O 1º Ouro brasileiro em Jogos Olímpicos

julho 28, 2012 · Posted in Esporte · 2 Comments 

por Beto Lyra

Corria o ano de 1920. Vinte e nove países estavam participando dos VII Jogos Olímpicos da Era Moderna, iniciados em 1896, na Grécia. Cerca de dois anos após o fim da desgastante 1ª Grande Guerra, a competição retornava, dessa vez, em Antuérpia, na Bélgica. Era lançada, então, a bandeira olímpica, com seus 5 aros entrelaçados e coloridos, criada pelo Barão de Coubertin.

Na euforia da época, a musiquinha anunciava “30 milhões em ação, pra frente Brasil, do meu coração … “, destes trinta, dois milhões eram estrangeiros.

Bem, a história interessante aqui é como foi ganha a 1ª medalha de ouro brasileira em Jogos Olímpicos. Tudo começou com a desorganização da viagem da delegação brasileira para a Europa: apenas 10 dias para definir a equipe, comprar as passagens e embarcar os 29 valentes atletas, que foram jogados na 3ª classe do navio Curvello rumo a Lisboa e daí, de trem, em um vagão de carga descoberto, para Bruxelas. Acha pouco sofrimento e desorganização? Então, continue lendo.

De Lisboa a Bruxelas, tomou chuva direto, a bagagem da delegação molhou e estragou parte do material levado, infelizmente as armas da equipe de tiroe, mais tarde, enquanto aguardava a ida para Antuérpia, nossos atletas do tiro foram roubados, ficando sem os alvos e a munição. Bem, mas muito antes do ex-presidente Lula afirmar que o brasileiro não desiste nunca, um dos atiradores foi até a delegação norte-americana e conseguiu emprestadas armas, munição e alvos. Armas de treino, claro, porque as de competição seriam usadas pelos próprios donos.

de ouro olímpica para o Brasil competindo contra vários atiradores, entre eles quem lhe emprestara a arma. Em seguida, novas medalhas, uma de prata ganha por Afrânio Costa, outro atirador com arma emprestada e outra de bronze, com toda a equipe. Enfim, aquele acontecimento inimaginável, que ocorre muito raramente, e só quando os deuses do esporte estão de sacanagem com os competidores favoritos.

Encerrada a disputa de tiro, os brasileiros foram devolver as armas aos seus verdadeiros donos. Guilherme entregou a sua ao americano, que não a aceitou dizendo que ela tinha escolhido outro dono e agora pertencia a ele, Paraense.

Oitenta e quatro anos depois, eu era diretor de um monte de áreas na BM&F e acabei montando o Espaço Cultural, que hoje é famoso e disputado por vários artistas e galerias que ali querem expor suas  obras. Realizei exposições artísticas que iam desde a maravilhosa coleção de quadros da própria bolsa, com Portinaris, Guignards, Anitas Malfattis e tantos outros excelentes artistas, até a montagem de uma sala especial que fazia parte da Bienal de Arte de São Paulo, em 2004. Mas, eu gostava também de realizar exposições populares, como a de Alberto Santos Dumont, para comemorar o centenário de seu voo com o 14 Bis. E foi assim que, em 2004, fiz com o apoio do COB a exposição “Jogos Olímpicos: Arte, História e Design”, que expôs pela primeira vez ao público a arma com que Guilherme Paraense ganhou a 1ª medalha de ouro brasileira em Jogos Olímpicos.

Em Tempo: Hoje vi na TV uma entrevista com o presidente do COB, Artur Nuzman, que disse que os atletas  de Jogos Olímpicos mais profissionais (sic) que ele conheceu são Roberto Scheidt e Roger Federer. O espírito olímpico não deveria ser amador?

Gastronomia e turismo no Brasil

junho 25, 2012 · Posted in Gastronomia, Turismo · Comment 

(artigo publicado na revista Turismo em Foco, edição de junho 2012)

por Beto Lyra

Introdução

Ainda que não seja reconhecido como um destino gastronômico óbvio, o Brasil possui uma diversidade de sabores e ingredientes que impressionam chefs, gourmands e turistas de todo o mundo. A realização da Copa e dos Jogos Olímpicos no País abre uma oportunidade única para que o mundo também conheça o potencial da nossa culinária.

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Itália e França são países reconhecidos por sua vocação gastronômica. A região da Toscana, com seus vinhos, carnes de caça, azeites extravirgens e tempero mediterrâneo, está entre os lugares mais visitados pelos amantes da boa mesa. A capital francesa, que dispensa apresentações, traz opções não só para quem tem paladar sofisticado, como os apreciadores do foie gras de carnard e das trufas, mas também aos que buscam os pequenos prazeres de um pain au chocolat, um clássico das boulageries.

Não é novidade que o deleite de uma boa refeição sempre motivou o homem na busca pelos melhores sabores. A própria história do nosso continente remete ao prazer de comer. Em 1500, quando Pedro Álvares Cabral aportou em nosso País por engano, ele liderava, na verdade, uma expedição para buscar um carregamento de especiarias em Calicute, na Índia.

