.

Existem ótimos vinhos brancos que combinam com o nosso clima, na maior parte do ano muito quente. E também combinam muito bem com comida. A regra de que carne vai bem com vinho tinto e peixes com vinho branco não é absoluta. As carnes mais leves e brancas combinam com muitos vinhos brancos. Já os peixes e frutos do mar normalmente não se acertam mesmo com vinhos tintos, pois alteram seu sabor. Pratos com peixe e frutos do mar pedem o acompanhamento de um bom branco.

O vinho branco não é necessariamente feito de uvas brancas. O que dá coloração ao vinho é a casca da uva. Uma uva tinta pode servir para a produção de vinho branco. Alguns champagnes brancos são feitos de Pinot Noir, uva tinta que também produz vinhos tintos.

No entanto, os vinhos brancos mais conhecidos são feitos de uvas brancas, como a Chardonnay e a Sauvignon Blanc. As duas têm origem francesa. A primeira produz os grandes vinhos brancos da Borgonha, considerados os melhores brancos do mundo, mas muito caros no Brasil. A segunda é muito utilizada em Bordeaux e no Vale do Loire. Existem excelentes opções com essas uvas no mercado de vinhos a preços acessíveis para os mortais, sobretudo provenientes da Argentina e do Chile. Vão ficar para uma próxima vez.

A sugestão do dia é uma uva não tão conhecida, mas que pode resultar em vinhos brancos de primeira. São os vinhos com a uva Riesling, base dos melhores brancos da Alemanha e da região francesa da Alsácia. Os vinhos com essa uva são saborosos, têm muito aroma, boa acidez e caem muito bem nos dias quentes. Servem como aperitivo e acompanham vários pratos, como peixes defumados, embutidos, salsichas e frios em geral. Os especialistas falam também na boa harmonização com a culinária asiática, pois os vinhos feitos com a Riesling, mesmo quando secos, têm sempre algum toque de doce, contrabalançado pela acidez. Pessoalmente, com comida oriental e asiática, prefiro cerveja.

Destacar a acidez do vinho pode assustar um pouco, mas o vinho branco precisa de acidez para não ficar enjoativo. Lógico que o excesso de acidez é ruim, mas isso somente ocorre em vinhos desequilibrados. A acidez no ponto certo dá vida ao vinho, sobretudo o branco.

A Alemanha tem vinhos brancos especiais feitos com a Riesling. Os vinhos da Alemanha ficaram um tempo com péssima fama por causa daqueles produtos docinhos, de garrafa azul, que andaram na moda, mas que eram horríveis. Não que o vinho doce não possa ser bom. Existem vinhos doces muito bons, inclusive com a Riesling. Aqueles vinhos da garrafa azul eram ruins não por serem doces, mas porque eram ruins mesmo. Servem para fazer ponche, como o internacionalmente famoso ponche do meu pai no Natal.

Outra dificuldade que os vinhos da Alemanha enfrentam é o nome. Exceção feita a alguns casos raros, a língua alemã é simplesmente impenetrável. Os nomes dos vinhos alemães são difíceis de decifrar. É preciso atenção. Mas vale a pena superar esse obstáculo e experimentar o vinho alemão.

Nosso mercado oferece boas opções em importadoras. Nunca as vi em prateleiras de supermercados. Os preços infelizmente sempre surpreendem de forma negativa. Não é muito fácil encontrar vinho bom feito com a Riesling por menos de R$50,00. De qualquer forma, não sei se o dólar desvalorizado é bom para economia, mas é ótimo para comprar vinhos. As sugestões que vou fazer são aquelas mais acessíveis.

Uma escolha certa são os vinhos do produtor Dr. Bürklin-Wolf, da região vinícola de Pfalz. Os vinhos Riesling de sua linha mais básica, o Villa Bürklin Weiss QbA trocken e o Dr.Bürklin Rieslin QbA trocken, ambos da safra de 2006, estão a venda na importadora Mistral, por U$37,50 e U$43,75 cada garrafa. Esse produtor tem outros vinhos com preços mais elevados, acima de R$150,00, que devem ser muito bons. Eu não conheço, pois apesar de gostar muito de vinhos, não costumo gastar tanto numa garrafa.

Outro bom produtor é Selbach-Oster. Já experimentei seu vinho Zeltinger Schlossberg Selbach-Oster Riesling QBA Trocken 2007 e gostei muito. Preço U$46,00, na importadora Vinci.

Estes são vinhos brancos secos. Os vinhos alemães secos feitos com a Riesling costumam ter um aroma muito bom, meio floral. Apesar de secos, têm um sabor frutado gostoso, que lembra pêssegos e frutas cítricas, e sempre apresentam um pequeno toque doce, bem contrabalançado pela acidez. Têm teor alcoólico baixo para vinhos, por volta de 10%.