Desde a era das grandes navegações, viagens e comida estão associadas. Na Europa do século 18, nasceram os restaurantes, a partir da necessidade dos viajantes restaurarem as forças para vencer as jornadas entre cidades. A partir daí, abriram-se novas perspectivas para desbravadores, comerciantes e para a história da alimentação que, nos séculos seguintes, foi marcada pela evolução tecnológica que influenciou o preparo e a variedade de refeições.

Mas foi apenas no início do século 20 que excursões motivadas pela culinária começaram a surgir, com o aparecimento dos guias de viagens, que indicavam os melhores hotéis e restaurantes de cada região. O mais antigo de que se tem notícia, o Michelin, foi criado em 1900, com o objetivo de ajudar motoristas a encontrar bons alojamentos e comerem bem enquanto estavam na França. Até hoje o guia ainda é publicado e traz o suprassumo da culinária em diversos lugares do mundo. Seu sistema de cotação de restaurantes por estrelas, adotado inicialmente em 1926, virou referência no mercado.

O advento dos guias turísticos colaborou para que a gastronomia adquirisse uma importância singular no contexto turístico e diversos países começaram a explorar esse filão, principalmente os europeus, que passaram a criar roteiros com foco nas especialidades de suas cozinhas locais. Atualmente, há cidades e destinos que são visitados, sobretudo, pelo apelo culinário e por sua tradição na cozinha, como a já citada Paris e a região de Toscana.

No entanto, não só os gourmands buscam os prazeres da mesa ao viajar. Quem visita a região de Nápoles não deixa de saborear a pizza da província italiana. Da mesma forma, quem vai a Paris costuma provar algumas das iguarias da cuisine française, como o ratatouille, o confit de canard, ou o crème brûlée. Mesmo para os que não são grandes amantes da gastronomia, a degustação de um clássico originário do lugar onde se está enriquece a vivência com a cultura local.

Embora não seja reconhecido como um destino óbvio no circuito do turismo gourmet, o Brasil possui um enorme potencial nessa área. Se, por um lado, a vastidão territorial e as numerosas diferenças geográficas impedem o País de ter um único prato típico, por outro, as dimensões continentais proporcionam uma incrível variedade de opções, além de uma riqueza de ingredientes sem igual, apreciada por chefs de todo o mundo.  A mandioca, o açaí, o cupuaçu, o acarajé, a cocada, a feijoada, a caipirinha e o churrasco são alguns dos nossos elementos mais marcantes.

Essa diversidade de sabores, exemplificada aqui de forma muito breve, nós dá o panorama do quanto ainda a culinária brasileira pode ser ressaltada dentro do contexto turístico. Temos um vasto patrimônio para estruturar roteiros interessantes, que sejam fiéis à dimensão das iguarias do País.

Vale mencionar também que, no que diz respeito à sua reputação gastronômica no mercado mundial, o Brasil tem feito alguns avanços importantes, que podem ser atribuídos, principalmente, ao talento e à criatividade dos nossos chefs de cozinha.

Recentemente, três restaurantes brasileiros conquistaram boas posições no San Pellegrino World’s Best Restaurants, organizado pela revista inglesa Restaurant. O prêmio é um dos mais respeitados do setor e conta com a participação de chefs de cozinha e críticos gastronômicos europeus. Em comum, os estabelecimentos do País que aparecem no ranking da publicação procuram valorizar em seus pratos ingredientes tipicamente brasileiros.

Mas o Brasil pode ir ainda mais longe para conquistar, de fato, um merecido lugar entre os países reconhecidos pela singularidade de sua culinária. E o momento de investir é agora. A realização da Copa do Mundo e dos Jogos Olímpicos no Brasil, em 2014 e 2016, respectivamente, abre uma chance única. Durante esses megaeventos esportivos, teremos a presença de turistas das mais diferentes partes do mundo aqui, que poderão conhecer a vastidão da mesa brasileira. Temos a matéria-prima e a oportunidade, só precisamos atuar de modo a contribuir para uma profissionalização cada vez maior do setor de alimentação fora do lar. Assim, agências e operadoras de turismo podem passar a vender o Brasil também como um centro gastronômico.

A ANR (Associação Nacional de Restaurantes) vem atuando arduamente nesse sentido. Preocupada com a capacitação dos profissionais do setor de alimentação fora do lar, a associação mantém quatro grupos de trabalho, de modo a prepará-los para atender, da melhor forma, consumidores locais e turistas.

No Grupo de Trabalho Técnico (GT-TEC), os responsáveis pelas áreas técnicas dos estabelecimentos dividem boas práticas de fabricação, normas reguladoras e padrões de fiscalização para aperfeiçoar seus negócios. Assuntos pertinentes à gestão do capital humano e à legislação trabalhista são debatidos no Grupo de Trabalho de Recursos Humanos (GT-RH). Já o Grupo de Trabalho de Comunicação (GT-COM), é pautado por discussões relacionadas ao universo do marketing, das mídias sociais e da assessoria de imprensa. Por fim, no Grupo de Trabalho de Sustentabilidade, profissionais da cadeia de food service avaliam e compartilham caminhos e soluções sustentáveis para o ramo.

Além das reuniões periódicas desses comitês, a entidade promove palestras, workshops e seminários sobre questões relevantes e tendências, com foco na profissionalização do setor, a exemplo do Encontro Nacional de Vigilâncias Sanitárias. O evento, agendado para o dia 2 de agosto de 2012, discutirá as práticas necessárias para o cumprimento das exigências vigentes para restaurantes e operadores em cada cidade.