Li que a importadora Decanter está trazendo novos vinhos da Alemanha de produtores conceituados, mas não conheço os vinhos. A Decanter tem uma enoteca, onde fazem degustações.

A Riesling também dá excelentes vinhos na Alsácia, região francesa com forte influência alemã, pois já pertenceu à Alemanha. Os vinhos da Alsácia feitos com a Riesling costumam ser um pouco mais encorpados dos que os da Alemanha, têm maior teor alcoólico e sabor frutado mais acentuado. Mas são vinhos secos, aparece menos o toque doce que encontramos nos alemães. A Mistral tem o produtor Marcel Deiss, com um Riesling de U$59,90, muito bom.

Mas aqui a sugestão vai para o produtor Albert Mann. O seu Riesling básico, chamado de  “Tradition”, safra 2007, é bem gostoso, a venda na importadora Cellar por R$55,00 telefone (11) 5531-2419. Pelo que me lembro, a tampa é inclusive de rosca, prática que vem se disseminando em razão das dificuldades na produção de rolhas e que não significa que necessariamente o vinho seja inferior. Para quem quiser arriscar, num preço mais salgado, a R$125,00, o Riesling Grand Cru “Schlossberg”, do mesmo produtor, é excelente.

Uma boa idéia para tomar esses vinhos, que não dá muito trabalho e não agride terrivelmente o bolso, é comprar no setor de congelados em supermercados algumas dessas travessas com carpáccio de salmão ou truta defumada. Segundo a receita aqui da casa, é só tirar da embalagem, temperar com azeite, pimenta do reino moída na hora, e dill ou salsinha, e servir com creme azedo, umas cebolas e raiz forte em conserva, que também se encontra fácil no supermercado, acompanhado de pão, de preferência desses com farinha integral. O creme azedo pode ser feito em casa com creme de leite e coalhada seca.

Este é um bom lanche para uma noite quente, que vai combinar com os vinhos indicados. Num grupo maior de pessoas, vale até a pena tomar um vinho da Alemanha e outro da Alsácia, para comparar. Aí está uma brincadeira gostosa de fazer.

Como o Fio.Do.Bigode está cada vez ficando mais sério nas discussões filosóficas, políticas, musicais e esportivas, vale aqui um brinde com um bom vinho da uva Riesling. Viva o debate, a diversidade, a polêmica e a democracia.

Saúde para todos e até a próxima.

Mistral: vendas pelo telefone (11) 3372–3400 ou pelo site (www.mistral.com.br); preços em dólar pela cotação do dia; em São Paulo, entrega em casa sem cobrar frete para as compras acima de 6 garrafas.

Vinci: vendas pelo telefone (11) 2797-0000 ou pelo site (www.vincivinhos.com.br); preços com dólar na cotação R$1,49; entrega em casa, sem cobrar frete.

Decanter: enoteca, na rua Joaquim Floriano, no. 838, São Paulo, telefone (11) 3073-0500.

Beba sem moderação

outubro 19, 2009 · Posted in Lazer · Comment 

Hoje o Bigode ganha mais um Fio. Trata-se de grande defensor das boas causas, principalmente das que à primeira vista parecem não ser muito importantes, mas que na essência são extremamente relevantes, imperdíveis e fundamentais, como ele mesmo gosta de dizer.

Com vocês, o humor fino e o conhecimento das boas coisas da vida do nosso novo bloguista.

Vai que é sua Pedrão!

por Pedrão

Nos dias de hoje, está na moda dizer que beber com moderação uma taça de vinho na refeição faz muito bem à saúde. Parece que o vinho tem componentes que dilatam as artérias e diminuem o colesterol ruim no sangue. E dizem que os franceses, apesar da comida gordurosa, sofrem menos de doenças coronárias do que a média da população de outros países, o que é computado ao consumo de vinhos.

Pode ser, mas esse negócio de que beber uma taça de vinho por dia faz bem à saúde não é comigo. Tudo bem que cuidar da saúde é importante, mas vinho não é remédio. Vinho está em outro departamento, existe para dar prazer e alegria. Se for para beber, é para valer.

Bom, vamos colocar as coisas nos devidos lugares, para também não pensarem que agora entrou um pau d’água no Fio.Do.Bigode, falando um monte de besteiras. Beber para valer nas horas certas. Antes de mais nada, bebida é na hora do lazer, da diversão, sem compromisso. Bebida não combina com coisa séria.

Toda vez que bebida entra em assunto sério acaba causando confusão. Veja nosso caso, um blog com a seriedade do Fio.Do.Bigode colocando em risco seu prestígio. Porque a única explicação no convite que o Beto me fez para colaborar com o blog é a de que ele estava de fogo quando pensou em tamanha temeridade.