O trabalho realizado pela organização é de suma importância para o desenvolvimento do mercado, mas não é o suficiente. Cabe também ao poder público, em suas diferentes esferas e considerando igualmente parcerias com a iniciativa privada, propor políticas públicas e de incentivo. Já é passada a hora de planejar e executar ações para, de fato, conseguirmos explorar da melhor forma todo o potencial turístico da gastronomia brasileira. Nessa aposta, todos ganham: consumidores, restaurantes e governo.

Meninos, eu vi … eu vi as Torres Gêmeas nascerem

setembro 8, 2011 · Posted in Mundo, Turismo · 40 Comments 

por Beto Lyra

A long long time ago

I can still remember how

That music used make me smile

Don McLean, 1971

Janeiro de 1972. Estava em Nova York pela primeira vez. Uma aventura iniciada no porto de Recife onde eu e meu primo Marcos embarcamos no lendário (e lerdíssimo) Frota Santos, um navio cargueiro brasileiro que levou açúcar para Nova Orleans. Descemos no berço do jazz.

Quatro dias batendo perna pela cidade e bairro francês, ouvindo jazz, e no 5º dia, um domingo, o programa especial: assistir a culto religioso, almoçar no parque (City Park) e jogar futebol contra a tripulação de um navio sul-africano. Isso mesmo, um jogo internacional. Ganhamos, não fiz gol, mas dei o passe para um dos nossos. Festa no navio brasileiro.

Dia seguinte, passagens compradas, Marcos e eu embarcamos no histórico Greyhound Bus Line, pela famosa Route 11 (não é a 66, mas é famosa também). Louisiana, Mississipi, Tennessee, Alabama, Georgia, Viginia, West Virginia, Maryland, Pennsylvania e, finalmente, New York. Dezenas de pessoas subindo e descendo do ônibus e nós dois firmes, sentados até o c… fazer bico.

Marinheiros de primeira viagem (literalmente), não reservamos hotel e assim às 3:00 da madrugada encontramos um na rua 46, o quase brasileiro Paramount. Daí em diante, foram 6 dias de bate perna pela ilha, boca aberta para o parque Central Park) , Waldorf Astoria, prédio do John Lennon, Empire State etc. Sempre ouvindo uma música que fazia o maior sucesso na época: American Pie, de Don McLean, cujos versos iniciais e finais (da canção e deste post) têm muito a ver com essa história toda.

Tirei dezenas de slides (alguém se lembra do tempo em que se tirava foto para revelação como slide?), muito vistos logo após o retorno ao Brasil e depois … nunca mais.

Até que neste ano resolvo transformar fotos de algumas viagens em digitais. As desta aventura entraram no bolo. Ao rever as imagens de NY de 40 anos atrás, a surpresa: estavam ali, já imponentes, os dois prédios que viriam a ser por algum tempo os  mais altos do mundo. Incompletos, faltando apenas alguns andares, no final de gestação. Como  disse, eu vi as Torres Gêmeas nascerem.

Agora, 10 anos depois do 11 de setembro, essas fotos me fazem lembrar a dezena de vezes em que tive de subir ao último andar de uma delas. Na primeira, para conhecer, nas demais para acompanhar, a família, amigos e comitivas de negócio que eu ajudava a coordenar nas visitas às bolsas de Chicago e NY.

E se … o nine eleven tivesse acontecido anos antes, numa das manhãs em que estava visitando-as? Deixa pra lá!

Bem, há fatos que se tornam inesquecíveis. Por exemplo:  todo o mundo sabe aonde estava ou o que fazia nos dias da morte do Kennedy, em 1963, da chegada à Lua, em 1969, ou do jogo Brasil 4 X Itália 1, em 1970. Eu me lembro bem aonde estava no 11 de setembro de 2001. Acreditem, estava em uma reunião na Câmara de Comércio Árabe-Brasileira, tratando da reabertura da Embaixada do Brasil no Iraque e de uma feira que haveria dos exportadores brasileiros, em Bagdá. Os telefones começam a tocar, alguém pede para ligar a TV a tempo de ver o 2º avião se chocar contra a Torre Norte, e o que inicialmente se supunha um acidente se transforma numa declaração de guerra. Nem é preciso dizer, o mundo mudava e nossa reunião já era! Não haveria mais embaixada alguma, nem feira de produtos. Atenções totalmente voltadas aos prédios pegando fogo.

E, assim, meninos eu vi, eu vi as torres cairem.  O final da canção do McLean era profética:

And them good old boys were drinkin’ whiskey and rye

Singin’, “this’ll be the day that I die.

this’ll be the day that I die”

Antes eu tivesse visto só nascerem.

E você também se lembra aonde estava quando as torres caíram?

Furo de notícia: o revolucionário Mercado de Crédito de Silêncio

julho 8, 2011 · Posted in Cidadania, Sustentabilidade · 8 Comments 

por Beto Lyra

Já escrevi aqui no Fio Do Bigode sobre vizinhos barulhentos. Mas, justiça seja feita, não é a vizinhança que é barulhenta, o mundo é que ficou barulhento.

Tive um professor no colegial que quando a classe pegava fogo, com conversas e alguma algazarra, gritava: “Ô irmão, não deixe o silêncio incomodar o barulho”. Homem de visão ou apenas um professor desesperado? Nunca soube definir.

O fato é que as cidades estão se adaptando ao contínuo crescimento do barulho. Como todos sabem, barulho em excesso impede o raciocínio normal das pessoas, desequilibrando-as e levando-as ao stress. Fábricas com barulho excessivo em sua produção, por exemplo, têm obrigatório o uso de equipamentos protetores (EPIs) para seus funcionários. Nos antigos pregões de bolsas, o nível de ruído era tão intenso que por inúmeras vezes o sindicato de operadores  (aqueles que ficavam gritando e ouvindo ordens de compra e venda) exigiu da Bovespa e da BM&F a adoção de medidas para a redução dos decibéis produzidos nas negociações de viva-voz.

Na área de lazer, os exemplos mais marcantes talvez sejam o de bares, que têm mesas na rua, e das baladas, que avançam pela madrugada adentro, impedindo, em muitos casos, o sono da vizinhança. E os aeroportos e rotas de aviões? Enfim, um inferno!

Mas, como diria o seu Creysson, “agora, o seus pobrema acabaram!” pois, com o lançamento ainda neste ano do “Mercado de Crédito de Silêncio”, empresas que em seu funcionamento normal produzem muito barulho poderão comprar créditos de silêncio de quem produzir ou trabalhar sem emitir qualquer ruído. Uma coisa compensa a outra. Fantástico não?

Por exemplo: digamos que você tenha uma construtora e esteja iniciando uma obra em um bairro bastante populoso e razoavelmente tranquilo até antes da chegada de sua empresa. Estamos na fase do bate-estaca, fazer o quê? Os vizinhos vão ao desespero e chegam a ficar com saudades daquelas manhãs de domingo em que um deles resolvia usar sua WAP para lavar carros e varrer com água a calçada. Em pouco tempo, xingam sua mãe enquanto você vistoria a obra, marcaram um pagode em frente de sua casa, e já querem te processar.

Mas agora, com o novo Mercado, sua empresa pode adquirir nas bolsas alguns créditos de silêncio de uma fábrica de computadores. Podem ser também de grandes escritórios de advocacia ou de contabilidade, preferencialmente no estado de Minas Gerais, afinal mineiros trabalham em silêncio. Uma das justificativas para a criação desse revolucionário mercado, é que ele incentivará o surgimento de novas atividades econômicas de baixo ou nenhum ruído, já que a receita obtida pela venda desses créditos nas bolsas se tornarão altamente atraentes.

Enfim, eis mais uma nobre contribuição do criativo, eficiente e sofisticado mercado financeiro para a solução de intrincados problemas da vida cotidiana.

Atentos como sempre a oportunidades de ganhos (da população, claro), os prefeitos e vereadores das cidades, principalmente daquelas com perfil industrial, estão em êxtase, pensando em como faturar um extra com o novo negócio. Alguns, menos criativos, pensam em instituir uma “Taxa do Silêncio”, que seria cobrada tanto do barulhento como também do silencioso. Do barulhento, porque está impondo à comunidade stress que produzirá afastamentos do trabalho, enlouquecimento de donas de casa e prejuízo aos estudos de alunos em geral. Isso gera custos de tratamentos, queda na produção e por consequencia menor arrecadação de impostos. Para os políticos, a nova taxa viria compensar tudo isso. Do silencioso, porque como este vai gerar uma renda nova, beneficiando a União com mais IR, o município também vai querer uma fatia dessa nova fonte de recursos.

Mas nada supera em criatividade a campanha política de um grupo de deputados que já pensa em realizar comícios sem microfones e sem aqueles infernais shows de pangarés country. Sacaram? Comícios silenciosos, cujo resultado (a ausência de barulho) poderá ser vendido em bolsa, no sofisticado Mercado de Crédito de Silêncio, rendendo uma grana a mais para a campanha.

Bem, você que pacientemente acompanhou esse extravagante furo noticioso do Fio Do Bigode, já deve ter sacado há muito tempo que esta bobageira escrita até aqui era apenas para ilustrar o seguinte: tal como este fictício Mercado de Crédito de Silêncio, o recém criado Mercado de Crédito de Carbono é um conto de Papai Noel, só que com justificativa econômica e muito dinheiro em marketing. Ou alguém acredita de verdade que empresas poluidoras — como as petrolíferas por exemplo –, só pelo fato de comprarem créditos de carbono de empresas que plantam árvores, diminuem ou eliminam os danos à natureza? Você acha que essas latinhas de alumínio, que em sua fabricação consomem enormes hidrelétricas, podem fazer bem ao meioambiente só porque suas fabricantes compram uns títulos em bolsa?

Se a nossa resposta for SIM a ambas as perguntas, podemos ficar olhando para a chaminé até dezembro, afinal somos crianças obedientes.

Diplomacia malcheirosa

novembro 5, 2010 · Posted in Mundo, Política · 2 Comments 

por Pedro Scuro

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Pedro Scuro é uma dessas pessoas que você acaba de conhecer mas saca na hora que tem muitas coisas em comum. Uma delas é “horas de voo”. Tem estrada rodada e muita sensibilidade para fatos e oportunidades vividas.