Bebida também não combina com trabalho. Nos dias de trabalho, que infelizmente representam a maioria na nossa existência, o negócio é água, suco ou chá. Vá lá, uma coca zero. coca light já não dá. É insuportável. E coca normal é para os menores de 40 anos.

Nas poucas vezes que tentei escrever alguma coisa relacionada ao trabalho depois de tomar umas e outras, me sentia um gênio com idéias brilhantes, por que não dizer revolucionárias. Ainda bem que mantive um resquício de sobriedade para deixar a conferência para o dia seguinte. Pelo amor de Deus! No pouco que fazia algum sentido, a quantidade de asneiras era inacreditável.

Não preciso nem dizer que bebida também não combina com fossa. Nessa hora, é melhor ficar sóbrio, se precisar conversar, desabafar, que seja com alguém também sóbrio. Bêbado na fossa é muito chato. Fica debruçado em cima de algum coitado que normalmente não está na fossa. Pior, também não está bêbado. E não há quem segure a choradeira, normalmente em volume perceptível em todo o quarteirão.

Por fim, bebida não combina com valentão. Homem que gosta muito de arrumar encrenca, de brigar, já é meio esquisito. De todo modo, gosto não se discute, se quer muito brigar, ficar se esfregando em outro homem, problema de cada um. Mas é melhor fazer isso sóbrio, porque se beber muito vai acabar apanhando.

Ah sim, quase ia me esquecendo. Bebida é legal nas horas livres, quando estamos absolutamente à vontade. Agora se o planejamento no dia envolve atividades na alcova, de caráter libidinoso, é preciso cautela. Sobretudo para os homens. Quando a intenção é essa, o exagero na bebida pode causar embaraço. Até certo ponto ajuda, mas ultrapassado esse ponto, a eficiência, em alguns aspectos, corre o risco de ficar comprometida.

Feitas essas ressalvas, nada de bebida para fazer bem para a saúde. O que faz bem para a saúde é vagem sem sal cozida no vapor. Chuchu refogado sem nenhum tempero. Arroz integral com cenoura ralada crua. Acompanhado de água. Ou chá de losna.

Bebida é para se divertir. Um bom whisky na sexta feira, após uma semana de trabalho. Tomar uma bela cachaça nos domínios do Caio, em Gonçalves ou São Francisco de Xavier. O bar de cachaças na pracinha central de Gonçalves é um verdadeiro colosso! Uma cerveja na praia ou acompanhando uma farta feijoada. As cervejas estão melhorando muito, com várias opções novas.

Mas do que eu gosto mesmo é vinho. Por isso me meto a falar de vinho, dar palpites, fazer combinações com comida. Ou melhor, utilizando uma linguagem mais metida, como incumbe a quem quer falar de vinho, fazer harmonizações com pratos bem elaborados. Lógico que não sou eu quem elabora esses pratos. A depender de mim na cozinha, qualquer harmonização seria um verdadeiro desastre.

Diante da insanidade do Beto a que já me referi, vou aproveitar este espaço no Fio.Do.Bigode para falar um pouco sobre vinhos e comida. Também posso falar de algumas outras coisas, mas sobre futebol e música, assuntos que costumo me intrometer, o Beto e o Caio, ainda que com opiniões controvertidas, já estão dando conta do recado.

É bom deixar claro que os palpites que darei sobre vinhos não têm nenhuma erudição. É tudo na base da experiência, pois já bebi muito vinho. O pouco de erudição que adquiri, foi lendo alguns livros, especialmente do Saul Galvão, crítico gastronômico falecido recentemente e que era primo distante meu e do chefe aqui do Blog. Quem quiser ficar com o original e não com o plágio, recomendo o livro Tintos e Brancos, do Saul Galvão. Livro sem frescura, fácil de ler, e que dá uma visão geral das diversas regiões vinícolas espalhadas pelo mundo, com muitas indicações para o consumidor.

As opiniões que arriscarei também passam longe daquela conversa de muitos enólogos. Nada de aroma de casca de lima da Pérsia, de especiarias da Tanzânia, de grama cortada da Escócia. Tem enólogo que adora encontrar no vinho aromas de coisas que nem existem no Brasil. Sem com isso desprezar totalmente a questão do aroma, que é uma das melhores coisas do vinho. Com um pouco de atenção, alguns aromas são bem perceptíveis e gostosos, enriquecem o vinho.

Como o mercado de vinhos está aquecido, existe muita oferta interessante, com preços razoáveis. Mas também existe muita enganação, nomes pomposos, preços altos e vinhos porcarias. Naquilo que souber, tentarei dar sugestões de boas compras para quem quiser tomar bons vinhos sem ter que hipotecar a casa.

Para uma primeira intervenção, chega de falatório. Saúde para todos e até a próxima.