Neste diplomacia malcheirosa, Pedro distila humor acerca da hipocrisia dominante na política.

Aproveitem o post.

Beto Lyra

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Na Roma antiga, como em muitas cidades brasileiras hoje em dia, os cidadãos urinavam em qualquer lugar, principalmente na rua. O problema ficou tão grave que as autoridades resolveram impor aos mijões multas pesadas, deixando absolutamente indignada a opinião pública. Afinal, dizia-se, urinar é uma função natural e, restringi-la, seria uma aberração, asneira, até pecado.

O debate esquentou e acabou tomando várias sessões do senado. Numa dessas, discursava o líder da oposição a favor do “direito de urinar” quando um senador da “base do governo” levantou-se e ostensivamente perguntou agitando bem diante do nariz do orador o punho cheio de moedas: “porventura isto cheira mal”?

Milhares de anos depois, na cidade de Praga, capital da então República Socialista da Tchecoslováquia, duas ditaduras, a do Brasil e a daquele país, resolveram assinar um acordo de cooperação econômica. Até aí, nada de mais, não fossem os dois países membros de blocos políticos antagônicos, um do Ocidente e o outro comunista. Mas, enfim, era só cooperação econômica, e, conforme foi sugerido ao senador romano, dinheiro não cheira mal.

Tudo ia às mil maravilhas quando um grupo de estudantes interrompeu a sessão solene de assinatura do acordo, protestando contra a ditadura militar brasileira, que na época violava direitos civis, políticos, econômicos, prendia, torturava e assassinava quem se atravesse a desafiar o regime.

A reação dos gorilas foi imediata. Os três brasileiros que participaram do protesto tiveram seus passaportes confiscados e suas vidas passaram a ser minuciosamente relatadas à embaixada em Praga por intermédio de informantes.

Os tchecos ficaram ainda mais indignados. Tentaram se livrar dos manifestantes, mas não conseguiram, porque, de modo corajoso dois líderes sindicais brasileiros, Roberto Morena e Lyndolpho Silva, e um dirigente do PCB, Davi Capistrano, impediram que os estudantes fossem deportados e entregues diretamente à ditadura militar.

Tudo isso testemunhado por um jornalista, correspondente em Praga, crítico do protesto contra o acordo entre as duas ditaduras. Intimo dos diplomatas, desde aquela época, quarenta anos depois escreve na imprensa sindical, pois “o mundo mudou, para melhor e para pior”, e muitos ainda têm “dificuldade de se adaptar aos novos tempos” (Mauro Santayana. “Diplomacia sem medo”, Revista do Brasil, São Paulo, nº. 48. Jun. 2010).

Não ele nem os diplomatas, que continuam tão pragmáticos como nos anos da ditadura, defendendo o direito dos regimes que sistematicamente violam direitos, não só para assinar acordos, mas também de terem “suas vozes ouvidas na discussão de questões graves referentes à guerra e à paz” (Celso Amorim, Brasil pede atenção à voz dos emergentes sobre paz e guerra. Disponível em http://www.uol.com.br, 15 jun. 2010).

A justificativa é um esdrúxulo princípio de “plena igualdade política entre as nações”, incluindo as que violam direitos. Caso do Brasil, que décadas depois do protesto de Praga, continua sendo um dos piores exemplos que existem. E do Irã, o país do mundo com a história mais extensa e contínua de tortura política, pelo menos desde os anos 50, sem interrupção.

O retrógrado regime iraniano abusa da população e massacra os opositores das formas mais bárbaras e humilhantes que se possa imaginar. Sobretudo se a pessoa é acusada de praticar moharebeh, “guerra contra Deus”, eufemismo do Código Penal iraniano para todo tipo de oposição ao governo.

Nada disso, porém, incomoda os pragmáticos, hoje em dia não somente “nossos” diplomatas, mas também “nossos” líderes estudantis e sindicais. Todos acanhalhados, vivendo de seus escritórios de representação do governo.

Mas, e daí, quem se importa, pois assim como o dinheiro, a falta de moral, de consciência acerca do que é certo ou errado, parece que não cheira mal.

A dança dos técnicos

outubro 8, 2010 · Posted in Esporte · 8 Comments 

por Thais Marques



Olá meu queridos! Faz tempo que eu não apareço por aqui não é? Já estava com saudades!!!
Vamos falar do que interessa!! Futebol!

Estou impressionada com a quantidade de técnicos que estão sendo demitidos e indo para outros times! Acreditava que isso acontecia mais com os times pequenos, mas agora estamos falando de times grandes, São Paulo, Palmeiras, Cruzeiro, Inter, Grêmio, Atlético Mineiro, Santos, Fluminense, Corinthians (por causa Justa! hehe) e sem contar o Flamengo, que só este ano trocou três vezes de técnico, e nem estou contando com o interino… ufa… Esta foi a dança das cadeiras dos técnicos, e olha que o campeonato nem acabou ainda!

Falando em técnico, tenho de deixar registrado que gostei muito do Mano Menezes ter ido para seleção brasileira. Acho que agora nós temos chance de ganhar uma copa do mundo! Sou fã dele! Ele sabe fazer um time se tornar unido, sabe trabalhar com estrelas e com revelações — só ele poderá salvar o Neymar, antes que alguém quebre a perna dele. Estes dias eu recebi um e-mail com piadinhas sobre o Neymar do tipo:

  • “O Dia Mundial Sem Carro foi adiado porque o Neymar comprou um Porsche e queria dar uma voltinha hoje”
  • “Se o Neymar participar do Big Brother e for eliminado, quem sai é o Pedro Bial”
  • “Segundo Neymar, Mano Menezes não estará na lista de convocados para o próximo jogo da seleção”
  • “Neymar entrou no Burger King e pediu um Big Mac. E foi atendido”
  • “Hoje Neymar não treina! Vai dar uma palestra sobre poder de liderança para Barack Obama, Roberto Justus  e Eike Batista”

Ri muito, mas, pensando bem, é triste que isso aconteça com um jogador. Pelo menos ele ainda não saiu do país, e poderá amadurecer mais antes de se mostrar efetivamente para o mundo. E eu aposto no Mano Menezes para passar um pouco de responsabilidade para este menino!

Ah, e só mais um comentário. No jogo do Palmeiras e Avaí, vi o que nunca havia visto antes: o goleiro do Avaí fez um pênalti no Kleber, levou um cartão amarelo, pegou o pênalti e foi tirar sarro do jogador, ficou passando a bola no nariz do Kleber, foi expulso e o Palmeiras bateu outro pênalti e ai sim fez o gol… eu realmente nunca vi isto!

Bom é isso ai, até a próxima!

Onda verde com o chapéu alheio

outubro 1, 2010 · Posted in Cidadania, Sustentabilidade · 16 Comments 

ou Hipocrisia, a gente vê por aqui (parte 3)

por Beto Lyra

Alguns de nós já escrevemos sobre sustentabilidade aqui neste Fio Do Bigode.

Acredito que as pessoas razoáveis se preocupam com o assunto e participam, cada uma do seu jeito, de ações que visam à preservação do Planeta. Mas, como gosto de correr o risco de parecer chato (para muitos, isso já é quase uma certeza), volta e meia me vejo na posição contrária a algumas dessas manifestações a favor do verde e do meio ambiente. São manifestações sem lógica ou às custas dos outros. São aquelas em que quem propõe fica com os louros e quem participa é o bocó.

Um exemplo do primeiro tipo, das manifestações sem lógica, é a febre de plantio de mudas e arvorezinhas em praças públicas. Ora, se cada cidadão que reside próximo a uma praça resolver plantar nela um arbusto que seja, as praças deixariam de ser agradáveis espaços livres gramados para se transformarem em bosques.

Eu moro ao lado de uma praça. Algum tempo atrás, fui à administração regional do bairro suplicar para que dessem uma poda em uma das seringueiras que um precursor dos verdes teve a brilhante ideia de plantar no local. Aliás, plantou duas e se mudou. Típicas de fazendas, dadas as dimensões que atingem, as seringueiras hoje estão crescidas, suas raízes tomaram boa parte da superfície da praça e impedem ali o caminhar, seus galhos enormes fazem sombra densa que mata a grama e os pequenos arbustos, além de bloquear a iluminação municipal, que fica dirigida apenas aos céus.

Bem, na administração regional, a encarregada do setor afirmava que não era permitido a qualquer um plantar árvores em praças públicas, a não ser com expressa autorização. E arrematou: “Se todo o mundo resolver plantar o que quer, teremos um canteiro e não uma praça”. Isso sem se falar no gosto pessoal de cada um, que pode não ser uma beleza.

Na semana passada, um senhor aposentado morador da rua próxima à minha resolveu dar sua contribuição à natureza e plantou uma arvorezinha nessa praça, distante da seringueira, mas junto a uma meia dúzia de arbustos plantados por verdes bocós (e folgados) como ele. Fico p da vida, e daí?

O segundo tipo de “militante” verde é o que promove sua boa prática às custas dos outros. Caso do Pão de Açúcar, por exemplo. Recentemente, ao passar pelo caixa do supermercado, fui incentivado a deixar as embalagens de pasta de dente, café, ovos, entre outras, para ajudar a reciclagem. Quase caí na armadilha, mas me lembrei de que as embalagens já estavam no preço que eu pagava pelos produtos. Assim, a indústria de embalagens ganhava, a indústria de pasta de dente ganhava, o Pão de Açúcar ganhava, o Fisco ganhava e … o trouxão aqui pagava pelo que não levava.

Em um momento de rabugice ou lucidez (escolham), falei pro caixa dizer ao Sr. Diniz que, se quisesse ajudar de verdade o Planeta, pressionasse as fábricas a não venderem mais nessas embalagens. Assim, as árvores não seriam cortadas, tintas não seriam gastas, energia idem e menos custos, menos impostos. Ele riu, até agora não sei se entendeu.

Meus caros, vocês se acham imunes a essa onda verde que vende papel reciclado mais caro do que o papel comum? Que faz projetos de sustentabilidade com o nosso bolso? Bem, a onda pode virar um tsunami daqui a pouco.

É outra hipocrisia que a gente vê por aqui.

Por que Ferran Adriá matou Bernard Loiseau?

setembro 24, 2010 · Posted in Gastronomia · 14 Comments 

ou A vitória do tecnoemocional da cozinha espanhola sobre o clássico da cozinha francesa

por Ana Franco

Em 24 de fevereiro de 2003 o mundo gastronômico entrou em estado de catatonia: Bernard Loiseau, chef 3 estrelas no Guide Michelin, tirou a própria vida com um tiro do seu rifle de caça, no quarto de sua casa, após um dia normal de trabalho.
Aos 52 anos, esse filho de um caixeiro viajante e de uma dona de casa nascido em Auvergne na região da Borgonha tinha atingido o ápice da carreira de um cozinheiro: cotação máxima no mais cultuado guia do planeta e 19/20 pontos no Gault-Millau (o maior e mais prestigiado concorrente do Guide Michelin). Seu estabelecimento, o La Côte d’Or, após anos de intermináveis e minuciosas reformas estava exatamente como ele imaginara. Tinha três filhos e seu casamento ia muito bem, obrigado. O que teria levado então esse homem carismático, queridinho da mídia e amado por seus pares e empregados, à atitude tão drástica?

Na época discutiu-se muito sobre a crueldade dos guias em erguer e destruir profissionais com a mesma facilidade com que se escolhe comer um hambúrguer hoje e uma pizza amanhã. Falou-se também da falta de clareza nos critérios de avaliação e na nuvem de mistério propositalmente criada para envolver os inspetores Michelin. Mas a maioria dos dedos foram apontados para François Simon, renomado crítico de restaurantes do periódico francês Le Figaro. Simon especulara em um artigo publicado em janeiro daquele ano que o La Côte d’Or perderia pontos no Gault-Millau e seria também rebaixado no Michelin. De fato Loiseau perdeu dois pontos na sua cotação, indo de 19 para 17/20 (o mesmo ocorreu com Paul Bocuse), mas as estrelas Michelin seriam mantidas, assegurou-lhe o diretor da entidade. Em 7 de fevereiro Simon dá mais uma estocada: a manutenção das estrelas era temporária; Bernard iria fatalmente perdê-las pois sua cozinha não era mais relevante.

A pergunta que ninguém conseguia responder era: que ser humano normal se abate tanto com uma crítica a ponto de tirar a própria vida?

A resposta pode ser encontrada no ótimo livro “O Perfeccionista”, do jornalista e escritor Rudolph Chelminski. Como o título sugere, Bernard era um perfeccionista. Mas não só isso. Era um perfeccionista bipolar e desde muito cedo mostrava traços megalômanos em sua personalidade.

O que matou Bernard Loiseau não foi a possibilidade de perder suas tão amadas estrelas, foi a incapacidade de reinventar-se, de acompanhar as mudanças que aconteciam nas mesas do mundo. A nouvelle cuisine há muito já não era nouvelle. Bastiões da gastronomia francesa já começavam a curvar-se diante de novas técnicas (como as japonesas) e do uso de ingredientes exóticos.

Os espanhóis já faziam algum barulho com sua cozinha tecnoemocional (Adriá repudia o termo “cozinha molecular”), anunciando a próxima onda gourmet. E Bernard, que havia pulado muitos degraus na escada que leva ao topo, não sabia como reagir, como adaptar-se aos tempos modernos.

O livro de Chelminski não se prende apenas à biografia de Loiseau (de quem era bastante próximo): faz também uma reconstrução precisa da genealogia da cozinha francesa, desvenda um pouco do mistério por trás dos guias e ensina aos não-franceses o real significado e importância de ser chef de cozinha no país berço da Alta Gastronomia.

Recomendo enfaticamente sua leitura que além de deliciosa, propõe vários debates. Entre os que mais martelam na minha cabeça, fica a questão da importância da crítica gastronômica especializada num tempo em que o anonimato da profissão parece irrelevante – qualquer dono de boteco reconhece de longe a careca do Josimar Melo – e que todo  blogueiro é um crítico por natureza.

Quando quer jantar num bom restaurante você procura na Vejinha? No Guia 4 Rodas? Ou telefona para aquele seu amigo que entende tudo de gastronomia?
http://www.bernard-loiseau.com/

Ana Franco
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Os olhos verdes e o foco do leitor

setembro 17, 2010 · Posted in Artes, Mundo · 28 Comments 

por Beto Lyra

Em meados dos anos 80, fiquei fascinado por uma capa da revista National Geographic. Tinha a foto de uma menina lindíssima com duas luas cheias verdes nos olhos e em trajes da região do oriente médio. Nunca mais esqueci sua expressão e volta e meia me lembrava daqueles olhos e rosto de beleza simples.

Dezessete anos mais tarde, logo depois da invasão norte-americana ao Afeganistão, após o atentado de 11 de setembro, a mesma revista publicava matéria sobre o novo alvo militar dos americanos. Em algum ponto do texto, informava que aquela menina de olhos verdes estava viva, para alegria de legião de leitores enfeitiçados por aquela capa de anos atrás. Ufa, eu não estava só!

Localizada, e fotografada, a então mulher afegã lembrava sua antiga beleza, mas mantinha intacto o olhar, agora triste porém ainda cativante. Os olhos dizem tudo, não é?

Mas por que esta história hoje? Porque exatamente hoje o site da CNN traz matéria sobre o fotógrafo Steve McCurry, felizardo e premiado ao clicar a imagem mágica da menina em 1985, que conta como fez a foto. Estava no campo de refugiados afegãos, na fronteira com Paquistão, pouco antes da ofensiva dos soviéticos na guerra (perdida pelo império) no Afeganistão em 1985.

Bem, e o que isso tem a ver com o nosso Fio Do Bigode?

Tudo! O FDB ficou fora do ar, aparentemente esquecido. Aparentemente, apenas! Pois não é que ao longo destas quase quatro semanas em que nosso antigo hospedeiro, o IG, perdeu arquivos de centenas de blogs, suspendeu serviços, esbanjou lentidão e desrespeito, e por fim matou seu ótimo produto “Blig”, recebemos dezenas de manifestações de leitores do Fio Do Bigode, saudosos, inconformados com a ausência e ávidos por posts novos deste elenco de 10 bloguistas, que fazem a festa e a força deste blog. Enfim, permaneceram de olho no FDB.

Eu mesmo fiquei à procura de uns novos olhos verdes que me fizessem novamente sonhar em rever todos os fiéis (e loucos) leitores do Fio Do Bigode.

E então voltamos. Espero que os leitores tenham foco e olhos generosos para a nova casa. Não é para ser mais feia ou mais bonita que a anterior. É apenas para ser a nossa nova casa.

Sejam todos bem-vindos!

Plano B é pessimismo?

agosto 14, 2010 · Posted in Humor · Comment 

por Passarinho

Passarinho é um desses sujeitos raros de encontrar hoje em dia. Culto, educado e cheio de boas idéias. Gosta de inventar um projeto novo para mergulhar a fazer, talvez em razão do DNA de artista que carrega de seu avô Danilo Di Prete. Adora trabalhar em equipe, de ajudar e ser ajudado.

Trabalhamos juntos anos atrás e ele sempre estava bolando algum projeto e defendendo suas idéias com total paixão. Não sei se na época já tinha plano B para as empreitadas em que se envolvia, mas costumava se sair bem.

Agora vem colaborar no Fio Do Bigode e fico torcendo para que ele fique sendo o nosso Plano A.

Vamos nessa!

Beto Lyra


Imagine um navio zarpando. Alguém percebe e alerta: ei, não tem botes salva-vidas.  Outro, já no barco, grita: deixa de ser pessimista, que coisa, você só pensa negativo, “vãobora”, nada vai acontecer, tenha pensamento positivo!

Alguém acha isso razoável?

Pois é assim que me sinto quando vejo a “ditadura do pensamento positivo”, termo cunhado por Barbara Ehrenreich, que tem feito palestras e escrito livros a respeito.

Esta ditadura continua. Difícil chegar em uma reunião e dizer “e se não der certo o que a gente faz”. Corre-se o mesmo risco do barco sem salva-vidas e de você ser acusado de pessimista e agourento. Se der errado, então, advinha de quem será a culpa. Não será do mau aproveitamento do orçamento, das decisões erradas que foram tomadas. Será seu, aquele que não pensou direito.

Aliás, já vi gente quebrando a empresa e sendo acusado de “não ter sonhado grande o suficiente”. Não bastou ter ido à bancarrota, ainda foi acusado de não ter nem sonhado direito. É um pouco cruel.

Já vi um monte de gente acreditando em papai Noel, com ideias malucas e com a certeza absoluta que tudo ia dar certo, apesar de tudo indicar o contrário, apenas porque tinha um excelente pensamento positivo. Daí dá errado e não toca mais no assunto ou se culpa por não ter sonhado o suficiente. Vai errar de novo.

Não tenho dúvidas do poder do pensamento positivo. Ele produz hormônios do bem, nos torna poderosos, crentes de nossas grandes possibilidades, nos motiva e impulsiona. Também não tenho dúvidas da força gravitacional do derrotismo. Para baixo se vai naturalmente, até quando se trata de pensamento. Para cima sempre dá mais trabalho.

Mas não pode ser do tipo “segredo”. Aquele que diz que, para dar certo, precisa imaginar a cor, o cheiro, o sabor, a textura, tocar mentalmente, entrar pela imaginação, fazer mural de desejos com fotos e textos e não perder este pique de jeito nenhum. E, para dar errado basta um simples “será?”, e uma grande onda derrotista acaba com o melhor dos sonhos.

Eu ainda acho que o melhor planejamento é aquele feito pensando “e se der errado”. Depois, a gente corre para o abraço e faz de tudo para dar certo.

Um bom plano B é essencial em muitas situações da vida. Até no casamento. Calma, não me refiro a uma “esposa B”. Falo dos contratos pré-nupciais, separação de bens e outros quesitos bem ao estilo de um plano B.

Para tudo que estiver sujeito a alterações sem prévio aviso e principalmente se não depender da gente, é preciso ter um ótimo plano B na manga. Então sejamos muito, muito otimistas de que não vamos precisar usá-lo. E sejamos mais otimistas ainda, ficando tranquilos, pois afinal, temos um ótimo plano B, se for o caso.

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